Aprendizado ao invés de educação

agosto 27, 2015 § 3 Comentários

Joi Ito é o diretor do MIT MediaLab, um dos lugares mais inovadores do mundo, que fica em uma das instituições de educação formal mais respeitadas da atualidade (o MIT) e mesmo assim tem como crença pessoal a certeza de que as pessoas deveriam se preocupar mais em aprender e menos em “receber” educação. Em uma palestra TED no ano passado declarou: “educação é o que os outros fazem para você, aprendizado é o que você faz para si mesmo”.

Na palestra, Ito conta como formou um grupo chamado Safecast, que mede a quantidade de radiação nuclear presente no mundo. Frisa que são todos amadores e que ainda assim conseguiram montar seus próprios contadores Geiger, a um custo mais barato e disponibilizar seus dados via site e aplicativo para quem quiser. Marotamente pergunta: “como é que um bando de amadores que realmente não sabiam o que estavam fazendo, de alguma forma conseguiu se unir e fazer o que as ONGs e o governo eram completamente incapazes de fazer?”. Ito atribui à conectividade permitida pela internet e pela disposição em fazer mais e planejar menos. Cunhou até um termo para representar a atitude, “now-ism” (algo como “agoraismo” – que seria o antônimo de futurismo).

Recomendo assistirem ao vídeo (disponibilizo o link AQUI), mas gostaria de focar e abranger a “bola levantada” pelo Ito em relação à aprendizado X educação. Como compartilhamos essa mesma crença, sinto-me compelido a fazer alguns esclarecimentos. De certa forma, esse sentimento expresso pelo diretor do MediaLab coaduna com o chamado feito por parte das pessoas envolvidas com educação para que a sociedade dê mais atenção ao autoaprendizado e tire proveito das possibilidades proporcionadas pela conectividade. Não é, de forma alguma, uma campanha para acabar com a educação formal. Mas, é preciso ter consciência de que o custo de uma educação formal se tornou tão escandalosamente alto que já não faz sentido depender exclusivamente dos sistemas formais de educação. Quando abordo a questão do custo, não me refiro somente à educação particular, o nosso sistema público universal de educação gasta boa parte dos orçamentos federal, estaduais e municipais.

Como tornar o brasileiro mais preparado para atuar no mundo contemporâneo onde a inovação, a criatividade e a geração de conhecimento fazem a diferença? Para mim, a resposta passa por cada brasileiro tomar em suas mãos as rédeas do seu próprio aprendizado. Não pretendo abordar neste post como estimular o autoaprendizado, já o fiz em uma sequência de posts que publiquei em maio deste ano e em meu livro, Conexão do Conhecimento, lançado este mês (quem quiser disponibilizo o link para a compra na seção PUBLICAÇÕES), mas gostaria de reforçar a importância dessa prática com 3 princípios levantados pelo Joi Ito em seu conceito de “now-ism” e relacioná-los ao aprendizado.

1) Implemente ou Morra (Deploy or Die): pessoalmente considero que essas afirmações excessivamente incisivas geram mais angústia do que reflexão, mas compreendo a estratégia. O que Ito pretende com este mote é instigar a “arregaçar as mangas” e produzir: coisas, conhecimento, inovações. O que importa é colocar à disposição de todos o seu trabalho. Em suas palavras, “deveríamos estar nós mesmos lá fora, construindo,e não dependendo que grandes instituições façam isto por nós” (no original, para não impor meu entendimento, “we should be getting out there ourselves and not depending on large institutions to do it for us”).

Em aprendizagem significa compartilhar suas ideias e conhecimentos. Para aprender bem nunca é demais 3 coisas, planejamento (saber o que você quer aprender), resiliência (se manter no caminho, mesmo na adversidade) e avaliação (um feedback em relação ao que você sabe é fundamental para que se possa checar a eficácia do seu aprendizado). A internet pode ajudar muito nessa história, atuando como uma “ferramenta” de colaboração e amplificando o aprendizado, mesmo porque a melhor maneira de aprender não está mais no isolamento – creio que nem os monges acreditam mais nisto.

2) Puxe ao invés de Empurrar (Pull over Push): a ideia aqui é “puxar” os recursos que você precisa da rede – no sentido amplo, pode ser tanto a internet, quanto a sua rede de contato pessoal – ao invés de concentrar e controlar em algum “centro” – também em um sentido amplo, pode ser tanto um centro acadêmico quanto uma pasta no seu computador.

No contexto da aprendizagem, significa o fim do conceito de “sabichão”, aquelas pessoas extremamente especialistas, que conhecem tudo sobre sua matéria porque se condicionaram a “estocar” informações. Antes da internet havia espaço para esse perfil, agora basta uma pesquisa no Google para levantar a maioria das informações necessárias sobre qualquer assunto. Saber procurar, achar e entender como as informações necessárias para você se relacionam é mais eficiente do que estocá-la.

3) Compasso ao invés de Mapa (Compass over Maps): aqui confesso que há uma divergência entre meu entendimento e do Ito. Vou abordar os dois. Para o Ito, planejamento é superestimado, diz: “o custo de planejar ou mapear algo está se tornando muito caro e muitas vezes não é muito preciso ou útil” (no original, pelo mesmo motivo exposto anteriormente, “the cost of writing a plan or mapping something is getting so expensive, and it’s not very accurate or useful”). Vejo de outro modo, planejar e mapear são importantes para definir objetivos (o que se quer alcança) e traçar parâmetros (por onde começar, como saber se estou fazendo certo, o que preciso para colocar em prática). Concordamos, porém, na necessidade da flexibilidade para as correções necessárias quando estivermos fazendo o que queremos (ou precisamos) fazer. Esse é o real significado do “compass over maps” e por isso, mesmo discordando do argumento, creio que é um princípio válido.

Em aprendizado, similarmente, é preciso colocar a “cara a tapa” e mudar de rumo se o seu método de aprendizagem não estiver dando resultado. Mas para saber isto, é preciso medir (e se planejar).

Acredito no “poder” do aprendizado e acredito que ninguém está “limitado” ao seu expertise atual. Um advogado pode (e deve) saber como programar um site ou um aplicativo se isto for beneficiá-lo de alguma forma e um programador pode (e deve) conhecer legislação se ela interferir (e certamente interfere) de algum modo na sua vida. A verdade é que, advogados e programadores, professores e alunos, adultos e crianças, têm mais em comum do que se pode perceber em um primeiro momento: são todos aprendizes. Por isso “aprender a aprender” é tão importante e praticar o autoaprendizado é fundamental para quem quer realmente fazer a diferença neste louco século XXI.

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