O futuro da educação

janeiro 26, 2016 § Deixe um comentário

Não são poucos os que afirmam que “as perguntas são mais importantes que as respostas” – uma rápida pesquisa pelo Google aponta “aproximadamente” 18.700.000 resultados – somente para a frase em português. Seguindo essa premissa a Bright, publicação online baseada na plataforma Medium e que recebeu aporte financeiro de ninguém menos que o fundador da Microsoft (por meio da The Bill & Melinda Gates Foundation), fez a seguinte pergunta a alguns educadores participantes do TED-Ed Innovative Educators: “como a escola vai estar em 2050?”.  Como para a maioria das pessoas, conscientemente ou não, a escola está diretamente ligada à educação, a pergunta pode ser entendida como uma previsão (ou “jogo de adivinhação”) a ser checada daqui a 34 anos a respeito do próprio futuro da educação.

Como de se esperar, as respostas variam de “não vai mudar muito” até “será completamente diferente” (quem quiser pode checar AQUI). O interessante, para mim, não são as respostas em si, mas o que se pode subentender por elas. Dos que responderam que alguma mudança virá, o fazem sob 3 premissas básicas: uso maciço da tecnologia, criatividade como habilidade profissional desejada e uso prático do conhecimento como forma de aprendizagem.

Scott Teplin, um dos colaboradores da Bright, captou bem as 3 premissas em algumas ilustrações que replico abaixo. A sala de aula pode se transformar no próprio colégio.

Pátio do recreio

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Illustration by Scott Teplin

Cafeteria da escola

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Illustration by Scott Teplin

Exercícios de “futurologia” à parte, o que liga estas 3 premissas (que na minha opinião são válidas) é a capacidade de se propor desafios para o aprendiz. Uma das formas de estimular desafios é utilizando os campos de conhecimento formadores do acrônimo em inglês STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Uma das razões do enfoque nestes campos é a eficiência deles em estimular a imaginação e o engajamento pela prática.

É claro que o simples fato de disponibilizar as disciplinas não irá gerar desafio algum por si só. O que faz diferença é a forma como as disciplinas são implementadas. A organização MESA USA (Mathematics, Engineering, Science Achievement), que desde 1970 advoga em favor das disciplinas STEM e já ajudou, através de seus programas, milhares de estudantes a se transformarem em cientistas, engenheiros e matemáticos, investiu mais de um ano de trabalho e de recursos financeiros desenvolvendo “desafios” para estimular o aprendizado em STEM e compartilhou 5 estratégias que podem ser aplicadas para quem quer construir os seus próprios desafios de aprendizado.

1) Faça algo pessoal: escolha temas que possam se relacionar pessoalmente com você (ou com os aprendizes). A MESA escolheu, por exemplo, o desenvolvimento de próteses de baixo custo, porque conecta a engenharia a uma questão relevante. Segundo David Coronado, presidente da organização, “vários estudantes veem de campo de refugiados ou de países com pouco acesso à serviço médico e medicamentos”. Como possuem histórias pessoais envolvendo o tema, percebem imediatamente o benefício que seu trabalho pode gerar, desta forma se conectam a ele com mais facilidade.

2) Procure conselhos e opiniões: a organização se consultou com especialistas quando estava desenvolvendo seus desafios para poder construí-los de maneira autêntica. Para o desafio das próteses, buscaram conselhos da associação de veteranos de guerra e de médicos que trabalham com amputados. Desta forma, puderam direcionar os estudantes a implementarem os mesmos testes que são implementados por profissionais que desenvolvem próteses.

3) Faça pequeno: quando se desenvolve projetos com objetivos educacionais, é preciso lidar com situações pouco comuns às instituições de ensino, como por exemplo, estocar os produtos criados. A solução encontrada pela MESA foi a construção de próteses em tamanhos reduzidos, mas que pudessem ser fabricadas em tamanho normal se fossem entrar em uma linha de produção de verdade.

4) Faça barato: definir um limite das despesas força quem desenvolve um “produto” a ser criativo para reutilizar e “reimaginar” materiais. No caso dos protótipos, os estudantes foram orientados a usar o lixo reciclável – metais, plásticos e vidros são a matéria-prima dos protótipos, não há motivo para desperdiçar o que outros não querem mais. Modelagem e protótipos são usados para comunicar o que o “inventor” está pensando, isto está relacionado à experimentação, à construção e a “brincar” com as ideias e não com o uso do “material certo”.

5) Pense “low-tech”: apesar de ser um dos componentes do STEM, a organização deliberadamente evitou soluções de tecnologia em seu desafio de próteses. “Nós não queremos passar seis meses ensinando robótica aos alunos “, afirmou Coronado. Em vez disso, a ênfase foi no processo de design thinking.

É preciso engenhosidade, vontade em construir, aceitação da falha e certeza de que implementar o conhecimento é tentar novamente. Estas atitudes estão intimamente ligadas ao sucesso de quem quer implementar a sua propriedade intelectual. Se conseguirmos estimulá-las via nosso sistema educacional, não importa como ele seja em 2050, vai ter cumprido o papel que se espera em uma sociedade baseada no conhecimento.

 

STEM e a gente

maio 28, 2015 § Deixe um comentário

STEM é o acrônimo para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (em inglês, science, technology, engineering e mathematic). O termo é utilizado para nomear políticas educacionais e curriculares feitas especificamente para as áreas. O interesse vem crescendo em diversos países pelo fato da maioria das projeções para criação de vagas de emprego no mundo, sinalizarem um aumento para os 4 campos. Não por acaso, são os campos de trabalho que mais geram inovação. Vale também uma explicação específica do termo “engenharia”. No Brasil, geralmente o relacionamos à engenharia civil, mas ele é mais amplo abarcando cerca de 30 tipos de engenharia, incluindo da computação, ambiental, elétrica, etc. O que une todas é o fato de serem ciências exatas.

stem jobs graph

Outro ponto importante é o fato do pensamento criativo ser uma das habilidades básicas destas profissões, portanto um currículo baseado nas 4 áreas estimula o seu desenvolvimento e impacta o sistema educacional como um todo. Alguns consideram o currículo baseado em STEM o benefício mais importante que uma “escola moderna” pode oferecer aos seus alunos.

Mas, o que isso tem a ver com a gente? A lei das diretrizes e bases da educação (lei 9394 de 1996) define que os estabelecimentos de ensino são responsáveis por “elaborar e executar sua proposta pedagógica”. Isto quer dizer que é incumbência de cada escola e instituição de ensino no Brasil definir o seu currículo, metodologia e método de ensino. Liberdade total, no papel. Há um porém, devem necessariamente respeitar “as normas comuns e as do seu sistema de ensino” que trocando em miúdos quer dizer que devem seguir as orientações dadas pela União, Estados e Municípios, o que muitas vezes limita a “liberdade” da escola. De qualquer maneira ainda há muito espaço para trabalhar, principalmente nos quesitos metodologia e método de ensino.

Nos EUA há uma linha orçamentária federal destinada a estimular a implementação de um currículo baseado em STEM nas escolas públicas e algumas delas já encorajam seus alunos a construírem robôs e ferramentas, usando tecnologias como impressoras 3D. Aqui no Brasil há iniciativas voltadas à formação dos professores das áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática para que possam preparar alunos de escolas públicas para a faculdade e uma carreira mais próspera, como a promovida pela organização STEM Brasil.

O que une as duas iniciativas (americana e brasileira)? A metodologia baseada em projetos (project-based learning) que comentei alguns posts atrás. Fica a dica para nossas escolas se inteirarem mais a respeito da obra do John Dewey.

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