O Rock e as Revoluções Culturais Massificadas

setembro 23, 2013 § Deixe um comentário

Essas semanas de Rock in Rio me trouxeram um pensamento recorrente, tal qual aquelas idéias fixas que colam na mente e não se dissipam facilmente. A tal idéia fixa girava em torno da minha percepção de que desde os anos 90 não se tem um grande movimento cultural capitaneado pelo rock, no máximo releituras, geralmente pálidas se comparadas com os originais.

Indo atrás do motivo, caí invariavelmente na grande “patrocinadora” das “revoluções culturais” da época de ouro do Rock and Roll, a indústria fonográfica. Como todos sabemos, a internet reduziu o faturamento da indústria da música a níveis assustadoramente baixos, que levam muitos a decretarem a sua quase falência. O efeito colateral é o desvio do foco da procura do talento (que mantinha a “roda” da indústria funcionando) para o foco da sobrevivência. Para entender o motivo disso, é preciso analisar sociologicamente a história do rock e do seu uso pela indústria fonográfica.

Desde mais ou menos a metade da década de 1950, quando Elvis Presley e os primeiro roqueiros apareceram, a indústria do “disco” abraçou o movimento e ajudou a popularizá-lo baseado em disseminação audiovisual, no início pela dupla rádio-cinema e depois pela consagração do videoclipe. Para fazer a “conta” fechar, tinham que ir atrás dos talentos musicais do gênero e investir em suas carreira, obviamente com várias bolas foras nessa seara porque a procura de talento é meio que baseada em percepção e aposta. Mas o fato é que quando encontrado, o talento se pagava e pagava as apostas mal feitas. Não é por acaso que o rock se reinventava a cada 5 anos em média. Do auge do Elvis em 1957 para o primeiro disco dos Beatles em 1962 se passaram só 5 anos e musicalmente a diferença parecia de décadas. O mesmo se repetiu dos Beatles para o Jimmy Hendrix e The Doors em 1967, deles para o rock pesado do Led Zepellin e o de protesto do Bruce Springsteen em 1972 ou dos últimos para o punk de 1977. Você pode ir adicionando 5 anos de cada vez até chegar ao grunge em 1991 e perceber que o padrão se repetiu com o new age, com o heavy metal e com o pop-rock. O que juntava tudo isso, era a indústria fonográfica, que ajudava a criar e massificar essas revoluções culturais.

Na década de 90 (a última considerada relevante) aconteceu a popularização da internet. O impacto da internet na indústria fonográfica foi em relação à dinâmica da massificação que mantinha o dinheiro entrando. A partir do momento em que a internet individualizou as experiências culturais e logo em seguida estimulou o compartilhamento dessa individualização, os movimentos culturais de massa morreram e com ele a renovação do Rock and Roll.

Em termos musicais, hoje basta vontade e não necessariamente talento. Em tese, qualquer um que aprenda os 3 acordes básicos do rock, grave um video e compartilhe nas redes sociais, vai ganhar as sua 50 curtidas dos amigos. Alguns podem até ascender um pouco mais e iniciar uma carreira baseada em performance ao vivo, mas não vão mais repetir o tipo de alcance que os Beatles ou Rolling Stones tiveram, por exemplo. De agora em diante, os artistas relevantes do rock continuarão a serem os mesmos. São eles que continuarão a encher os estádios e festivais até morrerem. Quando isto acontecer, o rock provavelmente vai tomar o mesmo rumo da música clássica e da ópera e continuar a ser apreciado como prova da criatividade humana, mas com pouca renovação, a não ser pelas releituras de praxe.

Este é o preço a se pagar pela “morte” de uma indústria baseada em cultura. Para quem reclama de que só existe porcaria hoje tocando nas rádios, lembre-se que é a indústria fonográfica tentando tirar a cabeça de fora da água e focando ainda no público que não entrou na revolução de compartilhamento individual. Quem sabe os funks e sertanejos da vida não ajudem um dia a trazer o nosso bom e velho Rock and Roll de volta? Torço para que os sistemas de aluguel de streaming ou download legal de música deem certo. Só assim poderemos manter entrando o dinheiro necessário para a retomada da busca do talento pela indústria fonográfica.

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Momentos simbólicos não voltam

setembro 19, 2013 § 1 comentário

Sei que o Judiciário não é representante do povo, seus membros são escolhidos por concurso ou indicação do Executivo com validação do Legislativo. Sei também que representam o Estado de Direito, a garantia do cumprimento igualitário das leis por todos. Sei principalmente, que o Sr. Celso de Mello estava em sua prerrogativa legal ao escolher em seu voto a aceitação dos embargos infringentes. Mas, também sei que a História, com H maiúsculo, é feita por momentos simbólicos e a não aceitação desses embargos e o cumprimento imediato da sentença dada aos condenados do mensalão era um momento simbólico ao país, que foi perdido.

Apesar do Judiciário não “dever explicações” ao povo, vivemos em uma democracia, em que é o povo o responsável em escolher os rumos da administração pública e da legislação que o Judiciário deve fiscalizar e jurisdicionar. Se ele, o povo, em algum momento perde sua fé no Judiciário, está dado o primeiro passo para a aceitação de soluções mais autocráticas. E o brasileiro, na minha opinião, adora flertar com o autoritarismo. Temos a “romântica” admiração pelas pessoas “fortes”, que mandam prender e bater. “Ele tem o pulso forte”, diziam os mais velhos.

Minha decepção foi pelo entendimento de que o devido processo legal é algo inesgotável e que se há dinheiro à disposição de um réu, a protelação pode ser feita indefinidamente. Devido processo legal, em minha opinião, é dar todas as condições de defesa, levando em conta a inocência presumida e o rito necessário, inclusive do tempo. Rito este, novamente em minha opinião, que foi devidamente cumprido nestes 8 anos de processo.

Meu medo, acima de qualquer outro, é a banalização do Estado Democrático de Direito, quando o “Direito” não é mais reconhecido pelo “Democrático”. Espero, de verdade, que estejamos realmente mais evoluídos em nossas instituições, como adoram pregar pelos jornais os intelectuais nacionais, porque sei que a história costuma se repetir quando não é lembrada (ou quando não se tem o que ser lembrado). Momentos simbólicos não voltam.

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