Eu acho que…

maio 4, 2016 § Deixe um comentário

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Em um artigo publicado em 2014, Microaggression and Moral Cultures, os acadêmicos Bradley Campbell e Jason Manning identificam uma mudança na postura de algumas universidades, que ao invés de “celebrarem” a liberdade de expressão passaram a defender uma espécie de “cultura da vitimização”, pressupondo que as pessoas são inerentemente frágeis e, portanto, deve-se evitar falar algo que possa ofendê-las. Essa postura foi fortalecida pelo que ficou conhecido como “politicamente correto”.

O “politicamente correto” também incentivou a popularização da frase “eu acho que”, muito comum aos ouvidos “mais atentos”. Assim como frases similares em outras línguas, como a inglesa “I feel like”, “eu acho que” traz um paradoxo embutido. Ao “mascarar” uma afirmação como uma “humilde opinião”, ela atua como “coringa” bloqueando argumentações contrárias, porque traz implícito que o emissor não tem tanta experiência (pois apenas “acha”) ao mesmo tempo que reforça opiniões semelhantes. Atua como um “escudo” imediato de quem a usa.

Em tempos de polarização, é entendível que as pessoas queiram se resguardar, mas uma das grandes conquistas da era contemporânea (pós revolução francesa), foi a habilidade de argumentar sem resultar (na maioria das vezes) em violência física. É a premissa do “conflito civilizado”, embutido na democracia moderna. Ao mascarar o conflito, “eu acho que” reprime debates e “alimenta” todo tipo de “achismo”, desde como organizar uma educação pública de qualidade até quem apoiar como candidato à presidência. Atua como uma espécie de coerção da esfera pública e privada.  A verdade é que “achismo” não gera proposta.

Em seu artigo publicado em 1946, “Politics and the English Language”, o escritor George Orwell escreveu a famosa frase “se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também corrompe o pensamento”. No texto, Orwell se preocupa com o efeito da linguagem em nossa habilidade de pensar. Não se trata somente em ter todos os pontos claramente definidos, mas sim em ter, “para início de conversa”, um ponto que valha a pena ser proposto. Isto demanda formular ideias equipadas com o melhor “arsenal” possível em termos de ordem, alcance e precisão. Ao usar “eu acho que”, todo este arsenal é “jogado fora”.

Orwell propunha que as pessoas, além de explicarem claramente o que queriam dizer, tivessem algo válido a ser compartilhado. Ele deixou duas dicas imbatíveis neste quesito:

1) tenha algo significativo para dizer – antes de dizer;

2) quanto mais clara for sua linguagem, melhor será o seu pensamento.

Usar “eu acho que”, diminui a substância do que uma pessoa quer falar. Ao imbuir o pensamento de subjetivismo, e tornar o subjetivismo um fim em si mesmo, menos expressivo o próprio pensamento se torna. Se alguém quiser realmente criar uma “estrutura” de pensamento crítico e criativo para si mesmo e desenvolver a habilidade de propor soluções aos problemas que aparecem no seu cotidiano, deve cultivar a arte da conversação. O primeiro passo é abandonar “vícios” verbais que possam influenciar maus hábitos.

Uma sugestão: na próxima vez em que participar de uma reunião de trabalho, discussão em sala de aula ou jantar em família, substitua “eu acho que” por “eu penso que” ou “eu acredito que” e veja a reação dos demais às suas ideias. Não devemos “achar”, devemos argumentar racionalmente, sentir profundamente e assumir a completa responsabilidade da nossa interação com o restante do mundo.

Diferentes níveis de atenção para diferentes tarefas

novembro 6, 2015 § Deixe um comentário

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No dia a dia temos a tendência de entender os estados de atenção de maneira direta: “estamos prestando atenção” ou “não estamos”. O primeiro caso é encarado como bom, o segundo não. A verdade é que as coisas são um pouco mais complicadas do que isto.

Um estudo publicado na revista “Nature” há alguns meses sugere que pessoas criativas (retomando o assunto do post anterior) têm maiores ligações entre duas áreas do cérebro que são normalmente difíceis de conciliar: a rede associada com foco e controle da atenção e a rede associada com a imaginação e espontaneidade.

Um dos autores do estudo, Scott Barry Kaufman, diz que “as pessoas criativas não são caracterizadas por qualquer um desses estados por si só”. Segundo ele, a capacidade de adaptação e a capacidade de misturar estados de atenção e desatenção (aparentemente incompatíveis de coexistir), dependendo da tarefa, estimula mais a “conexão de ideias” do que simplesmente dedicar “toda a atenção”, como costumamos acreditar. Brinca dizendo que “pessoas criativas têm mentes confusas”.

Isto me faz recordar daquelas “horas” – que costumo chamar de “momento eureka” – em que se está assistindo televisão, lendo um livro ou tomando banho e aparece aquele “clique”, aquela “conexão” que estava faltando para resolver um determinado problema. Reforçando a ideia, também já comentada no post anterior, é a livre associação que permite que o cérebro faça conexões mais variadas. De qualquer forma, creio que criatividade e flexibilidade andam juntas, uma vez que ao diversificarmos nossas experiências, nos “empurramos” para fora do nosso padrão de pensamento “normal”.

P.S: A imagem “provocadora” que abre o texto é de um artista australiano chamado Tony Albert. Quem se interessar, pode encontrar mais trabalhos dele AQUI.

O valor da engenhosidade

julho 23, 2015 § Deixe um comentário

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Engenhosidade é um substantivo feminino que significa basicamente ter a capacidade de encontrar maneiras rápidas e inteligentes para superar as dificuldades. Com todas as facilidades da vida moderna (do supermercado ao Google), esta é uma habilidade em que é preciso ter insistência para desenvolver – mesmo porque, em um primeiro momento parece (apenas parece) desnecessária para nossa sobrevivência.

Em plena “era da conveniência”, para estimular a sua engenhosidade é preciso estar disposto a “receber de braços abertos” a inconveniência. Apenas desafiando nossas próprias ideias (e a dos outros), abraçando obstáculos e conflitos e reconhecendo o valor do desconforto, poderemos estimular a capacidade de “pensar diferente” e escolher a criatividade ao invés do conforto.

Uma das melhores maneiras para estimular a engenhosidade é colocar a “mão na massa” e fazer algo que nunca fez. Por exemplo, quem não tem intimidade com a cozinha deveria se voluntariar a preparar o jantar da família. Algumas instituições educacionais já perceberam a importância de estimular esta habilidade desde cedo e têm pensado em soluções para colocar o assunto em pauta. Um exemplo é o Kitchen Garden Program, que em mais de 800 escolas na Austrália já colocou 100 mil estudantes para “sujar as mãos” e aprender a cultivar, preparar e compartilhar comida “fresca e saudável”. Para um “jardineiro inconstante” como eu (que digam minhas plantas) é um exemplo e tanto.

Um dos grandes aliados da engenhosidade pode ser resumido em uma palavrinha inglesa chamada “grit” (com toda sinceridade não sei como traduzi-la em um similar português), que como substantivo assume o significado de coragem, perseverança ou força de caráter. Desenvolver esta característica nos deixa conscientes de que vamos enfrentar contratempos durante nossa caminhada e que não há nada de errado em “dar um passo atrás, para dar dois à frente”. Frustação é um dos grandes destruidores da engenhosidade. Há um texto interessante escrito pela psicóloga Julie DeNeen a respeito de como promover “grit”. É focado para a “sala de aula”, mas é possível fazer a correlação para aplicar no nosso próprio desenvolvimento.

Outro aliado é o pensamento crítico. Um “espírito” crítico tem mais possibilidade de gravitar em torno da engenhosidade do que uma mente que não faz perguntas. Desenvolva o hábito de pensar de forma ampla.

Para fechar, concentrar-se no propósito ao invés da tarefa é mais um aliado na sua busca pela engenhosidade. Seu benefício está em colocar a tarefa em um “quadro maior”, que além de permitir pensar de forma mais ampla, permite pensar com mais profundidade nas possibilidades que o propósito traz.

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