Aprendizes e Estudantes

abril 20, 2015 § Deixe um comentário

Uma das maiores discussões, na maior parte dos países ocidentais, quando o assunto é sistema educacional moderno, é em relação ao seu foco. No Brasil, o enfoque está meio que resolvido, deveríamos focar em “criar” cidadãos conscientes socialmente, como direciona nossa Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas, o que significa isto? Bons estudantes são bons cidadãos? Ou deveríamos procurar estimular que se tornem aprendizes habilidosos? Há uma diferença, e não é apenas semântica, entre estudante e aprendiz. Vamos a ela:

1. Relacionamento com os educadores:

Estudantes são como funcionários, se espera que direcionem seu interesse em sintonia com o interesse da escola ou do currículo (algumas esperam simplesmente que se comportem e sigam as instruções). Aprendizes possuem interesses mais variados e preferem ter liberdade de auto-direcionar o seu aprendizado.

 2. Relacionamento com os pares

Estudantes são competidores. O “ano letivo” nada mais é do que uma competição de longa duração e desde a minha época de estudante, o objetivo final era “passar no vestibular” (hoje é tirar uma boa nota no ENEM). Aprendizes são colaboradores. Quem já experimentou aprender algo apenas por prazer ou sem nenhum objetivo definido, sabe do que falo. É só procurar algum grupo de discussão na internet para comprovar na prática.

 3. Motivação

Estudantes são estimulados a “trabalhar” por uma compensação (a nota, passar de ano, entrar na faculdade, etc.). Aprendizes são motivados em entender e gerar valor com o seu “trabalho”.

 4. Compensação

Estudantes esperam como compensação pelas suas notas, uma porta de entrada para a faculdade ou um bom emprego. Aprendizes possuem um senso de “missão a cumprir” ao longo do processo. A “meta” não é recompensada, é conquistada, não é simbólica, é um investimento.

 5. Modo de operação

Estudantes são complacentes, disciplinados, orientados por objetivo e treináveis. Aprendizes são perceverantes, auto-disciplinados, orientados por resultado e engenhosos.

Um dos grandes diferenciadores dos bons estudantes dos aprendizes habilidosos são as notas. O primeiro grupo é bastante motivado por elas. E essa motivação é extremamente recompensada ao longo da sua “carreira” estudantil. Essa orientação traz 3 consequências:

A primeira, é a perda de interesse pelo aprendizado. Na medida em que a motivação em obter boas notas cresce, a motivação em explorar ideias tende a decrescer.

A segunda, é a prática de evitar tarefas desafiadoras sempre que possível. Afinal, quanto mais difícil a tarefa, maior é a possibilidade de não conseguir uma boa nota.

A terceira, está relacionada à qualidade do aprendizado. Bons estudantes, apesar de completarem suas tarefas, passarem em testes e conseguirem boas notas têm dificuldade em se lembrar do que aprenderam após o exame final. Segundo o pesquisador Eric Mazur, também professor de física aplicada da Universidade de Harvard, 2 meses após o exame final, 90% dos estudantes volta ao nível de conhecimento que tinha no início do semestre anterior.

A ironia do enfoque dado à educação brasileira é que temos hoje, em 2015, um mercado saturado de profissionais com diplomas com dificuldade em encontrar emprego, uma vez que os empregadores valorizam pessoas com rápida capacidade adaptativa e de aprendizado e com habilidade em aplicar o que sabem (apesar destas habilidades só serem passíveis de serem checadas no decorrer do próprio trabalho, a orientação de seleção é essa). Em resumo, um mercado que procura (pelo menos teoricamente) aprendizes habilidosos e não bons estudantes.

Penso que é hora de aceitar os fatos e repensar o foco que queremos para o nosso sistema educacional.

“Matadores” de criatividade

abril 15, 2015 § Deixe um comentário

Ao contrário do que imaginamos, alguns hábitos estimulados por “especialistas” podem causar mais mal para a criatividade do que bem. Por exemplo:

Pensar “fora da caixa”

Ron A. Beghetto, um dos criadores do modelo 4Cs da Criatividade, diz que pessoalmente tem “grande dificuldade em pensar fora da caixa, porque na verdade o que é preciso é pensar criativamente dentro de várias caixas”. Slogans populares como “liberte sua mente” ou “elimine todas as restrições” podem soar liberadores, mas no fundo são irreais ou mesmo errados. Segundo Beghetto, parâmetros são um contrabalanço importante e necessário para a originalidade. Ele conduziu um estudo em que pedia aos participantes para “inventarem” um novo esporte. As melhores ideias vieram daqueles que se basearam em esportes já existentes e não dos que usaram ideias menos familiares, embora originais. Beghetto gosta de dar como exemplo a improvisação no jazz, que é uma expressão criativa criada com base em padrões determinados.

Limitar as escolhas

Em alguns contextos, limitar a escolha pode melhorar a criatividade (afinal, MacGyver construía bombas com chiclete), mas definitivamente não é o caso no aprendizado. Limitar a liberdade intelectual limita o resultado intelectual. É preciso dar mais possibilidades e caminhos quando a história é estimular o aprendizado. Afinal, em educação, como na vida, não existe gabarito com a resposta certa. O que existe são caminhos, opções. Por isso, ter indicadores é importante para saber se o caminho escolhido está dando resultado, assim como ter flexibilidade, para mudar a rota quando for o caso.

Repetição de assuntos é “decoreba”

“O conteúdo é o combustível para futuras ideias criativas” diz a Dra. Helen Abadzi, especialista em educação do Banco Mundial. Para construir a habilidade de leitura, matemática e raciocínio é preciso exercitar a habilidade de recuperar e usar o conhecimento para gerar ideias em velocidade suficiente para alcançar altos níveis de complexidade (é o que chamo de conexão do conhecimento). Isto requer prática, por isso não é perda de tempo fazer exercícios repetidamente até diminuir a operação mental para realizá-los (ou como diziam os mais antigos, “até automatizar”).

Lotar a agenda para aproveitar melhor o tempo

Também conhecida pelo nome em inglês, over-scheduling, a prática de “aproveitamento” do tempo marcando várias atividades próximas umas das outras é um dos grandes inimigos da criatividade. Atividades mais prosaicas e relaxantes como “dar uma caminhada” estimulam o pensamento criativo. É aquela história, se você não tem tempo para uma “volta no quarteirão”, não terá tempo para ser criativo (ou inovador). Criatividade também precisa de tempo e espaço para florescer.

Onde estou?

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