Arte dentro das disciplinas – parte 2

novembro 25, 2015 § Deixe um comentário

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Para fechar os exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas, neste post conheceremos a integração da arte com estudos sociais e história; leitura; e, por fim, no próprio ensino.

A já citada Integrated Arts Academy (IAA), utiliza os assuntos definidos no próprio currículo de estudos sociais como temas das aulas de “redação”. Os alunos são estimulados a confeccionarem roteiros para serem encenados, utilizando os temas, e debatem as conexões dramáticas determinadas pelo volume e entonação da voz, além da perspectiva do texto.

O uso de artes visuais pode colaborar bastante no entendimento da história. Segundo a especialista em educação Marjorie Coheen Manifold, em seu texto “Art Education in the Social Studies”, o estudo de obras de arte do passado promove o entendimento dos valores da sociedade da época e como a arte foi influenciada pelas crenças econômicas, políticas e sociais. Um outro exemplo do impacto destas crenças na sociedade (desta vez, abordando a má influência) é dada pelo historiador Eric S. Yellin em seu livro “Racism in the Nation’s Service”, onde aborda o impacto da política racista do presidente americano Woodrow Wilson na década de 1910, que reverteu 30 anos de políticas integracionistas. Recomendo pessoalmente o livro, que pode ser lido gratuitamente em pdf, disponibilizado o pelo projeto educacional mantido por editoras norte-americanas chamado “Project Muse”.

Os amantes dos quadrinhos ficarão felizes em saber que esta forma de arte, que durante décadas foi desprezada, vem ajudando na alfabetização e estimulo à leitura. Histórias em quadrinhos – em especial as chamadas graphic novels – comprovadamente auxiliam na compreensão e na interpretação dos textos. Um estudo publicado na revista “Literacy”, demostrou que quadrinhos são excelentes suportes metacognitivos a estratégias de desenvolvimento de leitura e escrita.

Os pesquisadores examinaram ainda a relação entre as graphic novels e estratégias de compreensão de leitura e descobriram que as crianças adquirem uma melhor compreensão das histórias ao lerem este tipo de quadrinhos – além de um entusiasmo maior pelo aprendizado. Uma explicação para isto, segundo os pesquisadores, é que elas utilizam uma estratégia única durante a leitura de graphic novels: conectam o estilo da letra e do formato com o elemento emocional da história, analisam as informações sobre os personagens com base nas expressões faciais e corporais, e reconhecem a mudança de tempo ao longo da história através da informação visual que acompanha o texto, mesmo que não explicitamente indicado. A combinação desses elementos, propiciados pelos quadrinhos, ajuda as crianças a deduzirem o que acontece na história.

Resultados do teste Adolescent Motivation to Read Profile (AMRP) corroboram com o estudo, ao indicar uma melhora significativa na valorização da leitura e do “autoreconhecimento” como leitor. As respostas dos participantes do teste referentes a quadrinhos, mostraram que este tipo de literatura aumenta o engajamento para a leitura e tem um impacto extremamente positivo na satisfação gerada por ela.

A integração com a arte também pode ajudar os próprios professores a melhorarem seu ensino. Novamente a IAA aparece como exemplo. A escola promove 2 vezes por ano um retiro aonde os professores são estimulados a criar arte e testar lições e métodos de ensino uns com os outros. O objetivo dos retiros é estimular um senso de comunidade, a colaboração e promover um espaço onde os próprios professores podem se desenvolver como artistas. Como bem atesta o diretor da instituição, Bobby Riley, não se pode apenas pedir que as pessoas colaborem, é preciso criar a estrutura para isto e estimular a habilidade para que a coisa aconteça.

O aprendizado é por si só uma arte. Devemos tratá-lo com a mesma seriedade com que tratamos os temas e assuntos que precisamos aprender. Isto significa pensar e debater o processo de aprendizado, desde técnicas de memorização até estratégias de retenção de conhecimento. Se queremos, de verdade, construir uma sociedade baseada no conhecimento, tudo, absolutamente tudo, deve estar relacionado de alguma forma com a arte de aprender.

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Arte dentro das disciplinas – parte 1

novembro 18, 2015 § Deixe um comentário

 Pretendo neste e no próximo post mostrar alguns exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas. Neste primeiro, veremos integrada à escrita e matemática. Vale reforçar que o que veremos a seguir são exemplos de como algumas instituições de ensino implementaram a abordagem do uso da arte no aprendizado, não é uma “receita” e sim uma indicação do que pode ser feito. O modus operandi deve ser determinado por cada um.

A Cashman Elementary School, no estado norte-americano de Massachusetts tem experimentado a integração da música à escrita com crianças de 8 e 9 anos.  Funciona da seguinte forma: a professora de música pede a seus alunos que escutem a famosa música “Dança do Sabre” do compositor armênio Aram Khachaturian em diversos momentos do dia – no recreio, na hora do lanche, etc. Depois, explica a dinâmica da música, seu tempo e instrumentação. Em seguida, os alunos são estimulados a fazerem um desenho a respeito do que sentiram em relação à música e por fim, devem criar um enredo e desenvolver uma história baseada no desenho.

Em Annapolis, no estado de Maryland, a escola Wiley H. Bates Middle School ensina a seus alunos matemática e mosaicos mexicanos ao mesmo tempo. Os alunos estudam os tradicionais mosaicos turquesas do México e criam suas próprias versões com pedaços de papel. Em seguida, recolhem amostras de diferentes tamanhos e as usam para calcular o número de peças utilizadas na obra de arte.

Outro exemplo da integração da arte com a matemática vem do estado de Nova Jersey. A Stockton University, em seu curso de matemática, usa origamis no ensino da matéria. A professora Barbara Pearl, autora do livro “Math in Motion: Origami in the Classroom”, usa a “mistura” há vários anos com resultados animadores. Ensina ângulos, frações e geometria espacial com base na arte de “dobrar papel”.

Como diz a especialista em integração da arte Laura Brino, “estudar e observar arte, sem medo de cometer algum erro, incentiva a autoconfiança e a coragem em assumir riscos”. Além de ser um modo de estimular a apreciação da cultura, que nos torna ser-humanos mais capazes.

A arte no aprendizado

novembro 11, 2015 § 2 Comentários

Na Grécia antiga havia um ramo do conhecimento denominado “arte liberal”. Consistia em uma série de assuntos e habilidades que um cidadão deveria aprender para poder exercer um papel ativo na sociedade em que vivia. Os assuntos estudados incluíam gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, teoria musical e astronomia. Para aplicar estes conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para a cidadania, a pessoa deveria ainda participar de debates públicos, se “defender” em um tribunal, servir como jurado em um julgamento e participar do serviço militar. Ainda hoje se vê “ecos” dos conceitos da “arte liberal” em nossa sociedade, embora distorcida pela compartimentalização. Naquela época era tudo visto de maneira integrada, hoje como matérias individualizadas.

Alguns países têm em seu currículo do ensino médio a denominação “arte liberal”, que na maioria das vezes engloba algumas das matérias estudadas na antiguidade – e mais uma vez, compartimentalizadas. Mas essa história está mudando. Algumas escolas, notadamente nos EUA, têm implementado uma abordagem digamos, clássica, da “arte liberal”. Em uma definição filosófica de arte, estes locais têm se referido a ela não como um tema, mas como um conceito que encara os assuntos ensinados na instituição de forma mais livre, tratando cada um deles como uma “arte”. Com isto, o foco da instituição deixa de ser repassar conhecimento e se torna desenvolver um modo de pensar. Estes locais acreditam que quando tratado como arte, um assunto deixa de ser uma série de regras para memorizar e passa a ser análogo a uma linguagem a ser aprendida (comentei que era uma abordagem mais filosófica).

Para entender como funciona na prática, nada melhor do que um exemplo. A escola Wheeler Elementary, no estado de Vermont, começou a implementar esse conceito há cerca de 6 anos. Hoje ela se chama Integrated Arts Academy (IAA) e seus alunos são bons não apenas em arte. Em matemática, as notas cresceram 66%. Como conseguiram isto?

O diretor Bobby Riley atribui ao que chama de “confiança criativa”, uma mistura de pensamento altamente analítico, raciocínio e uma “voz própria” trazida pela arte. Esta confiança é estimulada pela introdução de componentes mais subjetivos aos trabalhos e tarefas. Por exemplo, em geometria os alunos avaliam a obra do artista russo Wassily Kandinsky. É promovida uma discussão abordando a sua obra e os alunos recebem como tarefa criar sua própria arte utilizando os ângulos no estilo Kandinsky. Depois, é pedido que identifiquem os ângulos utilizados e os retirem do trabalho para realizar o seu cálculo.

Algumas evidências científicas dão sustentação a esta abordagem, como aponta Wendy Strauch-Nelson que coordena outra iniciativa neste estilo no estado de Wisconsin, a ArtsCore. Segundo ela, ao incorporar movimento, desenho, pintura, música e emoções em um aprendizado, se estimula a retenção do que foi visto.

Não são apenas crianças e jovens que se beneficiam da abordagem. Em um estudo baseado em pesquisa de campo, as pesquisadoras Christine Jarvis e Patricia Gouthro, descobriram que adultos também são melhor estimulados com a integração da arte ao desenvolvimento profissional. Elas identificaram 5 grandes áreas em que a abordagem pode trazer bons resultados: (1) na exploração da aplicação da prática profissional; (2) no entendimento dos dilemas profissionais; (3) no desenvolvimento da empatia e da percepção de insights; (4) na exploração das identidades profissionais; (5) no desenvolvimento do autoconhecimento e habilidade interpessoal.

Segundo o estudo, as abordagens baseadas em artes podem ajudar a se fazer uma avaliação crítica do próprio papel e identidade dentro da profissão e considerar o impacto do seu trabalho na sociedade de uma forma mais ampla.

Agora que vimos como a arte pode beneficiar de uma maneira geral o aprendizado, pretendo nos próximos posts trazer exemplos do seu impacto em disciplinas mais específicas, como escrita, ciências e matemática. Por conta de compromissos profissionais, a partir desta semana reduzo as publicações a 1 post semanal. Pretendo retomar ao habitual 2 posts por semana tão logo seja possível.

Diferentes níveis de atenção para diferentes tarefas

novembro 6, 2015 § Deixe um comentário

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No dia a dia temos a tendência de entender os estados de atenção de maneira direta: “estamos prestando atenção” ou “não estamos”. O primeiro caso é encarado como bom, o segundo não. A verdade é que as coisas são um pouco mais complicadas do que isto.

Um estudo publicado na revista “Nature” há alguns meses sugere que pessoas criativas (retomando o assunto do post anterior) têm maiores ligações entre duas áreas do cérebro que são normalmente difíceis de conciliar: a rede associada com foco e controle da atenção e a rede associada com a imaginação e espontaneidade.

Um dos autores do estudo, Scott Barry Kaufman, diz que “as pessoas criativas não são caracterizadas por qualquer um desses estados por si só”. Segundo ele, a capacidade de adaptação e a capacidade de misturar estados de atenção e desatenção (aparentemente incompatíveis de coexistir), dependendo da tarefa, estimula mais a “conexão de ideias” do que simplesmente dedicar “toda a atenção”, como costumamos acreditar. Brinca dizendo que “pessoas criativas têm mentes confusas”.

Isto me faz recordar daquelas “horas” – que costumo chamar de “momento eureka” – em que se está assistindo televisão, lendo um livro ou tomando banho e aparece aquele “clique”, aquela “conexão” que estava faltando para resolver um determinado problema. Reforçando a ideia, também já comentada no post anterior, é a livre associação que permite que o cérebro faça conexões mais variadas. De qualquer forma, creio que criatividade e flexibilidade andam juntas, uma vez que ao diversificarmos nossas experiências, nos “empurramos” para fora do nosso padrão de pensamento “normal”.

P.S: A imagem “provocadora” que abre o texto é de um artista australiano chamado Tony Albert. Quem se interessar, pode encontrar mais trabalhos dele AQUI.

Divergir para convergir

novembro 3, 2015 § 1 comentário

No seu nível mais básico, novas ideias têm a ver com novas conexões. Não sei se é verdade, mas é atribuída a Steve Jobs uma frase que diz mais ou menos o seguinte: “criatividade é apenas conectar coisas”. Se foi ele mesmo (ou algum anônimo), a verdade é que a frase tem um fundo de verdade, pelo menos quanto à forma como o cérebro “cria” novos conhecimentos. Quando aprendemos algo novo, nossos neurônios se conectam entre si, formando “redes” de compreensão. Pode-se considerar que a diferença entre um cérebro “criativo” e um cérebro médio é a quantidade e a força das conexões neurais e a habilidade em criá-las. Este mesmo processo (conexão neural) também está relacionado ao processo natural de formação do que chamamos de “inteligência”. Será que inteligência e criatividade é a mesma coisa – criação de conexão (como na frase citada no início do texto)?

Uma pesquisa feita pelo California Institute of Technology (também conhecido como Caltech), mostrou que a inteligência é algo que se encontra por todo o cérebro. Os pesquisadores descobriram que, ao invés de estar residente em um único local, a inteligência geral é determinada por uma rede de regiões em ambos os lados do cérebro. Já a criatividade, conforme mostrou uma pesquisa feita em 1921 pelo psicólogo Lewis Terman, nem sempre anda de mãos dadas com a inteligência. No estudo feito há 94 anos, Terman descobriu que após certo nível, a inteligência não tem muito efeito sobre a criatividade. Este estudo e subsequentes deram origem à chamada “teoria da soleira” (no original, “threshold theory”).

Por que essa história é importante? Porque ela demonstra que criatividade está ligada à forma de pensar e não ao QI (essa introdução toda foi para podermos chegar a este ponto). É muito popular hoje em dia as ideias do Joy Paul Guilford a respeito do pensamento convergente e divergente. Também é muito popular vê-los como opostos. O primeiro estaria ligado à capacidade de se chegar a uma única e bem estabelecida resposta a determinado problema. O pensamento convergente enfatiza a velocidade, a precisão e a lógica e centra-se no reconhecimento do familiar, nas técnicas de reaplicação e no acumulo de informações.

Em contraste, o pensamento divergente normalmente ocorre de maneira espontânea, com fluxo livre, onde muitas ideias são geradas e avaliadas. Várias soluções possíveis são exploradas em um curto espaço de tempo e conexões inesperadas são desenhadas.

Testes de múltipla-escolha são exemplos clássicos da utilização prática do pensamento convergente (testes de QI também) e o método de brainstorming é o exemplo clássico da utilização do pensamento divergente.

Na maioria das vezes, os dois tipos de pensamento são “vendidos” como não conciliáveis. Como opções a serem feitas: ou se é lógico ou se é criativo. A verdade é que para ser criativo, é preciso ser lógico também. Criatividade envolve um processo cíclico de geração de ideias associado a um trabalho sistemático que ajude a selecionar as que realmente têm possibilidade de “frutificar”. Criatividade deveria ser vista como 2 estágios, o de geração – que envolve o pensamento divergente – e o de exploração – que envolve o pensamento convergente (para mais detalhes, sugiro o artigo do cientista Scott Barry Kaufman, publicado na revista “Psychology Today”).

Acredito que a criatividade está ligada à associação e essa associação é facilitada pela diversificação de informações e conhecimentos que se tem. Ser curioso intelectualmente é um bom jeito para estimular a sua criatividade. É aquela história, se você lê (ou faz) o mesmo que todo mundo, vai pensar do mesmo jeito que todo mundo.

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