Desenvolvendo mentes curiosas – parte 2

setembro 17, 2015 § Deixe um comentário

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Relacionei “mentes curiosas” a uma visão mais abrangente, que por falta de capacidade adjetiva minha chamei pelo termo anglo-luso “pensamento big picture”. Penso ser válido explicar porque fiz essa correlação. Do modo como vejo, a curiosidade intelectual requer que seu (ou sua) “proprietário(a)” tenha uma certa motivação interna, algo que o(a) impulsione a se questionar e procurar respostas. Essa motivação não virá se a pessoa não tiver pelo menos um vislumbre do benefício que terá com isto. Mesmo que não esteja muito claro e que seja apenas um sentimento ou sensação, é preciso crer que essa “busca” trará algum benefício. Essa sensação é o que caracterizei como “pensamento big picture”. É uma espécie de “senso de propósito”.

Conforme prometido, pretendo abordar nesse texto pequenas mudanças de atitude que considero poderem contribuir para estimular um pensamento mais “big picture”. Antes, gostaria de reafirmar a minha crença de que em educação não existe “receita de bolo”. O que proporei a seguir é fruto da minha experiência, mas que não necessariamente é adequada para toda e qualquer situação. Mas penso que pode ajudar alguém que pretenda estimular um “pensamento big picture” em si ou em outros.

Dê sentido aos seus projetos ou tarefas: é preciso trabalhar de maneira séria e focada, mas não todo o tempo. Acredito ser preciso dar a uma determinada tarefa (ou perceber) algum significado emocional, moral ou intelectual. E isso não é possível se apenas “abaixarmos a cabeça” e nos concentrarmos em fazer o que precisamos fazer. É preciso encontrar algum tempo para “levantá-la” e olhar para os lados. É a maneira que conheço para tornar algo mais significativo.

Ligue “lições” antigas a novas: um dos modos que me ajudam a entender a abrangência de algo é “preencher a lacuna” entre o que já sabia e o que aprendi. Dessa forma consigo compreender a inter-relação entre os assuntos e como “colocá-los” dentro de um “retrato maior”.

Estude História de maneira conectada e não linear: acredito ser essencial conhecer História para compreender a si mesmo e a sociedade em que se vive. Somos “frutos” da História brasileira, mas também somos frutos da História cristã-judaica ocidental, da História ibérica, da História africana e de tantas outras. Entender que a História não acontece linearmente me ajuda enormemente a colocar em prática a dica anterior.

Correlacione os detalhes aos conceitos macro: conceitos macros e seu detalhamento estão intrinsecamente relacionados. Uma das primeiras matérias que estudei ao entrar na faculdade foi a “Teoria Geral da Administração” (sou “formado” ou como se diz academicamente “bacharelado” em administração de empresas). Lembro que ao estudar um sistema de produção chamado de Taylorista, que basicamente estipulava que o funcionário deveria apenas exercer a sua função, no menor tempo possível durante o processo produtivo, não havendo necessidade de conhecer a forma como se chegava ao resultado final, percebi o quanto o modelo havia extrapolado a fábrica e se enraizado na nossa concepção de vida. Nesse momento, decidi que não teria vida profissional e vida pessoal, para mim seria a mesma coisa, a minha vida. Obviamente levei anos para tentar colocar isso em prática, mas de certa forma, o simples reconhecimento de que a compartimentalização era algo, a meu ver, antinatural, já me estimulara desde a época da faculdade a tentar entender como o detalhe de algo se relacionava com o seu “todo”.

Foque no “aprendizado real”: “a aprendizagem não é o produto do ensino, é o produto da atividade dos alunos”. A frase anterior é de um cara que me influenciou muito, John Holt. Ela é sobre um conceito que ele chamou de “aprendizado real” (“real learning”, no original), abordado no livro “How Children Learn”. Nele, Holt sugere que se use as mentes imaginativas e inquisitivas das crianças a favor do seu próprio aprendizado e que não se tente “molda-las” para que se “enquadrem” em um determinado comportamento (não vou entrar em detalhes, mas o conceito não significa deixar fazer o que quiser). Este livro me levou a “aceitar” o fato de que informação não significa conhecimento e que era necessário entender o seu contexto para poder “promover” essa migração. “Aprendizado real” para mim é a busca pelo contexto.

Essa é a minha pequena contribuição ao estímulo por um ambiente, digamos, mais “big picture”. Confesso que “deixei” anotadas mais umas 10 dicas, mas não tenho certeza se vou abordá-las no próximo post. Meu professor de kung fu, o Luiz Pessanha, me disse certa vez que o seu mestre Chan Kowk Wai, tinha a “mania” de lhe mostrar alguns poucos movimentos e não dizia mais nada. Isso o estimulava a pensar em como aplicar na prática aquela forma. Muitas vezes o “não dito” ensina mais.

Desenvolvendo mentes curiosas – parte 1

setembro 15, 2015 § 4 Comentários

Terminei o post passado sinalizando a importância de se pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas (e de quebra, uma visão mais abrangente). Penso que a primeira pergunta a ser respondida nesse sentido é: o que precisamos mudar no nosso ambiente atual para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?

Creio que é uma pergunta que estimula muita reflexão – assim como somos 200 milhões de “técnicos” da seleção brasileira durante qualquer copa do mundo de futebol – possivelmente cada um tem as suas convicções a respeito desse tema. Pretendo contribuir com algumas linhas a respeito do assunto.

Penso que poucos devem discordar de que foi correto o enfoque dado nos últimos 20 anos ao estímulo da universalização do ensino no Brasil. Com cada vez mais pessoas buscando (e recebendo) algum tipo de qualificação, conseguimos ao menos instigar a percepção de que o estudo é fundamental para alguém que pretende de alguma forma “melhorar de vida”. Creio que é hora de abrangermos agora o enfoque e refletir se o que as pessoas estão aprendendo e como estão se preparando para serem produtivas é a melhor opção. Quanto mais penso nesta questão, mais percebo a resposta como sendo no mínimo dúbia. Para pensar de verdade “no futuro”, ele precisa abranger mais do que 2, 4 ou mesmo 8 anos. Muito do que tem sido discutido a respeito de novas metodologias educacionais e conceitos, como “aprendizes do século XXI” ou “nativos digitais”[1], é feito sob a estrutura do século XX. É “super atual” ser digital, mas creio que os objetivos educacionais ainda continuam os mesmos: estudar para se formar e arrumar um emprego – de preferência na administração pública[2].

Mas, voltando à pergunta do início do post, o que precisamos mudar para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?

Na minha opinião, para começarmos a responder, é preciso primeiro mudar os objetivos do nosso sistema educacional. Se queremos de verdade estimular o aparecimento de inovadores – como 10 entre 10 políticos, empresários e especialistas dizem – temos que focar em desenvolver o indivíduo e a sua capacidade de pensamento. Embora a nossa legislação declare que o objetivo do nosso sistema educacional é estimular o pensamento crítico e reflexivo, a bem da verdade é que isso, na prática, não está acontecendo. Já que o objetivo pessoal de muita gente ainda é estudar para se formar e arrumar um emprego.

A razão disto, para mim, reside na maneira como a nossa sociedade está estruturada (e o sistema educacional é “retrato” da sociedade). Estamos estruturados de maneira linear, como em uma linha de produção. Para muitos, as coisas só fazem sentido quando vem em passo a passo, há muito pouco estímulo para perceber a conectividade entre elas.

Para não ficar “só reclamando”, pretendo no próximo (e talvez, nos próximos) post(s), abordar pequenas mudanças que penso podem contribuir para mudarmos o enfoque e estimular um pensamento mais “big picture”.

[1] O conceito de nativos digitais foi cunhado pelo educador e pesquisador Marc Prensky (2001) para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis na internet.

[2] Antes que alguém interprete como uma crítica a quem trabalha ou quer trabalhar na administração pública, deixe-me dar algumas explicações. Primeiro, não considero de forma alguma um trabalho fácil, a pessoa tem a sua discricionariedade extremamente limitada por legislações, regulações e normas burocráticas; segundo, precisa enfrentar o imaginário popular que a vê como incompetente e pouco afeita ao trabalho; terceiro, tem seus méritos e esforços muito pouco reconhecidos por superiores – e pela própria sociedade. É um trabalho que, ao meu ver, exige vocação verdadeira. Mas, é fato que o salário médio pago pela administração pública, especialmente a federal, é muito superior à média do mercado, o que estimula muita gente, que nem sempre tem a vocação, a prestar concurso público. Penso apenas que o país só teria a se beneficiar com mais pessoas com o objetivo de criar propriedade intelectual e não de arrumar um emprego e esta é a verdadeira intenção que pretendi dar à frase.

Visão abrangente

setembro 10, 2015 § 3 Comentários

  Um dos termos em inglês que mais acho interessante é “big picture” (ou sua variação “bigger picture”). É um daqueles termos estrangeiros que não tem muitos correspondentes em outras línguas. Como “saudade”, em português, é preciso entender o seu significado para que possamos compreender o seu real impacto quando colocado em uma frase.

“Big picture” não significa simplesmente “foto grande”, significa visão abrangente (ou a necessidade de abranger a sua visão). Significa expandir o seu entendimento e compreender as diversas relações de algo.

Mas, por que enxergar a “foto grande” é importante? Para compreender de verdade o motivo, é preciso perceber o seu alcance. Uma pesquisa bem abrangente coordenada pela Universidade de Stanford, chamada PERTS – Project for Education Research That Scales – algo como “projeto de pesquisa educacional escalável” – mediu o impacto do pensamento “big picture” em cerca de 1.360 graduandos do ensino médio (lá, a famosa high school), de baixa-renda de escolas públicas de regiões urbanas da Califórnia, Texas, Nova York e Arkansas.

Na primeira etapa de testes, os adolescentes sentavam-se a frente do computador e realizavam testes simples envolvendo subtrações matemáticas, vídeos no YouTube e o jogo Tetris. O objetivo era investigar a presença de uma forma de pensar específica, que chamaram de “aprendizagem com objetivo auto-transcedente”, que em português (ou inglês) claro significa uma forma de pensar que envolva a visão abrangente. Uma espécie de aprendizado “big picture”.

Os adolescentes com “objetivo auto-trancendente”, que concordaram, por exemplo, com declarações de cunho social como “quero me tornar um cidadão educado que pode contribuir para a sociedade” pontuaram mais em medidas como “coragem” e “autocontrole” do que colegas que só relataram motivos para aprender de cunho pessoal, como “conseguir um bom emprego” ou “ganhar mais dinheiro”.

Possivelmente você pensou o que eu pensei ao ler a pesquisa, “e daí?”. Daí, que os adolescentes mais “altruístas” eram também os menos propensos a sucumbir às distrações digitais, resolviam mais problemas de matemática e eram os mais interessados em se matricular em uma faculdade no ano seguinte. O motivo? Eles conseguiam enxergar a “big picture”.

Isto ficou mais evidente na segunda etapa de testes feitos com o mesmo grupo, que investigou se o fato de possuir um “senso de propósito” melhorava o rendimento em matemática e ciências. O grupo identificado como mais altruísta escrevia pequenas redações explicando porque não estudavam para simplesmente arrumar um emprego e porque queriam realizar algo relevante no mundo. Estas redações eram lidas pelos participantes mais individualistas em diversos períodos ao longo dos meses seguintes. Ao final do ano letivo, os pesquisadores avaliaram a performance dos adolescentes. Perceberam algo interessante em relação aos participantes mais individualistas, estes tiveram uma melhora nas matérias avaliadas de cerca de 20%. Ao checarem o motivo, descobriram que ao conseguirem “enxergar” além do “próprio umbigo”, os adolescentes desenvolveram uma maior capacidade de planejamento e organização do próprio tempo. O “senso de propósito” os auxiliou a tornarem suas mentes mais curiosas e adaptativas.

A pesquisa ajuda a perceber, no meu entendimento, a importância de pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas. Sem ela, as gerações futuras não terão possibilidade de resolver questões como mudança climática e desigualdade social ou lidar com os impactos da globalização nos locais aonde vivem. Impacta diretamente no tipo de sociedade em que viveremos em 10, 15 ou 20 anos. Instigar um “senso de propósito” para estimular uma visão mais abrangente e uma criticidade maior no pensamento, ao meu ver, é parte desse processo.

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