Desenvolvendo mentes curiosas – parte 1

setembro 15, 2015 § 4 Comentários

Terminei o post passado sinalizando a importância de se pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas (e de quebra, uma visão mais abrangente). Penso que a primeira pergunta a ser respondida nesse sentido é: o que precisamos mudar no nosso ambiente atual para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?

Creio que é uma pergunta que estimula muita reflexão – assim como somos 200 milhões de “técnicos” da seleção brasileira durante qualquer copa do mundo de futebol – possivelmente cada um tem as suas convicções a respeito desse tema. Pretendo contribuir com algumas linhas a respeito do assunto.

Penso que poucos devem discordar de que foi correto o enfoque dado nos últimos 20 anos ao estímulo da universalização do ensino no Brasil. Com cada vez mais pessoas buscando (e recebendo) algum tipo de qualificação, conseguimos ao menos instigar a percepção de que o estudo é fundamental para alguém que pretende de alguma forma “melhorar de vida”. Creio que é hora de abrangermos agora o enfoque e refletir se o que as pessoas estão aprendendo e como estão se preparando para serem produtivas é a melhor opção. Quanto mais penso nesta questão, mais percebo a resposta como sendo no mínimo dúbia. Para pensar de verdade “no futuro”, ele precisa abranger mais do que 2, 4 ou mesmo 8 anos. Muito do que tem sido discutido a respeito de novas metodologias educacionais e conceitos, como “aprendizes do século XXI” ou “nativos digitais”[1], é feito sob a estrutura do século XX. É “super atual” ser digital, mas creio que os objetivos educacionais ainda continuam os mesmos: estudar para se formar e arrumar um emprego – de preferência na administração pública[2].

Mas, voltando à pergunta do início do post, o que precisamos mudar para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?

Na minha opinião, para começarmos a responder, é preciso primeiro mudar os objetivos do nosso sistema educacional. Se queremos de verdade estimular o aparecimento de inovadores – como 10 entre 10 políticos, empresários e especialistas dizem – temos que focar em desenvolver o indivíduo e a sua capacidade de pensamento. Embora a nossa legislação declare que o objetivo do nosso sistema educacional é estimular o pensamento crítico e reflexivo, a bem da verdade é que isso, na prática, não está acontecendo. Já que o objetivo pessoal de muita gente ainda é estudar para se formar e arrumar um emprego.

A razão disto, para mim, reside na maneira como a nossa sociedade está estruturada (e o sistema educacional é “retrato” da sociedade). Estamos estruturados de maneira linear, como em uma linha de produção. Para muitos, as coisas só fazem sentido quando vem em passo a passo, há muito pouco estímulo para perceber a conectividade entre elas.

Para não ficar “só reclamando”, pretendo no próximo (e talvez, nos próximos) post(s), abordar pequenas mudanças que penso podem contribuir para mudarmos o enfoque e estimular um pensamento mais “big picture”.

[1] O conceito de nativos digitais foi cunhado pelo educador e pesquisador Marc Prensky (2001) para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis na internet.

[2] Antes que alguém interprete como uma crítica a quem trabalha ou quer trabalhar na administração pública, deixe-me dar algumas explicações. Primeiro, não considero de forma alguma um trabalho fácil, a pessoa tem a sua discricionariedade extremamente limitada por legislações, regulações e normas burocráticas; segundo, precisa enfrentar o imaginário popular que a vê como incompetente e pouco afeita ao trabalho; terceiro, tem seus méritos e esforços muito pouco reconhecidos por superiores – e pela própria sociedade. É um trabalho que, ao meu ver, exige vocação verdadeira. Mas, é fato que o salário médio pago pela administração pública, especialmente a federal, é muito superior à média do mercado, o que estimula muita gente, que nem sempre tem a vocação, a prestar concurso público. Penso apenas que o país só teria a se beneficiar com mais pessoas com o objetivo de criar propriedade intelectual e não de arrumar um emprego e esta é a verdadeira intenção que pretendi dar à frase.

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§ 4 Respostas para Desenvolvendo mentes curiosas – parte 1

  • Renato disse:

    Bem, concordo que temos de pensar primeiro nos que desejamos. O Ian Bogost em Persuasive Games levanta um diferença interessante entre escolarizar (que reafirma os valores do status quo) e educar (entender os diversos mecanismo que fazem nossa sociedade funcionar e questioná-los). Convenhamos, a maioria das pessoas fala em educação mas na verdade quer mesmo é escolarização. As recentes críticas à Paulo Freire são exemplo disso (e olha que as críticas realmente contundentes à esse educador são ignoradas pela maioria). Algumas das escolas particulares mais caras que vejo na minha vizinhaça parecem mais enlatadoras e criança do que locais para promover o conhecimento, curiosidade então… nem se fala.

    Um dos efeitos interessantes do Bolsa Família é que finalmente educação se parece se tornar uma preocupação para o cidadão de baixa renda. Suponho que é um efeito das contrapartidas obrigatórias do sistema. Nesse aspecto, se pensarmos na velha pirâmide do Maslow, quem sabe essas pessoas que já conseguem pensar além da sobrevivência (fugir da fome) também vão ampliar seus horizontes para além do emprego estável.

    Gostei muito do comentário sobre a nossa estrutura linear. De fato a escola e a maioria das nossas organizações se estrutura dessa forma, verticalizadas, compartimentalizadas e lineares. Um fator que complica a própria idéia de mudança em si e que explica porque vejo nas escolas sob uma abordagem falha de construtivismo. Gente que só pensa na vertical simplesmente não vai conseguir se adequar à uma estrutura mais horizontal sem cair no caos. Mas se queremos um futuro para as próximas gerações isso precisa mudar. E olha que já tivemos experiências assim que foram esquecidas e trocamos por abordagens superficiais. Como já disse o José Pacheco em http://www.revistaforum.com.br/blog/2013/07/entrevista-com-jose-pacheco-da-escola-da-ponte-o-professor-deve-ser-um-mediador-de-conhecimentos/

    • marcelotibau disse:

      Excelente colocacao. Tive o prazer de conhecer o Pacheco em um seminario que ele deu ha uns 5 anos na Casa do Saber, aqui no Rio. Muito da Escola da Ponte foi inspirado na Escola Parque que o Anisio Teixeira implementou ha decadas na Bahia e na antiga Unb do Darcy Ribeiro. Vale lembrar que a fonte que influenciou esse pessoal brilhante foi o John Dewey. Abracao!

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