Futebol Universitário

julho 28, 2015 § Deixe um comentário

27ncaafootball.190 Alguém já imaginou uma tarde de sábado, Maracanã lotado (ou Minerão, Morumbi, Fonte Nova, etc.), para assistir uma final largamente antecipada pela crônica esportiva nacional durante a semana entre… USP e UERJ?

É possível que realmente nunca tenha passado pela sua cabeça uma “sandice” dessas, mas esta é uma realidade centenária em países como EUA, Canada e Reino Unido. Nestes lugares, a formação de um atleta profissional ocorre via instituições acadêmicas e não clubes esportivos. Há prós e contras (como em tudo na vida) em um modelo como este, mas com o nível em que chegou o “grande esporte nacional”, penso que é um bom momento para contestar as “verdades absolutas” e o modelo atual de formação de atletas.

Se em um primeiro momento esse assunto pode parecer um contrassenso em um espaço como este, a coisa muda de figura quando colocada na perspectiva correta. A indústria esportiva deve gerar um faturamento por volta de US$145 bilhões em 2015 (segundo o portal Statista, cujos algoritmos analisam mais de 18 mil fontes de dados). Isto a coloca ao lado de indústrias gigantes como a bélica, petróleo e gás, tecnologia e automobilística. Discutir o modelo de formação do atleta profissional não é um luxo do entretenimento, impacta diretamente na nossa participação em um dos maiores negócios do mundo (o que em tempos de crise, faz toda a diferença).

Para começar, vamos entender como funciona o modelo esportivo universitário. Existem 2 tipos de “programas” (que é a maneira como chamam nos países citados a implementação do modelo dentro de uma instituição), ambos amadores: “Varsity”, que são as modalidades esportivas oferecidas para prática dos alunos e membros da comunidade em que a instituição acadêmica se encontra (muito popular no Reino Unido) e “College”, que são as modalidades esportivas que oferecem bolsas de estudo aos seus participantes, como incentivo para que o atleta tenha um nível de dedicação, digamos, mais comprometido. A grande maioria dos atletas profissionais norte-americanos, por exemplo, veem do “College”.

Os programas esportivos universitários, em especial os do tipo “college”, estimulam o envolvimento da comunidade com a instituição acadêmica. O que começa como entretenimento esportivo evolui para interesse pelo conhecimento que a instituição produz, pela qualidade do seu corpo docente e do seu ensino, pelo sucesso (acadêmico e profissional) de seus alunos e ex-alunos, além de orgulho em fazer parte da história da instituição – uma das grandes fontes de receitas das universidades americanas, canadenses e inglesas veem das doações dos seus “aluminis” (ex-alunos). Não é raro que as provocações entre os torcedores de universidades rivais incluam número de prêmios Nobel e medalhas olímpicas conquistadas pela instituição.

Como se implementa este modelo? Como citei acima, já vem ocorrendo há séculos, portanto certamente não é possível replicar “ipsis litteris”, mas o pontapé inicial comum foi dado pelas próprias instituições, que combinavam entre si os eventos esportivos. É famoso o caso da criação do termo “soccer” para ilustrar os primeiros passos dos esportes universitários, cunhado pelo capitão da equipe de Oxford que para ridicularizar a preferência de outra instituição pelo tipo de futebol escolhido (o football association ao invés do rugby football) disse “aqui em Oxford não somos soccer (fazendo uma corruptela da palavra association), somos rugbier”.

Não nego que o modo de pensar da sociedade tenha influência na escolha e implementação do modelo esportivo – não é à toa que os países onde os esportes universitários se desenvolveram também sejam países que dão muita importância para a geração de conhecimento e propriedade intelectual. Também não nego que seja mais difícil esse modelo “pegar” aqui no Brasil – já que a grande paixão esportiva dos brasileiros é direcionada à clubes esportivos e não instituições acadêmicas. Mas penso que vale a pena olhar “com mais carinho” para a situação do nosso futebol e o nosso modelo escolhido para a formação de atletas.

Proponho a seguinte reflexão: o que seria mais saudável aos “nossos meninos”? Sair aos 15 ou 16 anos para o exterior, simplesmente para “fazer a fortuna” de algum dirigente ou empresário esportivo (muitas vezes abandonado à própria sorte quando não corresponde à aposta) ou estrear profissionalmente em um clube aos 22 ou 23 anos, mas com um diploma universitário no bolso e uma certa maturidade para conduzir a sua carreira? Para mim, não é necessária “segunda chamada”, a resposta é clara.

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