O impacto da cultura na liderança

julho 4, 2016 § Deixe um comentário

leaders_inspire.jpg

Neste tipo de assunto, a pergunta que sempre vem à tona é mais ou menos esta: o que faz um bom (ou grande) líder? Apesar de haver certo consenso em relação às características principais, como bom julgamento, integridade ou gostar de pessoas, há um grande elemento cultural nessa “receita”. A principal razão disto é que liderança é definida implicitamente pelo entendimento que determinada sociedade faz dela. Dependendo do contexto cultural, uma característica pessoal ou uma tendência de comportamento pode ser vista como uma vantagem ou não.

Algumas pesquisas têm demonstrado que o processo de decisão, o estilo de comunicação e até mesmo as tendências do “lado negro” (da força, como em Star Wars) são influenciadas pelas regiões geográficas de onde os líderes vieram. Em especial cito a publicação de Michele J. Gelfand, Miriam Erez e Zeynep Aycan, cujo título “Cross-Cultural Organizational Behavior” (algo como “comportamento organizacional intercultural”), já dá uma dica do que se trata e os trabalhos do psicólogo holandês Geert Hofstede a respeito da influência da dimensão cultural.

Para dar uma “força” para quem tem interesse no assunto, apresento a seguir um pequeno resumo dos 6 tipos de liderança mais comuns que ilustram, de maneira geral, as conclusões das pesquisas. Creio que vale a pena reforçar que para um entendimento pleno dos conceitos, é fortemente recomendável o estudo do material citado.

Processo de decisão

O líder sincronizado: ser um “fazedor”, em sintonia com o que está acontecendo no ambiente, é a chave para ser visto como “material de liderança” (gosto do termo inglês leadership material e quis manter algo parecido em português, mas vale comentar que significa algo como ter uma perceptível tendência para liderança e não necessariamente ser um líder) em regiões como o nordeste da Ásia (por exemplo, China, Coreia do Sul e Japão), Indonésia, Tailândia, Emirados Árabes e boa parte da América Latina (México, Brasil, Colômbia, Chile – os mais citados nas pesquisas). Para “subir” na hierarquia organizacional, tais líderes devem buscar o consenso nas decisões e direcionar os outros, orientando de maneira bem explicadinha (é o chamado processo especificado). Os líderes sincronizados tendem a ser prudentes e estão mais focados em ameaças potenciais do que em oportunidades.

O líder oportuno: como “oportunista” não tem um bom sentido em português, preferi trocar o termo para “oportuno”, mas creio que é perceptível que a característica aqui é a do “aproveitamento das oportunidades”. Este pessoal tem mais iniciativa e flexibilidade em relação à forma como alcançar um objetivo (por favor, sem inferir que um estilo é melhor do que o outro, a questão central gira em torno do que é considerado mais adequado em diferentes regiões). Esta característica é mais apreciada em alguns países europeus, como Alemanha, Holanda, Dinamarca, Noruega e Reino Unido (os mais citados nas pesquisas), nos países ocidentais que tiveram uma influência cultural bastante acentuada do Reino Unido (como EUA, Austrália e Nova Zelândia) e nos países asiáticos que basearam as suas instituições no modelo britânico (Índia, Singapura, Malásia e Hong Kong). Mais ou menos individualistas, esses líderes tendem a arriscar mais.

Estilo de comunicação

O líder direto: em algumas regiões, os liderados esperam que o líder confronte os problemas de maneira direta (recomendo como leitura adicional, o artigo da Forbes escrito pelo Ross Alan Prince, “Want Business Success, Master Constructive Confrontation”). No nordeste da Ásia e em países como a Holanda, a comunicação excessiva não é muito atraente – o pessoal lá quer que o líder vá direto ao ponto. Desta forma, os líderes orientados para a tarefa são os que tem a preferência do “eleitorado”. Eles tendem a fazer reuniões de avaliação de desempenho, com relatórios diretos e a abordarem comportamentos indesejáveis assim que eles são observados. Tendem também a serem menos interpessoais e empáticos.

O líder diplomático: em alguns lugares, finesse e bom trato são importantes não apenas para se relacionar bem, mas para seguir bem na “carreira” – também deixo uma leitura adicional, o artigo de 2003 publicado no Journal of Applied Psychology, intitulado da maneira tão característica dos artigos acadêmicos (explicando tudo já no título) “Using Theory to Evaluate Personality and Job-Performance Relations: A Socioanalytic Perspective”. Bom, em lugares como Nova Zelândia, Suécia, Canadá e grande parte da América Latina, os liderados preferem trabalhar com líderes que são capazes de manter conversas de maneira agradável e amigável. O confronto precisa ser tratado com empatia e de maneira construtiva. Estes tipos de gestores ajustam suas mensagens para manterem a discussão afável e o estilo de comunicação direta é visto como desnecessariamente dura.

Tendências negativas

Como nem tudo na vida é belo, vale “falar” um pouco a respeito de quando a liderança “dá errado” (no estilo when love goes wrong).

O líder “bicicleta”: essa expressão “tomei emprestada” do meu antigo chefe e mentor, Edmour Saiani. A achei adequada para “traduzir” a expressão “kiss up, kick down”. O significado é mais ou menos o mesmo, trata do líder que “abaixa a cabeça” para quem está em cima e “pedala” em que está em baixo. Quando as organizações enfatizam demais a hierarquia e o “charme” do cargo, estimulam um estilo de liderança caracterizado pela deferência excessiva e pela extrema atenção aos detalhes em relação ao trabalho do subordinado. Embora raramente leve a bons resultados de maneira consistente, este comportamento é tolerado em certos países da Ásia Ocidental (Turquia, Índia e Emirados Árabes), na Sérvia, na Grécia, no Quênia e na Coréia do Sul. O líder “bicicleta” tende a ser diligente e zeloso com seus chefes, mas intensamente dominador com quem trabalha para ele.

O líder passivo-agressivo: alguns líderes podem se tornar cínicos, desconfiados e, eventualmente, raivosos, quando submetidos ao estresse. Estas reações geralmente ocorrem quando ele é forçado a perseguir um objetivo ou realizar uma tarefa, sem “acreditar” no que está fazendo. Apesar de um nível de ceticismo ser benéfico, este comportamento, quando exagerado, pode também dificultar a execução de um trabalho. Líderes com esse estilo são mais aceitos na Indonésia e na Malásia, onde a aversão ao conflito não é mal vista. Tendem a ser críticos e ressentidos e, ironia das ironias, sua aversão ao conflito costuma gerar uma maior quantidade deles.

Certamente qualquer indivíduo tem a possibilidade de ajustar o seu estilo de acordo com o contexto, mas é inegável que requer um esforço consciente e concentrado para ir “contra” a sua tendência e hábitos naturais. Também é importante levar em conta a “cultura da organização” (mais um texto como referência, agora do psicólogo belga Christian Vandenberghe), que demanda uma análise mais específica para se identificar as qualidades que promovem e inibem o sucesso (isto porque uma organização nunca é igual a outra). Fica também a dica (a última, prometo), que um grupo de estudiosos identificou no já longínquo ano 2000. Quando alguém tem sucesso em um ambiente que não estimula o seu estilo de liderança, é porque conseguiu redefinir a cultura organizacional de um modo que refletisse a sua própria personalidade. Não é à toa que uma empresa (e uma sociedade) é a soma dos valores e crenças dos seus próprios líderes (e liderados).

Uma vila inteira

junho 16, 2016 § Deixe um comentário

engage-your-surrounding-community.jpeg

Por algum motivo, decidimos que em nossa sociedade – e de quebra, em nossas instituições educacionais – conversar a respeito de diversidade, preconceito, discriminação e desigualdade com crianças, só quando estiverem mais crescidinhas (o que varia de acordo com a percepção de cada um). Geralmente pensamos que crianças pequenas teriam mais dificuldade em entender estes assuntos complexos ou então somos movidos pelo desejo de poupá-las da exposição às injustiças o máximo possível (embora nem sempre seja possível). No entanto, crianças têm uma forte consciência em relação à justiça e notam diferenças sem desculpas ou desconforto.

A psicóloga Kristina Olson, em um texto publicado em 2013 no site Psychology Today, nota que por volta dos 2 ou 3 anos de idade começamos a ter consciência de que meninos e meninas possuem algumas diferenças e a notar deficiências físicas mais aparentes. Também começamos a ficar mais curiosos a respeito da cor da pele e da textura dos diferentes tipos de cabelos. Alguns de nós, inclusive, já podemos ter ciência da própria identidade étnica. De qualquer forma, aos 5 anos já nos identificamos com o grupo étnico a que pertencemos e somos capazes de explorar a gama de diferenças dentro e entre diferentes grupos étnicos.

Em termos de preconceitos, conforme sugere uma pesquisa de Harvard, noticiada pelo jornal Boston Globe em 2012, crianças de 3 anos quando expostas a preconceito e racismo, tendem a aceitá-los, embora ainda nem compreendam o sentimento. O já citado texto da Dra. Olson, nos traz ainda a informação de que crianças brancas de 3 e 4 anos dos EUA, Canadá, Austrália e Europa, mostram preferência e se sentem mais à vontade com outras crianças brancas do que com crianças de outras etnias.

A importância de conversar “assuntos sérios” com crianças transcende a questão dos preconceitos raciais, de gênero ou religião. É importante que os adultos tenham a consciência de como agir com as crianças que fazem parte de suas vidas. Perpetuar a ideia na criança de que devemos ser “daltônicos” para diferenças raciais ou a calar quando percebe alguém com uma deficiência física, não é a melhor opção. É preciso incentivá-la a notar diferenças (mesmo porque ela já o faz naturalmente), mas ao mesmo tempo, honrar as identidades das pessoas sem julgar ou discriminar com base nessas diferenças.

Sei que não é fácil, muitas vezes nós adultos temos certos desconfortos em falar de diferenças – nem sempre por preconceito, mas muito por receio de parecer tendencioso ou mesmo discriminador. Mas há alguns caminhos que podem facilitar esse trabalho e quem sabe, tornar o mundo um lugar mais seguro de se viver no futuro (escrevo este texto sob o impacto do horror dos acontecimentos em Orlando). Vamos a eles:

  1. Use a literatura como seu “cobertor”

Há uma enormidade de riqueza nos livros infantis, que pode ser usada para abordar o tema do preconceito, diversidade e justiça social. Há diferentes narrativas que trazem histórias sobre pessoas que são diferentes das suas crianças (em pedagogia, são conhecidos como livros de janela), narrativas para afirmar sua identidade (chamados de livros espelho) ou aquelas que expõem o preconceito ou compartilham histórias de pessoas que se levantaram contra injustiças. A leitura de livros, embora muito esquecida hoje, é uma parte essencial na formação do pequeno ser-humano e, portanto, uma maneira perfeita para abordar o tema. Como exemplo, sugiro o site da Anti-Defamation League, uma organização judaica criada em 1913 para combater o antissemitismo. Quem souber de organizações em língua portuguesa que promovam a conscientização através da leitura, por favor compartilhe.

  1. Use as notícias do dia a dia como temas

Vivemos no mundo da informação. Há inúmeras fontes delas, em diferentes plataformas. Não é difícil encontrar reportagens relevantes que destaquem abordagens preconceituosas ou mostrem alguém que se levantou contra uma injustiça e prevaleceu. Muhammad Ali, que faleceu no início do mês, pode ser um bom exemplo para comentar a respeito, tanto em relação aos seus pontos fortes (defesa da igualdade racial e religiosa), quanto suas falhas (como no tratamento que deu ao adversário Joe Frazier).

  1. Dê exemplos familiares

Tire vantagem do interesse das crianças em livros, programas de TV, brinquedos e jogos eletrônicos e os use como oportunidades para explorar a diversidade, preconceito e noções de justiça. A ideia aqui é estar atento ao que pode fornecer abertura para relacionar a realidade delas com a da sociedade em que vivem.

  1. Explore problemas e soluções

Ajude suas crianças a repensarem conceitos para explorarem possíveis soluções mais adiante. Por exemplo, o conceito “ajudar os outros” pode ser uma boa ponte para incluir discussões sobre desigualdades, o que contribui para o problema e que ações se pode considerar para resolvê-lo. Se você acha que são temas difíceis de se “trabalhar”, dê uma olhada no livro “Comprehension and Collaboration”, dos autores Stephanie Harvey e Harvey Daniels. Lá existem dicas excelentes de como combinar pesquisa, organização do pensamento e colaboração em grupo e aplicar consistentemente no processo de aprendizado de crianças.

Por fim, creio que a dica principal é começar cedo. Sei que criar um ser-humano não é tarefa fácil. Tem sempre alguém que acha que sabe mais do que os próprios pais e é muito conveniente ficar dando dica quando não se tem que dar banho, comida, levar para a escola, buscar, etc. Mas como diz um provérbio africano, “é necessária uma vila inteira para educar uma criança”. Esta é a singela contribuição de um morador.

O efeito Facebook e a diversidade

junho 6, 2016 § Deixe um comentário

Diversity-World.jpg

Há alguns anos comprei um boné do time de baseball New York Yankees na loja virtual do clube.  Nos meses seguintes, toda vez que navegava pela internet, os Yankees estavam ao meu encalço no canto da tela do navegador. Era um bastão assinado pelo Derek Jeter, um anel, uma toalha, camisas mil. Havia sido classificado e recebido um perfil: fã dos Yankees.

O mesmo acontece com os livros que compramos, sites que visitamos, música que ouvimos, filmes que assistimos e ideias que apoiamos. Tudo o que fazemos na rede é reforçado e validado, nunca desafiado. Esta é a realidade ao usarmos a rede social, em particular e a internet, em geral. Os algoritmos usados para analisar nosso comportamento buscam personalizar e customizar nossos gostos e não os contestar.

No final da década de 1980 e início da de 1990, a marca de roupas Benetton usava como slogan a frase “United Colors of Benetton”, em que pregava a diversidade. Hoje, as “cores” propagandeadas pelo nosso comportamento reduziram o interesse de boa parte dos usuários do ciberespaço a um tom apenas. O psicólogo Jonathan Haidt, autor de um excelente estudo a respeito de uma das mais antigas características da sociedade, o tribalismo (o estudo foi publicado no livro The Righteus Mind”) chama o processo de exacerbação desta característica de “Efeito Facebook” – “Facebook Effect” no original.

Ao se tomar consciência deste processo, vem a inevitável questão: como se livrar desta armadilha online?

O jornalista Marc Dunkelman, em seu interessante livro “The Vanishing Neighbor”, explora a interatividade social e seus efeitos em como, com quem e com que frequência nos comunicamos. Utilizando uma metáfora baseada na classificação dos anéis de Saturno (o planeta possui um complexo sistema de anéis, divididos em 3 níveis – interno, mediano e externo), o autor os relaciona com a proximidade dos relacionamentos de um indivíduo: o “anel interno” seria formado por aqueles como quem temos mais proximidade e os “anéis” “medianos” e “externos” representando conhecidos menos familiares e casuais. Dunkelman documenta uma dramática mudança cultural, onde a maior atenção dispensada por uma pessoa é dada aos membros dos “anéis” “internos” e “externos” em detrimento dos relacionamentos do nível mediano – aqueles com quem temos mais ou menos intimidade, mas que formam a maior variedade dos nossos conhecidos. Esta mudança atinge diretamente o que se convencionou chamar de “networking”, enfraquecendo a rede de contatos de uma pessoa e criando uma linha divisória que intensifica a polarização, uma vez que nos comunicamos mais com quem temos afinidade – os “internos” e com quem conhecemos apenas casualmente – os “externos” (as “conexões” ou “seguidores” das redes sociais). Como consequência, acabamos convivendo em um ambiente mais homogêneo e menos desafiador intelectualmente.

Bom, se a internet está desenhada a entregar mais do mesmo (qualquer que seja o mesmo), para se ter acesso à sua inesgotável diversidade, é necessário variar. Quanto mais abranger os seus interesses, mais possibilidade a pessoa tem de entrar em contato com ideias diferentes, trocar experiências (fortalecendo relacionamentos do nível mediano) e aumentar suas referências (facilitando a conexão do conhecimento).

O desafio que se coloca vai além de um feed não equilibrado de notícias ou do algoritmo de algum site. Trata-se de combater um tribalismo que existe há tanto tempo quanto a humanidade e que agora tem se enraizado no solo fértil da internet – o tornando nem tão fértil assim. Inovação vem da diversidade de ideias e do conhecimento que elas geram. Entrar em contato com elas, é responsabilidade de cada um individualmente. Uma frase que ouvi há vários anos marcou minha relação com a diversidade e com o conhecimento como um todo: “é preciso ter a consciência de que Shakespeare não virá até você, você é que precisa ir até ele”.

 

A era das inovações

maio 23, 2016 § 1 comentário

Building-Innovation-by-Strengthening-Bridges_knowledge_standard.jpg

Creio de que há pouca disputa em relação à crença de que a inovação está diretamente ligada ao crescimento econômico. Os defensores desta tese ganharam este ano um pouco mais de estofo em sua argumentação. Trata-se da excelente pesquisa feita pelo economista Robert J. Gordon, publicada sob o título The Rise and Fall of American Growth”. Nela, Gordon analisa o constante fluxo de inovação que revolucionou o modo de vida do mundo no espaço de meros 100 anos – de 1870 a 1970. Aborda também os motivos pelos quais esse fluxo se arrefeceu entre os anos 1970 e 2016, apesar da sensação trazida pelas inovações digitais das 2 últimas décadas.

Como o título do livro sugere, a pesquisa foi feita com base na história e experiência dos EUA. Um dos motivos, é o fato do período analisado marcar também um dos períodos com maior registro sociológico da humanidade e em particular, dos EUA. A popularização da imprensa é uma das razões para tal. Outro motivo, é o fato do período marcar também a ascensão do país como superpotência, com influência marcante no modo de vida do restante do mundo. Isto é inclusive o que faz o livro transcender a análise local e poder ser utilizado – obviamente fazendo as devidas correções e concessões a diferenças culturais e de desenvolvimento local – como um “retrato” do impacto das inovações no desenvolvimento da humanidade no período. Os saltos de 50 anos da análise, também contribuem para colocar em perspectiva as informações apresentadas. Nas próximas linhas, tentarei dar uma visão resumida do que o livro traz em 780 páginas. Chamo a atenção para o fato de não pretender resenhar o livro, apenas compartilhar minhas impressões e entendimentos.

1870

Com o fim da Guerra Civil, os EUA buscaram se reconstruir com base na integração. O grande marco foi a construção da primeira ferrovia intercontinental, que ligou as grandes cidades do Leste à Califórnia e, diga-se de passagem, também a milhares de pontos pelo caminho. Comparada com os padrões atuais, a vida da época era extremamente difícil. As casas eram iluminadas por velas ou óleo de baleia, apenas ¼ da população vivia em grandes cidades e a dieta era à base de carne de porco.

A razão pela qual os norte-americanos davam preferência ao porco se devia ao fato de serem animais que vivem em praticamente qualquer lugar (ao contrário dos bovinos, que demandam largas extensões de pasto) e sobrevivem facilmente com restos de comida. Além disto, a carne ao ser salgada ou defumada, podia ser preservada por um longo período. Como não existia refrigeração na época, raramente se produzia vegetais frescos (como alfaces), se dava preferência aos que podiam ser armazenados como abóboras, batatas e feijões. A única fruta largamente consumida era a maçã. Muito pelo fato de ser transformada em cidra ou brandy (uma espécie de conhaque).

Fazendo uma rápida comparação com o Brasil, não estávamos muito atrás. Foi o período final da Guerra do Paraguai e de uma inicial industrialização, muito por conta de iniciativas individuais como a do Barão de Mauá, mas que em certo momento foram “brecadas” pelo imperador – afinal eramos uma sociedade agrária. Nossa força de trabalho era escrava, o que não contribuía para a formação de um mercado consumidor. Pelo menos no quesito da dieta, a nossa era mais rica em termos de proteínas, vegetais e frutas.

A grande inovação do período foi o banheiro moderno. A criação da toalete (mais conhecida entre nós como privada) foi a força motriz da construção dos primeiros sistemas de águas e esgoto, que embora jogassem os dejetos diretamente em rios e mares, começou a contribuir para a percepção da importância sanitária na preservação da saúde. Também há a mudança da matriz de transportes, de cavalos e charretes para trens e embarcações à vapor. Isto permitiu, nos EUA, a criação de um incipiente mercado consumidor nacional, além de contribuir para a melhoria da qualidade de vida nas cidades – levando em consideração que um cavalo produz 20 kg de fezes e mais de 3 litros de urina por dia, o impacto não foi pequeno.

Em tempo, no período, a circulação de jornais alcançava 2,5 milhões de pessoas em uma população de cerca de 40 milhões.

1920

Com o final da I Guerra Mundial e com a Grande Depressão ainda por vir, o período marcou um salto enorme em relação aos 50 anos anteriores. As casas se tornaram mais “conectadas”. O sistema elétrico provia iluminação – sem gerar fumaça – redes urbanas mais robustas proviam água limpa em abundância e um sistema aprimorado de esgoto levava o cheiro e os dejetos para longe de boa parte da população. Os telefones já eram largamente utilizados e permitiam a comunicação em longa distância.

As inovações não foram apenas tecnológicas, mas urbanas. As grandes cidades receberam a classe trabalhadora, que pôde contar com apartamentos a preços acessíveis – também eram permitidos a construção de pequenas casas por conta própria. Em Chicago, por exemplo, a loja de departamento Sears vendia um “kit” de materiais pré-fabricados que permitiam a construção de uma casinha em 356 horas de trabalho manual. É claro que não existiam leis ambientais ou departamentos para supervisão urbanística (um levantamento mostrou que cerca de 40% das construções existentes em Manhattan não seriam permitidas pela legislação americana atual).

O número de hospitais cresceu de 120 em 1870 para 6000 em 1920 e a medicina se tornou mais uma ciência do que curandeira, com inúmeras especializações. Embora inovações na área ainda estivessem por vir, como os antibióticos, apenas a popularização dos serviços de águas e esgotos melhorou em 5 vezes a taxa de mortalidade.

Outra revolução foi nos transportes, o veículo automotivo começava a sua caminhada revolucionária, pulando de 8000 em 1900 para 23 milhões em 1929. Trens, bondes e metrôs reduziam distâncias e facilitavam a vida de quem morava nas cidades. Uma viagem de trem de Nova York a Chicago passou de 38 horas em 1870 para 24 horas em 1920 e 16 horas em 1940.

Foi também o início da era da comida processada e das geladeiras (eram chamadas de “icebox”). Estas duas inovações revolucionaram o modo de vida das pessoas, que começaram a ter disponíveis vegetais frescos durante o ano todo. Para efeito de comparação, o “café da manhã” típico em 1870 era composto de carne de porco e polenta, em 1920 era corn flakes (o nosso sucrilhos) e suco de laranja. Apesar disto, a “cozinha” da época não seria reconhecida nos nossos dias, não existia máquina de lavar (louça ou roupa) e as tomadas não possuíam modelo padrão. Mas, o cachorro-quente já era popular (foi criado em 1900 em Coney Island – Nova York) e o hambúrguer estilo americano dava seus primeiros passos, graças à forte imigração alemã.

O mercado consumidor já era bem desenvolvido, com cadeias de lojas que existem até hoje. Mas a grande inovação do varejo foram os supermercados. Outra grande inovação foi a entrega de encomendas via correios. Em 1900, apenas a Sears já recebia cerca de 100 mil pedidos por dia e seu catálogo de produtos vendia quase de tudo (não é à toa que o e-commerce se desenvolveu rápido em uma sociedade já acostumada a fazer negócios por via não presencial).

Outro fator de inovação foi a informação, não eram entregues apenas produtos na porta das casas americanas, jornais também. De 1910 a 1930, uma residência típica recebia em média 3 jornais diários. A era da informação eletrônica ainda não havia iniciado em 1920, mas a primeira estação de rádio “abriu as portas” neste mesmo ano e em 1923 já eram cerca de 550. Além disto, o fonógrafo já era largamente popular e o cinema, um sucesso absoluto, com quase o dobro de espectadores semanais do que hoje (levando em conta uma população relativamente menor).

1970

Muitas das inovações que começaram por volta de 1920 já eram parte fundamental da vida diária em 1970. Principalmente nas áreas de transporte e comunicações. Viagens aéreas já eram bem mais comuns e deixaram para trás as viagens transcontinentais de trem – fazendo em algumas horas a distância que era cruzada em vários dias. Para muitos, as viagens de avião nos anos 1970 eram mais prazerosas, com bebidas e comidas de alto nível sendo oferecidas e cadeiras bem mais espaçosas do que as atuais – verdade seja dita, alguns destes mimos sobrevivem até hoje, chama-se primeira classe. Eram tempos de viagens supersônicas, via Concorde, que possibilitavam quem podia pagar, almoçar em Paris e jantar em Nova York no mesmo dia.

Os carros também traziam inovações futurísticas se comparadas com os modelos de 50 anos antes. Em 1920, o Modelo T da Ford tinha que ser ligado à manivela. Em 1970 o Ford Mustang chegava à 100 km/h em questões de segundos e era equipado com rádio e ar-condicionado.

O ar-condicionado, inclusive, é uma inovação revolucionária a seu modo. Lançado pela primeira vez em 1923, ao longo de meio século impulsionou o aumento da população em cidades de clima quente. As casas norte-americanas tornaram universais tecnologias já populares, como energia elétrica (presente em 100% delas) e água corrente (em 98% delas). Geladeiras também atingiram os 100% de presença em 1970, com a sua qualidade muitas vezes superior às da década de 20 e preço muitas vezes inferior.

A dieta também mudou. Os norte-americanos consumiam bem menos porco e bem mais galinha e peru. A quantidade de vegetais frescos também diminuiu a medida em que diminuiu o número de pessoas morando no campo. As grandes cidades davam preferência à legumes em conserva e enlatados. Margarina substituiu a manteiga. Os supermercados passaram a ocupar mais espaço, criando os hipermercados. Para efeito de comparação, um supermercado em 1920 estocava cerca de 600 itens, em 1950 por volta de 2200 e em 1985 mais de 17000.

A comunicação em massa mudou radicalmente a forma de diversão das pessoas. Enquanto em 1920 as opções eram fonógrafo e cinema-mudo, em 1970 já haviam TV a cores, rádio e filmes com sons épicos nos cinemas. Os canais de TV, aliás, sem a concorrência nem do videocassete, batiam recordes e mais recordes de audiência.

2016

Aviões e automóveis ficaram mais seguros e rápidos. Inovações incentivadas pela melhoria da segurança são as grandes mudanças nos transportes: cintos de segurança, air-bags, legislação mais pesada contra abuso de álcool e restrições à cigarros ajudaram a salvar vidas, mas aviões maiores, assentos menores, máquinas de raio-x e procedimentos de embarque tornaram a experiência de voar mais frustrante – em 1940 era possível chegar 10 minutos antes de um voo, comprar passagem e embarcar. No quesito alimentação, o consumo de vegetais e frutas frescas voltou a aumentar, assim como o acesso a culinárias de diferentes culturas modificou os hábitos alimentares de milhões de indivíduos ao redor do mundo.

De 1970 para cá, a grande inovação em termos de eletrodoméstico foi o micro-ondas. Os demais tiveram alterações bem triviais, como mais eficiência aqui, um ganho ergonômico ali, menos necessidades de reparos. A verdade é que uma casa dos anos 1970 funcionava de forma bem parecida com uma de 2016. Ninguém se acharia colocado em um mundo diferente se por acaso trocasse de época.

Quer dizer, se não fosse colocado em frente a um computador. As grandes inovações nos últimos 46 anos se deram na tecnologia da informação e do entretenimento. O cliché da TV ir de 3 canais a 300 não conta toda a história. Os próprios aparelhos de TV passaram de 19 a mais de 50 polegadas e com uma definição de imagens que as tornam quase vivas. Filmes e programas estão disponíveis a qualquer hora, por meio de streaming e on-demand, tornando a “emissora de TV” quase irrelevante.

E tem também a internet. O impacto dela, apesar de ainda não ter sido completamente explorado e entendido, vai além de disponibilizar toda a produção notável da humanidade em termos de informação, literatura, arte-visual e plástica. O acesso portátil colocou este “poder” nas mãos de cada indivíduo dotado de smartphone e vem alterando a maneira como o ser-humano se relaciona com o conhecimento e entre si. Entrar em contato com parentes e amigos em lugares distantes também já não é tão problemático – Skype e FaceTime deram outra dimensão ao ato de “falar ao telefone”.

Como conclusão, pode-se dizer que as pessoas vivem e viajam tanto quanto poderiam há 40 anos. Comemos mais variedades de comidas e há mais consciência em relação ao impacto individual e coletivo no planeta. Produtos de todos os tipos ficaram melhores, mais seguros e eficientes. Mais ainda fica a questão em relação ao que se fará com o poder trazido pelos supercomputadores que carregamos em nossos bolsos e bolsas e se a era das inovações iniciadas em 1870 continua a “todo vapor” ou se perdeu impulso.

A programação é a nova alfabetização

maio 17, 2016 § Deixe um comentário

new-literacy.png

Este mês, completa um ano que comecei a programar. Meu início foi com uma das linguagens mais populares, Ruby, em um ambiente de desenvolvimento online chamado Cloud9. Nestes 12 meses, passei por outras linguagens (Python, outra preferida dos programadores) e montei meu próprio ambiente de programação local (quer dizer, em meu computador). Hoje estou “envolvido” com a linguagem R (é uma linguagem de programação estatística, usada bastante em Data Science).

Neste “meio tempo”, “devorei” o que encontrei pela frente em termos de conceitos, referências (livros, vídeos e pessoas) e filosofias para definir o meu próprio entendimento sobre o assunto. Quem se interessar, ou invés de começar por algum livro, manual técnico ou então por raciocínio lógico e lógica de programação, sugiro se inteirar em relação às filosofias que envolvem a programação computacional. Um livrinho bem bacana neste sentido é o do autor Douglas Rushkoff, professor de teoria da economia digital da City University of New York, “Program or Be Programmed”.

Quando se diz que a programação é a nova alfabetização, não se está insinuando que ela deva substituir o que chamamos de alfabetização hoje, mas sim se incluir no conceito. Não se engane, alfabetização é um conceito, que envolve as habilidades básicas que todo ser-humano deveria dominar para se inserir na sua sociedade.

Este conceito vem sendo desenvolvido desde o século XII, quando a habilidade da leitura começou a ganhar importância. No século XVI, recebeu a companhia da escrita e criou a base do modelo mental que temos de alfabetização. Mas como todo conceito, evolui. No século XVIII recebeu a adição da aritmética e no século XX, a da habilitação automotiva (sim, a carteira de motorista tem este status em boa parte dos países do mundo). No século XXI, chegou a vez da programação computacional ser incluída neste entendimento.

John McCarthy, o inventor da linguagem Lisp e a pessoa que cunhou o termo “Inteligência Artificial”, dizia que uma pessoa deveria aprender a programar para poder “falar com os servos”. Apesar do termo politicamente incorreto, McCarthy se referia ao fato de cada vez mais os seres-humanos gerenciarem máquinas (os “servos”) e as máquinas, ainda hoje, só conseguem fazer o seu trabalho se o ser-humano disser, especificamente, o que e como elas devem fazer. É preciso dar instruções claras. A maneira de se fazer isto, é pela programação computacional.

Desta forma, programar não é mais uma habilidade-nicho (que apenas uma determinada profissão conhece), é uma habilidade essencial para qualquer pessoa com ambição em obter sucesso. É tão importante, que várias organizações se propõe a ensinar programação básica de graça. CodeAcademy, edX e Free Code Camp são alguns exemplos. Vários cursos básicos já são oferecidos em português, graças ao trabalho voluntário de algumas pessoas, mas a maioria dos gratuitos ainda é em inglês.

É claro que aprender a programar não é simples. Há inúmeras dificuldades – principalmente se quem estiver aprendendo já vier com uma baixa formação em matemática e raciocínio lógico – mas se alfabetizar não é simples. É sabido que algumas condições podem se somar aos obstáculos comuns que todo aprendizado traz, por exemplo, dislexia dificulta o aprendizado da leitura e discalculia torna o aprendizado matemático muito mais penoso. Mas é importante deixar claro, que é cada vez mais consenso entre educadores e cientistas cognitivos, que qualquer pessoa que esteja no domínio de suas faculdades mentais, pode aprender a programar – assim como pode aprender a ler, a escrever, a fazer conta e a dirigir. A Khan Academy disponibiliza um vídeo sobre a importância de se manter uma mentalidade de crescimento, essencial para aprender qualquer coisa.

Não se propõe que todo mundo vire desenvolvedor de softwares. O fato de alguém aprender a escrever, por exemplo, não significa que a pessoa se tornará uma escritora ou alguém que aprenda aritmética se tornará um matemático profissional. Mas todos que sabem escrever ou conhecem aritmética, se tornam mais habilidosos para caminharem pelas próprias pernas na “luta” pelo pão de cada dia.

Minha experiência neste último ano me mostrou coisas novas, coisas que havia esquecido e principalmente, me possibilitou começar a desenvolver uma habilidade que nunca considerei que pudesse me trazer tanto conhecimento. Meu conselho é: aprenda a programar, aprenda a falar com as máquinas, você não vai se arrepender.

Eu acho que…

maio 4, 2016 § Deixe um comentário

bigstock-Silhouette-With-Thought-Bubble-3.19.13.jpg

Em um artigo publicado em 2014, Microaggression and Moral Cultures, os acadêmicos Bradley Campbell e Jason Manning identificam uma mudança na postura de algumas universidades, que ao invés de “celebrarem” a liberdade de expressão passaram a defender uma espécie de “cultura da vitimização”, pressupondo que as pessoas são inerentemente frágeis e, portanto, deve-se evitar falar algo que possa ofendê-las. Essa postura foi fortalecida pelo que ficou conhecido como “politicamente correto”.

O “politicamente correto” também incentivou a popularização da frase “eu acho que”, muito comum aos ouvidos “mais atentos”. Assim como frases similares em outras línguas, como a inglesa “I feel like”, “eu acho que” traz um paradoxo embutido. Ao “mascarar” uma afirmação como uma “humilde opinião”, ela atua como “coringa” bloqueando argumentações contrárias, porque traz implícito que o emissor não tem tanta experiência (pois apenas “acha”) ao mesmo tempo que reforça opiniões semelhantes. Atua como um “escudo” imediato de quem a usa.

Em tempos de polarização, é entendível que as pessoas queiram se resguardar, mas uma das grandes conquistas da era contemporânea (pós revolução francesa), foi a habilidade de argumentar sem resultar (na maioria das vezes) em violência física. É a premissa do “conflito civilizado”, embutido na democracia moderna. Ao mascarar o conflito, “eu acho que” reprime debates e “alimenta” todo tipo de “achismo”, desde como organizar uma educação pública de qualidade até quem apoiar como candidato à presidência. Atua como uma espécie de coerção da esfera pública e privada.  A verdade é que “achismo” não gera proposta.

Em seu artigo publicado em 1946, “Politics and the English Language”, o escritor George Orwell escreveu a famosa frase “se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também corrompe o pensamento”. No texto, Orwell se preocupa com o efeito da linguagem em nossa habilidade de pensar. Não se trata somente em ter todos os pontos claramente definidos, mas sim em ter, “para início de conversa”, um ponto que valha a pena ser proposto. Isto demanda formular ideias equipadas com o melhor “arsenal” possível em termos de ordem, alcance e precisão. Ao usar “eu acho que”, todo este arsenal é “jogado fora”.

Orwell propunha que as pessoas, além de explicarem claramente o que queriam dizer, tivessem algo válido a ser compartilhado. Ele deixou duas dicas imbatíveis neste quesito:

1) tenha algo significativo para dizer – antes de dizer;

2) quanto mais clara for sua linguagem, melhor será o seu pensamento.

Usar “eu acho que”, diminui a substância do que uma pessoa quer falar. Ao imbuir o pensamento de subjetivismo, e tornar o subjetivismo um fim em si mesmo, menos expressivo o próprio pensamento se torna. Se alguém quiser realmente criar uma “estrutura” de pensamento crítico e criativo para si mesmo e desenvolver a habilidade de propor soluções aos problemas que aparecem no seu cotidiano, deve cultivar a arte da conversação. O primeiro passo é abandonar “vícios” verbais que possam influenciar maus hábitos.

Uma sugestão: na próxima vez em que participar de uma reunião de trabalho, discussão em sala de aula ou jantar em família, substitua “eu acho que” por “eu penso que” ou “eu acredito que” e veja a reação dos demais às suas ideias. Não devemos “achar”, devemos argumentar racionalmente, sentir profundamente e assumir a completa responsabilidade da nossa interação com o restante do mundo.

Bola de cristal

abril 1, 2016 § 2 Comentários

big-data-analytics.png

De um ano para cá tenho desenvolvido um interesse crescente em métodos de análise e modelagem de dados, no que é comumente conhecido como Data Analytics. O que começou como um conhecimento para apoiar o trabalho que desenvolvo em avaliação de ações educacionais, se tornou rapidamente uma fonte de grande prazer pessoal. Conhecer técnicas de Data Analytics é como ter à disposição uma bola de cristal. Utiliza-se os próprios dados disponíveis para identificar seus padrões, promover análises variadas e prever “comportamentos”.

Uma das aplicações possíveis deste campo, embora não muito comumente usada, é na área educacional. Notas, resultados de testes, frequência de aulas, registros de disciplina e ferramentas de desenvolvimento profissional produzem dados que, colocados em certa perspectiva, geram informações valiosíssimas para o próprio sistema. Embora não seja um pré-requisito, o uso da tecnologia na geração e recuperação desses dados tem um papel fundamental na qualidade deles (traz mais acuidade), além de ser um grande incentivador para a integração da própria tecnologia para fins educacionais. Mais do que repositórios para materiais, aulas e atividades, ambientes virtuais são ferramentas de apoio e estímulo ao aprendizado e criam um sistema de comunicação para pais, professores e comunidade. Para a análise de dados, é ouro puro.

O uso de análise preditiva (uma das aplicações de Data Analytics) pode ser determinante, por exemplo, para identificar alunos em risco de não se formarem ou que tenham mais possibilidade de abandonarem os estudos. Uma atuação direcionada antes destes eventos ocorrerem faz toda a diferença na vida dessas pessoas.

Pode-se também “olhar” para além da frequência, dos aspectos disciplinares e das notas e “rastrear” como os estudantes interagem com os recursos de aprendizagem e como se envolvem com o conteúdo e enviar sugestões automáticas de uso para os professores ou para os próprios alunos.

O primeiro ponto nessa história – uso de Data Analytics com viés educacional – é definir as prioridades estratégicas de um sistema de gerenciamento e tecnologia aplicado à educação. Geralmente a intenção é “expandir” as paredes da sala de aula, promover a colaboração e “nutrir” a criatividade e a inovação em alunos e professores. Mas, estas palavras de “ordem” perdem completamente o sentido se não se tiver claramente definido como estes objetivos serão atingidos.

O segundo, é entender que habilidades deverão ser desenvolvidas em todos os usuários do sistema. É a partir delas que se definem as ferramentas a serem usadas (que nem precisam necessariamente serem “tecnológicas”). Com as ferramentas definidas, se consegue também entender como os dados serão “produzidos”.

O terceiro ponto é sistematizar a análise. O uso da tecnologia facilita, mas uma análise que traga informações relevantes atua basicamente “em cima” de requisitos e de critérios para avaliar ensino e aprendizagem, melhorar a comunicação, reforçar a ligação entre a escola e a casa do aluno e garantir a excelência operacional e analítica das práticas correntes do sistema escolar.

O quarto e último ponto é a tecnologia em si. Reflita nos pontos anteriores: a tecnologia é essencial para desenvolver algum deles? A resposta (como já deve ter percebido) é não. Mas, tê-la envolvida é mais ou menos como disputar uma corrida usando uma charrete ou uma Ferrari. Se conseguirá cruzar a “linha de chegada” com as duas, mas o tempo de uma será infinitamente diferente da outra.

E tempo, conta.

Agregar tecnologia à educação é uma questão de “mentalidade de crescimento” (no original, growth mindset). É a crença de que “qualidades” podem mudar e de que podemos desenvolver a nossa inteligência e habilidades. A definição geral de growth mindset pode ser dividida em vários conceitos, tais como a importância de cometer e consertar erros ou refletir sobre o próprio processo de aprendizagem, o que os une é o fato de serem fundamentais para “ensinar” uma pessoa a atuar em um mundo em que criatividade e pensamento inovador constituem ativos de extremo valor.

 

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com aprendizado em Marcelo Tibau.