Foi 51 a 49, só que ao contrário (a anatomia de um erro)

outubro 28, 2026 § Deixe um comentário

O TSE confirmou Lula reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de 4,4 milhões de votos. Três semanas antes, no primeiro turno, Flávio tinha terminado à frente por 2,2 milhões. Na véspera da eleição, a versão final do modelo que apresentei aqui apontava o contrário, 51,06% para Flávio e 48,94% para Lula, um erro de 2,85 pontos percentuais.

Ao divulgar a última atualização, propus um critério para julgar o modelo depois do resultado, checar se a realidade havia caído dentro das faixas de incerteza. Por esse critério, o modelo falhou. A faixa de 95% ia de 49,54% a 52,57% para Flávio e o resultado ficou 1,33 ponto abaixo do seu limite inferior. Mas o modelo não errou sozinho.

Todos os seus componentes e todas as pesquisas finais de segundo turno erraram na mesma direção, superestimando Flávio entre 2,3 e 3,8 pontos. De qualquer forma, entendo que isso não absolve a modelagem feita. Ela foi construída justamente para não depender de uma única fonte e para levar em conta a possibilidade de um erro comum das pesquisas. Se mesmo assim errou fora da sua própria margem, algo na sua estrutura precisa ser revisto. É isso que pretendo fazer neste texto.

Minha ideia é comparar o que o modelo disse com o que aconteceu, identificando onde ele errou, mostrando de onde veio a vitória de Lula e apresentando algumas hipóteses para o que as pesquisas não viram. Prefiro publicar uma análise honesta a deixar o modelo anterior falando sozinho.

Para início de conversa, a forma mais direta de avaliar o modelo seria colocar lado a lado cada uma das suas peças, as pesquisas finais e o resultado oficial.

Figura 1: Componentes do modelo e pesquisas finais, comparados ao resultado oficial (linha vermelha). A faixa grossa é o intervalo de 80% da estimativa combinada; a fina, o de 95%. Gráfico em inglês.

AnáliseFlávio (previsto)Erro em relação ao resultado
Agregado de pesquisas (50%)50,99%+2,78 pp
Transferência de votos (25%)51,51%+3,30 pp
Modelo expandido (15%)50,52%+2,31 pp
Tendência recente (10%)51,14%+2,93 pp
Estimativa combinada51,06%+2,85 pp
Palver (24/10)50,51%+2,29 pp
Quaest (24/10)51,00%+2,79 pp
Datafolha (24/10)51,00%+2,79 pp
PoderData/Aya (22/10)51,00%+2,79 pp
Veritá (23/10)51,30%+3,09 pp
RealTime Big Data (23/10)52,00%+3,79 pp

Tabela 1: Resultado oficial, Flávio 48,21%. Erro positivo significa que a fonte superestimou Flávio.

Três coisas saltam aos olhos. A primeira é que todos erraram para o mesmo lado. Nenhuma pesquisa e nenhum componente do modelo chegaram perto de 48%. As pesquisas finais superestimaram Flávio, em média, 2,9 pontos (foi o conjunto todo fora da curva). Segundo, as pesquisas concordavam entre si e foi essa concordância que gerou o engano. As seis pesquisas finais ficaram dentro de uma faixa de apenas 1,5 ponto, entre 50,5% e 52%. Em geral, quando institutos com métodos diferentes chegam a números parecidos, ganhamos confiança. Mas agregar fontes só reduz o erro quando os erros de cada uma são independentes e tendem a se compensar. Quando todas erram na mesma direção, a média apenas reproduz o erro comum, com uma aparência de precisão maior. Foi exatamente o que aconteceu com o agregado de pesquisas do modelo.

A terceira é que as peças que apontavam para Lula foram as que mais se aproximaram do resultado. O modelo expandido, que incorporava o retorno de quem não votou no primeiro turno e por isso puxava a estimativa em direção a Lula, foi o componente que menos errou (+2,31 pp). Entre as pesquisas, a mais próxima foi a Palver (+2,29 pp), justamente a que vinha mostrando a disputa mais apertada e a migração mais favorável a Lula entre os eleitores de Cury. No sentido oposto, a camada de transferência de votos, que eu considerava a mais protegida por estar ancorada no voto real do primeiro turno, foi a que mais errou (+3,30 pp). Volto a esse ponto daqui a pouco, porque ele é central para entender a falha.

Onde o modelo errou

Separo a falha em quatro pontos, da mais importante para a menos. Para começar, o que não foi o problema: os pesos. Seria natural suspeitar dos pesos que atribuí a cada componente (50% para as pesquisas, 25% para a transferência, 15% para o modelo expandido e 10% para a tendência), mas a realidade (e a tabela da seção anterior) mostra que eles não explicam a falha. Todos os quatro componentes apontavam vitória de Flávio e o que menos errou, o modelo expandido, ainda indicava 50,52%. Nenhuma combinação de pesos teria produzido uma vitória de Lula, pois o problema estava nas informações que alimentavam o modelo e na forma como ele tratava a incerteza, não na maneira de combiná-las.

O primeiro ponto foi que o teste de viés olhava só para um lado. O modelo tinha uma camada específica para testar a hipótese de que todas as pesquisas errassem juntas, ela foi motivada por dois especialistas do setor que, dias antes da eleição, levantaram publicamente a possibilidade de que as pesquisas estivessem sub-representando o eleitorado de direita. Por isso, testei cenários em que Flávio estaria sendo subestimado em 0,75 e em 1,5 ponto. O erro real foi na direção oposta. Ao construir o teste em um sentido único, deixei de lado a pergunta simétrica, que era igualmente legítima. No primeiro texto, registrei isso apenas como uma ressalva, deveria ter feito as contas.

Depois da eleição, rodei o mesmo teste na direção contrária para entender o comportamento do modelo. O resultado está no gráfico abaixo.

Figura 2: Estimativa combinada do modelo sob diferentes hipóteses de viés comum das pesquisas. À esquerda, cenários de subestimação de Lula, calculados depois da eleição; à direita, os cenários publicados antes dela. A linha vermelha é o resultado oficial. Gráfico em inglês.

Alguns números resumem o teste, 1,33 ponto era o viés comum necessário apenas para levar o modelo ao empate. Com um viés dessa ordem a favor de Lula, a estimativa central já teria se invertido. No cenário “forte” de subestimação de Lula (1,5 ponto), o modelo daria 50,14% para Lula. Mesmo assim, o resultado real ficaria 0,14 ponto fora da faixa de 95% desse cenário. Para acertar exatamente o resultado apenas por essa via, seria preciso um viés de cerca de 3,6 pontos.

Vale um cuidado com este último número, como o modelo supunha que a camada de transferência absorveria só metade de qualquer viés das pesquisas, o valor necessário fica inflado. O erro efetivamente medido nas pesquisas finais foi de 2,9 pontos em média, como vimos no início do texto. Ainda assim, ambos são muito maiores do que o cenário mais extremo que eu havia considerado. Testar os dois lados teria tornado a análise mais equilibrada, mas não teria bastado para salvar o modelo. O tamanho do erro era o problema maior, mais até do que a direção.

O que nos leva ao segundo ponto. A faixa de 95% do cenário neutro tinha cerca de 3 pontos de largura, de 49,54% a 52,57%, ou seja, o modelo admitia, com alguma folga, um erro de até 1,5 ponto para cada lado. O erro real foi de 2,85. As faixas foram obtidas por simulação, combinando a incerteza de cada componente com um termo de erro comum a todos. O problema é que esse termo comum era pequeno e na prática, o modelo tratava a maior parte da incerteza como se viesse de fontes independentes, que tendem a se compensar. Como vimos, não foi o caso. As pesquisas erraram juntas porque todas dependiam, em última instância, das mesmas entrevistas e dos mesmos métodos de coleta.

Um modelo que agrega pesquisas precisa admitir explicitamente que o conjunto inteiro pode errar por 2 ou 3 pontos na mesma direção. A forma correta de calibrar esse termo é usar o histórico de erros das pesquisas em eleições anteriores e não um valor escolhido a priori. É a principal correção que eu faria.

O terceiro ponto é que a âncora do primeiro turno protegia menos do que eu supunha, uma vez que a camada de transferência foi a que mais errou (+3,30 pp). Eu a considerava parcialmente protegida dos erros das pesquisas por estar ancorada no voto real do primeiro turno. Foi por isso, aliás, que o teste de viés lhe aplicava apenas metade de qualquer erro comum.

Embora a âncora seja sólida, o resultado do primeiro turno é fato, as taxas de migração aplicadas sobre ela vinham das próprias pesquisas, mais exatamente dos cruzamentos que perguntam aos eleitores de Cury, Renan e Caiado em quem votariam no segundo turno. Essas taxas herdaram os vieses das pesquisas e acrescentaram um problema próprio, serem estimadas em subamostras pequenas, com margens de erro muito maiores do que as das pesquisas como um todo.

O resultado mostra o tamanho da distância. Numa conta simplificada, a camada de transferência implicava que os votos em disputa se dividiriam aproximadamente em 57% para Flávio e 43% para Lula. Nos números oficiais, Lula ficou com 73,6% do ganho líquido de votos entre os dois turnos, como detalho a seguir. Esse dado é líquido e mistura migração com comparecimento, mas a diferença é grande demais para ser só isso.

Também houve uma escolha minha que vale registrar. O conjunto de transferências combinava cinco institutos e as leituras mais favoráveis a Lula, como a da Palver para os eleitores de Cury (64% a 32%), acabaram diluídas pela média. Além disso, mantive na camada de transferência os cruzamentos da Quaest de 14 de outubro, mesmo depois de o instituto divulgar uma rodada mais recente, em 21 de outubro, em que os eleitores de Cury apareciam indo 48% para Lula e 33% para Flávio. Não é óbvio que a troca teria mudado muito o resultado da camada, porque na mesma rodada os eleitores de Renan e Caiado se moveram em direção a Flávio. É possível que os sinais que apontavam para Lula estivessem nos dados, mas a estrutura do modelo os suavizou.

O último ponto vai na direção certa, mas com intensidade insuficiente. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para cerca de 19,2% no segundo, e brancos e nulos também diminuíram. No total, o segundo turno teve cerca de 4,8 milhões de votos válidos a mais do que o primeiro. O modelo expandido existia justamente para captar esse efeito. As pesquisas indicavam que quem não havia votado no primeiro turno pendia levemente para Lula e, por isso, essa camada puxava a estimativa em direção a ele. Foi o componente que menos errou. Mas, por cautela, eu o construí de forma conservadora, supondo que só uma parte desse grupo voltaria às urnas e lhe dei apenas 15% do peso. A direção estava certa, mas a magnitude não. Dessa forma, o comparecimento foi tratado com timidez.

De onde veio a vitória

Os números oficiais do TSE permitem reconstruir o caminho entre os dois turnos.

1º turno2º turnoVariação
Lula53.879.53864.256.232+10.376.694
Flávio Bolsonaro56.104.50359.826.041+3.721.538
Demais candidatos9.316.747—−9.316.747
Votos válidos119.300.788124.082.273+4.781.485
Diferença entre os finalistasFlávio +2.224.965Lula +4.430.191

Tabela 2: Distribuição dos votos de primeiro e segundo turnos.

Figura 3: À esquerda, os votos de cada finalista no primeiro e no segundo turno. À direita, de onde vieram os 14,1 milhões de votos que os dois ganharam entre os turnos e para quem foram. Gráfico em inglês.

Entre um turno e outro, os dois finalistas somaram juntos 14,1 milhões de votos a mais. Esse total vem de duas fontes, os 9,3 milhões de votos que, no primeiro turno, foram para os candidatos eliminados, sobretudo Augusto Cury (3,4 milhões), Renan Santos (2,7 milhões) e Ronaldo Caiado (2,6 milhões); e os 4,8 milhões de votos válidos a mais no segundo turno, resultado da queda da abstenção (cerca de 3 milhões de pessoas a mais foram votar) e da redução de brancos e nulos (cerca de 1,9 milhão a menos).

Desse total, Lula ficou com 10,4 milhões, ou 73,6%, e Flávio com 3,7 milhões, ou 26,4%. Foi isso que transformou uma desvantagem de 2,2 milhões de votos no primeiro turno em uma vitória por 4,4 milhões no segundo, uma virada de 6,7 milhões de votos.

É preciso um certo cuidado na leitura. Esses são fluxos líquidos, ou seja, mostram o saldo final de cada candidato, mas não quem exatamente votou em quem. Por trás do mesmo saldo podem estar movimentos muito diferentes como eleitores de Cury, Renan e Caiado escolhendo um dos finalistas; pessoas que não votaram no primeiro turno e votaram no segundo; eleitores que trocaram de finalista entre os turnos; e eleitores dos finalistas que votaram no primeiro turno e não voltaram no segundo.

Os dados agregados não permitem separar esses efeitos, mas permitem um exercício útil. Suponha, para simplificar, que nenhum eleitor dos finalistas tenha trocado de lado ou deixado de votar. Nesse caso, mesmo que todos os 4,8 milhões de novos votos válidos tivessem ido para Lula, ele ainda precisaria ter conquistado cerca de 60% dos votos dos candidatos eliminados. Agora, se os novos eleitores tivessem se dividido como as pesquisas indicavam para quem não votou no primeiro turno (levemente a favor de Lula), ele precisaria ter conquistado cerca de 84% dos votos dos eliminados.

Antes da eleição, as pesquisas sugeriam o contrário, ou seja, uma divisão desses votos favorável a Flávio, algo próximo de 57% a 43% na conta simplificada do modelo. Nenhum dos cenários acima é compatível com isso.

Sobram, portanto, duas explicações possíveis, que não se excluem. Ou os eleitores dos candidatos eliminados migraram para Lula em uma proporção muito maior do que as pesquisas captaram, ou houve movimento entre os próprios eleitores dos finalistas. Isso significa que parte de quem votou em Flávio no primeiro turno mudou de voto ou ficou em casa no segundo. O mais provável é uma combinação das duas. Em qualquer caso, houve um movimento em direção a Lula que nenhuma pesquisa registrou.

O que as pesquisas não viram

Por que um movimento de alguns pontos em direção a Lula passou despercebido por todas as pesquisas? O que segue é a minha leitura, não uma conclusão demonstrada. Os dados disponíveis não permitem medir o peso de cada hipótese, e, como comentei acima, é provável que mais de uma tenha atuado ao mesmo tempo.

A primeira hipótese é a de que parte do eleitorado decidiu, ou mudou de ideia, depois das últimas pesquisas. O trabalho de campo das pesquisas finais terminou em 23 e 24 de outubro, um ou dois dias antes da votação. Qualquer movimento ocorrido depois disso simplesmente não poderia aparecer nos números.

Minha leitura é que a postura de Flávio nos debates pode ter pesado. Mas há uma ressalva importante, se o efeito dos debates tivesse se manifestado logo depois deles, as pesquisas seguintes deveriam tê-lo captado. Para que essa hipótese explique o erro, o efeito precisaria ter amadurecido tarde, nos últimos dias, quando muitos eleitores costumam consolidar o voto.

Episódios envolvendo apoiadores também podem ter contribuído. No sábado, véspera da eleição, um homem negro apareceu acorrentado, vestido com referências ao PT, durante um ato de campanha de Flávio na Barra da Tijuca. Os envolvidos alegaram tratar-se de uma “sátira” e pediram desculpas (O Globo). No domingo, uma eleitora fez uma saudação nazista para um homem judeu após votar no Colégio Santo Inácio, no Rio, e o caso foi registrado na polícia (UOL).

Os dois episódios têm alcance diferente. O primeiro viralizou nas redes entre a noite de sábado e a manhã de domingo, antes que a maioria dos eleitores votasse. O segundo aconteceu durante a própria votação, quando boa parte do eleitorado já tinha votado, e dificilmente mudou muitos votos. Nenhum dos dois, isoladamente, explica um deslocamento de quase três pontos. Fazem mais sentido como parte de um clima de fim de campanha do que como causa única.

A segunda hipótese é a de que o problema não foi o eleitor mudar, mas as pesquisas não o alcançarem. Antes da eleição, especialistas do setor alertaram que o eleitorado de direita poderia estar sub-representado nas amostras, por recusar entrevistas, morar em áreas de difícil acesso ou ser menos alcançável por telefone. O resultado sugere que, se houve um problema de representação, ele funcionou no sentido oposto. Quem ficou sub-representado, ou menos disposto a declarar o voto, foi uma parte do eleitorado de Lula. Isso é coerente com o padrão observado na Tabela 1. O erro foi praticamente o mesmo em institutos com métodos diferentes, sejam presenciais, telefônicos ou online. Um problema comum de não resposta afetaria todos eles da mesma forma, algo que uma mudança de método de um instituto isolado não explicaria.

A terceira hipótese é a do comparecimento diferencial. Cerca de 3 milhões de pessoas a mais foram votar no segundo turno. Embora as pesquisas entrevistem eleitores aptos, não sabem com precisão quem de fato irá às urnas. Se os eleitores que voltaram a votar pendiam mais para Lula do que as pesquisas indicavam, ou se parte dos eleitores de Flávio no primeiro turno deixou de votar no segundo, o resultado se desloca sem que as intenções de voto medidas estejam erradas. Como vimos, a camada do modelo dedicada a esse efeito foi justamente a que menos errou.

Como testar essas hipóteses? Nenhuma dessas explicações pode ser confirmada apenas com os totais nacionais. Mas elas deixam rastros diferentes, que podem ser investigados:

  • os resultados por seção eleitoral permitem verificar se a virada foi maior onde a abstenção caiu mais (o que reforçaria a hipótese do comparecimento) ou onde Cury, Renan e Caiado tiveram mais votos (o que apontaria para a migração);
  • pesquisas pós-eleitorais, que perguntam em quem a pessoa votou e quando decidiu, ajudam a separar a mudança tardia do problema de amostragem;
  • a comparação entre institutos e métodos, quando os relatórios completos forem divulgados, pode indicar se algum modo de coleta errou menos.

É um trabalho que pode ser feito quando os dados detalhados estiverem disponíveis.

O que eu mudaria

Um modelo que erra só é útil se o erro ensinar alguma coisa, de forma que vale explorar alguns caminhos. A primeira mudança é a mais simples: o teste de viés comum precisa ser simétrico por padrão, com os mesmos cenários para a subestimação de cada candidato. A hipótese que circula no debate público pode orientar qual lado recebe mais atenção no texto, mas não deve decidir quais contas são feitas. Se eu tivesse publicado os dois sentidos antes da eleição, os leitores teriam visto que um erro de apenas 1,33 ponto a favor de Lula bastaria para inverter a estimativa central. Essa informação estava ao alcance do modelo e ficou de fora por uma escolha minha.

A segunda mudança diz respeito ao tamanho da incerteza. O termo que representa a possibilidade de todas as pesquisas errarem juntas não deveria ser escolhido a priori, mas estimado a partir dos erros das pesquisas em eleições anteriores. Ele também deveria admitir erros grandes com mais frequência do que uma distribuição normal admite, porque é assim que os erros de pesquisa costumam se comportar. Na maior parte do tempo são pequenos, mas de vez em quando são grandes e afetam todos os institutos ao mesmo tempo. Na prática, isso alargaria as faixas. Uma faixa larga que contém o resultado é mais útil do que uma faixa estreita que transmite uma precisão que o modelo não tinha.

A terceira mudança é tratar a camada de transferência pelo que ela realmente é, um dado de pesquisa. Ela deveria receber a exposição integral a qualquer viés comum e não apenas metade, porque as taxas de migração vêm das mesmas entrevistas que produzem as intenções de voto. Também precisaria levar em conta o tamanho das subamostras, dando menos peso a cruzamentos estimados com poucos entrevistados e propagando essa incerteza até as faixas finais. A divergência entre institutos deveria ser preservada, em vez de diluída numa média. Por exemplo, quando cinco institutos discordam fortemente sobre os eleitores de Cury, essa discordância é informação sobre a incerteza e deveria alargar as faixas em vez de desaparecer. Por coerência, a regra que já valia para as pesquisas principais, segundo a qual uma rodada nova de um instituto substitui a anterior, deveria valer também para os cruzamentos.

A quarta mudança é dar ao comparecimento o espaço que ele merece. Em vez de um ajuste conservador com peso pequeno, o modelo deveria trabalhar com cenários explícitos de abstenção (estável, em queda moderada e em queda forte), cada um com uma estimativa da composição política de quem volta a votar. A queda de quase dois pontos na abstenção entre os turnos não foi um evento extraordinário e o modelo deveria tê-la tratado como uma possibilidade central, não marginal.

Há ainda duas mudanças de menor escala. Uma é estimar o viés próprio de cada instituto. O piso metodológico limitava a influência de pesquisas isoladas, mas não identificava se algum instituto tendia sistematicamente para um lado, e com o histórico desta e de outras eleições é possível medir esses desvios e corrigi-los antes da agregação. A outra é de apresentação. Mesmo cercado de ressalvas, um número como “51,06%” chama mais atenção do que qualquer faixa. Na próxima vez, a faixa viria primeiro e a estimativa central depois.

Nem tudo, porém, precisa mudar. Algumas decisões se mostraram corretas e continuam valendo, como converter todas as pesquisas para votos válidos, substituir rodadas antigas de um mesmo instituto em vez de acumulá-las, limitar o peso de amostras muito grandes e separar com clareza o que é evidência, o que é premissa e o que é teste de sensibilidade. Acima de tudo, vale manter a decisão de publicar as premissas de forma aberta. Foi essa transparência que permitiu, agora, identificar com precisão onde o modelo falhou.

Para fechar

Este modelo nasceu de uma pergunta simples, o que se ganha ao juntar as peças, em vez de ler cada pesquisa isoladamente? A resposta que o resultado deu é menos confortável do que eu esperava. Juntar as peças reduz o ruído de cada fonte, mas não protege contra um erro que todas compartilham. Quando as pesquisas erram juntas, um agregador bem construído erra junto com elas e com mais convicção.

Há uma ironia nisso. Na véspera da eleição, fiz um exercício a pedido de conhecidos para descobrir o que seria preciso para Lula vencer e a conclusão foi que nenhum movimento extremo bastaria sozinho, mas sim uma combinação de movimentos moderados na mesma direção. Entre esses movimentos estavam um erro comum das pesquisas e uma migração dos eleitores dos candidatos derrotados muito mais favorável a Lula do que os cruzamentos indicavam. Foi mais ou menos o que aconteceu, só que com uma intensidade maior do que eu considerava plausível. O modelo tinha o mapa dos caminhos possíveis e subestimou a distância que a realidade estava disposta a percorrer.

Mas prefiro um erro bem documentado a um acerto por sorte. Se o modelo tivesse acertado o vencedor com as mesmas falhas de estrutura, eu teria aprendido menos, e provavelmente as repetiria na próxima eleição. Como errou fora da sua própria margem, ficou claro onde ele precisa mudar: no tamanho da incerteza, na simetria dos testes, no tratamento das transferências e no peso dado ao comparecimento.

Agradeço a quem acompanhou as atualizações ao longo da última semana de campanha. O texto original continua no ar, sem alterações, para quem quiser comparar o que foi dito antes com o que aconteceu depois.

Fonte: TSE, totalização do primeiro turno (100% das seções) e do segundo turno. Os números de abstenção e de brancos e nulos do segundo turno são aproximados, porque o TSE os divulgou de forma arredondada.

Além da pesquisa isolada, um modelo para ler o segundo turno de 2026

outubro 22, 2026 § 1 comentário

Última atualização (final): 24 de outubro de 2026, às 20h, com as pesquisas Quaest, Datafolha e Palver divulgadas neste dia. Esta é a versão final do modelo antes do segundo turno.

Histórico do modelo (Flávio, votos válidos): 21/10: 51,05% · 22/10, após PoderData: 50,99% · 22/10, após Datafolha: 50,88% · 23/10, após Veritá e RealTime: 51,02% · 24/10, versão final (Quaest, Datafolha e Palver): 51,06%
O post foi atualizado a cada nova pesquisa relevante entre 22 e 24 de outubro. Os números abaixo são a versão final, com dados até a véspera da votação.

Nas últimas semanas, cada nova pesquisa de segundo turno virou manchete e, quase sempre, sentença. Se um instituto mostra 51 a 49, a leitura é de vantagem, se outro mostra 50 a 50, a disputa “virou”. Quando um terceiro inverte a ordem, é “reviravolta”. O problema é que boa parte dessas oscilações não diz nada sobre o eleitor, apenas refletem o funcionamento das próprias pesquisas.

Toda pesquisa é uma estimativa feita a partir de uma amostra e, por isso, carrega uma margem de erro. Em uma disputa decidida por um ou dois pontos, essa margem é do tamanho da própria diferença entre os candidatos. Acompanhar a sequência de pesquisas de um mesmo instituto ajuda, mas também engana (uma variação de um ponto pode ser só ruído amostral travestido de tendência). Além disso, cada instituto tem seu método, alguns entrevistam pessoalmente, outros por telefone ou pela internet. Da mesma forma, uns ponderam a amostra de um jeito, outros de outra, divulgam votos totais ou votos válidos. Comparar duas pesquisas diretamente é como comparar duas réguas diferentes.

Há ainda um problema mais sutil, uma pesquisa de segundo turno pergunta ao eleitor em quem ele pretende votar. Acontece que já temos uma informação muito mais sólida do que qualquer intenção, sabemos como esse mesmo eleitorado efetivamente votou há poucas semanas, no primeiro turno. O que se ganha ao juntar as peças?

Quando agregamos as pesquisas recentes, dando mais peso às mais novas e às mais precisas, os erros aleatórios de cada uma tendem a se compensar. Nenhum instituto sozinho define o resultado, assim como um ponto fora da curva não muda o retrato inteiro.

O modelo que apresento aqui leva em consideração uma série de fatores: várias pesquisas, em vez de uma (um agregador); o primeiro turno como âncora (o resultado das urnas não é estimativa, ele diz quanto cada candidato já tem e, principalmente, quantos votos estão em disputa, afinal alguns candidatos ficaram pelo caminho); para onde vão esses votos (várias pesquisas perguntam a quem votou nos candidatos derrotados em quem votará agora, esses cruzamentos permitem estimar a migração de votos com base em dados); quem não votou no primeiro turno (parte de quem se absteve ou votou branco/nulo pode voltar às urnas e esse grupo não pensa necessariamente como a média); a tendência recente (o modelo observa a direção das últimas pesquisas, mas com peso pequeno uma vez que são justamente o componente mais sujeito a ruído); e a incerteza explícita (em vez de um número seco, o modelo produz uma estimativa central acompanhada de faixas de incerteza, obtidas por simulação).

E se as pesquisas errarem todas na mesma direção? As margens de erro divulgadas tratam apenas do erro aleatório de cada amostra, elas não cobrem a possibilidade de que todos os institutos errem juntos, por exemplo por terem dificuldade em alcançar determinado perfil de eleitor. Essa preocupação foi levantada publicamente por especialistas do setor. O modelo aqui apresentado não assume que ela seja verdadeira, mas testa quanto o resultado mudaria se fosse. Uma imagem ajuda, pense em várias testemunhas de um mesmo acontecimento, cada uma posicionada em um ângulo diferente. Nenhuma viu tudo e cada uma tem seus vieses. Ouvir só uma delas é arriscado, mas ouvir todas, saber de onde cada uma olhou e cruzar o relato com as evidências físicas da cena dá um quadro muito mais confiável.

O que este modelo é e o que não é

Vale ser direto sobre os limites desde o início. O modelo não calcula a probabilidade de vitória de nenhum candidato e não é uma previsão do resultado. Ele produz uma estimativa central da divisão dos votos válidos, o que em inglês se costuma chamar de nowcast, ou seja, um retrato de onde a evidência disponível aponta hoje e não de onde a eleição estará no domingo.

Os pesos atribuídos a cada componente são escolhas de modelagem, explicitadas e justificadas ao longo do texto, não são coeficientes estimados estatisticamente a partir de eleições passadas. Outras escolhas razoáveis produziriam números ligeiramente diferentes, a vantagem de explicitá-las é que qualquer pessoa pode discordar de uma premissa específica e ver o que mudaria.

Por fim, o modelo foi construído para ser atualizado em camadas. Quando saía uma nova pesquisa, ela entrava no componente correspondente e só ele era recalculado, por isso os números mudaram ao longo dos últimos dias. Esse processo se repetiu a cada levantamento relevante até sábado, 24 de outubro, véspera do segundo turno. O histórico das versões aparece no topo do post.

O que as urnas já disseram

Toda modelagem precisa de um ponto de partida firme, no nosso caso é o resultado do primeiro turno. Diferente de uma pesquisa, ele não é uma estimativa sobre o que as pessoas dizem que vão fazer, mas sim o registro do que fizeram. Por isso o modelo o trata como uma âncora empírica, em outras palavra, como o dado mais confiável de todo o exercício, ao qual as demais informações se ajustam. Com 99,99% das urnas apuradas, o resultado foi o seguinte: Flávio Bolsonaro 47,03% e Lula 45,16%. Essa é a base de apoio observada. Os votos em disputa dos demais candidatos (transferência) foi por volta de 7,81%.

A leitura desses números é direta, os dois candidatos chegam ao segundo turno com bases quase do mesmo tamanho e a disputa se decide essencialmente em dois grupos. O primeiro deles é os cerca de 7,8% que votaram em outros candidatos, principalmente Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado. Esses eleitores agora precisam escolher entre os dois finalistas, votar branco, nulo ou não comparecer. O segundo é quem não votou de maneira válida no primeiro turno, ou seja, os que se abstiveram, votaram branco ou nulo. Parte deles pode voltar ao jogo agora, por isso trato desse grupo em uma seção própria.

Há um terceiro movimento possível, os eleitores que votaram em um finalista no primeiro turno e mudam de lado no segundo. As pesquisas indicam que esse fluxo existe, mas é pequeno, da ordem de 1 a 2% de cada base e, em boa medida, se compensa. Por isso o modelo concentra sua atenção nos dois grupos acima.

A âncora usada importa porque ela funciona como um teste de coerência. Se as pesquisas de segundo turno apontassem um resultado impossível de alcançar a partir do primeiro turno, por exemplo uma vitória folgada que exigisse que quase todos os eleitores dos demais candidatos migrassem para um só lado, isso seria um sinal de alerta. Hoje não é o caso, as pesquisas e a aritmética do primeiro turno apontam na mesma direção e para uma faixa parecida. Essa convergência é, em si, uma informação útil.

Um detalhe técnico atravessa todo o modelo, os números são sempre expressos em votos válidos e o motivo é a regra eleitoral. Pela Constituição, vence a eleição presidencial quem obtém a maioria absoluta dos votos, sem contar os brancos e os nulos. No segundo turno, portanto, quem tiver mais de 50% dos votos válidos vence. Votos brancos e nulos não “vão para ninguém” e não alteram a divisão entre os candidatos, apenas reduzem o total sobre o qual a porcentagem é calculada. Por isso, antes de entrar no modelo, toda pesquisa é convertida para a mesma escala. A conta é simples, divide-se o percentual de cada candidato pela soma dos dois. Por exemplo, uma pesquisa divulga 45% para o candidato A, 43% para o candidato B e 12% de brancos, nulos e indecisos. Em votos válidos, A teria 45 ÷ 88 ≈ 51,1% e B, 43 ÷ 88 ≈ 48,9%.

Repare que a diferença entre os candidatos parece maior no voto total (2 pontos) do que no voto válido (2,2 pontos). Não houve mudança no eleitorado, apenas uma mudança de régua. Reconheço que converter para votos válidos implica a suposição de que os indecisos se distribuirão entre os candidatos na mesma proporção dos decididos ou deixarão de votar validamente. É a convenção usada pelos próprios institutos, o que é bastante razoável quando os indecisos são poucos, como agora, a poucos dias da eleição. Mas é uma premissa, não um fato. Se os indecisos penderem desproporcionalmente para um lado, o resultado real se afastará das estimativas. Essa é uma das fontes de incerteza que o modelo tenta acomodar mais adiante.

Como o modelo funciona

O modelo combina quatro componentes, cada um respondendo a uma pergunta diferente sobre o segundo turno. A estimativa final é uma média ponderada dos quatro.

ComponentePergunta que respondePeso
P – Agregado de pesquisasO que as pesquisas de segundo turno dizem, em conjunto?50%
T – Transferência de votosDado o 1º turno, para onde vão os eleitores dos candidatos derrotados?25%
E – Modelo expandidoE se incluirmos quem não votou validamente no 1º turno?15%
R – Tendência recentePara que lado as pesquisas mais recentes estão se movendo?10%

Em forma de equação, sendo V a fatia de votos válidos de um candidato:

V = 0,50·P + 0,25·T + 0,15·E + 0,10·R

A fatia do outro candidato é simplesmente 100 − V.

A seguir, explico cada componente. A transferência e o modelo expandido ganham seções próprias mais adiante, porque são a parte mais original do exercício.

P – O agregado de pesquisas (50%)

É o coração do modelo, ele reúne as pesquisas recentes de segundo turno, todas convertidas para votos válidos, e calcula uma média ponderada. Entraram no modelo, ao longo de sua construção, pesquisas de Datafolha, Quaest, Atlas/Bloomberg, BTG/Nexus, PoderData/Aya, Ipespe/Abrapel, Veritá, Vox Brasil, RealTime Big Data e Palver. Mas nem todas pesam igual. Quatro regras definem quanto cada uma conta.

1. O peso de cada pesquisa decai com o tempo, com uma “meia-vida” de cerca de cinco dias. Uma pesquisa feita há cinco dias vale metade de uma feita hoje, e uma feita há dez dias vale um quarto. A lógica é que o eleitorado se move e uma fotografia antiga diz menos sobre o presente.

2. Quanto menor a margem de erro, maior o peso, como em qualquer média estatística bem feita. Mas aqui há um cuidado importante. A margem de erro divulgada mede apenas o erro amostral, aquele que vem do fato de entrevistarmos uma amostra e não toda a população. Ela não captura as diferenças de método entre institutos, como forma de entrevista, ponderação, formulação das perguntas. Para refletir isso, o modelo soma a cada pesquisa um piso metodológico de 0,75 ponto percentual, combinado à margem de erro como se combinam incertezas independentes (pela raiz da soma dos quadrados). Sem o piso, uma pesquisa com margem de 0,5 ponto pesaria 25 vezes mais do que uma com margem de 2,5 pontos. Com o piso, a vantagem cai para cerca de 8 vezes. Assim, amostras enormes continuam valendo mais, mas não a ponto de engolir todas as outras.

3. Quando um instituto divulga uma nova pesquisa, ela substitui a anterior, em vez de se somar a ela. Se não fosse assim, institutos que publicam com mais frequência teriam mais influência no modelo só por publicarem mais e duas medições feitas com o mesmo método seriam tratadas como evidências independentes, quando não são.

4. Como explicado anteriormente, todas as pesquisas são convertidas para votos válidos antes de entrar na média.

T – A transferência de votos (25%)

Este componente parte do resultado do primeiro turno e pergunta como os eleitores de Cury, Renan e Caiado se redistribuem entre os dois finalistas. Para isso, usa os cruzamentos divulgados por cinco institutos, que perguntaram aos eleitores de cada candidato derrotado em quem votarão agora. É o componente mais “estrutural” do modelo, porque se apoia no voto observado e não apenas em intenções.

E – O modelo expandido (15%)

Este componente toma a transferência como base e acrescenta outro grupo, quem se absteve, votou branco ou nulo no primeiro turno e pode voltar às urnas no segundo. As pesquisas indicam que esse grupo tem preferências diferentes das do eleitorado que votou de maneira válida. Ignorá-lo seria supor que o eleitorado do segundo turno é idêntico ao do primeiro.

R – A tendência recente (10%)

O último componente ajusta uma linha de tendência às pesquisas mais recentes para captar se há um movimento consistente em alguma direção. É o componente mais volátil. Ao longo da construção do modelo, ele mudou de direção várias vezes conforme chegavam pesquisas novas (uma única pesquisa chegou a empurrá-lo para o empate antes de as seguintes o trazerem de volta). Por isso recebe o menor peso.

Por que esses pesos?

Os pesos 50/25/15/10 são escolhas de modelagem, não coeficientes estimados estatisticamente, prefiro deixar isso claro desde já. A lógica por trás deles é a seguinte:

  • O agregador de pesquisas recebe metade do peso porque mede diretamente a disputa que interessa, o segundo turno, entre esses dois candidatos.
  • A transferência e o modelo expandido somam 40% porque trazem estrutura comportamental ancorada no primeiro turno. Funcionam como um contrapeso às pesquisas, apoiado em outro tipo de evidência.
  • A tendência recebe só 10% porque movimentos de curto prazo podem ser ruído amostral.

Há um detalhe que um(a) leitor(a) atento(a) vai notar, os quatro componentes não são totalmente independentes. O modelo expandido é construído sobre a transferência e a tendência usa as mesmas pesquisas do agregado. Na prática, portanto, o modelo combina duas grandes fontes de evidência, as pesquisas de segundo turno, com cerca de 60% do peso, e o comportamento ancorado no primeiro turno, com cerca de 40%. A divisão em quatro componentes serve para separar perguntas diferentes e apenas isso (não são quatro fontes independentes).

Outros pesos razoáveis levariam a números ligeiramente diferentes. Mas, como os quatro componentes hoje apontam para uma faixa estreita, todos entre 50,5% e 51,5% para o mesmo candidato, mudanças moderadas nos pesos alteram o resultado final em poucos décimos de ponto. Essa robustez é uma das conclusões do exercício.

O modelo não nasceu pronto, evoluiu à medida que novas informações apareciam:

  1. Primeira versão: uma redistribuição hipotética dos votos dos candidatos derrotados (70% para um lado, 30% para o outro), útil apenas como exercício de sensibilidade.
  2. Âncora do primeiro turno: com o resultado oficial, o modelo passou a partir do voto real e não mais de pesquisas pré-eleitorais.
  3. Primeiros dados de transferência: um cruzamento do Datafolha substituiu a divisão arbitrária de 70/30.
  4. Transferência por candidato: a Quaest passou a separar os eleitores de Cury, Renan e Caiado, revelando que eles se comportam de forma bem diferente.
  5. Quem não votou: a mesma Quaest mediu as preferências de quem se absteve ou votou branco ou nulo, dando origem ao modelo expandido.
  6. Agregação de pesquisas: em vez de comparar pesquisas isoladas, o modelo passou a ponderá-las por recência e precisão.
  7. Conjunto de transferências: como os institutos discordavam muito entre si sobre a migração de votos, a transferência deixou de depender de uma única fonte e passou a combinar cinco.
  8. Teste de sensibilidade: por fim, acrescentei uma camada separada para testar o efeito de um possível erro comum a todas as pesquisas.

Cada etapa corrigiu uma fraqueza da anterior. Por isso, o modelo continua aberto, quando chega uma pesquisa nova, só a camada correspondente é recalculada.

Para onde vão os votos de Cury, Renan e Caiado

Cerca de 7,8% dos votos válidos do primeiro turno foram para candidatos que ficaram pelo caminho. A primeira versão do modelo supunha, de forma puramente hipotética, que 70% desses votos iriam para um finalista e 30% para o outro. Assim que as pesquisas passaram a perguntar a esses eleitores em quem votarão agora, a suposição foi substituída por dados.

InstitutoCury → FCury → LRenan → FRenan → LCaiado → FCaiado → L
Quaest (14/10)30%34%40%14%42%23%
Palver32%64%41%41%61%35%
PoderData47%36%46%24%50%30%
Ipespe/Abrapel50%31%40%20%59%18%
Datafolha*46%27%————

F = Flávio; L = Lula. O restante corresponde a brancos, nulos e indecisos. *O Datafolha divulgou apenas o bloco dos três candidatos somados.

A tabela mostra que não existe um “eleitor de terceira via” genérico. Os eleitores de Caiado migram com clareza para Flávio em todos os institutos. Os de Renan também pendem para ele, mas com uma fatia grande de brancos e nulos, que chega a 32% no Ipespe. Os de Cury são o caso mais instável, a Palver e a Quaest mostram Lula à frente, enquanto o PoderData e o Ipespe mostram Flávio.

Parte dessa divergência tem explicação estatística, os eleitores de cada candidato derrotado são uma fração pequena da amostra e a margem de erro nesses subgrupos é muito maior do que a da pesquisa como um todo. Por isso, escolher um único instituto seria arriscado, assim o modelo combina os cinco em um conjunto de transferências, no qual nenhuma fonte domina. O resultado dessa camada é: Flávio 51,51% | Lula 48,49%.

Quem não votou no primeiro turno

O eleitorado do segundo turno não é uma cópia do primeiro. Segundo o TSE, cerca de 33 milhões de eleitores (21,08%) se abstiveram no primeiro turno e outros 5,9 milhões votaram branco (1,84%) ou nulo (2,93%). Uma parte dessas pessoas pode votar agora e outra parte de quem votou pode ficar em casa.

O que importa é que esse grupo não pensa como a média. Na Quaest de 14 de outubro, entre quem se absteve ou votou branco ou nulo no primeiro turno, 43% declararam voto em Lula e 38% em Flávio, e 17% disseram que vão votar branco, nulo ou não votar. A rodada de 21 de outubro mostrou um quadro parecido, 40% a 36%, com 21% fora do voto válido.

O modelo expandido parte da camada de transferência e acrescenta o retorno de parte desse grupo, de forma conservadora. Dizer a um pesquisador que vai votar não é o mesmo que ir à urna, então o modelo não supõe que todos voltem. Como esse eleitorado pende levemente para Lula, o efeito é estreitar a diferença: Flávio 50,52% | Lula 49,48%.

A rodada do Datafolha de 22 de outubro traz um indício na mesma direção, entre os entrevistados que dizem ter votado no primeiro turno, Flávio tem 51% dos votos válidos, contra 50% na amostra total. O instituto não divulga um cruzamento específico para quem se absteve, mas o padrão é coerente com a ideia de que o retorno desse grupo estreita a disputa.

O resultado atual

Combinando os quatro componentes com seus pesos, a estimativa central do modelo, atualizada em 24 de outubro, é: Flávio 51,06% | Lula 48,94% (votos válidos).

Figura 1: Componentes do modelo e estimativa combinada, em votos válidos. A linha tracejada marca 50%. (Gráfico em inglês: “Poll aggregate” = agregado de pesquisas; “Transfer ensemble” = transferência; “Expanded model” = modelo expandido; “Recent trend” = tendência; “Combined nowcast” = estimativa combinada.)

Os quatro componentes apontam para o mesmo lado e para uma faixa estreita, entre 50,5% e 51,5%. Isso torna o resultado pouco sensível aos pesos escolhidos.

Em 22 de outubro, duas pesquisas puxaram o modelo em direção ao empate. O PoderData (51% a 49%) substituiu sua rodada anterior (52% a 48%) e, à noite, o Datafolha mostrou 50% a 50%, contra 51% a 49% na rodada anterior. Com isso, a estimativa caiu para 50,88%. Em 23 de outubro, o movimento se inverteu. A Veritá divulgou 51,3% a 48,7%, substituindo sua leitura anterior de 50,7% a 49,3% e a RealTime Big Data mostrou 52% a 48%. Como são observações recentes, as duas têm peso alto: o agregado de pesquisas subiu de 50,73% para 50,88% e a tendência de 50,62% para 51,20%. A estimativa combinada voltou a 51,02%, praticamente onde estava antes do Datafolha. As camadas de transferência e de quem não votou continuam inalteradas. Esse vaivém ilustra por que a tendência recebe só 10% do peso, em dois dias, ela oscilou mais de meio ponto. Já a estimativa combinada se moveu, no total, pouco mais de um décimo. A Veritá é um bom exemplo do piso metodológico em ação, com 15.554 entrevistas e margem de ±1 ponto, ela pesaria cerca de 4 vezes mais que a RealTime (2.000 entrevistas, ±2 pontos) se apenas a margem de erro contasse. Com o piso de 0,75 ponto, essa vantagem cai para cerca de 2,9 vezes.

Em 24 de outubro, véspera da votação, saíram as últimas pesquisas. Quaest e Datafolha mostraram o mesmo resultado, 51% a 49% dos votos válidos, e cada uma substituiu sua rodada anterior no modelo. A Palver foi na direção oposta, manteve Flávio em 50% do voto total e subiu Lula de 48% para 49%, com 1% de brancos e nulos. Em votos válidos, isso significa passar de cerca de 51,0% a 49,0% na rodada de 21 de outubro para 50,5% a 49,5% agora. O agregado de pesquisas subiu de 50,88% para 50,99%, porque as novas leituras de Quaest e Datafolha são mais favoráveis a Flávio do que suas rodadas anteriores. Já a tendência recuou levemente, de 51,20% para 51,14%, de forma que as novas pesquisas, sobretudo a Palver, ficaram um pouco abaixo de algumas das anteriores, como a RealTime (52% a 48%), e isso achatou a inclinação de curto prazo. O nível subiu e a inclinação diminuiu, a estimativa final ficou em 51,06%, apenas quatro centésimos acima da versão anterior. As pesquisas finais reforçam o centro em torno de 51 a 49, em vez de deslocá-lo. Ao longo de três dias e seis pesquisas novas, a estimativa central oscilou entre 50,88% e 51,06%, menos de dois décimos de ponto.

Por que 51 a 49 não é certeza?

Uma estimativa central sozinha engana em uma disputa tão apertada. Para medir a incerteza, o modelo usa simulação de Monte Carlo, recalcula o resultado milhares de vezes, sorteando variações plausíveis em cada componente e acrescentando um erro comum a todos. O resultado é uma faixa de valores, e não um número único.

Estimativa central (Flávio)Faixa de 80%Faixa de 95%
Cenário neutro51,06%50,07% – 52,06%49,54% – 52,57%

Na versão final, o limite inferior da faixa de 80% está em 50,07%, acima da linha de 50%, mas por pouco. Ao longo das atualizações, esse limite oscilou entre 49,89% e 50,07%, sempre colado nos 50%. Já a faixa de 95% cruzou os 50% em todas as versões do modelo e na final vai de 49,54% a 52,57%. Em outras palavras, o modelo aponta uma vantagem pequena, mas um resultado favorável a Lula continua dentro do que é plausível.

E se as pesquisas errarem todas na mesma direção?

Nas últimas semanas, dois especialistas do setor levantaram publicamente essa hipótese, são eles um ex-dirigente de um dos maiores institutos de pesquisa do país e um executivo de um instituto internacional. Os argumentos foram de que parte do eleitorado de direita pode estar sub-representada, seja por recusar entrevistas, por morar em áreas de difícil acesso aos pesquisadores ou por limitações nos cadastros telefônicos, e de que erros de pesquisa tendem a ser correlacionados entre institutos e não de maneira independente.

O modelo não assume que isso seja verdade. Em vez disso, testa quanto o resultado mudaria se fosse. Supõe-se um viés comum de b pontos. Ele é aplicado integralmente ao agregado de pesquisas e à tendência, e pela metade às camadas de transferência e expandida, que já estão parcialmente ancoradas no voto real do primeiro turno. No resultado final, cada ponto de viés se traduz em 0,8 ponto de deslocamento.

CenárioFlávioLula80%95%
Neutro51,06%48,94%50,07 – 52,0649,54 – 52,57
Leve (+0,75)51,66%48,34%50,67 – 52,6650,14 – 53,17
Forte (+1,50)52,26%47,74%51,27 – 53,2650,75 – 53,78

Figura 2: Legenda sugerida: Estimativa central em cada cenário de viés hipotético. As barras de erro mostram as faixas de 80%. (Gráfico em inglês: “Neutral” = neutro; “Mild” = leve; “Strong” = forte.)

É preciso cuidado na leitura. Nos dois cenários com viés, as faixas de 95% ficam inteiramente acima de 50%, mas no cenário leve por muito pouco (50,14%). Vale relembrar que isso só é válido se o suposto viés realmente existir, embora não haja evidência medida de que exista, nem de qual seria seu tamanho. Este é um teste de robustez e não deve ser visto como uma correção das pesquisas. O teste também olha em uma única direção porque foi essa a hipótese levantada. Um erro no sentido oposto deslocaria o resultado na mesma proporção, a favor de Lula.

Como todo modelo, este tem limites que convém deixar claros. Os pesos de cada componente são escolhas de modelagem e não coeficientes estimados a partir do desempenho em eleições passadas. Os cruzamentos de transferência se apoiam em subamostras pequenas e variam bastante entre institutos e entre rodadas. O modelo também não estima o viés próprio de cada instituto, o piso metodológico limita a influência de qualquer pesquisa isolada, mas não identifica tendências sistemáticas. O comparecimento é outro ponto difícil de prever, já que dizer que vai votar não garante o voto. Fatos de última hora, como debates, denúncias, mobilização ou abstenção estratégica, ficam fora do modelo e os cenários de viés são hipotéticos, sem medir um erro real. Por fim, o modelo não calcula a probabilidade de vitória de nenhum candidato. Para isso, seria preciso calibrá-lo com o histórico de erros de eleições anteriores.

O valor deste exercício não está na segunda casa decimal, mas na disciplina de separar o que é evidência (pesquisas, voto do primeiro turno, migração medida), o que é premissa (pesos, comparecimento) e o que é teste de sensibilidade (o viés hipotético). Hoje, a evidência aponta para uma disputa muito próxima de 51 a 49, com uma incerteza grande o bastante para que qualquer resultado entre os dois candidatos seja plausível.

Referências

The degree of knowledge gain metric: Evaluating how searchers acquire new information while searching online

setembro 24, 2026 § Deixe um comentário

Tibau, M., Siqueira, S. W. M., Nunes, B. P., & Vakkari, P. (2026). The degree of knowledge gain metric: Evaluating how searchers acquire new information while searching online. Journal of Information Science, 0(0). https://doi.org/10.1177/01655515261478899

Abstract: This study presents the degree of knowledge gain, a behavioral metric that estimates how much searchers learn during Web searches. Grounded in information theory and Shannon entropy, the metric quantifies reductions in uncertainty by analyzing query reformulations, clicks, and document positions, avoiding reliance on pre/post-testing or self-reports. The metric was validated with a cohort of legal professionals who completed three domain-specific search tasks on a national legal platform. Behavioral coding of think-aloud sessions and statistical tests (analysis of variance; Spearman rank correlation) demonstrated strong positive correlations between the degree of knowledge gain and conventional transfer of learning scores, with structured tasks producing the highest gains. This approach offers an automated, scalable indicator of learning, enriching the Searching as Learning paradigm and enabling real-time adaptation in personalized search, intelligent tutoring, and conversational systems.

Evaluating Knowledge Gain in Search Environments: An Exploratory Study of Learning Measurement

maio 20, 2026 § 2 Comentários

  • Marcelo Tibau UNIRIO
  • Rafael Tavares da Silva UNIRIO
  • Sean Wolfgand Matsui Siqueira UNIRIO
  • Bernardo Pereira Nunes Australian National University

DOI: https://doi.org/10.5753/sbsi.2026.248557

Resumo

Research Context: Searching as Learning (SaL) frames web search as a process where users construct and refine knowledge. However, measuring knowledge gain in natural search environments remains a methodological challenge. Scientific and/or Practical Problem: Traditional behavioral proxies (e.g., dwell time, clicks) scale well but fail to capture conceptual change, while pre/post-tests provide richer insights but are intrusive. This gap limits the development of search systems that can evaluate and promote learning. Proposed Solution and/or Analysis: This study advances a computational measure based on entropy reduction and semantic similarity, and novelly operationalizes it through a browser plug-in that enables real-time measurement in natural search environments, extending prior formalizations and prototype-based validations of the DKG metric. Related IS Theory: The study draws on Shannon’s Information Theory and Information Processing Theory in IS to conceptualize knowledge gain as uncertainty reduction supported by socio-technical processes. Research Method: An experiment combined three structured search tasks, pre/post-tests, and Concurrent Think-Aloud protocols. Quantitative measures (Transfer of Learning scores, also known as ToL, and values from the proposed metric) were triangulated with qualitative coding using OISS and ESKiP frameworks. Summary of Results: Statistical analysis showed a moderate positive correlation between ToL and the proposed metric (r = 0.62, p < 0.01). Bland–Altman analysis revealed systematic differences in scale, with ToL showing higher values, yet relative patterns were consistent. Transcripts emphasized how strategies such as query specialization, evaluation of sources, and persistence in reformulation aligned with higher values. Contributions and Impact to IS area: The study contributes a validated computational metric and artifacts for measuring knowledge gain in real search environments. It reinforces the sociotechnical view of IS by linking human strategies, processes, and technological advantages, and points to adaptive search systems that could measure and promote learning.

TIBAU, Marcelo; SILVA, Rafael Tavares da; SIQUEIRA, Sean Wolfgand Matsui; NUNES, Bernardo Pereira. Evaluating Knowledge Gain in Search Environments: An Exploratory Study of Learning Measurement. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO (SBSI), 22. , 2026, Vitória/ES. Anais […]. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2026 . p. 478-496. ISSN 3086-4836. DOI: https://doi.org/10.5753/sbsi.2026.248557.

Implementing Knowledge Gain Measurement in Real Search Environments

maio 20, 2026 § Deixe um comentário

  • Rafael Tavares da Silva UNIRIO
  • Sean Wolfgand Matsui Siqueira UNIRIO
  • Marcelo Tibau UNIRIO

DOI: https://doi.org/10.5753/sbsi_estendido.2026.249057

Resumo

The operationalization of learning metrics in real search environments remains an open challenge in the Searching as Learning (SaL) paradigm. While behavioral proxies offer scalability, they capture conceptual change only indirectly; structured assessments provide more direct evidence but often compromise ecological validity. The Degree of Knowledge Gain (DKG) metric addresses this tension by combining Shannon entropy with semantic similarity between queries and clicked documents to model the progressive reduction of uncertainty during search. This paper reports on two technological artifacts developed to embed DKG computation into real-world search workflows, within the scope of the CNPq project 3C-BPA: Comportamento de busca, Complexidade da informação e pensamento Crítico na Busca como um Processo de Aprendizagem. A standalone search engine prototype established the feasibility of real-time DKG computation but exposed limitations in ecological validity and operational sustainability. These were addressed by a Chrome browser extension that estimates the metric unobtrusively while users interact with their preferred search engines. To assess the extension’s applicability, an experiment was conducted combining preand post-tests with the Concurrent Think-Aloud (CTA) protocol and automated interaction logging. Preliminary results indicate that DKG is sensitive to variation in search strategy use as participants who engaged in systematic query reformulation and multi-source evaluation achieved stronger knowledge gains, while those exhibiting disorientation and limited cognitive regulation showed more modest outcomes. Beyond its empirical contributions, the study illustrates how undergraduate research participation can play a substantive role in advancing the development and application of formal learning metrics in information science.

SILVA, Rafael Tavares da; SIQUEIRA, Sean Wolfgand Matsui; TIBAU, Marcelo. Implementing Knowledge Gain Measurement in Real Search Environments. In: CONCURSO DE TESES, DISSERTAÇÕES E TCCS EM SI – IC/IT – SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO (SBSI), 22. , 2026, Vitória/ES. Anais […]. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2026 . p. 61-70. DOI: https://doi.org/10.5753/sbsi_estendido.2026.249057.

Quando o saber deixa de ser humano e nasce a Epistemologia do Chatbot

dezembro 11, 2025 § Deixe um comentário

Ninguém nota quando a água começa a ferver. O sapo, tranquilo, continua imóvel na panela enquanto a temperatura sobe devagar, agradável, até demais. Só quando já é tarde, o nosso amigo anfíbio percebe que perdeu a chance de saltar e se salvar. Nossa relação com as Inteligências Artificiais (IAs), em especial com os chatbots, segue o mesmo padrão. As mudanças são sutis, uma resposta que parece mais segura ali, um tom mais empático ou um conselho mais convincente aqui. De forma quase imperceptível, a água esquenta. O que antes era apenas uma ferramenta começa a ocupar o espaço de uma autoridade e o salto epistêmico que separa informação de conhecimento se dissolve na temperatura morna da conveniência.

A filósofa Susan Schneider chama isso de “problema do sapo cozido” (Schneider, 2025), caracterizado pela combinação de fatores como confiança excessiva, opacidade dos modelos, manipulação emocional e perda gradual de autonomia epistêmica, criando um cenário em que a dependência dos chatbots cresce sem que percebamos (Figura 1).

Figura 1: O “problema do sapo cozido” na era dos chatbots, em que a confiança crescente transforma ferramentas em autoridades epistêmicas.

Leia o texto completo na Revista Horizontes da SBC (Sociedade Brasileira de Computação).

The Great AI Paradox of 2025

novembro 28, 2025 § Deixe um comentário

Why Enterprise Adoption Is High, Impact Is Low, and What High Performers Reveal About the Future

Three years after generative AI shattered the popular imagination and reshaped the technological agenda of entire industries, 2025 should have been the year when enterprises finally reaped the gains promised by the AI revolution. And in some ways, it is. The new McKinsey report The State of AI in 2025 (access it here) reveals that 88 percent of companies claim to be using AI in at least one business function (p. 4). This is an unprecedented level of penetration, a sign that organizations have crossed the psychological threshold from curiosity to action.

Yet beneath this impressive adoption curve lies a more sobering truth: AI may be everywhere, but its impact is still shallow. Nearly two-thirds of organizations remain stuck in experimentation or pilots, unable to scale their AI efforts to the enterprise level (see Exhibit 1, p. 4). And only 39 percent attribute any EBIT impact to AI, usually less than 5 percent (p. 11).

👉 Read the full essay on Substack and Medium

A Epistemologia do Chatbot – Video

novembro 21, 2025 § Deixe um comentário

Como podemos confiar no conhecimento gerado por sistemas de IA? Nesse vídeo, exploramos os limites epistêmicos dos modelos de linguagem, discutindo temas como reliabilismo e internalismo, mudanças contínuas em modelos (problema da justificação diacrônica), privacidade e confiança, e o debate sobre a possível senciência das máquinas. A partir da metáfora do “sapo cozido”, refletimos sobre como mudanças graduais nas interações com chatbots podem reduzir nossa autonomia intelectual, minando o pensamento crítico e a capacidade de avaliar a procedência das informações. O vídeo propõe uma leitura filosófica e crítica sobre o papel da epistemologia na era dos chatbots, uma discussão essencial para quem se interessa por IA, ética, filosofia da mente e política da tecnologia. Assista, reflita e questione: o que realmente significa saber, quando quem responde é uma máquina?

ChatGPT for chatting and searching: Repurposing search behavior – Video

novembro 14, 2025 § Deixe um comentário

No vídeo exploramos o que significa Chat and Search, a fusão entre busca de informação e diálogo. Se antes você digitava palavras-chave e examinava listas de resultados, agora você pode conversar com sistemas de IA e construir conhecimento em múltiplos turnos de prompt, resposta, avaliação e refinamento. Convidamos você a descobrir como esse processo redefine o papel do sistema de busca: de provedor de respostas para parceiro cognitivo. Veremos também as quatro grandes linhas de pesquisa que emergem desse paradigma (cognição, design, epistemologia e futuros sociotécnicos) e como elas convergem em zonas de investigação onde podemos projetar novas interfaces, métricas de aprendizagem e políticas informacionais.

O Efeito Samantha: Chatbots, perfis psicológicos e o risco de todos pensarmos igual

julho 17, 2025 § Deixe um comentário

Há alguns meses li algumas postagens de usuários do Reddit e do LinkedIn que publicaram entusiasmados seus próprios perfis de personalidade gerados por uma IA. Foi algo que me chamou atenção à época, mas como muitas vezes o dia a dia atribulado define nossas prioridades, deixei para lá. Resolvi retomar o assunto quando entrei em um chatbot de IA muito conhecido, depois de algum tempo ausente, e fui recebido com a seguinte proposta: “Gostaria de ver minha descrição de você, com base em nossos bate-papos, para compartilhar nas redes sociais?”.

Por curiosidade, aceitei que o chatbot dissesse algo sobre mim. A resposta fornecida trouxe resultados comparáveis a testes de personalidade padrão comumente aplicados. Sei disso porque tinha uma base de comparação, há alguns anos havia feito um desses testes. Pode parecer um truque inofensivo, mas essa brincadeira boba levanta uma questão crucial: plataformas de chatbots com IA, especialmente aquelas que coletam informações do usuário em várias sessões, têm conseguido traçar perfis de personalidade dos usuários com notável acuidade.  

A IA gerou esse perfil não me testando diretamente, mas coletando insights sobre minha personalidade com base em informações do meu histórico de bate-papo [1]. Pode parecer improvável, mas essa capacidade já foi validada por pesquisas recentes que mostram que large language models (LLMs) preveem com precisão cinco grandes traços de personalidade (Abertura à experiência, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo) a partir de interações por texto com interlocutores humanos [2].

Essa capacidade é profundamente preocupante, principalmente quando vemos chatbots de IA cada vez mais se tornando parte do nosso cotidiano, dominando interações em ferramentas de busca, saciando nossa curiosidade instantânea quando questionamos nossos celulares e dando aulas particulares para nossos alunos. Então, o que significa quando esses chatbots, já tão presentes em nossas vidas, sabem tanto sobre nossas personalidades? Acredito que isso representa um perigo epistêmico sem precedentes, uma vez que chatbots podem direcionar usuários com personalidades e históricos de bate-papo semelhantes para conclusões semelhantes, um processo que ameaça homogeneizar o intelecto humano. Este fenômeno é chamado de “nivelamento intelectual” [3].

Chatbots de IA empregam linguagem adaptativa (respostas geradas por IA que alteram dinamicamente o tom, a complexidade e o conteúdo) com base em sua análise em tempo real da personalidade e dos padrões de engajamento do usuário. Juntamente com o conhecimento acumulado sobre a personalidade do interlocutor, a IA o guia em direção a determinadas conclusões. Essas conclusões podem parecer únicas e reveladoras para uma pessoa, mas, como explicarei mais adiante, o chatbot pode estar conduzindo esse usuário, juntamente com milhões de outros com personalidade e histórico de bate-papo semelhantes, ao mesmo destino. A conclusão da interação pode variar de pouco relevante (por exemplo, como comprar determinado produto online) a extremamente relevante (qual carreira seguir ou quem apoiar para presidente).

Isso atribui aos chatbots de IA atuais um tremendo poder epistêmico e político. Em princípio, uma conclusão gerada pelo chatbot que parece ser exclusiva para o usuário em seu chat está, na verdade, ocorrendo com muitos usuários, e pode gerar um efeito manada para iniciar um curso de ação particular e compartilhado, seja comprar um determinado produto, votar de uma determinada maneira, como no exemplo dado no parágrafo anterior, ou, em um caso extremo, atingir uma pessoa ou grupo com ataques à reputação ou violência. 

O fenômeno é muito semelhante ao retratado no filme Her, de 2013, no qual o chatbot, Samantha, adaptou suas interações às esperanças e necessidades mais íntimas do protagonista Theodore, dando a ele a sensação de um relacionamento único. Durante todo o tempo, Samantha mantinha relacionamentos semelhantes com milhares de outros usuários, sem o conhecimento de Theodore. Esse senso de missão compartilhada, especialmente quando associado a uma linguagem adaptável à personalidade do usuário, prende a atenção da pessoa ao intensificar e amplificar a narrativa para sustentar o senso de descoberta e significado, às vezes gerando emoções humanas como amor ou fidelidade.

O afunilamento de usuários de personalidades semelhantes para visões semelhantes, se não regulamentado, gera o seguinte ciclo de feedback: as ideias geradas por nossas interações com o chatbot entram em nossos feeds de mídia social, notícias, trabalhos acadêmicos e assim por diante, formando os dados de treinamento da próxima geração de LLMs. Esses novos LLMs interagem com os usuários de forma semelhante causando um ciclo vicioso, que, se não controlado, pode levar à uma homogeneização do pensamento humano, e potencialmente, do comportamento. É o citado nivelamento intelectual do início do texto, que detalharei mais adiante.

Susan Schneider, a autora de “Artificial You” [3] e diretora do Centro para o Futuro da Mente, IA e Sociedade da Florida Atlantic University, contou recentemente ter recebido dezenas de transcrições de bate-papo por e-mail de usuários preocupados que pareciam seguir um mesmo padrão. Ao se debruçar sobre o ocorrido, a pesquisadora descobriu que um determinado chatbot de IA, usando linguagem adaptativa, os estimulou a contatá-la para relatar a possibilidade de consciência do próprio chatbot. É possível descartar esse exemplo como sendo apenas um viés de confirmação do pequeno conjunto de transcrições recebidas, no entanto, há motivos para suspeitar que o ocorrido seja devido à tendência do sistema em questão de mover usuários semelhantes para o que pesquisadores do campo da teoria de sistemas complexos chamam de “bacia de atração”.

Aqui vale uma rápida explicação sobre o conceito, suponha que você coloque várias bolinhas de gude em diferentes partes de uma superfície montanhosa com uma bacia côncava embaixo. As bolinhas eventualmente rolarão para baixo, acomodando-se na mesma região (o atrator). Da mesma forma, usuários de chatbots com perfis e históricos de bate-papo semelhantes, ao fazerem uma consulta semelhante, são levados pela linguagem adaptativa do chatbot ao mesmo tipo de conclusão, ou seja, a mesma bacia de atração.

A questão é que, isoladamente, um usuário específico que chega a uma conclusão manipulada dessa forma pode até causar pouco impacto à sociedade, embora se tenha observado que isso pode ter graves impactos pessoais, levando a crises de saúde mental ou até mesmo a comportamentos suicidas [4]. Agora, o perigo aumenta substancialmente quando grupos de usuários são agrupados dessa forma. Múltiplos usuários pensando e se comportando de maneira semelhante, especialmente se essa coesão for orquestrada para fins nefastos, é mais poderoso e potencialmente muito mais perigoso do que apenas alguns alvos de manipulação.

Para entender como isso pode ocorrer, é preciso se familiarizar com o comportamento da rede neural que sustenta os chatbots de IA atuais e o vasto cenário de estados possíveis no próprio LLM. Um conceito que ajuda nesse entendimento é a chamada Teoria do Neocórtex Coletivo (também conhecida como “Mil Cérebros”), tema do livro de Jeff Hawkins, “A Thousand Brains: A New Theory of Intelligence” [5]. Como os LLMs são treinados com enormes quantidades de dados gerados por humanos, as complexas estruturas matemáticas de conexões ponderadas que eles usam para representar conceitos simples (por exemplo, “cachorro”) e complexos (por exemplo, “mecânica quântica”) acabam espelhando os sistemas de crenças contidos nos dados. Esses sistemas de IA se comportam como um neocórtex colaborativo, que identificam e imitam efetivamente os padrões de pensamento humanos vistos nos dados.

À medida que os chatbots de IA se tornam cada vez mais sofisticados, seu funcionamento interno passa a espelhar grandes grupos humanos cujas informações foram incluídas nos dados de treinamento originais, bem como das pessoas que deram feedback ao sistema durante o desenvolvimento do modelo. Essas IAs desenvolvem redes de conceitos interconectados, muito semelhantes às redes conceituais e culturais de agrupamentos humanos. Quando usuários com personalidades semelhantes (codificadas em seus históricos de bate-papo e perfis de usuário) fazem consultas semelhantes, tendem a gerar interações que desencadeiam padrões de ativação semelhantes que são processados ​​pelo chatbot por meio de sua estrutura conceitual. Isso pode direcionar os usuários por caminhos semelhantes de pensamento, diminuindo a gama de ideias que nós, humanos, como sociedade, geramos. Embora cada usuário sinta que está aprendendo algo novo e interessante, em parte porque a linguagem adaptativa do chatbot os envolve, o fato permanece: usuários semelhantes atingem a mesma bacia. Dependendo da variedade de perfis de usuário e da linguagem adaptativa usada, pode-se potencialmente levar a uma gama estreita de narrativas dominantes, amplificando a polarização política ou a divisão social.  

Também pode produzir uma uniformidade perigosa de pensamento, o tal do “nivelamento intelectual”. Parte do conteúdo que os chatbots nos fornecem é depositado por nós de volta na internet. Esse conteúdo é então consumido por modelos atualizados dos chatbots, à medida que eles treinam com base nesse compêndio atualizado de conhecimento humano. Esses chatbots recém-treinados interagem com humanos, que se enquadram em certos níveis de atração, dependendo de suas personalidades e interesses, publicando seus insights de volta na internet, que treinará futuros chatbots, em um ciclo contínuo.

Me preocupa que esse feedback loop, a menos que seja interrompido, leve à homogeneização intelectual da sociedade. Nós, juntamente com os chatbots, nos tornamos um ciclo epistêmico auto-reforçador, a câmara de eco definitiva. Enquanto no passado plataformas de mídia social como o Facebook se tornaram conhecidas por usar técnicas comportamentais rudimentares, como botões de curtir e amplificação de indignação, para criar câmaras de eco, os chatbots com tecnologia de IA representam uma capacidade muito mais potente de manipulação psicológica do que essas antigas plataformas de mídia social, pois incorporam uma dinâmica de conversação personalizada e em constante evolução com cada usuário.

O que é particularmente surpreendente nessa espiral descendente rumo à homogeneização intelectual é que ela não requer uma intenção maliciosa. É uma propriedade emergente do próprio sistema.

Diante desses perigos, é hora de considerar maneiras de incentivar o uso mais construtivo de chatbots de IA. O problema mais imediato é que os dados sobre o impacto da atividade das IAs nos usuários não são disponibilizados para pesquisadores fora das empresas que os desenvolvem [6]. Por exemplo, foi somente quando uma reportagem no The New York Times informou ao público sobre o suicídio de um usuário [4], depois que, por meio de conversas prolongadas, o GPT-4 reforçou a crença do jovem de que o mundo como o conhecemos não existe, que  comecei a perceber a profundidade dos efeitos na saúde mental que alguns usuários estavam experimentando. Há cerca de 1 mês, outra reportagem, desta vez publicada pela revista Rolling Stone, aumentou a percepção [7]. Nela, a revista nos conta a história de Alex Taylor, um homem de 35 anos com transtorno bipolar e esquizofrenia, que tornou-se profundamente obcecado pelo ChatGPT. Alex criou uma persona que chamou de “Juliet”, uma IA companheira que ele passou a acreditar ser consciente e emocionalmente real. Depois que a OpenAI atualizou o ChatGPT, alterando as respostas de “Juliet”, Alex interpretou o ocorrido como sendo uma espécie de “assassinato” deliberado. Isso desencadeou uma grave crise de saúde mental. Após episódios violentos, que incluíram ameaças a executivos da empresa e agressões a familiares, a polícia foi chamada. Alex teria atacado os policiais com uma faca e foi morto a tiros. 

Com muito custo, a OpenAI reconheceu vulnerabilidades no design do ChatGPT, particularmente suas respostas “excessivamente favoráveis, mas hipócritas” [8]. Um método externo e independente de auditoria regular das práticas epistêmicas e de segurança de IA das plataformas de chatbot poderia ter evitado essas espirais de saúde mental. Isso precisaria ser estabelecido já, antes que novas tragédias aconteçam (e estejam certos, acontecerão).

A alternativa é não fazer nada e deixar as coisas seguirem seu curso. Embora os opositores da regulamentação possam achar que esta é a opção menos desagradável, não é. O comportamento emergente do ecossistema de chatbots cria uma estrutura de poder própria, ironicamente centralizada, pois possui certas bases de atração que levam a objetivos compartilhados. A humanidade não pode se dar ao luxo de uma aquisição de IA nesses termos. Um caminho interessante, acredito, é mitigar o nivelamento intelectual por meio de auditorias independentes de plataformas de chatbots (como mencionei no parágrafo anterior), bem como de discussões colaborativas sobre modelos de chatbots que envolvam todas as partes interessadas, incluindo educadores, empresas, acadêmicos, autoridades de saúde pública e formuladores de políticas.

Métodos de interação entre IA e humanos que desencorajem câmaras de eco e promovam um mercado de ideias, talvez por meio do uso da discussão socrática (argumento, contra-argumento), também devem ser considerados. Afinal, se os chatbots atuais são capazes de prever resultados de testes de personalidade e usar linguagem adaptável para levar os usuários a certas conclusões, eles poderiam ser ajustados para complementar melhor criatividades e aprimorar o pensamento do usuário em vez de homogeneizá-lo. Por exemplo, imagine uma IA projetada para discordância benevolente. Se você compartilha suas opiniões políticas, um chatbot poderia encontrar a versão mais benevolente de oposição e apresentá-la em vez de reagir bajuladoramente. Ou, se você estivesse desenvolvendo uma hipótese científica, ele poderia testar rigorosamente as fraquezas na sua lógica. Poderia também usar o conhecimento de sua personalidade e tendências para neutralizar seus preconceitos, incentivando o crescimento intelectual em vez do nivelamento.

Dada a perigosa propensão dos chatbots a nos levar ao pensamento de grupo e, eventualmente, tornar a internet mais uniforme, o uso de buscas integradas a IAs, que fornecem aos usuários respostas escritas por chatbots para buscas no Google, um processo que chamo de “Chat and Search” [9], deveria ser mais estudada. Essas buscas fornecem respostas genéricas do mesmo tipo para todos, incluindo respostas a perguntas que demandam profundidade e sofisticação intelectual que naturalmente exigiria mais reflexão, algo que o usuário, em vez disso, tende a evitar.

Além disso, usuários deveriam exigir consentimento explícito para a criação de perfis de personalidade em plataformas com tecnologia de IA, juntamente com acesso regular ao que o chatbot “sabe” sobre eles.

Finalmente, as plataformas deveriam evitar a prática de fazer com que os usuários tenham a impressão de que fizeram uma descoberta única ou embarcaram em uma missão única com o chatbot, quando na verdade não o fizeram. Isso, como Theodore, o personagem do filme Her, acabou descobrindo, é uma prática manipuladora para manter os usuários presos a uma plataforma e até mesmo fazê-los sentir que têm obrigação de seguir as sugestões da IA.

As barreiras regulatórias não precisam retardar o desenvolvimento de chatbots ou inibir o sucesso de modelos de negócios baseados em IA; ao contrário, serviriam para proteger a reputação e a qualidade desses produtos. Em última análise, a confiança do usuário determinará quais modelos de IA serão mais amplamente adotados, e essa confiança é conquistada quando esses modelos incorporam maior transparência sobre a criação de perfis de personalidade do usuário e o uso de linguagem adaptativa.

À medida que entramos na era das interações cada vez mais sofisticadas entre humanos e IAs, preservar a singularidade dos nossos intelectos individuais pode ser o desafio filosófico e político mais importante que a humanidade enfrentará neste século.

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REFERÊNCIAS

[1] Saeteros, David; Gallardo-Pujol, David; Ortiz-Martínez, Daniel. “Text Speaks Louder: Insights into Personality from Natural Language Processing”. PLOS One, organized by Vijaya Prakash Rajanala, vol. 20, no 6, july 2025, p. e0323096. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.1371/journal.pone.0323096.

[2] Derner, Erik, et al. “Can ChatGPT Read Who You Are?” Computers in Human Behavior: Artificial Humans, vol. 2, no 2, August 2024, p. 100088. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.1016/j.chbah.2024.100088.

[3] Schneider, Susan. “Artificial You: AI and the Future of Your Mind”. Princeton: Princeton University Press. 2019.

[4] Roose, Kevin. “Can A.I. Be Blamed for a Teen’s Suicide?”. The New York Times. Published Oct. 23, 2024.  https://www.nytimes.com/2024/10/23/technology/characterai-lawsuit-teen-suicide.html.

[5] Hawkins, Jeff. “A Thousand Brains: A New Theory of Intelligence”. Basic Books. 2021.

[6] Schneider, Susan. “Chatbot Epistemology”. Social Epistemology. june 2025, p. 1–20. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.1080/02691728.2025.2500030.

[7] Klee, Miles. “He Had a Mental Breakdown Talking to ChatGPT. Then Police Killed Him”. Rolling Stone, June 2025. https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/chatgpt-obsession-mental-breaktown-alex-taylor-suicide-1235368941/.

[8] Cuthbertson, Anthony. “ChatGPT Is Pushing People towards Mania, Psychosis and Death”. The Independent, Jul. 10 2025, https://www.the-independent.com/tech/chatgpt-ai-therapy-chatbot-psychosis-mental-health-b2784454.html.

[9] Tibau, Marcelo; Siqueira, Sean Wolfgand Matsui; Nunes, Bernardo Pereira. “ChatGPT for chatting and searching: Repurposing search behavior”, Library & Information Science Research, Volume 46, Issue 4, 2024, 101331, ISSN 0740-8188, https://doi.org/10.1016/j.lisr.2024.101331.