Aprendizado ao invés de educação

agosto 27, 2015 § 3 Comentários

Joi Ito é o diretor do MIT MediaLab, um dos lugares mais inovadores do mundo, que fica em uma das instituições de educação formal mais respeitadas da atualidade (o MIT) e mesmo assim tem como crença pessoal a certeza de que as pessoas deveriam se preocupar mais em aprender e menos em “receber” educação. Em uma palestra TED no ano passado declarou: “educação é o que os outros fazem para você, aprendizado é o que você faz para si mesmo”.

Na palestra, Ito conta como formou um grupo chamado Safecast, que mede a quantidade de radiação nuclear presente no mundo. Frisa que são todos amadores e que ainda assim conseguiram montar seus próprios contadores Geiger, a um custo mais barato e disponibilizar seus dados via site e aplicativo para quem quiser. Marotamente pergunta: “como é que um bando de amadores que realmente não sabiam o que estavam fazendo, de alguma forma conseguiu se unir e fazer o que as ONGs e o governo eram completamente incapazes de fazer?”. Ito atribui à conectividade permitida pela internet e pela disposição em fazer mais e planejar menos. Cunhou até um termo para representar a atitude, “now-ism” (algo como “agoraismo” – que seria o antônimo de futurismo).

Recomendo assistirem ao vídeo (disponibilizo o link AQUI), mas gostaria de focar e abranger a “bola levantada” pelo Ito em relação à aprendizado X educação. Como compartilhamos essa mesma crença, sinto-me compelido a fazer alguns esclarecimentos. De certa forma, esse sentimento expresso pelo diretor do MediaLab coaduna com o chamado feito por parte das pessoas envolvidas com educação para que a sociedade dê mais atenção ao autoaprendizado e tire proveito das possibilidades proporcionadas pela conectividade. Não é, de forma alguma, uma campanha para acabar com a educação formal. Mas, é preciso ter consciência de que o custo de uma educação formal se tornou tão escandalosamente alto que já não faz sentido depender exclusivamente dos sistemas formais de educação. Quando abordo a questão do custo, não me refiro somente à educação particular, o nosso sistema público universal de educação gasta boa parte dos orçamentos federal, estaduais e municipais.

Como tornar o brasileiro mais preparado para atuar no mundo contemporâneo onde a inovação, a criatividade e a geração de conhecimento fazem a diferença? Para mim, a resposta passa por cada brasileiro tomar em suas mãos as rédeas do seu próprio aprendizado. Não pretendo abordar neste post como estimular o autoaprendizado, já o fiz em uma sequência de posts que publiquei em maio deste ano e em meu livro, Conexão do Conhecimento, lançado este mês (quem quiser disponibilizo o link para a compra na seção PUBLICAÇÕES), mas gostaria de reforçar a importância dessa prática com 3 princípios levantados pelo Joi Ito em seu conceito de “now-ism” e relacioná-los ao aprendizado.

1) Implemente ou Morra (Deploy or Die): pessoalmente considero que essas afirmações excessivamente incisivas geram mais angústia do que reflexão, mas compreendo a estratégia. O que Ito pretende com este mote é instigar a “arregaçar as mangas” e produzir: coisas, conhecimento, inovações. O que importa é colocar à disposição de todos o seu trabalho. Em suas palavras, “deveríamos estar nós mesmos lá fora, construindo,e não dependendo que grandes instituições façam isto por nós” (no original, para não impor meu entendimento, “we should be getting out there ourselves and not depending on large institutions to do it for us”).

Em aprendizagem significa compartilhar suas ideias e conhecimentos. Para aprender bem nunca é demais 3 coisas, planejamento (saber o que você quer aprender), resiliência (se manter no caminho, mesmo na adversidade) e avaliação (um feedback em relação ao que você sabe é fundamental para que se possa checar a eficácia do seu aprendizado). A internet pode ajudar muito nessa história, atuando como uma “ferramenta” de colaboração e amplificando o aprendizado, mesmo porque a melhor maneira de aprender não está mais no isolamento – creio que nem os monges acreditam mais nisto.

2) Puxe ao invés de Empurrar (Pull over Push): a ideia aqui é “puxar” os recursos que você precisa da rede – no sentido amplo, pode ser tanto a internet, quanto a sua rede de contato pessoal – ao invés de concentrar e controlar em algum “centro” – também em um sentido amplo, pode ser tanto um centro acadêmico quanto uma pasta no seu computador.

No contexto da aprendizagem, significa o fim do conceito de “sabichão”, aquelas pessoas extremamente especialistas, que conhecem tudo sobre sua matéria porque se condicionaram a “estocar” informações. Antes da internet havia espaço para esse perfil, agora basta uma pesquisa no Google para levantar a maioria das informações necessárias sobre qualquer assunto. Saber procurar, achar e entender como as informações necessárias para você se relacionam é mais eficiente do que estocá-la.

3) Compasso ao invés de Mapa (Compass over Maps): aqui confesso que há uma divergência entre meu entendimento e do Ito. Vou abordar os dois. Para o Ito, planejamento é superestimado, diz: “o custo de planejar ou mapear algo está se tornando muito caro e muitas vezes não é muito preciso ou útil” (no original, pelo mesmo motivo exposto anteriormente, “the cost of writing a plan or mapping something is getting so expensive, and it’s not very accurate or useful”). Vejo de outro modo, planejar e mapear são importantes para definir objetivos (o que se quer alcança) e traçar parâmetros (por onde começar, como saber se estou fazendo certo, o que preciso para colocar em prática). Concordamos, porém, na necessidade da flexibilidade para as correções necessárias quando estivermos fazendo o que queremos (ou precisamos) fazer. Esse é o real significado do “compass over maps” e por isso, mesmo discordando do argumento, creio que é um princípio válido.

Em aprendizado, similarmente, é preciso colocar a “cara a tapa” e mudar de rumo se o seu método de aprendizagem não estiver dando resultado. Mas para saber isto, é preciso medir (e se planejar).

Acredito no “poder” do aprendizado e acredito que ninguém está “limitado” ao seu expertise atual. Um advogado pode (e deve) saber como programar um site ou um aplicativo se isto for beneficiá-lo de alguma forma e um programador pode (e deve) conhecer legislação se ela interferir (e certamente interfere) de algum modo na sua vida. A verdade é que, advogados e programadores, professores e alunos, adultos e crianças, têm mais em comum do que se pode perceber em um primeiro momento: são todos aprendizes. Por isso “aprender a aprender” é tão importante e praticar o autoaprendizado é fundamental para quem quer realmente fazer a diferença neste louco século XXI.

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Consumo autoral

agosto 25, 2015 § Deixe um comentário

Serendipity[1] para mim é perambular pelas estantes de uma livraria. É um habito que tenho desde garoto, quando “descobri” autores como Orígenes Lessa e Hélio do Soveral. Por estes dias exercitei esta “navegação” na livraria Leonardo Da Vinci – que segundo notícias está em seus últimos dias, o que é uma lástima dado o inestimável serviço prestado a gerações de mentes cariocas – e encontrei uma verdadeira preciosidade.

Trata-se do livro “Consumo Autoral”, organizado pelo sociólogo italiano Francesco Morace, que fundou um dos mais respeitados centros de pesquisa e estudos de comportamento e consumo, o Future Concept Lab. No livro, Morace et al[2] aborda os resultados de uma extensa pesquisa promovida pelo seu laboratório em cerca de 40 países (Brasil incluído), que percebeu alguns fenômenos culturais e mudanças de comportamento. A análise sociológica feita captou o impacto das últimas crises econômicas – iniciando-se com a de 2008 – e sinaliza uma tendência de mudança de perfil do consumidor à medida que a(s) crise(s) avança(m).

O sociólogo identificou algumas mudanças de comportamento que agrupou no termo que dá título ao livro por mostrar uma característica homogênea a todas elas: consumidores menos influenciados pelo charme das grandes marcas e pela persuasão da publicidade. O livro aborda 10 núcleos geracionais, que constituem o que Morace chamou de “consumidores autores” em cada faixa etária.

Pretendo descrever rapidamente[3] os núcleos e citar os “países eleitos” para cada um deles. Aqui vale uma explicação adicional, esses países são apresentados como arquétipos, ou seja, modelos em que o núcleo pode ser observado mais facilmente, mas isto não significa que a tendência se restrinja a eles. Pelo contrário, pela abrangência da pesquisa pode-se inferir que os núcleos geracionais coexistam em boa parte dos países do mundo.

Posh Tweens [8-12 anos, meninos e meninas]

País eleito: Itália

São aqueles pré-adolescentes amantes das novidades. Possivelmente são os únicos (e os últimos) a seguirem as lógicas tradicionais da moda (com a exceção do núcleo DeLuxe Man, que veremos a frente), em que as estéticas propostas são homologadas e reconhecíveis e que podem ser encaixadas no cenário das marcas e grifes. Um núcleo geracional que pode ser definido como fashion victim, são usuários precoces de tecnologia e possuem grande influência sobre seus pais em termos de consumo e decisão de compra.

Expo Teens [12-20 anos, meninos e meninas]

País eleito: Japão

São os adolescentes que vivem a própria identidade como “exposição” – que compreende a exibição, mas também a exposição às tecnologias, ao uso dos códigos da “tribo”, à sensibilidade à várias linguagens, como música, por exemplo – e que criam o próprio referencial estético sobre tais referências. No “mundo” desse núcleo geracional a moda se encontra com a arte e com o design. Ao crescer, o Expo Teen se torna um Exper(t) Teen.

Linker People [20-35 anos, homens e mulheres]

País eleito: Finlândia

Os Linker People são multiplayer. Vivem a condição urbana como um infinito reservatório de estímulos a serem propostos e captados. Se revelam trend setters no comportamento e são curiosos e interessados em experimentar coisas novas. É um núcleo geracional aberto a experimentar qualquer combinação inesperada para criar e lançar “códigos comuns”, sem nunca se identificar com apenas uma comunidade. A relação entre subjetividade e potenciais interlocutores constitui o ponto-chave da sua identidade.

Unique Sons [20-35 anos, homens e mulheres]

País eleito: China

É a geração dos filhos únicos: individualistas, egocêntricos, narcisistas, consumistas (termos do Morace – não quero ninguém me xingando por aí). Sentem-se únicos, mas estão continuamente em busca dos irmãos que nunca tiveram. É esse o núcleo geracional que representa o “motor” da nova sociedade de consumo. Se equilibram entre o capitalismo e a volta aos valores familiares e utilizam a internet para demonstrar a própria contemporaneidade no mundo. O Facebook é o “projeto digital” que melhor os representa.

Sense Girls [25-40 anos, mulheres]

País eleito: Tailândia

Refinadas, sensíveis, exóticas, as Sense Girls propõem uma estética a léguas de distância da vulgaridade. Estão no centro de uma revolução ética que marca uma profunda mudança de modelo de sociedade. São caracterizadas por uma forte sofisticação sensorial e manifestam suas escolhas cotidianas de consumo por meio de um direcionamento ético e estético. Demonstram uma forte consciência de si mesmas e sabem exatamente o que querem encontrar.

Mind Builders [35-50 anos, homens]

País eleito: Índia

Os Mind Builders são os novos existencialistas. Apaixonados pelo estudo do pensamento humano e pela leitura, atuam como intelectuais cosmopolitas e experts em tecnologia. São também orgulhosos das próprias raízes – muito ligados ao seu “território” de origem. São cultores das linguagens, em todas as suas versões, e da troca intercultural. A palavra-chave para eles é “personalidade” e se reconhecem em Barack Obama, seja como geração, seja como visão de mundo.

Singular Women [35-50 anos, mulheres]

País eleito: Brasil

A singularidade feminina é expressa por mulheres sempre mais audaciosas, seguras de si e sem conceitos preestabelecidos. A tendência coincide com o enfraquecimento da identidade masculina, do ponto de vista estético. Falou-se muito, de maneira ampla e genérica, da condição “single”, considerada como a nova perspectiva sociodemográfica nas sociedades do futuro. Este núcleo geracional prova essa condição como errada. Mostra uma realidade mais complexa, de convivência e uniões não institucionais, que se afastam do puro e simples individualismo “isolacionista” representado pela condição “single”. O universo gay também é considerado como parte desse núcleo geracional, pois segue a tendência de comportamento.

DeLuxe Men [45-60 anos, homens]

País eleito: Rússia

Esse grupo geracional se identifica com o conceito de prestígio e distinção. Muitos comportamentos de consumo, que no passado aconteciam apenas no topo da pirâmide sociocultural em muitos países (os chamados happy few), se difundiram por uma classe média alta que começou a fazer parte de uma dimensão antes considerada inacessível. Nos países em que o capitalismo – por diferentes razões – se firmou há poucos anos (como por exemplo, Rússia, China, Brasil, Emirados Árabes) com seus produtos de alta referência simbólica, se formou rapidamente uma categoria privilegiada de sujeitos que se reconhecem nos códigos e nas lógicas do luxo mais tradicional.

Normal Breakers [45-60 anos, homens e mulheres]

País eleito: Argentina

São os “novos rebeldes”, com uma visão crítica e criativa da realidade em que vivem. Para eles, normalidade e transgressão convivem e se sobrepõem a sua condição de pessoas de meia-idade. Se mostram continuamente em busca de alternativas concretas de vida e a tecnologia constitui uma companheira de vida insubstituível, nas formas do file sharing, do blogging e de todas as estratégias de compartilhamento tecnológico.

Pleasure Growers [acima de 60 anos, homens e mulheres]

País eleito: Estados Unidos

São os boomers americanos que não aceitam os valores e o comportamento típico da terceira idade. Redescobrem e lançam os valores das suas utopias de juventude, filtradas pela experiência e maturidade alcançada. A afirmação desse grupo implica a definição de uma estética completamente nova para a faixa-etária: informal, juvenil, energética, psicodélica. Constituem um grupo estabilizado economicamente, realizado e em busca de um hedonismo inteligente e de consumo experiencial.

Cada um dos núcleos se subdivide em 3 atitudes características da geração e na abordagem necessária, em termos de marketing, para que se consiga iniciar um diálogo com os grupos. Sai os antigos conceitos de 4Ps e de outras siglas alfanuméricas (que não valem mais muita coisa) e entra o entendimento dos drivers[4] de consumo, produto, comunicação e distribuição.

O livro, em suas conclusões, aponta uma realidade que se tornará cada vez mais aparente: a convivência intergeracional. Com as pessoas vivendo cada vez mais, as diferentes gerações conviverão de maneira mais intensa e de uma forma diferente da que a nossa sociedade estava acostumada. É necessário evitar os conflitos tácitos, aproximar e reforçar as relações, sobretudo dos núcleos geracionais que convivem em um ambiente familiar. O uso das novas tecnologias, dos aparelhos smart e a internet tem a real possibilidade de criar barreira invisíveis difíceis de sanar, a não ser criando ocasiões completamente diferentes e distintas de convívio, utilizando o que todos os núcleos geracionais têm em comum, a sua condição humana, que envolve a adesão emotiva, a surpresa da descoberta e o compartilhamento do percurso de exploração que acontece durante esse “conceito” que chamamos de vida.

[1] Palavra da língua inglesa que significa, a grosso modo, encontrar aquilo que não estava procurando.

[2] A expressão latina et al. significa em uma tradução livre “entre outros”, é usada academicamente para sinalizar a presença de outros colaboradores em uma pesquisa ampla.

[3] Morace, Francesco et al. Consumo Autoral. Estação das Letras e Cores. 2009. P. 24-25.

[4] É um conceito de marketing que significa, a grosso modo, os tópicos que o consumidor leva em consideração para tomar determinada decisão.

Competências para o século XXI – parte 3

agosto 20, 2015 § Deixe um comentário

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Estimular competências valorizadas (ou valorizáveis) neste século em um ambiente formal de aprendizagem pode ser uma tarefa (bem) desafiadora. Isto porque para que elas “aflorem” há um elemento essencial nessa “equação”: o aprendiz. Ou melhor, a motivação do aprendiz.

Motivação é um termo “malandro”, ao mesmo tempo em que explica muito resultado positivo, também age para tornar nebuloso resultados negativos. Esta complexidade se deve ao fato de que tanto elementos externos quanto internos ao indivíduo agem combinados para influenciar este “estado de espírito”. Soma-se a isto uma característica fundamental para que a motivação se mantenha consistente ao longo do tempo, a resiliência. Insistir em algo é fundamental para alcançar resultados positivos em termo de aprendizado. Não é todo o dia que se está verdadeiramente disposto a aprender ou a ensinar, portanto continuar seguindo nesses “dias nublados” é tão importante quanto nos de “sol brilhante”.

Um dos pontos comuns das dicas a seguir para se construir um ambiente formal de aprendizagem que estimule as competências abordadas anteriormente é a crença de que o conhecimento é valioso e como tal, importante. Note que uso o termo “conhecimento” e não “educação”. Associar educação ao desenvolvimento de um aprendizado é uma armadilha que deve ser evitada. Primeiro porque educação é um investimento de longo prazo, que está dissociado de “causa e efeito”. Segundo, um ambiente formal de educação não gera necessariamente aprendizado. Terceiro, a base de qualquer sistema educacional é o conhecimento, ele sendo valorizado transcende o próprio sistema e se torna parte integrante do indivíduo (e por tabela, da sociedade). Sem mais delongas, vejamos como podemos ajudar a estimulá-las:

Crie cenários que testem a transferência das habilidades e não apenas as habilidades em si. É preciso que o aprendiz desenvolva a capacidade de aplicar as habilidades, conhecimentos, atitudes ou estratégias vistas em um contexto em outro. É desta maneira que se avalia um aprendizado, estimulando que pensem e analisem como seu conhecimento se aplica em uma situação ou realidade diferente da que foi utilizada para repassá-lo.

Tire um tempo durante o repasse para estimular uma visão abrangente. Os aprendizes devem compreender as relações entre as variáveis e como podem aplicar este entendimento em contextos diferentes. Ao entenderem como um determinado tópico se encaixa em um sentido mais amplo, a relevância do aprendizado de um determinado conhecimento se torna mais claro – e mais motivador.

Trate a tecnologia como parte natural do aprendizado. Encaremos os fatos, dificilmente hoje um aprendiz – de qualquer idade – irá conceber sua vida sem o envolvimento da tecnologia. Ela está tão presente em vários aspectos da vida que realmente deveríamos parar de pensar em como integrar a tecnologia no aprendizado e fazermos o inverso: pensar em como integrar o aprendizado na tecnologia. Encará-la como parte natural da história é um bom começo.

Torne suas lições (ou aulas) interdisciplinares. Sei que algumas palavras são tão repetidas que acabam se tornando “da moda”. Muitas vezes, por conta dessa repetição, paramos de dar a devida atenção a elas. Não se pode deixar que este seja o caso aqui, interdisciplinaridade é um “modo de vida”. O aprendiz precisa ter consciência do porque cada disciplina é importante, como elas se integram, como um novo conhecimento é criado e como é difundido. Este é o modo de se “ensinar” a metacognição, ou como é conhecida no popular, “aprender a aprender”.

Aborde diretamente o que for mal-entendido ou o que tem possibilidade de má compreensão. Alguns assuntos são densos ou ambíguos mesmo. É natural que as pessoas tenham alguns mal-entendidos a respeito de como as coisas ou o mundo funciona. Se não tiverem a oportunidade de visualizar explicações alternativas, esses entendimentos tendem a se solidificar.

Promova trabalho em equipe. Esta é uma habilidade que é ao mesmo tempo processo e resultado. Há uma frase atribuída a Machado de Assis que diz “quem troca pães, fica com um, quem troca ideias, fica com as duas”. Colaboração é estimulada muito pelo exemplo, por isso promover um ambiente colaborativo é fundamental para que o trabalho em equipe apareça naturalmente. Some-se a isto, a necessidade de haver uma “cultura da aplicação”. Isto quer dizer que é preciso estimular os aprendizes a aplicarem o que aprenderam em coisas tangíveis. Um bom modo de se fazer isto é por meio de projetos. Utilize esta metodologia de aprendizagem como parte do seu planejamento instrucional e permita que os aprendizes experimentem diferentes papéis ao trabalharem um projeto em grupo. Nada de “distribuir camisas”, estimule que ora sejam “gerentes”, ora “organizadores”, ora “artistas” e assim por diante.

Por fim, não se esqueça de para que se possa “lidar” com a enorme quantidade de informação disponível, o modo como se acessa e se traduz essas informações é fundamental. Estimule que busquem e comparem as fontes de um determinado assunto. Assim se estimula a análise crítica, fundamental para sairmos da “armadilha” do dogma e das “respostas prontas”.

Competências para o século XXI – parte 2

agosto 18, 2015 § Deixe um comentário

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Como vimos, as competências podem ser organizadas em 3 grandes grupos de habilidades: cognitivas, interpessoais e intrapessoais. Aqui vale um adendo antes de seguirmos: o agrupamento é importante pelo fato de que não há um consenso em relação às competências a serem ser priorizadas. Por conta de restrições curriculares, de tempo e de dinheiro é preciso fazer escolhas. Os grupos atuam como balizadores, indicando como os faróis fazem com navios, o caminho que se deve seguir (ou evitar).

Pretendo abordar 10 competências que considero importantes. Mas friso que não se deve tomá-las por dogmas. As escolhi porque tenho a tendência a considerar importante a independência pessoal e, no meu entender, elas estimulam o desenvolvimento de uma certa independência (intelectual e de ação).

  1. Aprender a aprender: a educação formal exerce uma função similar ao andaime em uma obra. Auxilia na fundação, na construção e nos acabamentos, mas uma vez terminada a obra cabe ao “proprietário” a sua manutenção e conservação. Saber como aprender e ter vontade em fazê-lo é essencial para uma vida de realizações profissionais e pessoais.
  2. Capacidade de empatia: em um mundo cada vez mais radical, conseguir se colocar no lugar dos outros é um desafio e tanto. Para colocar em prática atividades que promovam desenvolvimento sustentável, saúde, educação, um ambiente propício a negócios, ao desenvolvimento tecnológico, à prestação de serviços e ao desenvolvimento de produtos, requer a capacidade de se conectar com a forma de pensar e a perspectiva do seu cliente, paciente, estudante ou comunidade, enfim, pessoas. Empatia é uma habilidade que impacta diretamente no mundo que deixaremos para nossos filhos e netos.
  3. Criatividade: sempre dou um jeito de abordar essa competência. Faz parte do meu top 10 porque a considero fundamental na resolução de problemas (especialmente em um ambiente de recursos limitados). Mais do que “inspirar” a criatividade em si mesmo ou estimular o seu desenvolvimento em alguém, é necessário entender o porque da sua importância. Criatividade é o combustível da inovação, mas ela necessita tanto de estímulo externo quanto interno e está intimamente ligada à curiosidade. Fazê-la aflorar é responsabilidade de cada um de nós.
  4. Capacidade de previsão: não é necessário ter algum poder mágico como Nostradamus. Enxergar tendências está ligada à capacidade de reconhecer padrões. Isto é algo que o nosso cérebro consegue fazer muito bem naturalmente. Mas precisamos “alimentá-lo” bem com informações e com a prática da análise crítica. Na minha opinião, um dos pontos fracos que nós, brasileiros, temos é a nossa pré-disposição aos dogmas. Não convém entrar em um debate sociológico das causas aqui, mas a verdade é que encaramos a maiorias dos assuntos como alternativas: direita ou esquerda; neoliberalismo ou desenvolvimentismo estatal; mercado autorregulado ou intervencionismo; enfim, a lista pode ser infinita. O fato comum em todas elas é que as vemos como alternativas e como tais, inconciliáveis. Este é um modelo mental que precisamos alterar.
  5. Instrução digital: envolve mais do que usar o computador (ou algum equipamento digital). Aprender a linguagem da programação permite uma ação mais ativa no nosso relacionamento com as máquinas.
  6. Curadoria de informação: em um ambiente cada vez mais sobrecarregado de informações, o “pulo do gato” é encarar essa realidade como uma oportunidade. Quem for capaz de lidar com o fluxo de dados e informações e conseguir filtrar o que é verdadeiramente valioso ou útil, tem uma vantagem imensa em relação aos demais.
  7. Navegar em diversas perspectivas: recentemente tive a oportunidade de conhecer os sócios da SuperUber, Liana, seu marido Russ e o sócio deles Tommy. Os utilizo como exemplo, porque a empresa deles é uma verdadeira tangibilização da habilidade da interdisciplinariedade. Conseguir navegar por vários conhecimentos e conseguir conectá-los de forma apropriada vai ser, cada vez mais, determinante para se manter relevante profissionalmente.
  8. Empreendedorismo: todos temos grandes ideias de tempos em tempos, mas conseguimos de verdade colocá-las em prática? Saber como implementar os seus impulsos criativos é o que separa os verdadeiramente inovadores dos demais.
  9. Virar um “facilitador” de grupos: não chamo esta competência de liderança para não restringir o seu significado. O ponto-chave aqui é o estímulo à colaboração. Não quero inferir que todo mundo tenha que “liderar”, ser um facilitador significa deixar mais fácil (desculpem a redundância) a criatividade “rolar”.
  10. Se manter informado: se você não lê as notícias do dia ou tira um tempinho diariamente para se informar a respeito do que está acontecendo na sua cidade, no seu país e no mundo, comece agora. Qualquer habilidade enferruja se não conseguimos enxergar como aplicá-la e saber o que acontece ao nosso redor é uma ótima maneira para desenvolver essa “sensibilidade” no olhar.

Para fechar esta série de posts, no próximo pretendo abordar como essas competências podem ser estimuladas em um ambiente formal de aprendizagem.

Competências para o século XXI – parte 1

agosto 13, 2015 § 4 Comentários

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Empresários e educadores ao redor do mundo compartilham de uma crença conjunta: a de que desenvolver as habilidades necessárias para o século XXI não é mais um “luxo” e sim uma necessidade. Tenho certeza de que este é um “papo” que você já “ouviu” em algum lugar, mas a pergunta que não quer calar é “que habilidades são essas” exatamente?

Uma habilidade é melhor percebida quando associada à competência que ela estimula, portanto nada mais natural do que focarmos nela – ou nelas – para que se possa deixar mais claro do que se trata essa “história”. Estas competências incluem (1) as habilidades cognitivas do pensamento crítico, resolução de problemas, aplicação do conhecimento (que chamo de conexão) e da criatividade; (2) as habilidades interpessoais de comunicação e colaboração, liderança e consciência global e intercultural (a boa e velha empatia); e (3) habilidades intrapessoais como auto-direção (que podemos traduzir como proatividade), motivação e autoaprendizado (aprender a aprender).

Um dos meus grandes interesses são as formas de medição. Utilizo esse conhecimento para pensar formas de avaliar ações educacionais, qualidade da democracia e outros assuntos os quais me envolvo profissionalmente. Esse interesse também me estimula a pesquisar bastante para construir minhas referências (olha o autoaprendizado aí), o que me levou a direcionar o “olhar” para formas de integrar habilidades e medir as competências do século XXI. Afinal, as habilidades e competências passíveis de serem testadas, são as habilidades e competências passíveis de serem estimuladas.

O pessoal que está mais adiantado nesse estágio de medição das competências necessárias ao nosso século, são os asiáticos. China, Singapura e Coréia do Sul têm se dedicado a planejar ações educacionais e medi-las para entenderem como as competências atuam estimuladas pelo aprendizado. Hong Kong, por exemplo, é uma das muitas cidades chinesas que introduziu avaliações baseadas em projetos, que exigem que os alunos apliquem seus conhecimentos para solucionar novos problemas. Xangai (outra cidade chinesa) ainda não têm um quadro abrangente para medir as habilidades do século XXI, mas está usando testes do PISA voltados à resolução de problemas como uma maneira de estimular a mudança das competências abordadas pelas suas escolas.

Singapura é um excelente estudo de caso de um sistema de ensino que está tentando equilibrar a transmissão de conhecimentos com uma atenção mais explícita em relação às competências do século XXI. Elas estão sendo integradas em todo o currículo escolar, bem como na preparação dos professores e no seu desenvolvimento profissional. Diferentes pedagogias estão sendo incentivadas (o que corrobora com a minha tese de que modelos educacionais funcionam melhor em conjunto), incluindo uma maior utilização da aprendizagem baseada na investigação, da tecnologia da informação e comunicação, da aprendizagem cooperativa em grupos, rotinas de resolução de problemas, entre outras ações. Estão ainda revendo o sistema nacional de exame para incorporar a habilidade do pensamento crítico, usando formas diferentes da famigerada avaliação universal (a nossa múltipla-escolha ou prova objetiva) como por exemplo, provas com questões abertas e baseadas em fontes (que conhecemos como prova discursiva). Algumas competências estão sendo avaliadas em nível escolar mesmo, tais como as habilidades dos alunos no planejamento e realização de experimentos de ciência e na execução de projetos e trabalhos de criação em outras áreas curriculares. Nas escolas primárias, a avaliação e os relatórios para os pais são digamos, mais holísticos, indo além do desempenho acadêmico e abrangendo outras áreas do desenvolvimento do aluno, como atitudes proativas, envolvimento em trabalhos conjuntos, liderança, etc. Além disto, os objetivos esperados pelas ações de desenvolvimento ou formação dos professores estão sendo alterados para coincidirem com as metas de resultados dos alunos.

Tudo isto apoiado por um enorme sistema de medição e avaliação. É possível conhecer uma parte dele pelo guia organizado pela Asia Society, que é uma instituição asiática que faz parte da Global Cities Education Network (GCEN), que é uma comunidade internacional de compartilhamento de aprendizado e melhores práticas de cooperação para melhorar o sistema educacional de cidades da Ásia, Oceania e América do Norte. As cidades participantes são Denver, Hong Kong, Melbourne, Seattle, Seul, Xangai, Singapura, Houston, Lexington e Toronto. Por que será que nenhuma cidade brasileira se interessou por algo parecido?

No próximo post pretendo abordar as competências do século XXI mais críticas a serem desenvolvidas.

Como integrar tecnologia à educação?

agosto 11, 2015 § 3 Comentários

Esta é uma pergunta que tenho ouvido muito em conversas e debates sobre o tema que tenho participado. Alguns acreditam que a tecnologia possa ter um papel mais importante, outros nem tanto, mas a maioria concorda que vale a pena olhar com um pouco mais de atenção o assunto.

O que respondo com frequência é o que costumo reforçar quando sou questionado a respeito da implementação de algum novo modelo educacional, como por exemplo aprendizado baseado em projetos (project-based learning) ou classe de aula invertida (flipped classroom): modelos educacionais são propostos como opções e não tanto como alternativas. Não se deve basear um projeto educacional (ou um sistema educacional) em apenas um modelo, eles funcionam melhor em associação. Aprendizado baseado em projetos pode e deve ser usado em conjunto com o modelo tradicional (ou construtivista, aristotélico, etc). O mesmo ocorre com a tecnologia.

Alguns exemplos do uso de tablets em aulas mostram que o equipamento funciona melhor como ferramenta de trabalho. O caso da escola suíça Zurich International School, que distribuiu Ipads aos seus alunos mostra que o importante não é o conteúdo que os aprendizes colocam no tablet e sim o que fazem com o equipamento. É usado como filmadora, gravador e “caderno de anotação” multimídia.

Em uma escola do subúrbio da cidade de Washington, a Buck Lodge Middle School, os estudantes usam tablets para gravar vídeos, criar apresentações e usar aplicativos educacionais como parte de suas atividades, com bons resultados. As escolas da região que utilizam a ferramenta tiveram um rendimento 175% melhor em matemática do as que não utilizam e um aumento de 35% no número de estudantes que atingiram o nível avançado de leitura.

Para entender como um tablet pode auxiliar um ambiente educacional, um pesquisador da Universidade de Adelaide na Austrália, Allan Carrington, desenvolveu a “Roda (i)Padgógica” (perceberam o trocadilho? Incluí o “i” para facilitar), utilizando a Taxonomia de Bloom, o modelo SAMR (já publiquei um post sobre ele) e uma lista de aplicativos educacionais.

O ponto principal da Roda (a imagem abaixo) é a definição de critérios para os aplicativos.

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Uns funcionam melhor para estimular o entendimento a respeito de algo, outros para a lembrança, um outro grupo para aplicar o que foi aprendido, um quarto para estimular a análise, outro para a avaliação e um último para a criação de algo utilizando o conhecimento aprendido. Definir estes critérios e associar os aplicativos apropriados é essencial para que o tablet realmente possa cumprir o seu papel de ferramenta. Não adianta oferecê-lo apenas como repositório de apostila ou como ferramenta livre. Acabará sendo usado da forma como a maioria está acostumada a utilizá-lo, como entretenimento.  Por enquanto a “Roda (i)Padgógica” está disponível apenas em inglês. Pretendo trabalhar uma versão dela em nosso idioma assim que tiver disponibilidade para tal. De qualquer forma, disponibilizo o link para quem quiser acessar ao pdf original com as indicações dos critérios e aplicativos associados até o momento.

É inevitável que a tecnologia assuma cada vez mais um papel, ouso dizer, predominante no dia a dia de uma sociedade realmente integrada ao século XXI. É inevitável porque facilita a vida de quem a utiliza. Brigar contra inovações como Uber, por exemplo, é o mesmo que combater monstros imaginários na forma de moinhos como fazia o Don Quixote na obra mágica de Cervantes. Lembro da minha mãe dizendo há uns 30 anos que todos da família tínhamos que aprender a “mexer no computador” para não sermos “analfabetos digitais”. É claro que usar ou não a tecnologia em um ambiente educacional não é uma decisão com resultados tão dramáticos quanto às palavras da minha mãe, mas certamente quem tiver a oportunidade irá se beneficiar bem mais do que quem não tiver.

O software está devorando o mundo (?)

agosto 6, 2015 § 5 Comentários

Em 2011, o fundador da Netscape – alguém se lembra? Foi um dos primeiros navegadores da internet – Marc Andreessen cunhou a frase “software is eating the world” (cuja tradução é o título do post) em um artigo para o The Wall Street Journal, delineando sua “previsão” de que empresas com foco em desenvolvimento de software (hoje a atividade é chamada coding) seriam as que mais gerariam valor econômico, inclusive interrompendo uma ampla gama de setores industriais.

4 anos depois, 1 em cada 20 vagas de trabalho abertas nos EUA são destinadas à engenharia e desenvolvimento de softwares, mostrando uma tendência similar à previsão do Marc Andreessen. A demanda e competição por desenvolvedores de software no mercado de trabalho é muitas vezes centrada em torno de empresas de tecnologia como Uber, Facebook e afins. Mas é facilmente notado que organizações de todos os tipos estão competindo por este mesmo talento – de empresas financeiras e agências governamentais a hospitais, a procura por pessoas com conhecimento em coding é extremamente ampla.

Penso que o coding é apenas a ponta do iceberg, a habilidade que envolve esta busca por desenvolvedores é outra: a capacidade analítica para processar, interpretar e retrabalhar com base nos insights que podem ser gerados pelas inúmeras fontes de informação e conhecimento disponíveis. O coding leva vantagem pelo fato de facilitar o “acesso” ao “big data”.

As habilidades que devemos focar em desenvolver estão relacionadas à capacidade de interpretar o mundo a nossa volta por conta própria (também conhecida por pensamento crítico) e à capacidade de criar a partir do que já sabemos (que também atende pelo nome de pensamento reflexivo). Estas são habilidades que não podem ser ensinadas.

Mas não se desespere, apesar de não poderem ser ensinadas, elas podem ser aprendidas. Ou melhor, desenvolvidas. O “pontapé inicial” que você deve dar está ligado à sua capacidade de interpretação de texto. Por mais que a melhor forma de aprendizado para você envolva alguma outra “mídia” (uso a palavra por falta de outra melhor) – como assistir a uma aula, participar de um debate, observar alguém fazendo, etc. – uma que você não pode abrir mão é a leitura. O fato é que a maior parte do conhecimento humano está registrado “por escrito” (e vem sendo assim há milênios). Portanto, prescindir da leitura é dispensar uma gigantesca fonte de informação e conhecimento. Em outras palavras, um “tiro no pé”.

É assustador saber que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Isto indica que a nossa sociedade não valoriza o conhecimento como deveria, apesar de qualquer brasileiro, quando perguntado, dizer que melhorar a educação é a solução para boa parte dos “problemas” do país. Como pode ser a solução se não há a valorização do “alicerce” de qualquer sistema educacional, o próprio conhecimento?

Na verdade, não é o software que está devorando o mundo, é o desprezo pela leitura. De qualquer forma, também é reconfortante saber que a solução para isto reside em cada um de nós. Que tal tirar aquele livro “empoeirado” da estante?

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