O software está devorando o mundo (?)

agosto 6, 2015 § 5 Comentários

Em 2011, o fundador da Netscape – alguém se lembra? Foi um dos primeiros navegadores da internet – Marc Andreessen cunhou a frase “software is eating the world” (cuja tradução é o título do post) em um artigo para o The Wall Street Journal, delineando sua “previsão” de que empresas com foco em desenvolvimento de software (hoje a atividade é chamada coding) seriam as que mais gerariam valor econômico, inclusive interrompendo uma ampla gama de setores industriais.

4 anos depois, 1 em cada 20 vagas de trabalho abertas nos EUA são destinadas à engenharia e desenvolvimento de softwares, mostrando uma tendência similar à previsão do Marc Andreessen. A demanda e competição por desenvolvedores de software no mercado de trabalho é muitas vezes centrada em torno de empresas de tecnologia como Uber, Facebook e afins. Mas é facilmente notado que organizações de todos os tipos estão competindo por este mesmo talento – de empresas financeiras e agências governamentais a hospitais, a procura por pessoas com conhecimento em coding é extremamente ampla.

Penso que o coding é apenas a ponta do iceberg, a habilidade que envolve esta busca por desenvolvedores é outra: a capacidade analítica para processar, interpretar e retrabalhar com base nos insights que podem ser gerados pelas inúmeras fontes de informação e conhecimento disponíveis. O coding leva vantagem pelo fato de facilitar o “acesso” ao “big data”.

As habilidades que devemos focar em desenvolver estão relacionadas à capacidade de interpretar o mundo a nossa volta por conta própria (também conhecida por pensamento crítico) e à capacidade de criar a partir do que já sabemos (que também atende pelo nome de pensamento reflexivo). Estas são habilidades que não podem ser ensinadas.

Mas não se desespere, apesar de não poderem ser ensinadas, elas podem ser aprendidas. Ou melhor, desenvolvidas. O “pontapé inicial” que você deve dar está ligado à sua capacidade de interpretação de texto. Por mais que a melhor forma de aprendizado para você envolva alguma outra “mídia” (uso a palavra por falta de outra melhor) – como assistir a uma aula, participar de um debate, observar alguém fazendo, etc. – uma que você não pode abrir mão é a leitura. O fato é que a maior parte do conhecimento humano está registrado “por escrito” (e vem sendo assim há milênios). Portanto, prescindir da leitura é dispensar uma gigantesca fonte de informação e conhecimento. Em outras palavras, um “tiro no pé”.

É assustador saber que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Isto indica que a nossa sociedade não valoriza o conhecimento como deveria, apesar de qualquer brasileiro, quando perguntado, dizer que melhorar a educação é a solução para boa parte dos “problemas” do país. Como pode ser a solução se não há a valorização do “alicerce” de qualquer sistema educacional, o próprio conhecimento?

Na verdade, não é o software que está devorando o mundo, é o desprezo pela leitura. De qualquer forma, também é reconfortante saber que a solução para isto reside em cada um de nós. Que tal tirar aquele livro “empoeirado” da estante?

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§ 5 Respostas para O software está devorando o mundo (?)

  • Renato disse:

    E porque o coding é tão importante? Acredito que também é porque, além de produzir softwares, é preciso entender lógica de programação para sua produção. Os processos de definição de requisitos, desenvolvimento, codificação e análise. A própria forma como as empresas trabalham e novas oportunidades de negócio são criadas acaba sendo influenciada por essa lógica.

    Pessoalmente ando meio cético em relação ao uso de TI para o ensino fundamental, mas acho que ensinar lógica de programação para as crianças será essencial para o seu futuro.

    Como ensinar essas coisas e manter as crianças criativas será um desafio. Se bem que mas garantir que a escola não destrua a criatividade delas já é um desafio em si. 🙂

  • Renato disse:

    Entendo meu comentário anterior mais como um adendo, eu concordo plenamente isso vai começar na leitura.

    • marcelotibau disse:

      Certamente este é um desafio e tanto Renato. Acredito que o estímulo à criatividade dos pequenos passa pela interdisciplinaridade. Mostrar como o conteúdo referente à vários assuntos interagem entre si e estimular a conexão desse conhecimento para criar coisas no próprio ambiente de aprendizado. O coding entra hoje em dia nessa pauta exatamente por proporcionar esta possibilidade de interdisciplinaridade. Mas acho que é preciso também não menosprezar habilidades antigas, como por exemplo a caligrafia, que vem se tornando o “patinho feio” dos currículos educacionais, mas que estimula uma intimidade entre o aprendiz e a palavra, que a digitação não proporciona.

      • Renato disse:

        Realmente… taí outro ponto que eu concordo. Já se fala que a caligrafia está obsoleta já que vivemos digitando, já ouvi isso até de um medalhão na área de educação. O problema é o que se perde: a prática de movimentos finos e complexos. Acho que nosso cérebro faz conexões, um aprendizado tangencial importante, no exercício dessas habilidades “obsoletas”. Tanto que certas linhas pedagógicas, como a Waldorf, se esmeram em ainda ensinar habilidades manuais.

        Imaginemos como seria a interface dos Macs se o Jobs não tivesse mexido com caligrafia e tipografia.

      • marcelotibau disse:

        Concordo contigo. Bem colocado.

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