O caso Gawker e a democracia

junho 1, 2016 § Deixe um comentário

scapegoating.png

Gawker é um site de fofocas, cujo slogan maroto é “a fofoca de hoje é a notícia de amanhã”. Seus posts, focados em celebridades e poderosos de todas matizes, provocam tanto indignação quanto tráfego ao site. Em 2012 publicou trechos de um vídeo sexual envolvendo o ex-lutador Hulk Hogan. O ex-lutador, indignado, processou o site por invasão de privacidade, ganhou a causa e o direito de receber cerca de US$ 140 milhões por danos à imagem. O criador do Gawker, Nick Denton, alega que a condenação os levará à falência e insiste no seu direito de publicar fatos que considera relevantes e de interesse jornalístico para a sociedade.

Peter Thiel é um dos fundadores do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook (faz parte do board da rede social). Em 2007, o mesmo Gawker publicou um pequeno post com o título “Peter Thiel é totalmente gay, pessoal”, causando furor e indignação de boa parte da comunidade tech e em especial do próprio Peter Thiel, que se sentiu extremamente ofendido. Em maio de 2016, descobriu-se que Peter Thiel contribuiu com US$ 10 milhões para as custas do processo de Hulk Hogan contra o Gawker.

O que o site fez com Hogan e Thiel foi deprimente, mas é preciso olhar a situação em perspectiva. Apesar de ser uma nova mídia, o Gawker é herdeiro direto da crença surgida no século XVIII de que o direito do público à informação é superior ao direito individual à privacidade. Também é herdeiro da prática democrática de causar desconforto aos poderosos – merecendo eles ou não o desconforto – como forma de atenuar e balancear o poder. Devemos lembrar que esta prática surgiu em decorrência das revoluções que destruíram o absolutismo, que por sua vez mostrou à humanidade que o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. Foi esta crença também que criou o conceito moderno de democracia e o sistema de freios e contrapesos, que é um dos sustentáculos do Estado democrático de direito.

Muita gente boa acha que o Gawker tem mais é que acabar mesmo – como mostra este debate no twitter – inclusive o próprio Peter Thiel, que classifica sua ajuda às custas do processo como um caso de filantropia. Apesar de admirar o Thiel e em especial o seu ensaio publicado em 2009, sob o título “The Education of a Libertarian”, não posso relevar que neste mesmo texto ele declarou “eu não acredito mais que liberdade e democracia sejam compatíveis”.

Muita gente boa também “esquece” que o Gawker foi um dos primeiros veículos de comunicação a publicar posts a respeito da conta secreta de e-mail da Hillary Clinton, dos abusos sexuais praticados pelo humorista Bill Cosby e da contribuição de Hollywood ao fortalecimento dos abusos a mulheres, antes mesmo da “grande mídia” se interessar pelos assuntos.

A democracia moderna é um processo que ganhou impulso a coisa de 300 anos, é muito recente na história da humanidade (para uma visão geral da história da democracia, cheque este link). O significado de uma “imprensa livre” vai além de titãs como The New York Times, abarca todo tipo de publicação, inclusive tabloides e sites como o Gawker.

Estes últimos, causam tanto desconforto nos ditos mais esclarecidos porque refletem a sociedade em que vivemos do triunfo da cultura da celebridade e da imagem em detrimento do conteúdo. O filósofo René Girard, que desenvolveu de maneira mais extensa o conceito do “mecanismo do bode expiatório”, mostra o quão facilmente atribuímos a uma única pessoa (ou instituição) a causa de todos os nossos problemas (que na maioria das vezes são frutos das nossas próprias falhas). O Gawker foi transformado no “bode expiatório” da vez, mas seu desaparecimento por este motivo (e não pela sua falta de qualidade) causaria um mal irreparável à percepção atual em relação à democracia: a de que é aceitável calar vozes que nos incomodam.

Anúncios

A era das inovações

maio 23, 2016 § 1 comentário

Building-Innovation-by-Strengthening-Bridges_knowledge_standard.jpg

Creio de que há pouca disputa em relação à crença de que a inovação está diretamente ligada ao crescimento econômico. Os defensores desta tese ganharam este ano um pouco mais de estofo em sua argumentação. Trata-se da excelente pesquisa feita pelo economista Robert J. Gordon, publicada sob o título The Rise and Fall of American Growth”. Nela, Gordon analisa o constante fluxo de inovação que revolucionou o modo de vida do mundo no espaço de meros 100 anos – de 1870 a 1970. Aborda também os motivos pelos quais esse fluxo se arrefeceu entre os anos 1970 e 2016, apesar da sensação trazida pelas inovações digitais das 2 últimas décadas.

Como o título do livro sugere, a pesquisa foi feita com base na história e experiência dos EUA. Um dos motivos, é o fato do período analisado marcar também um dos períodos com maior registro sociológico da humanidade e em particular, dos EUA. A popularização da imprensa é uma das razões para tal. Outro motivo, é o fato do período marcar também a ascensão do país como superpotência, com influência marcante no modo de vida do restante do mundo. Isto é inclusive o que faz o livro transcender a análise local e poder ser utilizado – obviamente fazendo as devidas correções e concessões a diferenças culturais e de desenvolvimento local – como um “retrato” do impacto das inovações no desenvolvimento da humanidade no período. Os saltos de 50 anos da análise, também contribuem para colocar em perspectiva as informações apresentadas. Nas próximas linhas, tentarei dar uma visão resumida do que o livro traz em 780 páginas. Chamo a atenção para o fato de não pretender resenhar o livro, apenas compartilhar minhas impressões e entendimentos.

1870

Com o fim da Guerra Civil, os EUA buscaram se reconstruir com base na integração. O grande marco foi a construção da primeira ferrovia intercontinental, que ligou as grandes cidades do Leste à Califórnia e, diga-se de passagem, também a milhares de pontos pelo caminho. Comparada com os padrões atuais, a vida da época era extremamente difícil. As casas eram iluminadas por velas ou óleo de baleia, apenas ¼ da população vivia em grandes cidades e a dieta era à base de carne de porco.

A razão pela qual os norte-americanos davam preferência ao porco se devia ao fato de serem animais que vivem em praticamente qualquer lugar (ao contrário dos bovinos, que demandam largas extensões de pasto) e sobrevivem facilmente com restos de comida. Além disto, a carne ao ser salgada ou defumada, podia ser preservada por um longo período. Como não existia refrigeração na época, raramente se produzia vegetais frescos (como alfaces), se dava preferência aos que podiam ser armazenados como abóboras, batatas e feijões. A única fruta largamente consumida era a maçã. Muito pelo fato de ser transformada em cidra ou brandy (uma espécie de conhaque).

Fazendo uma rápida comparação com o Brasil, não estávamos muito atrás. Foi o período final da Guerra do Paraguai e de uma inicial industrialização, muito por conta de iniciativas individuais como a do Barão de Mauá, mas que em certo momento foram “brecadas” pelo imperador – afinal eramos uma sociedade agrária. Nossa força de trabalho era escrava, o que não contribuía para a formação de um mercado consumidor. Pelo menos no quesito da dieta, a nossa era mais rica em termos de proteínas, vegetais e frutas.

A grande inovação do período foi o banheiro moderno. A criação da toalete (mais conhecida entre nós como privada) foi a força motriz da construção dos primeiros sistemas de águas e esgoto, que embora jogassem os dejetos diretamente em rios e mares, começou a contribuir para a percepção da importância sanitária na preservação da saúde. Também há a mudança da matriz de transportes, de cavalos e charretes para trens e embarcações à vapor. Isto permitiu, nos EUA, a criação de um incipiente mercado consumidor nacional, além de contribuir para a melhoria da qualidade de vida nas cidades – levando em consideração que um cavalo produz 20 kg de fezes e mais de 3 litros de urina por dia, o impacto não foi pequeno.

Em tempo, no período, a circulação de jornais alcançava 2,5 milhões de pessoas em uma população de cerca de 40 milhões.

1920

Com o final da I Guerra Mundial e com a Grande Depressão ainda por vir, o período marcou um salto enorme em relação aos 50 anos anteriores. As casas se tornaram mais “conectadas”. O sistema elétrico provia iluminação – sem gerar fumaça – redes urbanas mais robustas proviam água limpa em abundância e um sistema aprimorado de esgoto levava o cheiro e os dejetos para longe de boa parte da população. Os telefones já eram largamente utilizados e permitiam a comunicação em longa distância.

As inovações não foram apenas tecnológicas, mas urbanas. As grandes cidades receberam a classe trabalhadora, que pôde contar com apartamentos a preços acessíveis – também eram permitidos a construção de pequenas casas por conta própria. Em Chicago, por exemplo, a loja de departamento Sears vendia um “kit” de materiais pré-fabricados que permitiam a construção de uma casinha em 356 horas de trabalho manual. É claro que não existiam leis ambientais ou departamentos para supervisão urbanística (um levantamento mostrou que cerca de 40% das construções existentes em Manhattan não seriam permitidas pela legislação americana atual).

O número de hospitais cresceu de 120 em 1870 para 6000 em 1920 e a medicina se tornou mais uma ciência do que curandeira, com inúmeras especializações. Embora inovações na área ainda estivessem por vir, como os antibióticos, apenas a popularização dos serviços de águas e esgotos melhorou em 5 vezes a taxa de mortalidade.

Outra revolução foi nos transportes, o veículo automotivo começava a sua caminhada revolucionária, pulando de 8000 em 1900 para 23 milhões em 1929. Trens, bondes e metrôs reduziam distâncias e facilitavam a vida de quem morava nas cidades. Uma viagem de trem de Nova York a Chicago passou de 38 horas em 1870 para 24 horas em 1920 e 16 horas em 1940.

Foi também o início da era da comida processada e das geladeiras (eram chamadas de “icebox”). Estas duas inovações revolucionaram o modo de vida das pessoas, que começaram a ter disponíveis vegetais frescos durante o ano todo. Para efeito de comparação, o “café da manhã” típico em 1870 era composto de carne de porco e polenta, em 1920 era corn flakes (o nosso sucrilhos) e suco de laranja. Apesar disto, a “cozinha” da época não seria reconhecida nos nossos dias, não existia máquina de lavar (louça ou roupa) e as tomadas não possuíam modelo padrão. Mas, o cachorro-quente já era popular (foi criado em 1900 em Coney Island – Nova York) e o hambúrguer estilo americano dava seus primeiros passos, graças à forte imigração alemã.

O mercado consumidor já era bem desenvolvido, com cadeias de lojas que existem até hoje. Mas a grande inovação do varejo foram os supermercados. Outra grande inovação foi a entrega de encomendas via correios. Em 1900, apenas a Sears já recebia cerca de 100 mil pedidos por dia e seu catálogo de produtos vendia quase de tudo (não é à toa que o e-commerce se desenvolveu rápido em uma sociedade já acostumada a fazer negócios por via não presencial).

Outro fator de inovação foi a informação, não eram entregues apenas produtos na porta das casas americanas, jornais também. De 1910 a 1930, uma residência típica recebia em média 3 jornais diários. A era da informação eletrônica ainda não havia iniciado em 1920, mas a primeira estação de rádio “abriu as portas” neste mesmo ano e em 1923 já eram cerca de 550. Além disto, o fonógrafo já era largamente popular e o cinema, um sucesso absoluto, com quase o dobro de espectadores semanais do que hoje (levando em conta uma população relativamente menor).

1970

Muitas das inovações que começaram por volta de 1920 já eram parte fundamental da vida diária em 1970. Principalmente nas áreas de transporte e comunicações. Viagens aéreas já eram bem mais comuns e deixaram para trás as viagens transcontinentais de trem – fazendo em algumas horas a distância que era cruzada em vários dias. Para muitos, as viagens de avião nos anos 1970 eram mais prazerosas, com bebidas e comidas de alto nível sendo oferecidas e cadeiras bem mais espaçosas do que as atuais – verdade seja dita, alguns destes mimos sobrevivem até hoje, chama-se primeira classe. Eram tempos de viagens supersônicas, via Concorde, que possibilitavam quem podia pagar, almoçar em Paris e jantar em Nova York no mesmo dia.

Os carros também traziam inovações futurísticas se comparadas com os modelos de 50 anos antes. Em 1920, o Modelo T da Ford tinha que ser ligado à manivela. Em 1970 o Ford Mustang chegava à 100 km/h em questões de segundos e era equipado com rádio e ar-condicionado.

O ar-condicionado, inclusive, é uma inovação revolucionária a seu modo. Lançado pela primeira vez em 1923, ao longo de meio século impulsionou o aumento da população em cidades de clima quente. As casas norte-americanas tornaram universais tecnologias já populares, como energia elétrica (presente em 100% delas) e água corrente (em 98% delas). Geladeiras também atingiram os 100% de presença em 1970, com a sua qualidade muitas vezes superior às da década de 20 e preço muitas vezes inferior.

A dieta também mudou. Os norte-americanos consumiam bem menos porco e bem mais galinha e peru. A quantidade de vegetais frescos também diminuiu a medida em que diminuiu o número de pessoas morando no campo. As grandes cidades davam preferência à legumes em conserva e enlatados. Margarina substituiu a manteiga. Os supermercados passaram a ocupar mais espaço, criando os hipermercados. Para efeito de comparação, um supermercado em 1920 estocava cerca de 600 itens, em 1950 por volta de 2200 e em 1985 mais de 17000.

A comunicação em massa mudou radicalmente a forma de diversão das pessoas. Enquanto em 1920 as opções eram fonógrafo e cinema-mudo, em 1970 já haviam TV a cores, rádio e filmes com sons épicos nos cinemas. Os canais de TV, aliás, sem a concorrência nem do videocassete, batiam recordes e mais recordes de audiência.

2016

Aviões e automóveis ficaram mais seguros e rápidos. Inovações incentivadas pela melhoria da segurança são as grandes mudanças nos transportes: cintos de segurança, air-bags, legislação mais pesada contra abuso de álcool e restrições à cigarros ajudaram a salvar vidas, mas aviões maiores, assentos menores, máquinas de raio-x e procedimentos de embarque tornaram a experiência de voar mais frustrante – em 1940 era possível chegar 10 minutos antes de um voo, comprar passagem e embarcar. No quesito alimentação, o consumo de vegetais e frutas frescas voltou a aumentar, assim como o acesso a culinárias de diferentes culturas modificou os hábitos alimentares de milhões de indivíduos ao redor do mundo.

De 1970 para cá, a grande inovação em termos de eletrodoméstico foi o micro-ondas. Os demais tiveram alterações bem triviais, como mais eficiência aqui, um ganho ergonômico ali, menos necessidades de reparos. A verdade é que uma casa dos anos 1970 funcionava de forma bem parecida com uma de 2016. Ninguém se acharia colocado em um mundo diferente se por acaso trocasse de época.

Quer dizer, se não fosse colocado em frente a um computador. As grandes inovações nos últimos 46 anos se deram na tecnologia da informação e do entretenimento. O cliché da TV ir de 3 canais a 300 não conta toda a história. Os próprios aparelhos de TV passaram de 19 a mais de 50 polegadas e com uma definição de imagens que as tornam quase vivas. Filmes e programas estão disponíveis a qualquer hora, por meio de streaming e on-demand, tornando a “emissora de TV” quase irrelevante.

E tem também a internet. O impacto dela, apesar de ainda não ter sido completamente explorado e entendido, vai além de disponibilizar toda a produção notável da humanidade em termos de informação, literatura, arte-visual e plástica. O acesso portátil colocou este “poder” nas mãos de cada indivíduo dotado de smartphone e vem alterando a maneira como o ser-humano se relaciona com o conhecimento e entre si. Entrar em contato com parentes e amigos em lugares distantes também já não é tão problemático – Skype e FaceTime deram outra dimensão ao ato de “falar ao telefone”.

Como conclusão, pode-se dizer que as pessoas vivem e viajam tanto quanto poderiam há 40 anos. Comemos mais variedades de comidas e há mais consciência em relação ao impacto individual e coletivo no planeta. Produtos de todos os tipos ficaram melhores, mais seguros e eficientes. Mais ainda fica a questão em relação ao que se fará com o poder trazido pelos supercomputadores que carregamos em nossos bolsos e bolsas e se a era das inovações iniciadas em 1870 continua a “todo vapor” ou se perdeu impulso.

Deu no New York Times

maio 11, 2016 § Deixe um comentário

newsroom_nyt.jpeg

Redação do NYT ao anunciarem os ganhadores do Pulitzer. Photo by Hiroko Masuike/The New York Times.

Uma das minhas lembranças mais antigas é dos meus pais e tios discutindo os assuntos correntes do momento ao redor da mesa, nas reuniões de família. Uma das frases mais ouvidas – e que trazia credibilidade ao assunto – era a que está no título deste texto. Em meados dos anos 1990, meus pais proporcionaram um dos maiores presentes a um aficionado por conhecimento como eu, uma conexão à internet.

Desde este dia até mais ou menos o ano de 2012, adquiri o habito de visitar diariamente o site da publicação e ler gratuitamente os artigos que mais me interessavam. Em 2012, o jornal, que passava por uma das maiores crises financeiras de sua história, lançou seu serviço de assinatura online. Iria cobrar por algo que entregava de graça até aquele momento. Lembro de ter, ingenuamente, pensado “quem vai pagar para ler uma reportagem na internet? ”.  A resposta veio alguns dias mais tarde quando atingi o limite gratuito de 10 artigos. Assinei o jornal e mantenho meu hábito ainda hoje.

Em 1995, o Times – como é carinhosamente chamado – tinha 1,5 milhão de assinantes da sua edição impressa. Hoje, já são 2,5 milhões somadas as duas formas de assinatura. Somente com os assinantes online, o jornal fatura U$400 milhões anuais. O impacto da rede de assinantes já se faz sentir no próprio modelo de negócio da empresa, os anunciantes – antes tidos como o grande foco do planejamento de venda do negócio – perderam preponderância nas finanças do jornal. Em 2016, cerca de 90% das receitas do New York Times são atribuídas à 12% do total de leitores do jornal (sua base de assinantes).

Sendo um entusiasta do jornalismo independente, fico feliz com a mudança de enfoque da relação financeira de uma grande publicação, dos anunciantes para os seus leitores. Clarifica a missão da empresa e ajuda a priorizar o gasto dos seus recursos no que é realmente importante.

Recentemente, o editor-chefe da Bloomberg reclamou que as empresas jornalísticas se “alimentam de migalhas do Facebook”. Se referia ao fato da rede social ganhar rios de dinheiro em anúncios, utilizando feed de notícias de publicações externas para aumentar o tempo de conexão de seus usuários no site, sem gastar um tostão na criação daquele conteúdo.

Entendo a frustação, mas vejo o fato de outra maneira. Há dois caminhos quando um negócio enfrenta a disrupção trazida pela internet: pode reclamar e tentar, sem sucesso, manter as coisas do modo anterior ou pode abraçar a mudança e a utilizar a seu favor. O Facebook é um fato da vida, não é ignorado por ninguém ao redor do mundo e é hoje, a plataforma mais valiosa para qualquer empresa, de qualquer setor, entrar em contato com o seu cliente potencial.

O New York Times utiliza o Facebook principalmente para “acessar” leitores que admiram o jornal e os estimular a se tornarem assinantes. Ao lançar a sua edição em espanhol, a empresa utilizou funções criadas por cientistas de dados (para quem não está familiarizado com o termo, uma função é um algoritmo estatístico escrito para “ler” dados brutos) em conjunto com o Facebook para “encontrar” dentre os milhões de nativos de língua espanhola que acessam diariamente a rede social, leitores – e possíveis assinantes – para a edição na nova língua.

Ao focar a missão do seu negócio em seus leitores e produzir grande jornalismo, o Times abraçou a internet como aliada ao invés de ameaça, e deixou de lado a “briga” por anunciantes com o Facebook. Este ano, a publicação teve 2 vencedores – e 10 finalistas – do prêmio Pulitzer (mais finalistas do que qualquer outra empresa de notícias no mundo).

Penso ser mais do que hora de se encarar a internet com a responsabilidade necessária e dar a devida atenção à sua real natureza: é um serviço público essencial, como rede de água e esgoto, e deve ser disponibilizada à população da mesma forma como os outros serviços essenciais. Em tempos em que se proliferam propostas como a da Anatel, de limitar o serviço oferecido, o exemplo do New York Times é uma demonstração da importância da web como ambiente de negócios ao redor do mundo. Ficar para trás, mais do que atraso, é uma irresponsabilidade na condução de uma política pública. Em relação à internet, o melhor caminho é, como o slogan do próprio Times aponta: Go Inside.

Consumo autoral

agosto 25, 2015 § Deixe um comentário

Serendipity[1] para mim é perambular pelas estantes de uma livraria. É um habito que tenho desde garoto, quando “descobri” autores como Orígenes Lessa e Hélio do Soveral. Por estes dias exercitei esta “navegação” na livraria Leonardo Da Vinci – que segundo notícias está em seus últimos dias, o que é uma lástima dado o inestimável serviço prestado a gerações de mentes cariocas – e encontrei uma verdadeira preciosidade.

Trata-se do livro “Consumo Autoral”, organizado pelo sociólogo italiano Francesco Morace, que fundou um dos mais respeitados centros de pesquisa e estudos de comportamento e consumo, o Future Concept Lab. No livro, Morace et al[2] aborda os resultados de uma extensa pesquisa promovida pelo seu laboratório em cerca de 40 países (Brasil incluído), que percebeu alguns fenômenos culturais e mudanças de comportamento. A análise sociológica feita captou o impacto das últimas crises econômicas – iniciando-se com a de 2008 – e sinaliza uma tendência de mudança de perfil do consumidor à medida que a(s) crise(s) avança(m).

O sociólogo identificou algumas mudanças de comportamento que agrupou no termo que dá título ao livro por mostrar uma característica homogênea a todas elas: consumidores menos influenciados pelo charme das grandes marcas e pela persuasão da publicidade. O livro aborda 10 núcleos geracionais, que constituem o que Morace chamou de “consumidores autores” em cada faixa etária.

Pretendo descrever rapidamente[3] os núcleos e citar os “países eleitos” para cada um deles. Aqui vale uma explicação adicional, esses países são apresentados como arquétipos, ou seja, modelos em que o núcleo pode ser observado mais facilmente, mas isto não significa que a tendência se restrinja a eles. Pelo contrário, pela abrangência da pesquisa pode-se inferir que os núcleos geracionais coexistam em boa parte dos países do mundo.

Posh Tweens [8-12 anos, meninos e meninas]

País eleito: Itália

São aqueles pré-adolescentes amantes das novidades. Possivelmente são os únicos (e os últimos) a seguirem as lógicas tradicionais da moda (com a exceção do núcleo DeLuxe Man, que veremos a frente), em que as estéticas propostas são homologadas e reconhecíveis e que podem ser encaixadas no cenário das marcas e grifes. Um núcleo geracional que pode ser definido como fashion victim, são usuários precoces de tecnologia e possuem grande influência sobre seus pais em termos de consumo e decisão de compra.

Expo Teens [12-20 anos, meninos e meninas]

País eleito: Japão

São os adolescentes que vivem a própria identidade como “exposição” – que compreende a exibição, mas também a exposição às tecnologias, ao uso dos códigos da “tribo”, à sensibilidade à várias linguagens, como música, por exemplo – e que criam o próprio referencial estético sobre tais referências. No “mundo” desse núcleo geracional a moda se encontra com a arte e com o design. Ao crescer, o Expo Teen se torna um Exper(t) Teen.

Linker People [20-35 anos, homens e mulheres]

País eleito: Finlândia

Os Linker People são multiplayer. Vivem a condição urbana como um infinito reservatório de estímulos a serem propostos e captados. Se revelam trend setters no comportamento e são curiosos e interessados em experimentar coisas novas. É um núcleo geracional aberto a experimentar qualquer combinação inesperada para criar e lançar “códigos comuns”, sem nunca se identificar com apenas uma comunidade. A relação entre subjetividade e potenciais interlocutores constitui o ponto-chave da sua identidade.

Unique Sons [20-35 anos, homens e mulheres]

País eleito: China

É a geração dos filhos únicos: individualistas, egocêntricos, narcisistas, consumistas (termos do Morace – não quero ninguém me xingando por aí). Sentem-se únicos, mas estão continuamente em busca dos irmãos que nunca tiveram. É esse o núcleo geracional que representa o “motor” da nova sociedade de consumo. Se equilibram entre o capitalismo e a volta aos valores familiares e utilizam a internet para demonstrar a própria contemporaneidade no mundo. O Facebook é o “projeto digital” que melhor os representa.

Sense Girls [25-40 anos, mulheres]

País eleito: Tailândia

Refinadas, sensíveis, exóticas, as Sense Girls propõem uma estética a léguas de distância da vulgaridade. Estão no centro de uma revolução ética que marca uma profunda mudança de modelo de sociedade. São caracterizadas por uma forte sofisticação sensorial e manifestam suas escolhas cotidianas de consumo por meio de um direcionamento ético e estético. Demonstram uma forte consciência de si mesmas e sabem exatamente o que querem encontrar.

Mind Builders [35-50 anos, homens]

País eleito: Índia

Os Mind Builders são os novos existencialistas. Apaixonados pelo estudo do pensamento humano e pela leitura, atuam como intelectuais cosmopolitas e experts em tecnologia. São também orgulhosos das próprias raízes – muito ligados ao seu “território” de origem. São cultores das linguagens, em todas as suas versões, e da troca intercultural. A palavra-chave para eles é “personalidade” e se reconhecem em Barack Obama, seja como geração, seja como visão de mundo.

Singular Women [35-50 anos, mulheres]

País eleito: Brasil

A singularidade feminina é expressa por mulheres sempre mais audaciosas, seguras de si e sem conceitos preestabelecidos. A tendência coincide com o enfraquecimento da identidade masculina, do ponto de vista estético. Falou-se muito, de maneira ampla e genérica, da condição “single”, considerada como a nova perspectiva sociodemográfica nas sociedades do futuro. Este núcleo geracional prova essa condição como errada. Mostra uma realidade mais complexa, de convivência e uniões não institucionais, que se afastam do puro e simples individualismo “isolacionista” representado pela condição “single”. O universo gay também é considerado como parte desse núcleo geracional, pois segue a tendência de comportamento.

DeLuxe Men [45-60 anos, homens]

País eleito: Rússia

Esse grupo geracional se identifica com o conceito de prestígio e distinção. Muitos comportamentos de consumo, que no passado aconteciam apenas no topo da pirâmide sociocultural em muitos países (os chamados happy few), se difundiram por uma classe média alta que começou a fazer parte de uma dimensão antes considerada inacessível. Nos países em que o capitalismo – por diferentes razões – se firmou há poucos anos (como por exemplo, Rússia, China, Brasil, Emirados Árabes) com seus produtos de alta referência simbólica, se formou rapidamente uma categoria privilegiada de sujeitos que se reconhecem nos códigos e nas lógicas do luxo mais tradicional.

Normal Breakers [45-60 anos, homens e mulheres]

País eleito: Argentina

São os “novos rebeldes”, com uma visão crítica e criativa da realidade em que vivem. Para eles, normalidade e transgressão convivem e se sobrepõem a sua condição de pessoas de meia-idade. Se mostram continuamente em busca de alternativas concretas de vida e a tecnologia constitui uma companheira de vida insubstituível, nas formas do file sharing, do blogging e de todas as estratégias de compartilhamento tecnológico.

Pleasure Growers [acima de 60 anos, homens e mulheres]

País eleito: Estados Unidos

São os boomers americanos que não aceitam os valores e o comportamento típico da terceira idade. Redescobrem e lançam os valores das suas utopias de juventude, filtradas pela experiência e maturidade alcançada. A afirmação desse grupo implica a definição de uma estética completamente nova para a faixa-etária: informal, juvenil, energética, psicodélica. Constituem um grupo estabilizado economicamente, realizado e em busca de um hedonismo inteligente e de consumo experiencial.

Cada um dos núcleos se subdivide em 3 atitudes características da geração e na abordagem necessária, em termos de marketing, para que se consiga iniciar um diálogo com os grupos. Sai os antigos conceitos de 4Ps e de outras siglas alfanuméricas (que não valem mais muita coisa) e entra o entendimento dos drivers[4] de consumo, produto, comunicação e distribuição.

O livro, em suas conclusões, aponta uma realidade que se tornará cada vez mais aparente: a convivência intergeracional. Com as pessoas vivendo cada vez mais, as diferentes gerações conviverão de maneira mais intensa e de uma forma diferente da que a nossa sociedade estava acostumada. É necessário evitar os conflitos tácitos, aproximar e reforçar as relações, sobretudo dos núcleos geracionais que convivem em um ambiente familiar. O uso das novas tecnologias, dos aparelhos smart e a internet tem a real possibilidade de criar barreira invisíveis difíceis de sanar, a não ser criando ocasiões completamente diferentes e distintas de convívio, utilizando o que todos os núcleos geracionais têm em comum, a sua condição humana, que envolve a adesão emotiva, a surpresa da descoberta e o compartilhamento do percurso de exploração que acontece durante esse “conceito” que chamamos de vida.

[1] Palavra da língua inglesa que significa, a grosso modo, encontrar aquilo que não estava procurando.

[2] A expressão latina et al. significa em uma tradução livre “entre outros”, é usada academicamente para sinalizar a presença de outros colaboradores em uma pesquisa ampla.

[3] Morace, Francesco et al. Consumo Autoral. Estação das Letras e Cores. 2009. P. 24-25.

[4] É um conceito de marketing que significa, a grosso modo, os tópicos que o consumidor leva em consideração para tomar determinada decisão.

O software está devorando o mundo (?)

agosto 6, 2015 § 5 Comentários

Em 2011, o fundador da Netscape – alguém se lembra? Foi um dos primeiros navegadores da internet – Marc Andreessen cunhou a frase “software is eating the world” (cuja tradução é o título do post) em um artigo para o The Wall Street Journal, delineando sua “previsão” de que empresas com foco em desenvolvimento de software (hoje a atividade é chamada coding) seriam as que mais gerariam valor econômico, inclusive interrompendo uma ampla gama de setores industriais.

4 anos depois, 1 em cada 20 vagas de trabalho abertas nos EUA são destinadas à engenharia e desenvolvimento de softwares, mostrando uma tendência similar à previsão do Marc Andreessen. A demanda e competição por desenvolvedores de software no mercado de trabalho é muitas vezes centrada em torno de empresas de tecnologia como Uber, Facebook e afins. Mas é facilmente notado que organizações de todos os tipos estão competindo por este mesmo talento – de empresas financeiras e agências governamentais a hospitais, a procura por pessoas com conhecimento em coding é extremamente ampla.

Penso que o coding é apenas a ponta do iceberg, a habilidade que envolve esta busca por desenvolvedores é outra: a capacidade analítica para processar, interpretar e retrabalhar com base nos insights que podem ser gerados pelas inúmeras fontes de informação e conhecimento disponíveis. O coding leva vantagem pelo fato de facilitar o “acesso” ao “big data”.

As habilidades que devemos focar em desenvolver estão relacionadas à capacidade de interpretar o mundo a nossa volta por conta própria (também conhecida por pensamento crítico) e à capacidade de criar a partir do que já sabemos (que também atende pelo nome de pensamento reflexivo). Estas são habilidades que não podem ser ensinadas.

Mas não se desespere, apesar de não poderem ser ensinadas, elas podem ser aprendidas. Ou melhor, desenvolvidas. O “pontapé inicial” que você deve dar está ligado à sua capacidade de interpretação de texto. Por mais que a melhor forma de aprendizado para você envolva alguma outra “mídia” (uso a palavra por falta de outra melhor) – como assistir a uma aula, participar de um debate, observar alguém fazendo, etc. – uma que você não pode abrir mão é a leitura. O fato é que a maior parte do conhecimento humano está registrado “por escrito” (e vem sendo assim há milênios). Portanto, prescindir da leitura é dispensar uma gigantesca fonte de informação e conhecimento. Em outras palavras, um “tiro no pé”.

É assustador saber que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Isto indica que a nossa sociedade não valoriza o conhecimento como deveria, apesar de qualquer brasileiro, quando perguntado, dizer que melhorar a educação é a solução para boa parte dos “problemas” do país. Como pode ser a solução se não há a valorização do “alicerce” de qualquer sistema educacional, o próprio conhecimento?

Na verdade, não é o software que está devorando o mundo, é o desprezo pela leitura. De qualquer forma, também é reconfortante saber que a solução para isto reside em cada um de nós. Que tal tirar aquele livro “empoeirado” da estante?

Sandow Birk e a fisiologia

julho 14, 2015 § Deixe um comentário

Sandow Birk é um artista plástico norte-americano com uma visão muito particular da cultura contemporânea. Ficou famoso o seu trabalho em que retrata o mapa-mundi visto por um liberal (aqui no Brasil chamaríamos de esquerda) e por um conservador (aqui, direita) com todas as suas idiossincrasias.

Porém, o seu trabalho que mais gosto é o que aborda a fisiologia, com “sacadas” como “velha lesão de futebol” para sinalizar o joelho ou “sobremesa” para aquela gordurinha localizada, como podem checar aqui abaixo.

37_physiology

O que acho interessante nesta abordagem é o estímulo à compreensão do funcionamento do corpo humano por meio de correlações com a vida cotidiana. É claro que não substitui o conteúdo clássico da biologia, é apenas um modo de introduzir um assunto mais denso de forma bem-humorada e motivar o aprendizado. Além de ser uma boa maneira para solidificar o conteúdo na memória de longo-prazo (correlacionando-o com “gatilhos” que facilitem rememorá-lo).

Gosto de dizer que não existe “cultura inútil”, é preciso se permitir estar em contato com a maior quantidade possível de fontes de informação para aumentar as suas possibilidades de conectar um conhecimento e, de quebra, inovar.

Quem se interessar em conhecer mais a respeito do trabalho do Birk, pode acessar o seu site diretamente por AQUI.

Exemplo que vem do passado

junho 27, 2015 § Deixe um comentário

“Verney[1], já no século XVIII, em nome de uma plêiade[2] de sábios educados no estrangeiro, clama contra o atraso do ensino nacional, acadêmico, aéreo, falso. Portugal, cheio de conquistas e glórias, será, no campo do pensamento, o “reino cadaveroso”, o “reino da estupidez”: dedicado à navegação, em nada contribuiu para a ciência náutica; voltado para as minas, não se conhece nenhuma contribuição na lavra e na usinagem dos metais. […] A ciência se fazia para as escolas e para os letrados e não para a nação, para suas necessidades materiais, para sua inexistente indústria, sua decrépita agricultura ou seu comércio de especulação. Uma camada de relevo político e social monopolizava a cultura espiritual, pobre de vida e de agitação. Fora dela, cobertos de insultos, ridicularizados, os reformadores clamavam no deserto, forçados a emigrar para a distante Europa, envolvida em outra luz”.[3]

Qualquer semelhança com o Brasil, século XXI, não é mera coincidência. Como explica o saudoso cientista político, Raymundo Faoro, “O Brasil, de terra a explorar, converte-se em três séculos de assimilação, no herdeiro de uma longa história, em cujo seio pulsa a Revolução de Avis e a corte de dom Manuel”. Depende de nós mudar.

[1] Luís António Verney, filósofo, teólogo, padre, professor e escritor português.  

[2] Grupo de homens ou de literatos famosos.

[3] Faoro, Raymundo. Os donos do poder. Página 82.

Onde estou?

Você está navegando atualmente a Cultura categoria em Marcelo Tibau.