O efeito Facebook e a diversidade

junho 6, 2016 § Deixe um comentário

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Há alguns anos comprei um boné do time de baseball New York Yankees na loja virtual do clube.  Nos meses seguintes, toda vez que navegava pela internet, os Yankees estavam ao meu encalço no canto da tela do navegador. Era um bastão assinado pelo Derek Jeter, um anel, uma toalha, camisas mil. Havia sido classificado e recebido um perfil: fã dos Yankees.

O mesmo acontece com os livros que compramos, sites que visitamos, música que ouvimos, filmes que assistimos e ideias que apoiamos. Tudo o que fazemos na rede é reforçado e validado, nunca desafiado. Esta é a realidade ao usarmos a rede social, em particular e a internet, em geral. Os algoritmos usados para analisar nosso comportamento buscam personalizar e customizar nossos gostos e não os contestar.

No final da década de 1980 e início da de 1990, a marca de roupas Benetton usava como slogan a frase “United Colors of Benetton”, em que pregava a diversidade. Hoje, as “cores” propagandeadas pelo nosso comportamento reduziram o interesse de boa parte dos usuários do ciberespaço a um tom apenas. O psicólogo Jonathan Haidt, autor de um excelente estudo a respeito de uma das mais antigas características da sociedade, o tribalismo (o estudo foi publicado no livro The Righteus Mind”) chama o processo de exacerbação desta característica de “Efeito Facebook” – “Facebook Effect” no original.

Ao se tomar consciência deste processo, vem a inevitável questão: como se livrar desta armadilha online?

O jornalista Marc Dunkelman, em seu interessante livro “The Vanishing Neighbor”, explora a interatividade social e seus efeitos em como, com quem e com que frequência nos comunicamos. Utilizando uma metáfora baseada na classificação dos anéis de Saturno (o planeta possui um complexo sistema de anéis, divididos em 3 níveis – interno, mediano e externo), o autor os relaciona com a proximidade dos relacionamentos de um indivíduo: o “anel interno” seria formado por aqueles como quem temos mais proximidade e os “anéis” “medianos” e “externos” representando conhecidos menos familiares e casuais. Dunkelman documenta uma dramática mudança cultural, onde a maior atenção dispensada por uma pessoa é dada aos membros dos “anéis” “internos” e “externos” em detrimento dos relacionamentos do nível mediano – aqueles com quem temos mais ou menos intimidade, mas que formam a maior variedade dos nossos conhecidos. Esta mudança atinge diretamente o que se convencionou chamar de “networking”, enfraquecendo a rede de contatos de uma pessoa e criando uma linha divisória que intensifica a polarização, uma vez que nos comunicamos mais com quem temos afinidade – os “internos” e com quem conhecemos apenas casualmente – os “externos” (as “conexões” ou “seguidores” das redes sociais). Como consequência, acabamos convivendo em um ambiente mais homogêneo e menos desafiador intelectualmente.

Bom, se a internet está desenhada a entregar mais do mesmo (qualquer que seja o mesmo), para se ter acesso à sua inesgotável diversidade, é necessário variar. Quanto mais abranger os seus interesses, mais possibilidade a pessoa tem de entrar em contato com ideias diferentes, trocar experiências (fortalecendo relacionamentos do nível mediano) e aumentar suas referências (facilitando a conexão do conhecimento).

O desafio que se coloca vai além de um feed não equilibrado de notícias ou do algoritmo de algum site. Trata-se de combater um tribalismo que existe há tanto tempo quanto a humanidade e que agora tem se enraizado no solo fértil da internet – o tornando nem tão fértil assim. Inovação vem da diversidade de ideias e do conhecimento que elas geram. Entrar em contato com elas, é responsabilidade de cada um individualmente. Uma frase que ouvi há vários anos marcou minha relação com a diversidade e com o conhecimento como um todo: “é preciso ter a consciência de que Shakespeare não virá até você, você é que precisa ir até ele”.

 

Diferentes níveis de atenção para diferentes tarefas

novembro 6, 2015 § Deixe um comentário

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No dia a dia temos a tendência de entender os estados de atenção de maneira direta: “estamos prestando atenção” ou “não estamos”. O primeiro caso é encarado como bom, o segundo não. A verdade é que as coisas são um pouco mais complicadas do que isto.

Um estudo publicado na revista “Nature” há alguns meses sugere que pessoas criativas (retomando o assunto do post anterior) têm maiores ligações entre duas áreas do cérebro que são normalmente difíceis de conciliar: a rede associada com foco e controle da atenção e a rede associada com a imaginação e espontaneidade.

Um dos autores do estudo, Scott Barry Kaufman, diz que “as pessoas criativas não são caracterizadas por qualquer um desses estados por si só”. Segundo ele, a capacidade de adaptação e a capacidade de misturar estados de atenção e desatenção (aparentemente incompatíveis de coexistir), dependendo da tarefa, estimula mais a “conexão de ideias” do que simplesmente dedicar “toda a atenção”, como costumamos acreditar. Brinca dizendo que “pessoas criativas têm mentes confusas”.

Isto me faz recordar daquelas “horas” – que costumo chamar de “momento eureka” – em que se está assistindo televisão, lendo um livro ou tomando banho e aparece aquele “clique”, aquela “conexão” que estava faltando para resolver um determinado problema. Reforçando a ideia, também já comentada no post anterior, é a livre associação que permite que o cérebro faça conexões mais variadas. De qualquer forma, creio que criatividade e flexibilidade andam juntas, uma vez que ao diversificarmos nossas experiências, nos “empurramos” para fora do nosso padrão de pensamento “normal”.

P.S: A imagem “provocadora” que abre o texto é de um artista australiano chamado Tony Albert. Quem se interessar, pode encontrar mais trabalhos dele AQUI.

Divergir para convergir

novembro 3, 2015 § 1 comentário

No seu nível mais básico, novas ideias têm a ver com novas conexões. Não sei se é verdade, mas é atribuída a Steve Jobs uma frase que diz mais ou menos o seguinte: “criatividade é apenas conectar coisas”. Se foi ele mesmo (ou algum anônimo), a verdade é que a frase tem um fundo de verdade, pelo menos quanto à forma como o cérebro “cria” novos conhecimentos. Quando aprendemos algo novo, nossos neurônios se conectam entre si, formando “redes” de compreensão. Pode-se considerar que a diferença entre um cérebro “criativo” e um cérebro médio é a quantidade e a força das conexões neurais e a habilidade em criá-las. Este mesmo processo (conexão neural) também está relacionado ao processo natural de formação do que chamamos de “inteligência”. Será que inteligência e criatividade é a mesma coisa – criação de conexão (como na frase citada no início do texto)?

Uma pesquisa feita pelo California Institute of Technology (também conhecido como Caltech), mostrou que a inteligência é algo que se encontra por todo o cérebro. Os pesquisadores descobriram que, ao invés de estar residente em um único local, a inteligência geral é determinada por uma rede de regiões em ambos os lados do cérebro. Já a criatividade, conforme mostrou uma pesquisa feita em 1921 pelo psicólogo Lewis Terman, nem sempre anda de mãos dadas com a inteligência. No estudo feito há 94 anos, Terman descobriu que após certo nível, a inteligência não tem muito efeito sobre a criatividade. Este estudo e subsequentes deram origem à chamada “teoria da soleira” (no original, “threshold theory”).

Por que essa história é importante? Porque ela demonstra que criatividade está ligada à forma de pensar e não ao QI (essa introdução toda foi para podermos chegar a este ponto). É muito popular hoje em dia as ideias do Joy Paul Guilford a respeito do pensamento convergente e divergente. Também é muito popular vê-los como opostos. O primeiro estaria ligado à capacidade de se chegar a uma única e bem estabelecida resposta a determinado problema. O pensamento convergente enfatiza a velocidade, a precisão e a lógica e centra-se no reconhecimento do familiar, nas técnicas de reaplicação e no acumulo de informações.

Em contraste, o pensamento divergente normalmente ocorre de maneira espontânea, com fluxo livre, onde muitas ideias são geradas e avaliadas. Várias soluções possíveis são exploradas em um curto espaço de tempo e conexões inesperadas são desenhadas.

Testes de múltipla-escolha são exemplos clássicos da utilização prática do pensamento convergente (testes de QI também) e o método de brainstorming é o exemplo clássico da utilização do pensamento divergente.

Na maioria das vezes, os dois tipos de pensamento são “vendidos” como não conciliáveis. Como opções a serem feitas: ou se é lógico ou se é criativo. A verdade é que para ser criativo, é preciso ser lógico também. Criatividade envolve um processo cíclico de geração de ideias associado a um trabalho sistemático que ajude a selecionar as que realmente têm possibilidade de “frutificar”. Criatividade deveria ser vista como 2 estágios, o de geração – que envolve o pensamento divergente – e o de exploração – que envolve o pensamento convergente (para mais detalhes, sugiro o artigo do cientista Scott Barry Kaufman, publicado na revista “Psychology Today”).

Acredito que a criatividade está ligada à associação e essa associação é facilitada pela diversificação de informações e conhecimentos que se tem. Ser curioso intelectualmente é um bom jeito para estimular a sua criatividade. É aquela história, se você lê (ou faz) o mesmo que todo mundo, vai pensar do mesmo jeito que todo mundo.

Crítica é boa para inovação?

julho 9, 2015 § 1 comentário

Jonathan Bendor, professor da Universidade de Stanford acredita que sim. Para ele, o que falta na maioria dos locais de trabalho não é criatividade, mas sim visão crítica. Muitos acreditam que a crítica e a criatividade são incompatíveis em um ambiente de trabalho criativo (vide as recomendações de técnicas como brainstorming), mas como Bendor vê a situação, criatividade e crítica são como os princípios chineses do yin e yang: duas forças complementares que interagem para formar um todo maior. “Eu acho que não só elas podem viver juntas”, diz ele, “como têm de viver juntas.”

Apesar de gostar de causar desconforto com suas observações – como podem checar pelo infográfico que seus alunos fizeram dos seus conceitos (pérolas como “a maioria das ideias são ruins” ou “leia e escreva usando as dicas “Strunk & White”[1]) – algumas delas são realmente válidas, como a referente ao uso de rubricas como forma de feedback.

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Explico melhor, uma maneira de dar aos funcionários (ou colaboradores na linguagem atual) um feedback útil é através de uma rubrica formal ou sistema de pontuação, onde suas ideias são classificadas em várias dimensões, tais como “mérito técnico” e “potencial de mercado”. Ao contrário de uma crítica global como “Isso não é bom!”, as rubricas podem ajudar a solucionar problemas ao darem mais parâmetros para a avaliação de uma ideia e indicarem como ela pode ser melhorada.

“Se uma ideia é corrigível”, diz Bendor, “um gerente pode apontar para a rubrica e dizer: esta parte da solução está OK. Esta parte precisa ser retrabalhada e esta parte, refeita totalmente”. Ele acrescenta que pessoas em todos os níveis de uma organização podem se beneficiar de um feedback despersonalizado como este – mesmo o CEO.

Quem quiser ouvi-lo falar, pode acessar ao vídeo disponibilizado por Stanford. São 12 minutinhos que vale a pena “gastar”.

[1] William Strunk, Jr. publicou em 1919 um manual de escrita, revisado e atualizado em 1959 pelo seu ex-aluno E.B. White, chamado “The Elements of Style” em que dá dicas para escrever um texto corretamente. Quem já teve oportunidade de frequentar alguma aula de literatura em uma High School americana deve ter recebido o livrinho, que é odiado pela maioria dos estudantes.

Infográficos Flipped Classroom e Project-Based Learning

junho 11, 2015 § 1 comentário

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Acredito no poder do compartilhamento, inclusive esse foi o conceito que me motivou a lançar alguns anos atrás esse espaço. Como mais uma forma de partilhar o que tenho aprendido, resolvi “abrir” uma nova página no site para disponibilizar materiais originais, frutos dos meus estudos. É a seção “Publicações” que pode ser acessada pelo menu aí do lado esquerdo.

A primeira “publicação” disponibilizada é um kit de infográficos com 2 modelos educacionais que têm chamado muito a minha atenção: Flipped Classroom e Project-Based Learning. O primeiro, estimula o desenvolvimento do pensamento crítico (que é entender o mundo à volta e a sua relação com ele) e o segundo, o pensamento reflexivo (criar algo novo a partir do seu conhecimento). Os infográficos trazem o passo a passo para implementar tanto um quanto o outro.

Como o que é de graça nem sempre é valorizado, na “minha mão” sai pelo módico preço de… 1 compartilhamento. Pode ser via Twitter, um post no Facebook ou um post no LinkedIn, você escolhe a melhor forma. Aqui devo um agradecimento especial ao meu amigo Illan Sztejnman pela ideia.

Você pode baixar pela seção ou neste post, ambos clicando no botão abaixo. Ah, quem puder, me dê um feedback do material (na seção “O Escritório” tem um formulário de contato).

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Conheça o “Huggable”

junho 5, 2015 § Deixe um comentário

Quem é fã de ficção científica tem a certeza de que no futuro os robôs serão parte inseparável da sociedade humana. De certa forma, o futuro já chegou se considerarmos a participação deles em algumas indústrias.

Mas será que podem nos ajudar a aliviar nossas tensões, ansiedades, dores ou a solidão? O Media Lab do MIT acredita que sim e em parceria com o Boston Children’s Hospital implementou um programa de estudos que utiliza um ursinho de pelúcia robótico, o Huggable para ajudar na recuperação dos pequenos pacientes.

O “brinquedo” fala e brinca com as crianças e, a julgar pela reação delas, tem feito muito sucesso. Vale a pena assistir ao vídeo feito pelo NY Times com o encontro da paciente Beatrice Lipp com o ursinho.

Para outras informações, vale acessar a página do projeto no site do Media Lab.

Autoaprendizado – parte 4

maio 12, 2015 § Deixe um comentário

Para fechar esta série, vou abordar mais 5 dicas que misturam um pouco de cada ponto que vimos nos posts anteriores. No primeiro deles, minha intenção era mostrar as “bases” de um autoaprendizado (metas pessoais, autoconhecimento e autoquestionamento), no segundo, a importância da motivação pessoal no processo e no terceiro, a necessidade de se organizar para aprender.

16. Faça uma lista dos tópico a dominar

Fazer listas ajuda a manter o foco nos assuntos que realmente são importantes aprender, além de ser divertido “ticar” o que já foi visto. É importante incluir o que é realmente relevante, mas também o que é interessante para você (aprender tem que ser prazeroso).

17. Dê um uso prático ao que aprendeu

Todos nós valorizamos os conhecimentos úteis, mas muitas vezes é preciso fazer um esforço consciente para usá-los. Crie suas próprias oportunidades para aplicar o que aprendeu, você se surpreenderá com a sua habilidade executiva.

18. Valorize o seu progresso

No decorrer da vida, nunca deixamos de aprender e esta é uma das muitas razões pelas quais o autoaprendizado é tão interessante. Muito assuntos, tópicos, questões e problemas significam muitas oportunidades, estímulos e realizações. Por isso, não se esqueça de valorizar a sua evolução e se lembrar de que ela acontece no seu ritmo.

19. Mantenha suas metas realísticas

Nada é mais frustante em um processo de autoaprendizado do que criar, nós mesmos, metas irreais ou inalcançáveis naquele momento. Por isso, tente manter as “coisas” em perspectiva e defina metas que sejam realmente alcançáveis.

20. Construa sua rede de “colegas aprendizes”

Somos aprendizes colaborativos por natureza. Use esse “dom” natural a seu favor e faça parte de comunidades online ou presenciais, onde possa conversar e debater a respeito do que aprendeu. Esse tipo de relacionamento realmente dá suporte e apoio durante a sua “jornada” de aprendizado e ajuda a “iluminar” o seu caminho.

É importante ter em mente que o papel mais importante em um processo educacional é o do aprendiz. Todos os outros “atores” (professores, instituições, governos, colegas, etc) participam como estimuladores, definidores de parâmetros e dialogadores do processo, mas se não houver aquela “chama interna”, aquela vontade em quem está aprendendo, o ciclo não se fecha. Aprendizado é na verdade autoaprendizado e ter consciência do impacto do nosso próprio papel e atitude como aprendizes é vital para desenvolvermos o nosso pensamento crítico e reflexivo.

Aprendizes e Estudantes

abril 20, 2015 § Deixe um comentário

Uma das maiores discussões, na maior parte dos países ocidentais, quando o assunto é sistema educacional moderno, é em relação ao seu foco. No Brasil, o enfoque está meio que resolvido, deveríamos focar em “criar” cidadãos conscientes socialmente, como direciona nossa Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas, o que significa isto? Bons estudantes são bons cidadãos? Ou deveríamos procurar estimular que se tornem aprendizes habilidosos? Há uma diferença, e não é apenas semântica, entre estudante e aprendiz. Vamos a ela:

1. Relacionamento com os educadores:

Estudantes são como funcionários, se espera que direcionem seu interesse em sintonia com o interesse da escola ou do currículo (algumas esperam simplesmente que se comportem e sigam as instruções). Aprendizes possuem interesses mais variados e preferem ter liberdade de auto-direcionar o seu aprendizado.

 2. Relacionamento com os pares

Estudantes são competidores. O “ano letivo” nada mais é do que uma competição de longa duração e desde a minha época de estudante, o objetivo final era “passar no vestibular” (hoje é tirar uma boa nota no ENEM). Aprendizes são colaboradores. Quem já experimentou aprender algo apenas por prazer ou sem nenhum objetivo definido, sabe do que falo. É só procurar algum grupo de discussão na internet para comprovar na prática.

 3. Motivação

Estudantes são estimulados a “trabalhar” por uma compensação (a nota, passar de ano, entrar na faculdade, etc.). Aprendizes são motivados em entender e gerar valor com o seu “trabalho”.

 4. Compensação

Estudantes esperam como compensação pelas suas notas, uma porta de entrada para a faculdade ou um bom emprego. Aprendizes possuem um senso de “missão a cumprir” ao longo do processo. A “meta” não é recompensada, é conquistada, não é simbólica, é um investimento.

 5. Modo de operação

Estudantes são complacentes, disciplinados, orientados por objetivo e treináveis. Aprendizes são perceverantes, auto-disciplinados, orientados por resultado e engenhosos.

Um dos grandes diferenciadores dos bons estudantes dos aprendizes habilidosos são as notas. O primeiro grupo é bastante motivado por elas. E essa motivação é extremamente recompensada ao longo da sua “carreira” estudantil. Essa orientação traz 3 consequências:

A primeira, é a perda de interesse pelo aprendizado. Na medida em que a motivação em obter boas notas cresce, a motivação em explorar ideias tende a decrescer.

A segunda, é a prática de evitar tarefas desafiadoras sempre que possível. Afinal, quanto mais difícil a tarefa, maior é a possibilidade de não conseguir uma boa nota.

A terceira, está relacionada à qualidade do aprendizado. Bons estudantes, apesar de completarem suas tarefas, passarem em testes e conseguirem boas notas têm dificuldade em se lembrar do que aprenderam após o exame final. Segundo o pesquisador Eric Mazur, também professor de física aplicada da Universidade de Harvard, 2 meses após o exame final, 90% dos estudantes volta ao nível de conhecimento que tinha no início do semestre anterior.

A ironia do enfoque dado à educação brasileira é que temos hoje, em 2015, um mercado saturado de profissionais com diplomas com dificuldade em encontrar emprego, uma vez que os empregadores valorizam pessoas com rápida capacidade adaptativa e de aprendizado e com habilidade em aplicar o que sabem (apesar destas habilidades só serem passíveis de serem checadas no decorrer do próprio trabalho, a orientação de seleção é essa). Em resumo, um mercado que procura (pelo menos teoricamente) aprendizes habilidosos e não bons estudantes.

Penso que é hora de aceitar os fatos e repensar o foco que queremos para o nosso sistema educacional.

“Matadores” de criatividade

abril 15, 2015 § Deixe um comentário

Ao contrário do que imaginamos, alguns hábitos estimulados por “especialistas” podem causar mais mal para a criatividade do que bem. Por exemplo:

Pensar “fora da caixa”

Ron A. Beghetto, um dos criadores do modelo 4Cs da Criatividade, diz que pessoalmente tem “grande dificuldade em pensar fora da caixa, porque na verdade o que é preciso é pensar criativamente dentro de várias caixas”. Slogans populares como “liberte sua mente” ou “elimine todas as restrições” podem soar liberadores, mas no fundo são irreais ou mesmo errados. Segundo Beghetto, parâmetros são um contrabalanço importante e necessário para a originalidade. Ele conduziu um estudo em que pedia aos participantes para “inventarem” um novo esporte. As melhores ideias vieram daqueles que se basearam em esportes já existentes e não dos que usaram ideias menos familiares, embora originais. Beghetto gosta de dar como exemplo a improvisação no jazz, que é uma expressão criativa criada com base em padrões determinados.

Limitar as escolhas

Em alguns contextos, limitar a escolha pode melhorar a criatividade (afinal, MacGyver construía bombas com chiclete), mas definitivamente não é o caso no aprendizado. Limitar a liberdade intelectual limita o resultado intelectual. É preciso dar mais possibilidades e caminhos quando a história é estimular o aprendizado. Afinal, em educação, como na vida, não existe gabarito com a resposta certa. O que existe são caminhos, opções. Por isso, ter indicadores é importante para saber se o caminho escolhido está dando resultado, assim como ter flexibilidade, para mudar a rota quando for o caso.

Repetição de assuntos é “decoreba”

“O conteúdo é o combustível para futuras ideias criativas” diz a Dra. Helen Abadzi, especialista em educação do Banco Mundial. Para construir a habilidade de leitura, matemática e raciocínio é preciso exercitar a habilidade de recuperar e usar o conhecimento para gerar ideias em velocidade suficiente para alcançar altos níveis de complexidade (é o que chamo de conexão do conhecimento). Isto requer prática, por isso não é perda de tempo fazer exercícios repetidamente até diminuir a operação mental para realizá-los (ou como diziam os mais antigos, “até automatizar”).

Lotar a agenda para aproveitar melhor o tempo

Também conhecida pelo nome em inglês, over-scheduling, a prática de “aproveitamento” do tempo marcando várias atividades próximas umas das outras é um dos grandes inimigos da criatividade. Atividades mais prosaicas e relaxantes como “dar uma caminhada” estimulam o pensamento criativo. É aquela história, se você não tem tempo para uma “volta no quarteirão”, não terá tempo para ser criativo (ou inovador). Criatividade também precisa de tempo e espaço para florescer.

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