Uma vila inteira

junho 16, 2016 § Deixe um comentário

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Por algum motivo, decidimos que em nossa sociedade – e de quebra, em nossas instituições educacionais – conversar a respeito de diversidade, preconceito, discriminação e desigualdade com crianças, só quando estiverem mais crescidinhas (o que varia de acordo com a percepção de cada um). Geralmente pensamos que crianças pequenas teriam mais dificuldade em entender estes assuntos complexos ou então somos movidos pelo desejo de poupá-las da exposição às injustiças o máximo possível (embora nem sempre seja possível). No entanto, crianças têm uma forte consciência em relação à justiça e notam diferenças sem desculpas ou desconforto.

A psicóloga Kristina Olson, em um texto publicado em 2013 no site Psychology Today, nota que por volta dos 2 ou 3 anos de idade começamos a ter consciência de que meninos e meninas possuem algumas diferenças e a notar deficiências físicas mais aparentes. Também começamos a ficar mais curiosos a respeito da cor da pele e da textura dos diferentes tipos de cabelos. Alguns de nós, inclusive, já podemos ter ciência da própria identidade étnica. De qualquer forma, aos 5 anos já nos identificamos com o grupo étnico a que pertencemos e somos capazes de explorar a gama de diferenças dentro e entre diferentes grupos étnicos.

Em termos de preconceitos, conforme sugere uma pesquisa de Harvard, noticiada pelo jornal Boston Globe em 2012, crianças de 3 anos quando expostas a preconceito e racismo, tendem a aceitá-los, embora ainda nem compreendam o sentimento. O já citado texto da Dra. Olson, nos traz ainda a informação de que crianças brancas de 3 e 4 anos dos EUA, Canadá, Austrália e Europa, mostram preferência e se sentem mais à vontade com outras crianças brancas do que com crianças de outras etnias.

A importância de conversar “assuntos sérios” com crianças transcende a questão dos preconceitos raciais, de gênero ou religião. É importante que os adultos tenham a consciência de como agir com as crianças que fazem parte de suas vidas. Perpetuar a ideia na criança de que devemos ser “daltônicos” para diferenças raciais ou a calar quando percebe alguém com uma deficiência física, não é a melhor opção. É preciso incentivá-la a notar diferenças (mesmo porque ela já o faz naturalmente), mas ao mesmo tempo, honrar as identidades das pessoas sem julgar ou discriminar com base nessas diferenças.

Sei que não é fácil, muitas vezes nós adultos temos certos desconfortos em falar de diferenças – nem sempre por preconceito, mas muito por receio de parecer tendencioso ou mesmo discriminador. Mas há alguns caminhos que podem facilitar esse trabalho e quem sabe, tornar o mundo um lugar mais seguro de se viver no futuro (escrevo este texto sob o impacto do horror dos acontecimentos em Orlando). Vamos a eles:

  1. Use a literatura como seu “cobertor”

Há uma enormidade de riqueza nos livros infantis, que pode ser usada para abordar o tema do preconceito, diversidade e justiça social. Há diferentes narrativas que trazem histórias sobre pessoas que são diferentes das suas crianças (em pedagogia, são conhecidos como livros de janela), narrativas para afirmar sua identidade (chamados de livros espelho) ou aquelas que expõem o preconceito ou compartilham histórias de pessoas que se levantaram contra injustiças. A leitura de livros, embora muito esquecida hoje, é uma parte essencial na formação do pequeno ser-humano e, portanto, uma maneira perfeita para abordar o tema. Como exemplo, sugiro o site da Anti-Defamation League, uma organização judaica criada em 1913 para combater o antissemitismo. Quem souber de organizações em língua portuguesa que promovam a conscientização através da leitura, por favor compartilhe.

  1. Use as notícias do dia a dia como temas

Vivemos no mundo da informação. Há inúmeras fontes delas, em diferentes plataformas. Não é difícil encontrar reportagens relevantes que destaquem abordagens preconceituosas ou mostrem alguém que se levantou contra uma injustiça e prevaleceu. Muhammad Ali, que faleceu no início do mês, pode ser um bom exemplo para comentar a respeito, tanto em relação aos seus pontos fortes (defesa da igualdade racial e religiosa), quanto suas falhas (como no tratamento que deu ao adversário Joe Frazier).

  1. Dê exemplos familiares

Tire vantagem do interesse das crianças em livros, programas de TV, brinquedos e jogos eletrônicos e os use como oportunidades para explorar a diversidade, preconceito e noções de justiça. A ideia aqui é estar atento ao que pode fornecer abertura para relacionar a realidade delas com a da sociedade em que vivem.

  1. Explore problemas e soluções

Ajude suas crianças a repensarem conceitos para explorarem possíveis soluções mais adiante. Por exemplo, o conceito “ajudar os outros” pode ser uma boa ponte para incluir discussões sobre desigualdades, o que contribui para o problema e que ações se pode considerar para resolvê-lo. Se você acha que são temas difíceis de se “trabalhar”, dê uma olhada no livro “Comprehension and Collaboration”, dos autores Stephanie Harvey e Harvey Daniels. Lá existem dicas excelentes de como combinar pesquisa, organização do pensamento e colaboração em grupo e aplicar consistentemente no processo de aprendizado de crianças.

Por fim, creio que a dica principal é começar cedo. Sei que criar um ser-humano não é tarefa fácil. Tem sempre alguém que acha que sabe mais do que os próprios pais e é muito conveniente ficar dando dica quando não se tem que dar banho, comida, levar para a escola, buscar, etc. Mas como diz um provérbio africano, “é necessária uma vila inteira para educar uma criança”. Esta é a singela contribuição de um morador.

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