A arte no aprendizado

novembro 11, 2015 § 2 Comentários

Na Grécia antiga havia um ramo do conhecimento denominado “arte liberal”. Consistia em uma série de assuntos e habilidades que um cidadão deveria aprender para poder exercer um papel ativo na sociedade em que vivia. Os assuntos estudados incluíam gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, teoria musical e astronomia. Para aplicar estes conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para a cidadania, a pessoa deveria ainda participar de debates públicos, se “defender” em um tribunal, servir como jurado em um julgamento e participar do serviço militar. Ainda hoje se vê “ecos” dos conceitos da “arte liberal” em nossa sociedade, embora distorcida pela compartimentalização. Naquela época era tudo visto de maneira integrada, hoje como matérias individualizadas.

Alguns países têm em seu currículo do ensino médio a denominação “arte liberal”, que na maioria das vezes engloba algumas das matérias estudadas na antiguidade – e mais uma vez, compartimentalizadas. Mas essa história está mudando. Algumas escolas, notadamente nos EUA, têm implementado uma abordagem digamos, clássica, da “arte liberal”. Em uma definição filosófica de arte, estes locais têm se referido a ela não como um tema, mas como um conceito que encara os assuntos ensinados na instituição de forma mais livre, tratando cada um deles como uma “arte”. Com isto, o foco da instituição deixa de ser repassar conhecimento e se torna desenvolver um modo de pensar. Estes locais acreditam que quando tratado como arte, um assunto deixa de ser uma série de regras para memorizar e passa a ser análogo a uma linguagem a ser aprendida (comentei que era uma abordagem mais filosófica).

Para entender como funciona na prática, nada melhor do que um exemplo. A escola Wheeler Elementary, no estado de Vermont, começou a implementar esse conceito há cerca de 6 anos. Hoje ela se chama Integrated Arts Academy (IAA) e seus alunos são bons não apenas em arte. Em matemática, as notas cresceram 66%. Como conseguiram isto?

O diretor Bobby Riley atribui ao que chama de “confiança criativa”, uma mistura de pensamento altamente analítico, raciocínio e uma “voz própria” trazida pela arte. Esta confiança é estimulada pela introdução de componentes mais subjetivos aos trabalhos e tarefas. Por exemplo, em geometria os alunos avaliam a obra do artista russo Wassily Kandinsky. É promovida uma discussão abordando a sua obra e os alunos recebem como tarefa criar sua própria arte utilizando os ângulos no estilo Kandinsky. Depois, é pedido que identifiquem os ângulos utilizados e os retirem do trabalho para realizar o seu cálculo.

Algumas evidências científicas dão sustentação a esta abordagem, como aponta Wendy Strauch-Nelson que coordena outra iniciativa neste estilo no estado de Wisconsin, a ArtsCore. Segundo ela, ao incorporar movimento, desenho, pintura, música e emoções em um aprendizado, se estimula a retenção do que foi visto.

Não são apenas crianças e jovens que se beneficiam da abordagem. Em um estudo baseado em pesquisa de campo, as pesquisadoras Christine Jarvis e Patricia Gouthro, descobriram que adultos também são melhor estimulados com a integração da arte ao desenvolvimento profissional. Elas identificaram 5 grandes áreas em que a abordagem pode trazer bons resultados: (1) na exploração da aplicação da prática profissional; (2) no entendimento dos dilemas profissionais; (3) no desenvolvimento da empatia e da percepção de insights; (4) na exploração das identidades profissionais; (5) no desenvolvimento do autoconhecimento e habilidade interpessoal.

Segundo o estudo, as abordagens baseadas em artes podem ajudar a se fazer uma avaliação crítica do próprio papel e identidade dentro da profissão e considerar o impacto do seu trabalho na sociedade de uma forma mais ampla.

Agora que vimos como a arte pode beneficiar de uma maneira geral o aprendizado, pretendo nos próximos posts trazer exemplos do seu impacto em disciplinas mais específicas, como escrita, ciências e matemática. Por conta de compromissos profissionais, a partir desta semana reduzo as publicações a 1 post semanal. Pretendo retomar ao habitual 2 posts por semana tão logo seja possível.

Como integrar tecnologia à educação?

agosto 11, 2015 § 3 Comentários

Esta é uma pergunta que tenho ouvido muito em conversas e debates sobre o tema que tenho participado. Alguns acreditam que a tecnologia possa ter um papel mais importante, outros nem tanto, mas a maioria concorda que vale a pena olhar com um pouco mais de atenção o assunto.

O que respondo com frequência é o que costumo reforçar quando sou questionado a respeito da implementação de algum novo modelo educacional, como por exemplo aprendizado baseado em projetos (project-based learning) ou classe de aula invertida (flipped classroom): modelos educacionais são propostos como opções e não tanto como alternativas. Não se deve basear um projeto educacional (ou um sistema educacional) em apenas um modelo, eles funcionam melhor em associação. Aprendizado baseado em projetos pode e deve ser usado em conjunto com o modelo tradicional (ou construtivista, aristotélico, etc). O mesmo ocorre com a tecnologia.

Alguns exemplos do uso de tablets em aulas mostram que o equipamento funciona melhor como ferramenta de trabalho. O caso da escola suíça Zurich International School, que distribuiu Ipads aos seus alunos mostra que o importante não é o conteúdo que os aprendizes colocam no tablet e sim o que fazem com o equipamento. É usado como filmadora, gravador e “caderno de anotação” multimídia.

Em uma escola do subúrbio da cidade de Washington, a Buck Lodge Middle School, os estudantes usam tablets para gravar vídeos, criar apresentações e usar aplicativos educacionais como parte de suas atividades, com bons resultados. As escolas da região que utilizam a ferramenta tiveram um rendimento 175% melhor em matemática do as que não utilizam e um aumento de 35% no número de estudantes que atingiram o nível avançado de leitura.

Para entender como um tablet pode auxiliar um ambiente educacional, um pesquisador da Universidade de Adelaide na Austrália, Allan Carrington, desenvolveu a “Roda (i)Padgógica” (perceberam o trocadilho? Incluí o “i” para facilitar), utilizando a Taxonomia de Bloom, o modelo SAMR (já publiquei um post sobre ele) e uma lista de aplicativos educacionais.

O ponto principal da Roda (a imagem abaixo) é a definição de critérios para os aplicativos.

samr3

Uns funcionam melhor para estimular o entendimento a respeito de algo, outros para a lembrança, um outro grupo para aplicar o que foi aprendido, um quarto para estimular a análise, outro para a avaliação e um último para a criação de algo utilizando o conhecimento aprendido. Definir estes critérios e associar os aplicativos apropriados é essencial para que o tablet realmente possa cumprir o seu papel de ferramenta. Não adianta oferecê-lo apenas como repositório de apostila ou como ferramenta livre. Acabará sendo usado da forma como a maioria está acostumada a utilizá-lo, como entretenimento.  Por enquanto a “Roda (i)Padgógica” está disponível apenas em inglês. Pretendo trabalhar uma versão dela em nosso idioma assim que tiver disponibilidade para tal. De qualquer forma, disponibilizo o link para quem quiser acessar ao pdf original com as indicações dos critérios e aplicativos associados até o momento.

É inevitável que a tecnologia assuma cada vez mais um papel, ouso dizer, predominante no dia a dia de uma sociedade realmente integrada ao século XXI. É inevitável porque facilita a vida de quem a utiliza. Brigar contra inovações como Uber, por exemplo, é o mesmo que combater monstros imaginários na forma de moinhos como fazia o Don Quixote na obra mágica de Cervantes. Lembro da minha mãe dizendo há uns 30 anos que todos da família tínhamos que aprender a “mexer no computador” para não sermos “analfabetos digitais”. É claro que usar ou não a tecnologia em um ambiente educacional não é uma decisão com resultados tão dramáticos quanto às palavras da minha mãe, mas certamente quem tiver a oportunidade irá se beneficiar bem mais do que quem não tiver.

O que a Finlândia tem?

junho 25, 2015 § Deixe um comentário

Foi com muita alegria que li a reportagem publicada nessa semana pela revista Veja a respeito da revolução educacional promovida pela Finlândia. O artigo aborda alguns temas que discuti neste espaço nos últimos meses, em especial coding (como exemplo de integração de disciplinas), project-based learning e empoderamento de alunos e professores (não por acaso temas dos 3 posts da série a respeito da conferência Education on Air). O segundo, tema também do infográfico que disponibilizei a respeito do passo a passo de implementação de uma ação de project-based learning).

Nunca é pouco repetir que para nos integrarmos de verdade ao século XXI, será necessário mudarmos nossa percepção a respeito do que é educação e como investir nela. Mais do que nunca, devemos privilegiar modelos educacionais que estimulem as pessoas a aprenderem a aprender e não os focados em disciplinas e no seu repasse. Aqui, vale o conceito de antidisciplina do Mitchel Resnick (“antidisciplinary” no original) em que nenhum conhecimento é rotulado e empacotado, você estuda o que precisa estudar, não importa a sua especialização.

Também não é pouco repetir que para “criar” propriedade intelectual, é preciso dar “valor” ao conhecimento (no sentido de reconhecimento, importância e consideração que o substantivo tem) e àqueles que possibilitam o seu compartilhamento. Desnecessário dizer que recomendo (e muito) a leitura do artigo (quem quiser, pode acessá-lo AQUI).

Aproveito ainda para deixar meu agradecimento pelas 3.517 visualizações dos 1.541 visitantes do site nos últimos meses (estatísticas do dia 24/06).

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