A regra das 5 horas

agosto 2, 2016 § Deixe um comentário

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Aos 10 anos, Benjamin Franklin deixou de lado a educação formal e virou aprendiz do próprio pai. Na adolescência não demonstrava nenhum talento particular – além da paixão pelos livros. Quando morreu, em 1790 aos 84 anos, era um dos estadistas mais respeitados dos EUA, o seu inventor mais famoso (entre outras coisas, inventou o para-raios – usado até hoje), além de autor e pesquisador, com trabalhos nos campos da meteorologia, teoria da eletricidade, demografia, entre outros.

O que aconteceu nesses 74 anos entre um ponto e outro?

Durante toda a sua vida adulta, Ben Franklin investiu consistentemente 1 hora do seu dia, durante os dias úteis, em aprendizado. Esta prática ficou conhecida como “a regra das 5 horas”.  Segundo o escritor Michael Simmons, a rotina de Franklin consistia em algo parecido com o abaixo:

  • Na parte da manhã estudava e escrevia sobre o que havia lido (a tal da 1 hora);
  • Definia metas pessoais de crescimento (as conhecidas 13 virtudes);
  • Se reunia frequentemente com pessoas de interesse similar para troca de ideias e melhores práticas;
  • Transformava suas ideias em experimentos;
  • Criava questões a respeito dos assuntos que estudava para refletir ao longo do dia, quando tinha mais tempo livre.

“A regra das 5 horas” pode ser considerada a “avó” de uma abordagem conhecida como aprendizagem ao longo da vida (ou lifelong learning), que considera que o aprendizado deve ser visto de forma acumulativa e feito de maneira constante e consciente durante toda a vida e não se restringir a um lugar e tempo para adquirir conhecimentos (escola) e a um lugar e tempo para aplicar os conhecimentos adquiridos (local de trabalho).

O que Warren Buffet, Bill Gates, Elon Musk e Mark Zuckerberg têm em comum (além de serem bilionários)?

Todos são adeptos da aprendizagem ao longo da vida e a fazem basicamente pela leitura. Warren Buffet passa de 5 a 6 horas do seu dia lendo – de jornais a relatórios financeiros e artigos acadêmicos – estimadas 500 páginas. Bill Gates, por sua vez, lê 50 livros por ano. Mark Zuckerberg se desafiou em 2015 a ler 1 livro a cada duas semanas. Elon Musk, segundo seu irmão, constantemente “devorava” dois livros em um dia quando garoto.

Obviamente ninguém precisa (e nem tem tempo) de ficar lendo o dia todo, mas implementar a regrinha do Ben Franklin é extremamente viável. Outro ponto que vale tocar é o fato da leitura ser a forma principal de aprendizado escolhida dos exemplos citados (inclusive do próprio Franklin). É a mais fácil de ser implementada (não é necessário nenhum equipamento especial – a não ser que se queira), livros, revistas e artigos impressos podem ser carregados sem muita dificuldade. Podem também serem lidos em horários variados, inclusive aqueles em que não se tem muito o que fazer – como a ida e volta do trabalho (se for de transporte público, claro). Além de permitir um aprofundamento maior dos assuntos estudados.

De qualquer maneira, uma coisa é essencial para colocá-la em prática: arrumar um tempo livre. Não tem jeito, este é o primeiro passo e o mais importante. É claro que meia hora é melhor do que nenhuma hora, mas é interessante focar nos 60 minutos por uma questão de conveniência – se dormimos 8 horas (pelo menos é o sugerido), 1 hora por dia representa 1/16 do tempo que ficamos acordados. Se trabalhamos alegadas 8 horas (alegadas pela CLT, pelo menos), 1 hora representa 1/8 do tempo fora do trabalho. Não é pouco, mas também não é muito.

Para melhor aproveitar este tempo, aí vão algumas dicas:

Planeje o aprendizado: pense cuidadosamente no que quer aprender. O que ajuda nessa hora é pensar no que se quer realizar com o aprendizado, definir as metas daí é “um pulo”.

Prática deliberada: ao invés de fazer as coisas de maneira automática, aplique os princípios da prática deliberada. Atividades como procurar um feedback honesto a respeito do que você sabe e colocar em pratica habilidades específicas que quer desenvolver ajudam na retenção do conhecimento.

Ruminação: o nome não é muito bonito, mas o sentido é ficar “matutando” o que aprendeu, pensando em suas perspectivas e assimilando seu contexto. Alguns compositores, como Tchaikovsky e Beethoven adoravam dar caminhadas. Steve Jobs também era fã da prática. Na verdade, a ruminação pode ser feita em qualquer lugar, ela acontece na sua cabeça – o que é necessário é estimulá-la conscientemente.

Separe um tempo para o aprendizado: sei que venho dizendo no decorrer do texto, mas vale repetir. Recomendo a leitura, mas pode ser feito de outras formas: conversando, assistindo vídeos, observando outros e, claro, frequentando aulas.

Resolva problemas assim que surgirem: muitos costumam “jogar pra debaixo do tapete” quando surge algum problema no aprendizado. Não faça isto. Não adianta passar para outro assunto, se você não entendeu o anterior. Mesmo porque probleminhas viram problemões se deixados de lado.

Experimente o que aprendeu: mesmo que não dê certo a princípio ou seja um pouco complicado, tente colocar em prática o que for aprendendo. Praticar é um dos melhores modos de testar uma ideia e aprender com seus resultados.

Uma das consequências da aprendizagem ao longo da vida é o estímulo ao autoaprendizado. Em um mundo em que o conhecimento (e sua produção) é um ativo valioso, depender apenas de aprendizado formal ou informal para adquiri-lo é arriscado – mesmo porque se formos pagar para alguém ensinar tudo o que temos que aprender, muito provavelmente não teremos recursos suficientes para tal. Encontrar formas de estimular a metacognição é francamente um dos maiores presentes que podemos nos dar.

Como ser um aprendiz online?

fevereiro 23, 2016 § Deixe um comentário

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Quando se “fala” em aprendizado online, a primeira “coisa” que vem à mente são os tipos de cursos comumente chamados de “cursos online”. Embora se tenha a impressão de que são, digamos, uma versão pré-formatada de e-learning, curso online pode ser desde um tutorial até palestras gravadas ao vivo e disponibilizadas posteriormente. Há “1 milhão” de possibilidades do que se pode fazer.

A postura de quem se utiliza de aprendizado online conta tanto quanto o tipo de “curso” escolhido. Os dois pontos principais aqui são o comprometimento com a oportunidade de aprendizado e a participação ativa no processo. “Correr atrás” é importante para se fazer qualquer coisa, em aprendizado online assume um caráter essencial. Como é o aprendiz quem “conduz” o processo, proatividade é a diferença entre aprender ou não.

Como já escrevi a respeito de autoaprendizado em outros textos, possivelmente soarei repetitivo. Algumas atitudes são fundamentais e o fato de aparecerem recorrentemente, em minha opinião, só reforça a sua importância. O cerne da questão aqui é aumentar o horizonte educacional, portanto:

Descubra suas preferências de aprendizado: todos temos necessidades e preferências pessoais. Conhecer as próprias, é fundamental para escolher o que funciona melhor para si e a abordagem mais apropriada. Alguns retém melhor o conhecimento de forma visual, outros funcionam melhor ouvindo. Com o aumento cada vez maior da velocidade de navegação, a internet permite diferentes possibilidades. Uma vez identificado o seu gosto, fica mais fácil escolher atividades e exercícios que oferecem o melhor retorno.

Se dê tempo para refletir: para reter e absorver o que se está aprendendo, é preciso ter a chance. Como o processo acontece no seu ritmo, a pior decisão possível é correr para passar para o próximo módulo. Refletir em um tópico visto e desenvolver a sua própria opinião a respeito dele, facilita a memória de longo-prazo. Isto acontece porque o conhecimento novo é associado a conhecimentos pré-existentes na “forma” de correlação de ideias. Entre cada aula ou atividade online, se permita um tempo para pensar sobre os pontos principais – há um termo em inglês para representar esses pontos que acho incrível, takeaways – e formar suas próprias conclusões sobre como aplica-los no mundo real.

Estabeleça metas pessoais: o centro de um aprendizado é o seu objetivo. Para que aprender um “truque” novo, se o antigo ainda funciona? A motivação pessoal exerce mais influência durante um aprendizado do que em qualquer outro momento. Não é fácil se manter em curso, por isso ter claro aonde quer chegar é fundamental. Mais do que uma visão em longo prazo, “aonde quer chegar” pode ser dividido em pequenas metas, que permitam acompanhar a sua evolução ao longo do caminho por meio de pequenos desafios ou autoavaliações.

Transforme o aprendizado em uma experiência social: aprendizado consistente não é um desafio solitário. Encontrar pessoas com interesses e ideias semelhantes em redes sociais ou em fóruns online, permite não apenas colaborar com “pares”, mas também se beneficiar com suas habilidades e insights – além de se cercar de outros aprendizes online com tanto (ou mais) vontade em aprender.

Desafie suas ideias e opiniões pré-existentes: um cara que não canso de citar é o Eduardo Giannetti, um economista de formação que se tornou (na minha opinião) um dos pensadores brasileiros mais originais. O Giannetti tem um livro chamado “O mercado das crenças” em que instiga o leitor com a defesa da “tese” de que só acreditamos no que queremos. Quem quiser se aprofundar, recomendo a leitura, mas o que quero sinalizar é a importância de não se “apegar” às próprias ideias e convicções. Esta atitude pode ser até boa para “transmitir credibilidade” (embora discorde), mas é péssima para o aprendizado. Seres-humanos geralmente tem aversão em “escutar” que algo que acreditam é incorreto ou “mal informado”. Certamente ninguém é “dono da verdade”, mas “duvidar” das suas ideias e opiniões pode “abrir” um mundo de novas oportunidades de aprendizado.

Se permitirmos a possibilidade de que algo que acreditamos, muitas vezes durante anos, ser questionável, podemos descobrir coisas novas sobre nós mesmos e o mundo. Isto abre a “ cabeça” e o “coração” para um aprendizado que nunca acaba.

Momento “Aha!”

fevereiro 16, 2016 § Deixe um comentário

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Para início de conversa, vale esclarecer que o título não tem conexão com a famosa banda dos anos 80. Escolhi porque me soa melhor do que “eureca”, por exemplo. O sentido é o mesmo, está relacionado àquela “hora” em que algo parece “clicar” na cabeça e o que era complicado, como em um passe de mágica, se descomplica. Aposto que em algum momento já aconteceu com todo mundo.

Quando estamos aprendendo algo, o momento “aha!” de tão esperado parece nunca chegar. Muitos se cansam e desistem no meio do caminho. Outros perseveram, mas encontram um processo tão repleto de frustações que aprender se torna sinônimo de sofrimento. Sei que muitas vezes conselhos como “siga em seu próprio ritmo”, apesar de corretos, tem efeito muito reduzido quando se está desiludido com a própria velocidade de aquisição de conhecimento.

É meio senso comum que perguntas são uma das melhores opções para se testar o entendimento. Mas elas também são uma das causas da desilusão com o próprio aprendizado quando propõe uma reflexão incompleta – e acredite, na maioria das vezes é esta a proposta. Isto porque a própria pergunta é incompleta. Ou é muito objetiva, ou é muito subjetiva, ou é simplesmente mal formulada. Para podermos refletir adequadamente a respeito de algum conteúdo – e estimular o tal momento “aha!” – devemos aprofundar 4 tipos (ou níveis) de questionamento (ou pergunta, se preferir):

O que este conteúdo diz?

Como este conteúdo funciona?

O que este conteúdo significa?

O que este conteúdo me inspira a fazer?

Vou abordar um pouco cada uma delas para poder contextualizar melhor (por exemplo, a pergunta 3, apesar de parecer, não levanta as mesmas reflexões que a pergunta 1).

O que este conteúdo diz?

Esta categoria de questionamento requer que se pense, literalmente, a respeito do conteúdo. É preciso focar tanto na ideia ou entendimento geral quanto nos detalhes-chave. Em literatura, por exemplo, é a famosa “interpretação de texto”. Entender o conteúdo em sentido literal é pré-requisito para que se possa, eventualmente, entendê-lo em níveis mais profundos.

É impossível alguém fazer qualquer tipo de inferência a respeito de algo se não entender o que aquilo quer dizer. Esta categoria é tão importante que gerou um dos pilares da Inteligência Artificial, a representação do conhecimento.

Como este conteúdo funciona?

Quando temos o entendimento literal do conteúdo, é hora de partirmos para o segundo nível de questionamento, o nível estrutural. Para facilitar o entendimento, vou usar como exemplo um conteúdo que tenha sido disponibilizado em texto (como este). Os seus questionamentos devem focar em vocabulário, escolha das palavras, estrutura do texto, habilidade do escritor (narrativa, recursos literários – como metáfora, por exemplo) e propósito.

A análise estrutural requer que se pense nas particularidades do conteúdo. Quanto mais entendemos as suas estruturas internas, mais entendemos as informações contidas nele. Quem conhece a respeito da hierarquia DIKW (comumente chamada de hierarquia do conhecimento) sabe que informação é dado contextualizado. Este nível procura exatamente esclarecer esta contextualização.

O que este conteúdo significa?

Este nível de questionamento lida com a análise inferencial e aborda as conclusões lógicas que se faz a partir do conteúdo. É o momento de se comparar conteúdos e ideias – relacionadas ou não – ao que se está aprendendo. Ao fazermos isso, estamos estimulando a formação da nossa própria opinião e argumentação em relação ao conteúdo utilizado para o aprendizado.

Mas atenção, embora tenha optado por não numerar os níveis de questionamento – para não dar a impressão de que são processuais – há uma certa relação com o grau de entendimento que temos do conteúdo. A análise inferencial é baseada na compreensão do conteúdo nos níveis literais e estruturais – não por acaso os níveis comentados anteriormente.

É realmente difícil responder a esse tipo de pergunta se não tivermos ideia do que o conteúdo diz, literalmente, ou como ele foi construído.

O que este conteúdo me inspira a fazer?

Quando se compreende profundamente algo, é natural que se queira agir, colocar para funcionar, colocar a mão na massa. Cresce a vontade em utilizar a informação ou a perspectiva desenvolvida. Este é o momento que temos a certeza de que aprendemos algo (e que chamei de “aha!”).

Mas é importante saber que nem todo mundo se inspira da mesma forma. Alguns se sentem impelidos a escrever algo a respeito, outros em aprofundar a pesquisa, outros em pensar em maneiras de tangibilizar, como por exemplo um produto ou negócio. Alguns querem participar de debates a respeito para testarem a sua convicção ou força do argumento. Não há modo certo e é isto que faz com que o aprendizado seja estimulante. É isto também que faz com que o aprendizado seja uma experiência pessoal. Ele nos “atinge” de maneiras diferentes.

E é também por isso que alguns (como este que escreve) defendem que o aprendizado seja estimulado por formas diferentes das tradicionais (também conhecidas como formais). A força do aprendizado formal só é potencializada quando incluímos o aprendizado informal e o autoaprendizado na equação. É bom aprender com o professor. Mas também é bom aprender com o Bill Gates, com o Steve Jobs, com o John Lennon e com o Zé das Couves, que vende verdura ali na esquina.

Project-Based Learning na prática

janeiro 12, 2016 § Deixe um comentário

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No último ano, Project-Based Learning (ou simplesmente PBL) entrou no “radar” de muita gente envolvida, de uma forma ou outra, com educação (AQUI um compilado do que já produzi sobre o tema). Essa nova roupagem das ideias do John Dewey vem ganhando adeptos por estimular o aprendizado por meio da experiência prática – que por sua vez estimula a implementação do conhecimento aprendido – e aqui vale “lembrar” que conhecimento aplicado (ou implementado) é a base para a criação da propriedade intelectual, o “combustível” da economia nas próximas décadas do século XXI.

Mais do que uma “estratégia” educacional, Project-Based Learning está virando uma “estratégia” econômica por facilitar o aparecimento da “matéria-prima” principal que permitirá o “boom” econômico das próximas décadas: pessoas com capacidade de gerar propriedade intelectual.

Como tudo que “ganha” importância “da noite pro dia” – embora discorde pessoalmente dessa afirmação no caso das ideias do Dewey, defendidas há várias décadas aqui no Brasil por grandes pensadores como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro – o senso de urgência leva muitas vezes à interpretações e aplicações equivocadas, gerando a sensação de se estar construindo um avião em pleno voo. Fato que, obviamente, leva as pessoas a se questionarem se aquilo é realmente importante ou mais uma “modinha”.

Retomando a “resolução de ano novo” que citei no post anterior, penso ser importante trazer alguns pontos que ajudem a contextualizar os interessados a respeito de como acontece um PBL dentro de uma “sala de aula” (uso o termo por força do hábito, mas transcendam o significado para qualquer ambiente de aprendizado). Como todos precisamos de ideias e estratégias específicas para “ajudar” o nosso cérebro a “trabalhar” utilizando contextos diferentes dos que estamos acostumados, aí vão algumas que são utilizadas em um Project-Based Learning:

1) Diferenciação por equipes: todos sabemos (ao menos presumo) o quão bem funciona equipes heterogêneas, em que as diferentes habilidades dos integrantes se combinam para gerar resultados próximos a excelentes. Mas, algumas vezes, equipes homogêneas são mais eficientes em otimizar os resultados de um projeto. Por exemplo, em um projeto de PBL que envolva o aprendizado de literatura e interpretação de texto, é mais apropriado se diferenciar grupos por habilidade de leitura do que por interesse ou afinidade. Desta forma é possível identificar com mais facilidade os diferentes níveis de atenção que cada grupo requer e assegurar que os que tem mais dificuldade recebam a atenção necessária para que possam superar a sua lacuna. Acredito que a “criação” de uma equipe deve ser intencional. É preciso saber o “porquê” para que se possa pensar em “como” estruturar a equipe. Em um projeto de PBL, equipes podem ser um bom modo de se diferenciar a instrução, mas é preciso saber o porquê se quer diferenciar: por causa da habilidade acadêmica, habilidade colaborativa, habilidade socioemocional etc.

2) Reflexão e definição de meta: reflexão é um componente essencial (se não, o) de um PBL. No decorrer do projeto, os aprendizes devem constantemente refletir no trabalho que estão realizando e definir metas para os próximos passos. É uma grande oportunidade para que personalizem suas metas de aprendizado e para que os seus professores personalizem a instrução de acordo com essas metas. Antes que alguém possa “confundir” isto como uma “aula particular” para cada um dos 50 alunos de uma classe (na minha época de escola, chamávamos de “turma”), vamos “clarificar” com um exemplo. Em um momento pré-determinado de um projeto, um professor pode promover uma reflexão com sua classe a respeito do que aprenderam até o momento em matemática e ciências e definir em conjunto declarações de metas a respeito do que ainda irão aprender – aqui o equilíbrio entre o que devem e o que querem aprender é fundamental, em um PBL o aprendiz também é “construtor” do aprendizado. O professor então projeta as atividades de apoio ao aprendizado dos alunos levando em consideração tanto o que querem quanto o que precisam saber.

3) Miniaulas e recursos: além de ser uma ótima estratégia de gestão para evitar perda de tempo em sala de aula, as miniaulas são uma boa maneira de diferenciar o ensino. Como focam um conceito específico em um tempo reduzido, é possível utilizá-la para ensinar aos alunos a empregar de maneira mais assertiva uma variedade de recursos que podem ajudá-los a aprofundar o conceito visto (incluindo vídeos, jogos e leituras). Imagine o impacto de centenas de miniaulas durante um período de aprendizado, estimulando os aprendizes a desenvolverem sua habilidade de metacognição. Imagine esse processo acontecendo durante os anos de formação educacional de uma pessoa. Imaginou? Agora, tente comparar mentalmente alguém com essa habilidade em relação a alguém sem ela. Esta é a lacuna que países (e pessoas) terão que enfrentar em alguns anos – minha “aposta” é em 15 anos, quando a primeira geração de finlandeses formada exclusivamente sob a orientação de um currículo destinado a estimular a metacognição entrar no mercado de trabalho.

4) Voz e escolha: outro componente essencial em um projeto de PBL é a “voz” e a “escolha” do aprendiz, tanto em relação ao que “produz” quanto em como usa seu tempo. Especificamente em relação à comprovação do aprendizado, é possível dar opção ao aprendiz para que possa mostrar o que sabe de diversas formas. Vou usar este termo (comprovação) e não avaliação para não restringir o pensamento de quem tem interesse em desenvolver um Project-Based Learning. Composição de dissertações ou utilização de componentes artísticos ou teatrais podem substituir a boa e velha prova com maestria. É claro que tudo depende dos critérios e indicadores que se queira checar, mas se escolhermos verificar o entendimento ao longo do caminho, fica mais fácil avaliar formalmente de maneira diferente do modo tradicional quando desejarmos. Pode ser em forma de uma palestra do aprendiz ou uma série de respostas escritas ou então, por meio de um trabalho gráfico ou colagem, o mais importante é que essas comprovações permitam checar o status do aprendizado e diferenciar o tipo de instrução necessária para a etapa seguinte.

5) Equilíbrio entre trabalho em equipe e individual: trabalho em equipe e colaboração acontecem de maneira regular em um projeto de PBL, pois se quer estimular a aplicação do conteúdo. Mas há horas em que aprendizado individual e prática de exercícios são necessários. Project-Based Learning não significa “jogar fora” o método tradicional de aprendizado e sim associar diferentes métodos para estimular o aprendizado pela prática. É preciso diferenciar o ambiente de aprendizagem porque alguns alunos aprendem melhor por conta própria, enquanto outros aprendem melhor em conjunto ou por meio de instrução direta. A bem da verdade é que todos nós precisamos de tempo para processar e pensar sozinhos, tanto quanto precisamos de tempo para aprender com nossos pares. Portanto, equilibrar os métodos de estímulo ao aprendizado é fundamental para encorajar um ambiente colaborativo e que, ao mesmo tempo, atenda os estudantes em uma base individual.

Como a prática leva à perfeição, a medida em que se for implementando projetos de PBL, se descobrirá não apenas como adequá-lo à “realidade brasileira” (ou portuguesa, angolana, moçambicana, cabo-verdiana, americana, etc), mas também como adequá-la à realidade da “turma” de aprendizes.

Open Education Resources

dezembro 8, 2015 § Deixe um comentário

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Também conhecido pela sigla OER. Nada mais é do que “coisas de graça na internet que se pode usar para aprender”. Apesar da minha definição “meio tosca”, OER tem sido tratada como coisa séria por várias instituições que estimulam o autoaprendizado, como por exemplo a “The William and Flora Hewlett Foundation”.

A base da OER reside em recursos de ensino, aprendizagem e pesquisa que estão em domínio público ou que tenham sido publicados sob uma licença de propriedade intelectual que permite a sua livre utilização.  Engloba cursos completos, materiais de cursos, módulos, livros didáticos, vídeos, testes, software e quaisquer outras ferramentas, materiais ou técnicas utilizadas para apoiar o acesso ao conhecimento.

Um dos melhores exemplos de OER nos é dado pela organização TED, que no espírito do seu slogan (“ideas worth spreading”, algo como “ideias que valem a pena espalhar”) disponibiliza vídeos completos de seus eventos, alguns com legendas em vários idiomas, questões para discussão e transcrições dos vídeos que podem ser “baixadas” e que permitem anotações via programas como o Scrible.

Outro bom exemplo de “generosidade” educacional é o mundialmente famoso MIT, que disponibiliza cursos inteiros, com seus respectivos arquivos em pdf, no iTunes. Há também incontáveis ebooks e tutoriais disponíveis sobre diversos assuntos, como por exemplo os do Michael Hartl a respeito de linguagens computacionais, como Ruby.

Por que essas instituições, empresas e pessoas fazem isto? Por três motivos:

O primeiro, é que há muita coisa disponível na internet, mas ao mesmo tempo “solta” (no sentido de não organizada). Esse grande volume de recursos online precisa de algum tipo de propósito e organização para que possamos aproveitá-los verdadeiramente em um “ecossistema”. Com o crescimento do conceito da “democratização da informação”, a Internet tornou-se uma “placa de Petri” impressionante de conteúdos, esperando para serem descobertos. Como ninguém consegue peneirar tudo e encontrar esses recursos facilmente, surgiu a necessidade de uma “curadoria digital”. Essas instituições, empresas e pessoas se propuseram a realizá-la.

O segundo, são legislações que “pipocaram” ao redor do mundo – como por exemplo a da Califórnia criada após o caso “Williams vs. California” – para garantir o acesso a materiais didáticos atualizados.

O terceiro, que já comentei em outros posts a respeito do assunto, são os custos excessivos da educação formal (incluindo o da atualização de materiais didáticos), que estimulam a busca por outros meios de aprendizagem, como a educação informal e o próprio autoaprendizado.

No próximo post, pretendo abordar 3 dicas para ajudar quem quer explorar o universo “open source” educacional, possa fazê-lo de maneira mais direcionada.

Arte dentro das disciplinas – parte 1

novembro 18, 2015 § Deixe um comentário

 Pretendo neste e no próximo post mostrar alguns exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas. Neste primeiro, veremos integrada à escrita e matemática. Vale reforçar que o que veremos a seguir são exemplos de como algumas instituições de ensino implementaram a abordagem do uso da arte no aprendizado, não é uma “receita” e sim uma indicação do que pode ser feito. O modus operandi deve ser determinado por cada um.

A Cashman Elementary School, no estado norte-americano de Massachusetts tem experimentado a integração da música à escrita com crianças de 8 e 9 anos.  Funciona da seguinte forma: a professora de música pede a seus alunos que escutem a famosa música “Dança do Sabre” do compositor armênio Aram Khachaturian em diversos momentos do dia – no recreio, na hora do lanche, etc. Depois, explica a dinâmica da música, seu tempo e instrumentação. Em seguida, os alunos são estimulados a fazerem um desenho a respeito do que sentiram em relação à música e por fim, devem criar um enredo e desenvolver uma história baseada no desenho.

Em Annapolis, no estado de Maryland, a escola Wiley H. Bates Middle School ensina a seus alunos matemática e mosaicos mexicanos ao mesmo tempo. Os alunos estudam os tradicionais mosaicos turquesas do México e criam suas próprias versões com pedaços de papel. Em seguida, recolhem amostras de diferentes tamanhos e as usam para calcular o número de peças utilizadas na obra de arte.

Outro exemplo da integração da arte com a matemática vem do estado de Nova Jersey. A Stockton University, em seu curso de matemática, usa origamis no ensino da matéria. A professora Barbara Pearl, autora do livro “Math in Motion: Origami in the Classroom”, usa a “mistura” há vários anos com resultados animadores. Ensina ângulos, frações e geometria espacial com base na arte de “dobrar papel”.

Como diz a especialista em integração da arte Laura Brino, “estudar e observar arte, sem medo de cometer algum erro, incentiva a autoconfiança e a coragem em assumir riscos”. Além de ser um modo de estimular a apreciação da cultura, que nos torna ser-humanos mais capazes.

A arte no aprendizado

novembro 11, 2015 § 2 Comentários

Na Grécia antiga havia um ramo do conhecimento denominado “arte liberal”. Consistia em uma série de assuntos e habilidades que um cidadão deveria aprender para poder exercer um papel ativo na sociedade em que vivia. Os assuntos estudados incluíam gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, teoria musical e astronomia. Para aplicar estes conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para a cidadania, a pessoa deveria ainda participar de debates públicos, se “defender” em um tribunal, servir como jurado em um julgamento e participar do serviço militar. Ainda hoje se vê “ecos” dos conceitos da “arte liberal” em nossa sociedade, embora distorcida pela compartimentalização. Naquela época era tudo visto de maneira integrada, hoje como matérias individualizadas.

Alguns países têm em seu currículo do ensino médio a denominação “arte liberal”, que na maioria das vezes engloba algumas das matérias estudadas na antiguidade – e mais uma vez, compartimentalizadas. Mas essa história está mudando. Algumas escolas, notadamente nos EUA, têm implementado uma abordagem digamos, clássica, da “arte liberal”. Em uma definição filosófica de arte, estes locais têm se referido a ela não como um tema, mas como um conceito que encara os assuntos ensinados na instituição de forma mais livre, tratando cada um deles como uma “arte”. Com isto, o foco da instituição deixa de ser repassar conhecimento e se torna desenvolver um modo de pensar. Estes locais acreditam que quando tratado como arte, um assunto deixa de ser uma série de regras para memorizar e passa a ser análogo a uma linguagem a ser aprendida (comentei que era uma abordagem mais filosófica).

Para entender como funciona na prática, nada melhor do que um exemplo. A escola Wheeler Elementary, no estado de Vermont, começou a implementar esse conceito há cerca de 6 anos. Hoje ela se chama Integrated Arts Academy (IAA) e seus alunos são bons não apenas em arte. Em matemática, as notas cresceram 66%. Como conseguiram isto?

O diretor Bobby Riley atribui ao que chama de “confiança criativa”, uma mistura de pensamento altamente analítico, raciocínio e uma “voz própria” trazida pela arte. Esta confiança é estimulada pela introdução de componentes mais subjetivos aos trabalhos e tarefas. Por exemplo, em geometria os alunos avaliam a obra do artista russo Wassily Kandinsky. É promovida uma discussão abordando a sua obra e os alunos recebem como tarefa criar sua própria arte utilizando os ângulos no estilo Kandinsky. Depois, é pedido que identifiquem os ângulos utilizados e os retirem do trabalho para realizar o seu cálculo.

Algumas evidências científicas dão sustentação a esta abordagem, como aponta Wendy Strauch-Nelson que coordena outra iniciativa neste estilo no estado de Wisconsin, a ArtsCore. Segundo ela, ao incorporar movimento, desenho, pintura, música e emoções em um aprendizado, se estimula a retenção do que foi visto.

Não são apenas crianças e jovens que se beneficiam da abordagem. Em um estudo baseado em pesquisa de campo, as pesquisadoras Christine Jarvis e Patricia Gouthro, descobriram que adultos também são melhor estimulados com a integração da arte ao desenvolvimento profissional. Elas identificaram 5 grandes áreas em que a abordagem pode trazer bons resultados: (1) na exploração da aplicação da prática profissional; (2) no entendimento dos dilemas profissionais; (3) no desenvolvimento da empatia e da percepção de insights; (4) na exploração das identidades profissionais; (5) no desenvolvimento do autoconhecimento e habilidade interpessoal.

Segundo o estudo, as abordagens baseadas em artes podem ajudar a se fazer uma avaliação crítica do próprio papel e identidade dentro da profissão e considerar o impacto do seu trabalho na sociedade de uma forma mais ampla.

Agora que vimos como a arte pode beneficiar de uma maneira geral o aprendizado, pretendo nos próximos posts trazer exemplos do seu impacto em disciplinas mais específicas, como escrita, ciências e matemática. Por conta de compromissos profissionais, a partir desta semana reduzo as publicações a 1 post semanal. Pretendo retomar ao habitual 2 posts por semana tão logo seja possível.

A inevitabilidade da tecnologia

outubro 20, 2015 § Deixe um comentário

Uma questão que tenho ouvido com frequência é a seguinte: “é inevitável o uso da tecnologia na educação”? Como toda pergunta relevante, a resposta não é simples. Do modo como vejo, a resposta é sim e não. No longo prazo sim, é inevitável – e explicarei porque daqui a pouco. No curto e médio prazo, não. Não apenas não é inevitável, como é evitável – obviamente aceitando-se pagar os “custos” sociais que essa decisão acarreta mais adiante.

No longo prazo é inevitável por conta de uma pequena invenção feita a mais ou menos 30 anos, a internet. Ainda não nos damos conta do impacto total dela – creio que no futuro a internet irá inclusive nos modificar biologicamente – mas alguns dos seus impactos já são claramente notados, em especial os que envolvem o nosso comportamento social. Em educação, o seu maior impacto – na minha opinião – é na percepção do que significa ser um professor. Explico: antes da internet, professores (e centros educacionais) eram verdadeiramente as fontes principais de distribuição de conhecimento. Não mais. Obviamente esse tipo de mudança tem seus pontos negativos e positivos, e causa toda sorte de reação a ela, mas se servir de consolo – também na minha opinião – a importância do professor não será diminuída.

Outro grande impacto da internet na educação foi a elevação da importância de uma característica pessoal – que embora admirada, não era considerada essencial pela sociedade – a capacidade de autoaprendizado (na minha época de criança esse pessoal era chamado de “autodidata” e tinha uma áurea de genialidade). É preciso ter em mente que com centros de distribuição de conhecimentos como escolas, universidades e professores, realmente a capacidade de autoaprendizado podia ser relegada a segundo plano. Não mais.

Um dos pontos positivos que a internet possibilitou pelo autoaprendizado foi a diminuição do custo (absurdamente caro) de um aprendizado baseado essencialmente em ambientes formais. Isto dá uma capacidade de monetização a esta habilidade e poder “contar” algo em termos de “grana”, facilita o entendimento da sua relevância – principalmente quando se pode “guardar” o que se conseguiu economizar “estudando por conta própria”. Também é essa capacidade de monetização que possibilita alguém com esta habilidade “valer” mais para aquela entidade meio abstrata, o mercado.

A elevação da importância do autoaprendizado também impacta positivamente em outro tópico de grande interesse para qualquer sistema educacional, a qualidade do seu aprendizado (e é aí que está a importância – não diminuída – do professor – no estimulo desta habilidade alçada a novo patamar – a habilidade de “aprender a aprender”). Qualquer sociedade que já experimentou (ou experimenta) um processo de universalização do seu sistema educacional tem uma característica em comum: a perda da qualidade do seu ensino e aprendizado. Embora natural, é claro que não se pode “cruzar os braços” e não se fazer nada em relação a isto. Algumas sociedades optaram por definir um padrão mínimo aceitável de qualidade e estimular o aparecimento de “centros” de excelência educacional, acessíveis pelo mérito (sabemos que não só, mas também). É um caminho viável e testado – como dizem em inglês, “a sure bet”.

A outra opção é o estímulo ao autoaprendizado, embasado principalmente pelo uso da tecnologia e o acesso à internet. Podem ter a certeza de que está opção já está sendo testada – Finlândia, Canadá, Austrália, alguns estados norte-americanos, Japão, Singapura, Coréia do Sul, alguns locais da China, enfim, a lista é grande. É por esta razão que considero inevitável, no longo prazo, o uso da tecnologia na educação.

Bom, voltemos agora ao curto e médio prazo. Como citei no início do texto, ao se considerar o curto e médio prazo, não apenas não é inevitável como é possível se evitar deliberadamente a tecnologia para fins educacionais. Depende essencialmente da ideologia dos que detêm o poder de tomar ou influenciar essa decisão social (em especial as autoridades públicas, mas também os “formadores de opinião” da sociedade civil e a própria sociedade), da forma de pensar desse pessoal e, principalmente, da importância que dão ao conhecimento.

Citei também no início do texto “custos sociais”, que custos são estes? O século XXI é o “século do conhecimento” – obviamente este é um “chavão”, quem gosta de história pode nomear diversos “séculos do conhecimento” antes do atual – mas este tem uma característica peculiar. Nunca foi tão fácil criar e disponibilizar o conhecimento. Também nunca foi tão fácil “cobrar” por isso – principalmente porque a aplicação prática do conhecimento (também conhecida pelo termo “know-how”) tem uma alta capacidade de monetização. Isto quer dizer que é possível fazer a inovação virar “produtos” ou “negócios” mais facilmente. Quem conseguir estimular consistentemente o uso do autoaprendizado pela sua sociedade irá levar vantagem no “mercado” global, uma vez que terá mais capacidade de gerar consistentemente inovação e entregá-la “embrulhada pra presente”. Os lugares que citei levam vantagem por terem visualizado essa possibilidade antes e saído na frente. Os demais, terão que “correr atrás”. E a distância que deverão “tirar” dos que saíram a frente dependerá do quanto demoraram para aceitar a inevitabilidade da tecnologia.

Learning Analytics – parte 2

outubro 9, 2015 § 2 Comentários

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Terminei o post anterior com um teaser “prometendo” abordar como o conceito pode afetar no futuro o nosso entendimento a respeito do que é educação. Ao invés de “entrar direto” nesse assunto, gostaria de começar com os pontos fracos do modelo. Por mais que se acredite em algo, é preciso considerar os seus possíveis problemas. É apenas desta forma que podemos nos preparar para enfrentá-los, caso se apresentem.

A primeira “leva” deles diz respeito às suas limitações e custos. Quando indicadores (ou qualquer tipo de métrica) são utilizados para interpretar termos subjetivos (por exemplo, engajamento do aprendiz, interesses, etc.), a possibilidade de erros de interpretação é significativa. É preciso considerar esse cenário e entender que muitas vezes se atuará como em um “jogo” de tentativa e erro. Mesmo porque, dificilmente se terá condições de padronização (criar padrões que possam tornar a interpretação mais objetiva).

Dados levantados por organizações[1] voltadas à educação mostraram que de 70% a 85% da análise dos dados levantados por modelos que utilizam o conceito “Learning Analytics” precisam ser feitas por seres humanos. Isto quer dizer que atividades como limpeza, formatação e alinhamento de dados serão feitas por pessoas (e não algoritmos). Não vou negar que isto aumenta (bastante) o custo de um projeto desses.

A segunda “leva” de possíveis problemas explica, de certa forma, porque o conceito ainda não é amplamente usado. Ainda há restrições, tanto de aprendizes quanto de professores, a respeito da privacidade. Quem tem acesso aos dados? Como serão usados? Que tipo de informação pessoal precisa ser usada? São considerações que influenciam na motivação de quem utiliza e que são essenciais quando a quase totalidade dos dados passam por seres humanos. Compreender essas limitações é fundamental para uma “entrega” eficiente utilizando o conceito.

Mudando um pouco o enfoque, vamos pensar nos possíveis impactos do conceito “learning analytics” no futuro da educação. O principal é a mudança no modo de entendermos o aprendizado. Sairemos do entendimento via hipóteses – como é atualmente, baseado em conceitualização, sobretudo teórica – para um entendimento baseado em análise de dados. Isto, por si só, não é pouca coisa porque acrescenta à formação teórica de profissionais de educação a necessidade de entender modelos analíticos. Isto envolve:

  • Capacitar educadores a diferenciar via “learning analytics” aprendizes que iniciam lentamente e aceleram em um momento posterior dos que realmente estão com dificuldades no aprendizado.
  • Possibilitar que os aprendizes realmente “customizem” o seu aprendizado, fornecendo um retrato amplo da sua performance.
  • Introduzir o conceito de peer grading (algo como classificação pelos pares) e self-grading (algo como auto-classificação) associados à classificação pela performance (a temível meritocracia, tão combatida em nosso país) para determinar o nível de graduação dos aprendizes, já que o conceito “meio que” inviabiliza a divisão em turmas ou séries, por ser altamente “customizador”.
  • Acrescentar “mais um papel” às várias personas do professor. Além de instrutor e facilitador, também analista. É preciso checar se não é muito papel para uma pessoa só e se a vocação pessoal permite esta inclusão. É muito simples “deixar nas costas” de quem está na ponta esses “pormenores”. Não é pormenor e não são todos os professores dispostos a fazer esse papel. Penso que esse ponto é o maior entrave para o conceito e que não é algo facilmente resolvido. Talvez seja necessário ter vários tipos de profissionais dedicados a promover o aprendizado atuando na ponta, mas obviamente, aumenta (e muito) o custo de uma educação formal.

Vale também acrescentar a necessidade de se estimular desde cedo a habilidade do autoaprendizado. Não adianta criar um ambiente que permita “personalizar” o processo de aprendizado se quem for aprender não tiver a capacidade de conduzir este processo.

Há 3 anos, estudos mostravam um horizonte para a adoção desse conceito por uma quantidade mais ampla de pessoas para 2 ou 3 anos. Esse tempo já transcorreu sem que a previsão se concretizasse. Sou da opinião de que no período de 1 ou 2 gerações (de 25 a 50 anos) teremos um sistema educacional muito diferente do que temos hoje. Quem estava na “escola” por volta de 1990 pode atestar o quanto já mudou nos últimos 25 anos. Como diz o personagem Buzz Lightyear:  “ao infinito… e além”.

[1] Organizações como OpenColleges, Edudemics e Educause.

Aprendizado ao invés de educação

agosto 27, 2015 § 3 Comentários

Joi Ito é o diretor do MIT MediaLab, um dos lugares mais inovadores do mundo, que fica em uma das instituições de educação formal mais respeitadas da atualidade (o MIT) e mesmo assim tem como crença pessoal a certeza de que as pessoas deveriam se preocupar mais em aprender e menos em “receber” educação. Em uma palestra TED no ano passado declarou: “educação é o que os outros fazem para você, aprendizado é o que você faz para si mesmo”.

Na palestra, Ito conta como formou um grupo chamado Safecast, que mede a quantidade de radiação nuclear presente no mundo. Frisa que são todos amadores e que ainda assim conseguiram montar seus próprios contadores Geiger, a um custo mais barato e disponibilizar seus dados via site e aplicativo para quem quiser. Marotamente pergunta: “como é que um bando de amadores que realmente não sabiam o que estavam fazendo, de alguma forma conseguiu se unir e fazer o que as ONGs e o governo eram completamente incapazes de fazer?”. Ito atribui à conectividade permitida pela internet e pela disposição em fazer mais e planejar menos. Cunhou até um termo para representar a atitude, “now-ism” (algo como “agoraismo” – que seria o antônimo de futurismo).

Recomendo assistirem ao vídeo (disponibilizo o link AQUI), mas gostaria de focar e abranger a “bola levantada” pelo Ito em relação à aprendizado X educação. Como compartilhamos essa mesma crença, sinto-me compelido a fazer alguns esclarecimentos. De certa forma, esse sentimento expresso pelo diretor do MediaLab coaduna com o chamado feito por parte das pessoas envolvidas com educação para que a sociedade dê mais atenção ao autoaprendizado e tire proveito das possibilidades proporcionadas pela conectividade. Não é, de forma alguma, uma campanha para acabar com a educação formal. Mas, é preciso ter consciência de que o custo de uma educação formal se tornou tão escandalosamente alto que já não faz sentido depender exclusivamente dos sistemas formais de educação. Quando abordo a questão do custo, não me refiro somente à educação particular, o nosso sistema público universal de educação gasta boa parte dos orçamentos federal, estaduais e municipais.

Como tornar o brasileiro mais preparado para atuar no mundo contemporâneo onde a inovação, a criatividade e a geração de conhecimento fazem a diferença? Para mim, a resposta passa por cada brasileiro tomar em suas mãos as rédeas do seu próprio aprendizado. Não pretendo abordar neste post como estimular o autoaprendizado, já o fiz em uma sequência de posts que publiquei em maio deste ano e em meu livro, Conexão do Conhecimento, lançado este mês (quem quiser disponibilizo o link para a compra na seção PUBLICAÇÕES), mas gostaria de reforçar a importância dessa prática com 3 princípios levantados pelo Joi Ito em seu conceito de “now-ism” e relacioná-los ao aprendizado.

1) Implemente ou Morra (Deploy or Die): pessoalmente considero que essas afirmações excessivamente incisivas geram mais angústia do que reflexão, mas compreendo a estratégia. O que Ito pretende com este mote é instigar a “arregaçar as mangas” e produzir: coisas, conhecimento, inovações. O que importa é colocar à disposição de todos o seu trabalho. Em suas palavras, “deveríamos estar nós mesmos lá fora, construindo,e não dependendo que grandes instituições façam isto por nós” (no original, para não impor meu entendimento, “we should be getting out there ourselves and not depending on large institutions to do it for us”).

Em aprendizagem significa compartilhar suas ideias e conhecimentos. Para aprender bem nunca é demais 3 coisas, planejamento (saber o que você quer aprender), resiliência (se manter no caminho, mesmo na adversidade) e avaliação (um feedback em relação ao que você sabe é fundamental para que se possa checar a eficácia do seu aprendizado). A internet pode ajudar muito nessa história, atuando como uma “ferramenta” de colaboração e amplificando o aprendizado, mesmo porque a melhor maneira de aprender não está mais no isolamento – creio que nem os monges acreditam mais nisto.

2) Puxe ao invés de Empurrar (Pull over Push): a ideia aqui é “puxar” os recursos que você precisa da rede – no sentido amplo, pode ser tanto a internet, quanto a sua rede de contato pessoal – ao invés de concentrar e controlar em algum “centro” – também em um sentido amplo, pode ser tanto um centro acadêmico quanto uma pasta no seu computador.

No contexto da aprendizagem, significa o fim do conceito de “sabichão”, aquelas pessoas extremamente especialistas, que conhecem tudo sobre sua matéria porque se condicionaram a “estocar” informações. Antes da internet havia espaço para esse perfil, agora basta uma pesquisa no Google para levantar a maioria das informações necessárias sobre qualquer assunto. Saber procurar, achar e entender como as informações necessárias para você se relacionam é mais eficiente do que estocá-la.

3) Compasso ao invés de Mapa (Compass over Maps): aqui confesso que há uma divergência entre meu entendimento e do Ito. Vou abordar os dois. Para o Ito, planejamento é superestimado, diz: “o custo de planejar ou mapear algo está se tornando muito caro e muitas vezes não é muito preciso ou útil” (no original, pelo mesmo motivo exposto anteriormente, “the cost of writing a plan or mapping something is getting so expensive, and it’s not very accurate or useful”). Vejo de outro modo, planejar e mapear são importantes para definir objetivos (o que se quer alcança) e traçar parâmetros (por onde começar, como saber se estou fazendo certo, o que preciso para colocar em prática). Concordamos, porém, na necessidade da flexibilidade para as correções necessárias quando estivermos fazendo o que queremos (ou precisamos) fazer. Esse é o real significado do “compass over maps” e por isso, mesmo discordando do argumento, creio que é um princípio válido.

Em aprendizado, similarmente, é preciso colocar a “cara a tapa” e mudar de rumo se o seu método de aprendizagem não estiver dando resultado. Mas para saber isto, é preciso medir (e se planejar).

Acredito no “poder” do aprendizado e acredito que ninguém está “limitado” ao seu expertise atual. Um advogado pode (e deve) saber como programar um site ou um aplicativo se isto for beneficiá-lo de alguma forma e um programador pode (e deve) conhecer legislação se ela interferir (e certamente interfere) de algum modo na sua vida. A verdade é que, advogados e programadores, professores e alunos, adultos e crianças, têm mais em comum do que se pode perceber em um primeiro momento: são todos aprendizes. Por isso “aprender a aprender” é tão importante e praticar o autoaprendizado é fundamental para quem quer realmente fazer a diferença neste louco século XXI.

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