O dicionário visual do cérebro

junho 30, 2015 § 3 Comentários

 Nós processamos as palavras visualmente, não foneticamente. É o que mostra um estudo conduzido pela Georgetown University Medical Center. Segundo o referido estudo, quando olhamos para uma palavra conhecida, nosso cérebro a vê como uma imagem e não como um grupo de palavras a serem processadas. Ao invés de utilizar métodos como soletração (que entende a letra como unidade) ou identificar partes da palavra como se acreditava anteriormente, o cérebro “se lembra” como a palavra toda se parece, agindo como se fosse um “dicionário visual”.

Utilizando a ressonância magnética para mapear o cérebro dos voluntários, descobriu-se que, ao aprender uma nova palavra, uma pequena área do cérebro (oposta à área utilizada para lembrar rostos) é ativada, indicando que o processo utilizado para reconhecer palavras é similar ao utilizado para reconhecer feições. Segundo os pesquisadores, é isto que nos permite ler rapidamente.

A descoberta não apenas ajuda a entender melhor como o cérebro processa palavras, mas também permite insights a respeito de como ajudar o aprendizado de pessoas com dificuldades de leitura. Para aqueles que têm dificuldades em aprender palavras foneticamente (que é o método habitual para o ensino da leitura), ensinar a palavra inteira como um objeto visual pode ser uma boa estratégia.

O que a Finlândia tem?

junho 25, 2015 § Deixe um comentário

Foi com muita alegria que li a reportagem publicada nessa semana pela revista Veja a respeito da revolução educacional promovida pela Finlândia. O artigo aborda alguns temas que discuti neste espaço nos últimos meses, em especial coding (como exemplo de integração de disciplinas), project-based learning e empoderamento de alunos e professores (não por acaso temas dos 3 posts da série a respeito da conferência Education on Air). O segundo, tema também do infográfico que disponibilizei a respeito do passo a passo de implementação de uma ação de project-based learning).

Nunca é pouco repetir que para nos integrarmos de verdade ao século XXI, será necessário mudarmos nossa percepção a respeito do que é educação e como investir nela. Mais do que nunca, devemos privilegiar modelos educacionais que estimulem as pessoas a aprenderem a aprender e não os focados em disciplinas e no seu repasse. Aqui, vale o conceito de antidisciplina do Mitchel Resnick (“antidisciplinary” no original) em que nenhum conhecimento é rotulado e empacotado, você estuda o que precisa estudar, não importa a sua especialização.

Também não é pouco repetir que para “criar” propriedade intelectual, é preciso dar “valor” ao conhecimento (no sentido de reconhecimento, importância e consideração que o substantivo tem) e àqueles que possibilitam o seu compartilhamento. Desnecessário dizer que recomendo (e muito) a leitura do artigo (quem quiser, pode acessá-lo AQUI).

Aproveito ainda para deixar meu agradecimento pelas 3.517 visualizações dos 1.541 visitantes do site nos últimos meses (estatísticas do dia 24/06).

Para aprender mais rápido, não se concentre tanto

junho 23, 2015 § Deixe um comentário

Por que alguns desenvolvem habilidades rapidamente, enquanto outros precisam de um tempo extra para praticar? Essa foi a pergunta que Scott Grafton, pesquisador da UCSB (Universidade da Califórnia em Santa Bárbara) se fez. Para descobrir a resposta, desenvolveu um jogo online para medir as conexões entre as diferentes regiões do cérebro enquanto os participantes o tentavam aprender (quem quiser pode conhecer mais sobre o estudo AQUI).

Mapeando as atividades de 112 regiões do cérebro, perceberam uma grande concentração de conexões durante as primeiras tentativas, que diminuíam à medida que o experimento avançava, tornando as regiões mais independentes. Por exemplo, a parte do cérebro que controla o movimento dos dedos e a parte que processa estímulos visuais não interagiam mais ao final da análise. Segundo Grafton, essa tendência já era esperada, pois já conheciam como se desenvolvia o processo de aprendizagem neurologicamente, o que o surpreendeu foi detectar que o maior volume de atividade neural veio dos que aprendiam mais devagar, sugerindo que estes “pensavam demais” (no original, “overthinking”) a tarefa.

A explicação vem do “modus operandi” do cérebro. Quando começamos a aprender algo novo, o cérebro começa a testar inúmeras ferramentas cognitivas para tentar entender e reproduzir o novo conhecimento, com a prática e evolução do aprendizado, ele diminui o uso, focando naquelas que melhor apoiam aquele aprendizado. O que o estudo mostrou, é que algumas dessas ferramentas cognitivas “atrapalham” o aprofundamento de um aprendizado.

Bom, muito interessante, mas por que isso é importante? Porque significa que para um rápido aprendizado, é menos importante se preocupar “em que focar”, do que “como focar”. Manter o “fluxo de atenção” balanceado facilita a reorganização pelo cérebro do fluxo das suas atividades durante um aprendizado mais do que a estratégia de “atenção redobrada” ou “atenção total” que naturalmente utilizamos para aprender algo novo.

O que a matemática no PISA me ensinou

junho 16, 2015 § 5 Comentários

Historicamente, as aulas de matemática valorizam um único tipo de aluno: aquele que consegue memorizar bem e calcular rápido. No entanto, dados dos 13 milhões de alunos que fizeram os testes PISA, mostraram que os estudantes que alcançaram as notas mais baixas em todo o mundo, foram exatamente aqueles que utilizaram a estratégia de memorização no seu aprendizado. Esta estratégia é aquela que estimula a pensar a matemática como um conjunto de métodos de memorização – alguém se recorda dos exercícios para decorar a tabuada? Em contrapartida, os alunos com maior rendimento foram aqueles que abordavam a matemática como um conjunto conectado de grandes ideias. Estes dados podem ser verificados pelos resultados do PISA de 2012, disponibilizados pela OECD.

Esta diferença de performance se deu porque a matemática, ao contrário do que nosso sistema educacional sugere, é um assunto amplo e multidimensional. A verdadeira matemática deve estimular investigação, comunicação, conexões e ideias visuais. Ela envolve Conexão de Conhecimento e não apenas repasse.

O Brasil, em minha opinião, não precisa de alunos que possam calcular rapidamente. Precisamos sim, de aprendizes que possam fazer boas perguntas, mapear caminhos, encontrar soluções para questões complexas, configurar modelos e se comunicar em diferentes formas. Todas essas habilidades deveriam ser encorajadas pelo nosso sistema educacional e nossa posição no teste – 38º de 44 países – deveria gerar não apenas indignação, mas um amplo debate (não bate-boca ou concurso de gritos – como tenho visto por aí) para pensarmos os objetivos que queremos para nossa sociedade e o que precisamos fazer para alcançá-los. A construção da Base Nacional Comum (BNC) pelo MEC – que é a definição do que é essencial ser aprendido – é um primeiro passo para isto, mas só vai realmente contribuir para o desenvolvimento do país se for sustentada por modelos educacionais que privilegiem a aplicação prática do que é aprendido.

5 dicas para começar a usar o blog como ferramenta educacional

junho 3, 2015 § Deixe um comentário

No post anterior comentei os motivos pelos quais considero que o blog deve ser encarado como uma ferramenta educacional de ponta. Neste, pretendo abordar 5 dicas rápidas para colocar a ferramenta em prática e tornar sua experiência de implementação quase um “passeio no parque”.

Use um aplicativo de blog simples

Sugiro que comece procurando aplicativos populares de blog (não é por acaso que são populares). Há alguns específicos para serem usados como ferramenta educacional, são os chamados “classroom blogging apps”. Os mais usados dessa vertente são:

Edublogs, permite que se crie e gerencie blogs (tanto de aprendizes quanto de professores), personalize projetos e inclua vídeos, fotos e podcasts.

Kidblog, possui ferramentas que ajudam os aprendizes a escreverem com segurança antes de publicarem online. Esse aliás é um dos grandes debates acerca da utilização da internet como ferramenta educacional, a necessidade de se promover o “digital citizenship”. É preciso garantir aos estudantes um espaço seguro para exercerem sua “cidadania digital”, com monitoramento de toda a atividade pelos professores.

Os blogs tradicionais como Blogger, WordPress, Weebly e Tumblr (para photoblogs) também são boas opções.

Dê o “pontapé inicial”

Se você utilizar o modelo de blog comunitário ao invés do individual, não se esqueça de que é sua responsabilidade fazer os posts iniciais e estimular o comentário dos aprendizes. À medida que eles demonstrarem tanto entusiasmo quanto responsabilidade com seus comentários, dê-lhes mais liberdade, concedendo o direito a escrever no blog comunitário. Ou então, os estimule a criar seus próprios blogs.

Crie uma rubrica

Rubricas são ferramentas educacionais usadas para avaliar o desempenho dos aprendizes. São essenciais para fornecer explicações detalhadas para uma tarefa. Além de facilitar o entendimento dela pelos aprendizes, os ajuda a checar sua performance individual. Não deixe de incluir as suas expectativas para a tarefa, assim como responder aos comentários. Para mais informações a respeito de rubricas e como implementá-las em seu blog, recomendo a seção a respeito de avaliações do site EdTech Teacher.

Defina seu público

Criar um público “cativo” para o blog é importante para os aprendizes encararem a ferramenta como uma oportunidade para mostrarem seu aprendizado (e talento), além de gerar feedbacks realmente construtivos. Inicialmente, o professor e os colegas de classe são a melhor audiência para o blog, mas considere a possibilidade de compartilhar com outros, como pais ou familiares.

Use conteúdos concisos

Peças concisas e fáceis de ler são ideais para a maioria dos leitores online. Textos mais longos, complexos ou complicados podem confundir e afugentar seus aprendizes. Exerça e estimule a assertividade. Ir direto ao ponto é uma habilidade valiosa, tanto na carreira acadêmica quanto na profissional. Seus aprendizes agradecerão.

Que tal começar um blog?

junho 1, 2015 § Deixe um comentário

BlogMore2

Blogs podem ser usados para expandir a criatividade dos aprendizes e as suas habilidades de escrita, mas são constantemente menosprezados como ferramenta educacional. Apesar de serem rapidamente criados, surpreendentemente fáceis de usar, facilmente mantidos e exigirem conhecimento técnico mínimo, muita gente “torce o nariz” para a simples sugestão “por que você não cria um blog?”.

Um dos motivos pode ser o fato de ser uma ferramenta “antiga” na sempre inovadora internet ou então a falta de credibilidade que muitos atribuem ao conteúdo deles (apesar do “jornal” mais lido na internet ser um blog, o Huffington Post).

De qualquer forma, pretendo explorar 4 motivos pelos quais o blog deve ser considerado uma ferramenta educacional de ponta:

1. Permite uma aprendizagem multifacetada: já é largamente aceito que deve-se proporcionar múltiplas formas de aprendizagem porque cada um aprende de maneira diferente. Não cabe aqui insistir nisto, então sugiro apenas que reflitam na possibilidade de usar um blog para proporcionar diferentes maneiras de um aprendiz demonstrar o seu aprendizado. Por exemplo, uma pessoa tímida pode sentir menos pressão quando precisar “falar” a respeito de um tema em seu blog ou quando precisar dar feedback aos seus pares. Sem contar que o formato de registro diário proporcionado por um blog funciona muito bem com aprendizes visuais e com os chamados read-and-write learners (os que aprendem melhor lendo e anotando, como este que vos escreve).

2. Blogs ajudam a alfabetizar e aguçar habilidades de escrita: “bloggar” permite que os aprendizes se tornem “autores publicados” e mostrem suas habilidades de escrita. Funciona como uma “aula de redação” on-the-job, além de “treinar” sua escrita a pessoa pode receber dicas para melhorar dos seus próprios “leitores”. “Falando” nisto, este é um dos maiores benefícios de um blog, dar aos aprendizes a capacidade de melhorar a comunicação e a colaboração por meio do recurso “comentários”. A revisão por pares e o feedback tornam-se uma parte valiosa do processo de aprendizado. Outro ponto importante é o aumento da atenção quando se sabe que o que se escreve será lido por várias pessoas. Cada palavra, frase, sentença e pontuação adquire outro status.

3. Blogs são acessíveis e engajadores: com a disponibilização cada vez maior de aplicativos de blog, o seu uso tornou-se ainda mais simples e acessível. Pode-se escrever sobre qualquer coisa, de qualquer lugar, sempre que estiver com vontade. Não estarmos “amarrados” a uma mesa, estimula que nos sintamos mais livres para usar a “mídia” escrita. Nunca é demais reforçar que escrever melhora a capacidade de refletir a respeito do “mundo à volta”. Junto com outros artefatos multimídia como fotografia e vídeos, os blogs transcendem a “formação” de “escritores”, estimulando uma abordagem mais ampla da comunicação.

4. Blogs podem servir como ferramenta de gestão de “sala de aula”: para finalizar, quando usados como ferramenta para disponibilizar atividades e exercícios, tanto dentro quanto fora da “sala de aula”, ajudam a manter o foco e o engajamento nas atividades propostas. Além disto, ao se criar blogs “comunitários” (ao invés de blogs individuais), promove-se comunidades online para os aprendizes e amplia-se a “sala de aula” para além das quatro paredes. O aprendizado continua onde quer que se vá, estimulando que os pensamentos e conversas dos aprendizes se perpetuem.

Educação no ar – parte 3

maio 20, 2015 § 1 comentário

3. Empowerment

É preciso, em português claro, empoderar. Dar poder às pessoas para que possam realizar suas ambições e experiências. Talvez, essa seja a atitude mais difícil de se aplicar quando “falamos” em educação. Há muita amarra, burocrática e mental, quando se faz qualquer proposta educacional que envolva colocar a responsabilidade nas mãos dos agentes finais, professores e aprendizes. No entanto, é o primeiro passo a se dar no caminho de uma mudança no sistema educacional de qualquer país.

A primeira amarra discutida durante o evento, foi a relacionada ao empoderamento dos alunos. A Google tem um projeto em parceria com diversas escolas espalhadas pelos EUA, Canadá e Reino Unido, que envolve a mudança do conceito de “sala de aula”, inclusive como espaço físico, por meio do uso da tecnologia. A empresa distribui chromebooks (que é a nova geração de notebooks) e tablets para professores e alunos e banca a reforma física da sala de aula. Saem carteiras e lousas e entram mesas compartilhadas, pufes, conexão wi-fi e os equipamentos. Os professores e alunos participantes tem a responsabilidade de cuidar do espaço e dos equipamentos e implementar um método de ensino e aprendizado que envolve “tangibilizar” o assunto estudado. Por exemplo, para estudar o funcionamento dos vulcões, é preciso pesquisar imagens, vídeos ou sites que mostrem vulcões em atividade e como eles funcionam. O aprendizado no caso, está literalmente na mão dos alunos, responsáveis em localizar essas informações. O professor atua como facilitador e participante do processo ao promover as discussões sobre o tema e o direcionamento das atividades, utilizando seu conhecimento de formação.

Um dos primeiros bloqueios que a Google encontrou foi contra a ideia de colocar equipamentos eletrônicos nas mãos da garotada, em horário de aula. Imaginando os diálogos que teriam de travar, se tal projeto fosse proposto aqui no Brasil, certamente chegaríamos a algo parecido com: “eles vão usar o tablet para acessar o youtube para ver o clip do Mr. Catra”. Com certeza vão, mas também usarão o youtube para ver o vídeo a respeito de sintaxe da língua portuguesa, recomendado pelo professor. Ou então, “vão acessar o Facebook para fofocar”. Novamente, tenho certeza que vão, mas também acessarão o Facebook para compartilhar o link de um assunto referente à matéria vista. A verdade é que as duas coisas aconteceriam (o estudo e o entretenimento), mas o fato de uma acontecer não inviabiliza que a outra aconteça também e não é justificativa para que se negue a implementação de um projeto-piloto do tipo. A Google conseguiu “vencer” essa resistência inicial e tem cases para mostrar.

A segunda amarra é em relação à iniciativa dos professores. Muitos tem boas ideias e vontade de as colocar em prática, mas são sistematicamente “sabotados” por instituições, governos e outros envolvidos (inclusive professores e pais de alunos). Um caso que me chamou bastante atenção foi da professora Esther, de uma escola em Palo Alto, na Califórnia. Em 1984, Esther se “apaixonou” por um computador da Apple e o queria utilizar para dar um “gás” em suas aulas. Mas, o preço do equipamento estava muito acima das suas disponibilidades (US$5.000 na época, segundo ela, era dinheiro que não acabava mais). A primeira porta que ela “bateu” para tentar levantar o equipamento foi na secretaria de educação da Califórnia. Chegando lá, foi sonoramente ignorada, aula, segundo os burocratas da secretaria, tinha que ser dada com livros e apostilas. A segunda porta, foi a da própria Apple. A empresa enviou gratuitamente 10 computadores para a escola. Esther, que nunca tinha tocado em um computador antes, foi auxiliada pelos próprios alunos e começou a dar suas aulas usando os equipamentos. De 1984 até meados dos anos 2000, suas aulas foram tão populares que ela se tornou diretora do colégio. Nesse período, foi constantemente assediada pelos “district inspectors”, espécie de fiscais da secretaria de educação, para que encerrasse suas aulas por computador (novamente, tinha que usar livros e apostilas). Somente em 2005, o governo da Califórnia autorizou que fossem usados computadores para aulas de qualquer matéria nas escolas do estado (mais de 20 anos depois de Esther ter começado as suas). Isto aconteceu em um estado que é o “celeiro tecnológico” do mundo, imagine em locais com menos tradição tecnológica?

Isso prova que pessoas são sempre mais ágeis do que instituições e governos. Portanto, tem que ser colocada em suas mãos a capacidade de implementar uma nova prática educacional, sem burocracia, mas com indicadores claros de avaliação (afinal, é preciso saber se está dando certo). Ao conhecer o caso contado pela Esther, veio imediatamente na minha mente um trecho da canção “Civil War”, da banda Guns n Roses: “você não pode confiar na liberdade, quando ela não está em suas mãos”. Nada mais verdadeiro.

Quem quiser assistir aos vídeos das conferências e sessões que ocorreram durante o “Education on air”, basta clicar AQUI. A Google as disponibilizou On Demand. Espero que tenham para vocês um impacto semelhante ao que tiveram para mim, apesar do meu final de semana ter começado apenas no sábado, às 22h30 (esse negócio de fuso horário é brabo).

Educação no ar – parte 2

maio 18, 2015 § 1 comentário

2. Project-based learning

Foi o método educacional mais debatido durante as conferências. Um dos motivos é o fato da maioria dos participantes do evento serem de língua inglesa e esses países são muito influenciados pelo trabalho do John Dewey (já o citei em posts anteriores). John Dewey representa para eles o que Paulo Freire e Darcy Ribeiro representam para nós, brasileiros, um patrono educacional.

O enfoque do John Dewey estava ligado à ideia de que o sistema educacional deveria ser centrado no aluno e no provimento de experiências de aprendizagem, como forma de ligar o aluno ao seu meio social. Aqui no Brasil esse enfoque ficou conhecido como Escolanovista ou Progressista. Project-based learning nada mais é do que a releitura atual das ideias de Dewey e tem o objetivo de provocar o aprendizado por meio da experiência gerada pelo desenvolvimento de projetos. Para tangibilizar o conceito, vou compartilhar alguns casos apresentados.

Uma escola em San Diego, na Califórnia, precisava reformar a biblioteca. Organizou então um projeto com os alunos para levantar o dinheiro, que envolvia a abertura de um Food Truck. Os alunos tiveram que se organizar e tocar o projeto, levantando desde as licenças necessárias na prefeitura, até resolver como o Food Truck seria adquirido e administrar o negócio. Durante o projeto, tiveram que desenvolver habilidades como empreendedorismo, negociação, matemática financeira, contabilidade, culinária, dentre outras (olha a interdisciplinariedade aí, na prática).

Há 3 anos, uma adolescente, Brittany Wenger (na época com 17 anos), ficou muito abalada com o câncer de mama desenvolvido por uma prima. A partir daí, quis saber mais a respeito da doença e começou a trabalhar com o seu professor de biologia para aprender tudo o que pudesse sobre o câncer e o funcionamento do seio feminino. A medida que seu conhecimento sobre o assunto aumentava, deu início a um “projeto” pessoal, queria desenvolver uma ferramenta que ajudasse na identificação do câncer de mama. Foi estudar programação no próprio colégio e desenvolveu um aplicativo chamado “cloud4cancer” que ajuda a determinar se a massa encontrada no seio, em um exame do toque, é maligna ou benigna, por meio de um algorítimo que analisa os padrões da imagem em todos os bancos de dados públicos disponíveis nos EUA sobre o assunto.  Acuracidade da resposta bate a casa dos 99%. Brittany, hoje com 20 anos, cursa a faculdade de programação.

O Project-based learning permite que se coloque em prática uma dica dada pelo Laszlo Bock, que é o Diretor de RH da Google (ou como eles chamam por lá, Google’s People Chief). Ele disse, “don’t trust your guts”, algo como “não confie nos seus instintos”, a frase, colocada no contexto correto, significa que não devemos nos basear no “achômetro”, é preciso praticar e testar para saber se uma ideia vai dar certo, ou seja, ter experiência.

Educação no ar – parte 1

maio 14, 2015 § 1 comentário

Esse foi o nome da conferência focada em educação organizada pela Google, que aconteceu nos dias 08 e 09 de maio. Foram 2 dias de muito debate e compartilhamento de cases, envolvendo o tema educação. O nome da conferência, no original “Education on air”, faz mais sentido quando se sabe que ela aconteceu inteiramente online, o que não diminuiu em nada a intensidade dos trabalhos, apesar dos diferentes fusos horários envolvidos.

Me juntei à participantes e conferencistas de toda a parte do mundo, principalmente dos EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália, Índia (os países de língua inglesa compareceram massivamente), mas também da Finlândia, Filipinas e México, dentre outros. No primeiro dia, as discussões tiveram um viés mais conceitual, em que foram debatidas teorias, métodos educacionais, papel da comunidade e governo e analisados casos. O segundo dia, apesar de igualmente interessante, foi mais voltado ao uso educacional das ferramentas do Google (como dizem os americanos, “não existe almoço grátis”). Pretendo compartilhar nesse e nos próximos 2 posts o que vi de mais interessante nas sessões que tomei parte.

1. Quais são as habilidades do futuro?

Esse foi o tema que tomou a maior parte do primeiro dia. Apesar de cada um ter sua própria opinião (principalmente os especialistas), duas delas foram bastante citadas e me chamaram a atenção pelas consequências envolvidas.

A primeira é a programação, ou usando o nome moderno, coding. Para falar a verdade, comecei a refletir na necessidade do coding como habilidade há 2 anos, em um curso que tomei parte no MIT (se chamava “learning creative learning”). O mote na ocasião, era de que o mundo estava se tornando cada vez mais digital e não entender de programação seria como saber ler, mas não escrever, ou seja, sua participação ficaria restrita, como ator passivo, apenas “consumindo” o que é criado por outros. Essa abordagem continua válida, mas acrescenta-se outra, que é a interdisciplinariedade que o coding permite.

Recentemente a Finlândia mudou o seu currículo educacional e a sua experiência vem sendo acompanhada com interesse pelo restante do mundo, por ser um caminho para o tipo de sistema educacional que se pensa adequado à realidade do século XXI. Em primeiro lugar, reduziram as disciplinas ensinadas e focaram na integração das disciplinas antigas em novas. Por exemplo, a de coding envolve matemática, geometria, biologia e robótica. Integrar mais as áreas de conhecimento pode ser a solução para a questão do tempo restrito que se tem para “ensinar” tudo que os currículos educacionais consideram importante.

A segunda habilidade foi a resolução de problemas. Se debateu muito sobre a necessidade dos sistemas educacionais formarem indivíduos que tenham realmente a capacidade de identificar uma necessidade ou problema e propor soluções para ele. A habilidade de resolução de problemas envolve outras como flexibilidade, capacidade de adaptação e de colaboração. Como bem colocado por um dos conferencistas, lord David Puttnam, produtor de filmes como “Carruagens de Fogo” e “A Missão”, “não vivemos mais em uma sociedade mediana”. Há 60, 50 anos era possível viver muito bem sendo um profissional mediano, hoje a norma é a excelência. São poucos os que conseguem alcançar a excelência por conta própria, por isso, para sermos excelentes de fato, temos que ser cada vez mais colaborativos e trabalhar em conjunto para que os resultados alcançados estejam dentro do “padrão excelência”.

Autoaprendizado – parte 4

maio 12, 2015 § Deixe um comentário

Para fechar esta série, vou abordar mais 5 dicas que misturam um pouco de cada ponto que vimos nos posts anteriores. No primeiro deles, minha intenção era mostrar as “bases” de um autoaprendizado (metas pessoais, autoconhecimento e autoquestionamento), no segundo, a importância da motivação pessoal no processo e no terceiro, a necessidade de se organizar para aprender.

16. Faça uma lista dos tópico a dominar

Fazer listas ajuda a manter o foco nos assuntos que realmente são importantes aprender, além de ser divertido “ticar” o que já foi visto. É importante incluir o que é realmente relevante, mas também o que é interessante para você (aprender tem que ser prazeroso).

17. Dê um uso prático ao que aprendeu

Todos nós valorizamos os conhecimentos úteis, mas muitas vezes é preciso fazer um esforço consciente para usá-los. Crie suas próprias oportunidades para aplicar o que aprendeu, você se surpreenderá com a sua habilidade executiva.

18. Valorize o seu progresso

No decorrer da vida, nunca deixamos de aprender e esta é uma das muitas razões pelas quais o autoaprendizado é tão interessante. Muito assuntos, tópicos, questões e problemas significam muitas oportunidades, estímulos e realizações. Por isso, não se esqueça de valorizar a sua evolução e se lembrar de que ela acontece no seu ritmo.

19. Mantenha suas metas realísticas

Nada é mais frustante em um processo de autoaprendizado do que criar, nós mesmos, metas irreais ou inalcançáveis naquele momento. Por isso, tente manter as “coisas” em perspectiva e defina metas que sejam realmente alcançáveis.

20. Construa sua rede de “colegas aprendizes”

Somos aprendizes colaborativos por natureza. Use esse “dom” natural a seu favor e faça parte de comunidades online ou presenciais, onde possa conversar e debater a respeito do que aprendeu. Esse tipo de relacionamento realmente dá suporte e apoio durante a sua “jornada” de aprendizado e ajuda a “iluminar” o seu caminho.

É importante ter em mente que o papel mais importante em um processo educacional é o do aprendiz. Todos os outros “atores” (professores, instituições, governos, colegas, etc) participam como estimuladores, definidores de parâmetros e dialogadores do processo, mas se não houver aquela “chama interna”, aquela vontade em quem está aprendendo, o ciclo não se fecha. Aprendizado é na verdade autoaprendizado e ter consciência do impacto do nosso próprio papel e atitude como aprendizes é vital para desenvolvermos o nosso pensamento crítico e reflexivo.

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