A nova face dos quadrinhos
dezembro 2, 2015 § Deixe um comentário

Neste ano, pela primeira vez, o equivalente ao ministério da educação da Austrália incluiu revistas em quadrinhos na sua lista de recomendações de leitura. Títulos como “X-men” de Joss Whedon, “Batman: o cavaleiro das trevas” de Frank Miller e “Watchmen” de Alan Moore figuram juntos a “Apanhador no campo de centeio” de J. D. Salinger e “O grande Gatsby” de F.Scott Fitzgerald.
Nos últimos 10 anos, o crescente interesse de especialistas em educação pelos quadrinhos tem produzido uma série de estudos acadêmicos, que recentemente chamaram a atenção de autoridades públicas. A razão se deve à validação por parte da academia de que os quadrinhos ajudam de fato a melhorar a compreensão da leitura, talvez até mais do que os romances tradicionais e os livros ilustrados.
Apesar do “sucesso de crítica”, muitos professores ainda relutam em aceitá-los como materiais de estudo – por convicção ou preconceito – o fato é que esta forma de expressão literária, popularizada a partir dos anos 1930, já enfrentou muita adversidade. Ficou famosa a campanha feita por conservadores norte-americanos nos anos 1950 pedindo a proibição dos quadrinhos, sob a alegação de que estimulavam a delinquência juvenil. A dra. Janette Hughes, professora de biblioteconomia do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário, no Canadá, e defensora do uso dos quadrinhos em educação, conta que ainda há muita relutância em aceitá-los como “leitura digna”. Em suas próprias palavras: “como professora e bibliotecária, ouço isso o tempo todo quando sugiro quadrinhos para os estudantes. Seus professores são os primeiros a dizer que eles precisam ler um livro ‘de verdade’.”
A inclusão dos quadrinhos como material didático está sendo feita de forma lenta, mas constante. Em 2008, pela primeira vez, um quadrinho concorreu ao prêmio literário oferecido pelo governo canadense. Trata-se de “Skim”, de Mariko e Jillian Tamaki, sobre uma adolescente oriental convivendo em uma escola católica só para meninas.
Pesquisas feitas pela University of Northern Iowa e Clemson University, mostraram que 80% dos estudantes preferem quadrinhos aos textos tradicionais. A pesquisa da Clemson University foi um pouco além e utilizou o conto “O Barril de Amontillado” de Edgar Allan Poe para explorar os efeitos dos quadrinhos. Utilizou uma adaptação do conto em quadrinhos como suplemento ao texto tradicional e como alternativa ao texto original. Nos dois casos, quem utilizou a versão em quadrinhos tirou uma nota significativamente maior em um teste de compreensão do que quem apenas utilizou a versão em texto.
Outro estudo, produzido para testar o ensino de inglês como segunda língua, em uma escola em Ankara, Turquia, pelos pesquisadores Hüseyin Öz e Emine Efecioğlu comparou a utilização da versão em quadrinhos de “Macbeth” com o texto original de Shakespeare e descobriu que os quadrinhos tiveram um papel fundamental no entendimento: 1) de elementos literários como símbolo, configuração e prognóstico; 2) de inferência; e 3) de vocabulário.
O fato é que o nosso principal sentido, a visão, age em favor dos quadrinhos (e de qualquer informação visual). A psicologia cognitiva chama isto de “efeito da superioridade da imagem” (no original, “picture superiority effect”), que facilita a lembrança de conceitos quando apresentados em imagens. Quando uma informação é apresentada combinando texto e imagem, a retenção é de 65% (no período de 3 dias após a termos recebido). Isto explica a superioridade dos quadrinhos em relação ao “texto corrido”, levantada pelos estudos.
A ironia é que o nosso cérebro processa os quadrinhos de forma bem similar ao modo como processa o “texto corrido”. Mais um estudo (perdoem-me o excesso de referências, mas o assunto é realmente “palpitante”), este feito pelo Dr. Neil Cohn, que procurava entender como o cérebro reagia aos quadrinhos, descobriu que usamos o mesmo processo cognitivo para entender quadrinhos e sentenças em texto. A frase “ideias verdes incolores dormem furiosamente”, cunhada pelo linguista Noam Chomsky expressa o processo utilizado no estudo. Ao entrarmos em contato com uma comunicação incoerente, nosso cérebro automaticamente busca alguma lógica que possa demonstrar um sentido. No estudo, o pesquisador utilizou quadrinhos que passavam uma informação incoerente e percebeu que apesar dos participantes terem dificuldades em entender os quadrinhos, eles reconheciam uma lógica subjacente a eles. Isto demostrou que utilizavam a gramática para entender a história que o quadrinho contava, da mesma forma que utilizamos a gramática para entender o texto que lemos.
Como um leitor voraz, comecei meu interesse pela literatura através das histórias em quadrinhos. Li “Tarzan” e “Em busca do tempo perdido” em suas versões em quadrinhos e confesso que elas me estimularam a procurar os textos originais. Creio que essa forma literária pode ser utilizada para estimular o prazer pela leitura. Mais do que um hábito, ler deve ser encarado como um entretenimento, um hobbie que ao mesmo tempo em que diverte, ensina.
Arte dentro das disciplinas – parte 2
novembro 25, 2015 § Deixe um comentário

Para fechar os exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas, neste post conheceremos a integração da arte com estudos sociais e história; leitura; e, por fim, no próprio ensino.
A já citada Integrated Arts Academy (IAA), utiliza os assuntos definidos no próprio currículo de estudos sociais como temas das aulas de “redação”. Os alunos são estimulados a confeccionarem roteiros para serem encenados, utilizando os temas, e debatem as conexões dramáticas determinadas pelo volume e entonação da voz, além da perspectiva do texto.
O uso de artes visuais pode colaborar bastante no entendimento da história. Segundo a especialista em educação Marjorie Coheen Manifold, em seu texto “Art Education in the Social Studies”, o estudo de obras de arte do passado promove o entendimento dos valores da sociedade da época e como a arte foi influenciada pelas crenças econômicas, políticas e sociais. Um outro exemplo do impacto destas crenças na sociedade (desta vez, abordando a má influência) é dada pelo historiador Eric S. Yellin em seu livro “Racism in the Nation’s Service”, onde aborda o impacto da política racista do presidente americano Woodrow Wilson na década de 1910, que reverteu 30 anos de políticas integracionistas. Recomendo pessoalmente o livro, que pode ser lido gratuitamente em pdf, disponibilizado o pelo projeto educacional mantido por editoras norte-americanas chamado “Project Muse”.
Os amantes dos quadrinhos ficarão felizes em saber que esta forma de arte, que durante décadas foi desprezada, vem ajudando na alfabetização e estimulo à leitura. Histórias em quadrinhos – em especial as chamadas graphic novels – comprovadamente auxiliam na compreensão e na interpretação dos textos. Um estudo publicado na revista “Literacy”, demostrou que quadrinhos são excelentes suportes metacognitivos a estratégias de desenvolvimento de leitura e escrita.
Os pesquisadores examinaram ainda a relação entre as graphic novels e estratégias de compreensão de leitura e descobriram que as crianças adquirem uma melhor compreensão das histórias ao lerem este tipo de quadrinhos – além de um entusiasmo maior pelo aprendizado. Uma explicação para isto, segundo os pesquisadores, é que elas utilizam uma estratégia única durante a leitura de graphic novels: conectam o estilo da letra e do formato com o elemento emocional da história, analisam as informações sobre os personagens com base nas expressões faciais e corporais, e reconhecem a mudança de tempo ao longo da história através da informação visual que acompanha o texto, mesmo que não explicitamente indicado. A combinação desses elementos, propiciados pelos quadrinhos, ajuda as crianças a deduzirem o que acontece na história.
Resultados do teste Adolescent Motivation to Read Profile (AMRP) corroboram com o estudo, ao indicar uma melhora significativa na valorização da leitura e do “autoreconhecimento” como leitor. As respostas dos participantes do teste referentes a quadrinhos, mostraram que este tipo de literatura aumenta o engajamento para a leitura e tem um impacto extremamente positivo na satisfação gerada por ela.
A integração com a arte também pode ajudar os próprios professores a melhorarem seu ensino. Novamente a IAA aparece como exemplo. A escola promove 2 vezes por ano um retiro aonde os professores são estimulados a criar arte e testar lições e métodos de ensino uns com os outros. O objetivo dos retiros é estimular um senso de comunidade, a colaboração e promover um espaço onde os próprios professores podem se desenvolver como artistas. Como bem atesta o diretor da instituição, Bobby Riley, não se pode apenas pedir que as pessoas colaborem, é preciso criar a estrutura para isto e estimular a habilidade para que a coisa aconteça.
O aprendizado é por si só uma arte. Devemos tratá-lo com a mesma seriedade com que tratamos os temas e assuntos que precisamos aprender. Isto significa pensar e debater o processo de aprendizado, desde técnicas de memorização até estratégias de retenção de conhecimento. Se queremos, de verdade, construir uma sociedade baseada no conhecimento, tudo, absolutamente tudo, deve estar relacionado de alguma forma com a arte de aprender.
Arte dentro das disciplinas – parte 1
novembro 18, 2015 § Deixe um comentário
Pretendo neste e no próximo post mostrar alguns exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas. Neste primeiro, veremos integrada à escrita e matemática. Vale reforçar que o que veremos a seguir são exemplos de como algumas instituições de ensino implementaram a abordagem do uso da arte no aprendizado, não é uma “receita” e sim uma indicação do que pode ser feito. O modus operandi deve ser determinado por cada um.
A Cashman Elementary School, no estado norte-americano de Massachusetts tem experimentado a integração da música à escrita com crianças de 8 e 9 anos. Funciona da seguinte forma: a professora de música pede a seus alunos que escutem a famosa música “Dança do Sabre” do compositor armênio Aram Khachaturian em diversos momentos do dia – no recreio, na hora do lanche, etc. Depois, explica a dinâmica da música, seu tempo e instrumentação. Em seguida, os alunos são estimulados a fazerem um desenho a respeito do que sentiram em relação à música e por fim, devem criar um enredo e desenvolver uma história baseada no desenho.
Em Annapolis, no estado de Maryland, a escola Wiley H. Bates Middle School ensina a seus alunos matemática e mosaicos mexicanos ao mesmo tempo. Os alunos estudam os tradicionais mosaicos turquesas do México e criam suas próprias versões com pedaços de papel. Em seguida, recolhem amostras de diferentes tamanhos e as usam para calcular o número de peças utilizadas na obra de arte.
Outro exemplo da integração da arte com a matemática vem do estado de Nova Jersey. A Stockton University, em seu curso de matemática, usa origamis no ensino da matéria. A professora Barbara Pearl, autora do livro “Math in Motion: Origami in the Classroom”, usa a “mistura” há vários anos com resultados animadores. Ensina ângulos, frações e geometria espacial com base na arte de “dobrar papel”.
Como diz a especialista em integração da arte Laura Brino, “estudar e observar arte, sem medo de cometer algum erro, incentiva a autoconfiança e a coragem em assumir riscos”. Além de ser um modo de estimular a apreciação da cultura, que nos torna ser-humanos mais capazes.
A arte no aprendizado
novembro 11, 2015 § 2 Comentários

Na Grécia antiga havia um ramo do conhecimento denominado “arte liberal”. Consistia em uma série de assuntos e habilidades que um cidadão deveria aprender para poder exercer um papel ativo na sociedade em que vivia. Os assuntos estudados incluíam gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, teoria musical e astronomia. Para aplicar estes conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para a cidadania, a pessoa deveria ainda participar de debates públicos, se “defender” em um tribunal, servir como jurado em um julgamento e participar do serviço militar. Ainda hoje se vê “ecos” dos conceitos da “arte liberal” em nossa sociedade, embora distorcida pela compartimentalização. Naquela época era tudo visto de maneira integrada, hoje como matérias individualizadas.
Alguns países têm em seu currículo do ensino médio a denominação “arte liberal”, que na maioria das vezes engloba algumas das matérias estudadas na antiguidade – e mais uma vez, compartimentalizadas. Mas essa história está mudando. Algumas escolas, notadamente nos EUA, têm implementado uma abordagem digamos, clássica, da “arte liberal”. Em uma definição filosófica de arte, estes locais têm se referido a ela não como um tema, mas como um conceito que encara os assuntos ensinados na instituição de forma mais livre, tratando cada um deles como uma “arte”. Com isto, o foco da instituição deixa de ser repassar conhecimento e se torna desenvolver um modo de pensar. Estes locais acreditam que quando tratado como arte, um assunto deixa de ser uma série de regras para memorizar e passa a ser análogo a uma linguagem a ser aprendida (comentei que era uma abordagem mais filosófica).
Para entender como funciona na prática, nada melhor do que um exemplo. A escola Wheeler Elementary, no estado de Vermont, começou a implementar esse conceito há cerca de 6 anos. Hoje ela se chama Integrated Arts Academy (IAA) e seus alunos são bons não apenas em arte. Em matemática, as notas cresceram 66%. Como conseguiram isto?
O diretor Bobby Riley atribui ao que chama de “confiança criativa”, uma mistura de pensamento altamente analítico, raciocínio e uma “voz própria” trazida pela arte. Esta confiança é estimulada pela introdução de componentes mais subjetivos aos trabalhos e tarefas. Por exemplo, em geometria os alunos avaliam a obra do artista russo Wassily Kandinsky. É promovida uma discussão abordando a sua obra e os alunos recebem como tarefa criar sua própria arte utilizando os ângulos no estilo Kandinsky. Depois, é pedido que identifiquem os ângulos utilizados e os retirem do trabalho para realizar o seu cálculo.
Algumas evidências científicas dão sustentação a esta abordagem, como aponta Wendy Strauch-Nelson que coordena outra iniciativa neste estilo no estado de Wisconsin, a ArtsCore. Segundo ela, ao incorporar movimento, desenho, pintura, música e emoções em um aprendizado, se estimula a retenção do que foi visto.
Não são apenas crianças e jovens que se beneficiam da abordagem. Em um estudo baseado em pesquisa de campo, as pesquisadoras Christine Jarvis e Patricia Gouthro, descobriram que adultos também são melhor estimulados com a integração da arte ao desenvolvimento profissional. Elas identificaram 5 grandes áreas em que a abordagem pode trazer bons resultados: (1) na exploração da aplicação da prática profissional; (2) no entendimento dos dilemas profissionais; (3) no desenvolvimento da empatia e da percepção de insights; (4) na exploração das identidades profissionais; (5) no desenvolvimento do autoconhecimento e habilidade interpessoal.
Segundo o estudo, as abordagens baseadas em artes podem ajudar a se fazer uma avaliação crítica do próprio papel e identidade dentro da profissão e considerar o impacto do seu trabalho na sociedade de uma forma mais ampla.
Agora que vimos como a arte pode beneficiar de uma maneira geral o aprendizado, pretendo nos próximos posts trazer exemplos do seu impacto em disciplinas mais específicas, como escrita, ciências e matemática. Por conta de compromissos profissionais, a partir desta semana reduzo as publicações a 1 post semanal. Pretendo retomar ao habitual 2 posts por semana tão logo seja possível.
Diferentes níveis de atenção para diferentes tarefas
novembro 6, 2015 § Deixe um comentário

No dia a dia temos a tendência de entender os estados de atenção de maneira direta: “estamos prestando atenção” ou “não estamos”. O primeiro caso é encarado como bom, o segundo não. A verdade é que as coisas são um pouco mais complicadas do que isto.
Um estudo publicado na revista “Nature” há alguns meses sugere que pessoas criativas (retomando o assunto do post anterior) têm maiores ligações entre duas áreas do cérebro que são normalmente difíceis de conciliar: a rede associada com foco e controle da atenção e a rede associada com a imaginação e espontaneidade.
Um dos autores do estudo, Scott Barry Kaufman, diz que “as pessoas criativas não são caracterizadas por qualquer um desses estados por si só”. Segundo ele, a capacidade de adaptação e a capacidade de misturar estados de atenção e desatenção (aparentemente incompatíveis de coexistir), dependendo da tarefa, estimula mais a “conexão de ideias” do que simplesmente dedicar “toda a atenção”, como costumamos acreditar. Brinca dizendo que “pessoas criativas têm mentes confusas”.
Isto me faz recordar daquelas “horas” – que costumo chamar de “momento eureka” – em que se está assistindo televisão, lendo um livro ou tomando banho e aparece aquele “clique”, aquela “conexão” que estava faltando para resolver um determinado problema. Reforçando a ideia, também já comentada no post anterior, é a livre associação que permite que o cérebro faça conexões mais variadas. De qualquer forma, creio que criatividade e flexibilidade andam juntas, uma vez que ao diversificarmos nossas experiências, nos “empurramos” para fora do nosso padrão de pensamento “normal”.
P.S: A imagem “provocadora” que abre o texto é de um artista australiano chamado Tony Albert. Quem se interessar, pode encontrar mais trabalhos dele AQUI.
Divergir para convergir
novembro 3, 2015 § 1 comentário

No seu nível mais básico, novas ideias têm a ver com novas conexões. Não sei se é verdade, mas é atribuída a Steve Jobs uma frase que diz mais ou menos o seguinte: “criatividade é apenas conectar coisas”. Se foi ele mesmo (ou algum anônimo), a verdade é que a frase tem um fundo de verdade, pelo menos quanto à forma como o cérebro “cria” novos conhecimentos. Quando aprendemos algo novo, nossos neurônios se conectam entre si, formando “redes” de compreensão. Pode-se considerar que a diferença entre um cérebro “criativo” e um cérebro médio é a quantidade e a força das conexões neurais e a habilidade em criá-las. Este mesmo processo (conexão neural) também está relacionado ao processo natural de formação do que chamamos de “inteligência”. Será que inteligência e criatividade é a mesma coisa – criação de conexão (como na frase citada no início do texto)?
Uma pesquisa feita pelo California Institute of Technology (também conhecido como Caltech), mostrou que a inteligência é algo que se encontra por todo o cérebro. Os pesquisadores descobriram que, ao invés de estar residente em um único local, a inteligência geral é determinada por uma rede de regiões em ambos os lados do cérebro. Já a criatividade, conforme mostrou uma pesquisa feita em 1921 pelo psicólogo Lewis Terman, nem sempre anda de mãos dadas com a inteligência. No estudo feito há 94 anos, Terman descobriu que após certo nível, a inteligência não tem muito efeito sobre a criatividade. Este estudo e subsequentes deram origem à chamada “teoria da soleira” (no original, “threshold theory”).
Por que essa história é importante? Porque ela demonstra que criatividade está ligada à forma de pensar e não ao QI (essa introdução toda foi para podermos chegar a este ponto). É muito popular hoje em dia as ideias do Joy Paul Guilford a respeito do pensamento convergente e divergente. Também é muito popular vê-los como opostos. O primeiro estaria ligado à capacidade de se chegar a uma única e bem estabelecida resposta a determinado problema. O pensamento convergente enfatiza a velocidade, a precisão e a lógica e centra-se no reconhecimento do familiar, nas técnicas de reaplicação e no acumulo de informações.
Em contraste, o pensamento divergente normalmente ocorre de maneira espontânea, com fluxo livre, onde muitas ideias são geradas e avaliadas. Várias soluções possíveis são exploradas em um curto espaço de tempo e conexões inesperadas são desenhadas.
Testes de múltipla-escolha são exemplos clássicos da utilização prática do pensamento convergente (testes de QI também) e o método de brainstorming é o exemplo clássico da utilização do pensamento divergente.
Na maioria das vezes, os dois tipos de pensamento são “vendidos” como não conciliáveis. Como opções a serem feitas: ou se é lógico ou se é criativo. A verdade é que para ser criativo, é preciso ser lógico também. Criatividade envolve um processo cíclico de geração de ideias associado a um trabalho sistemático que ajude a selecionar as que realmente têm possibilidade de “frutificar”. Criatividade deveria ser vista como 2 estágios, o de geração – que envolve o pensamento divergente – e o de exploração – que envolve o pensamento convergente (para mais detalhes, sugiro o artigo do cientista Scott Barry Kaufman, publicado na revista “Psychology Today”).
Acredito que a criatividade está ligada à associação e essa associação é facilitada pela diversificação de informações e conhecimentos que se tem. Ser curioso intelectualmente é um bom jeito para estimular a sua criatividade. É aquela história, se você lê (ou faz) o mesmo que todo mundo, vai pensar do mesmo jeito que todo mundo.
Educação corporativa em 2020
outubro 30, 2015 § Deixe um comentário
Enquanto o tempo de uso da internet aumenta, diminui o tempo que “gastamos” lendo uma notícia ou visitando websites. Quanto mais diversificada a informação consultada, menos profundidade se dá a cada uma delas. Essa é uma tendência bem atual – não é à toa que qualquer informação no Twitter tem que ser passada em 140 caracteres.
Não é tarefa fácil analisar o impacto dessa mudança de comportamento no futuro, mas uma coisa é certa: é evidente que “consumimos” a informação de maneira diferente hoje e é essa forma que nos leva a procurar por respostas ou soluções imediatas para as questões do dia a dia. Não quero entrar em conclusões (principalmente se a prática é boa ou não), mas com base no comportamento, é compreensível a expectativa da “imediatibilidade”.
No nível corporativo, a tendência influencia a comunicação entre a empresa e seus clientes, seus funcionários, a sua infraestrutura, a sua dinâmica de trabalho, etc. Não é uma questão tecnologia apenas, é algo mais profundo. Não é uma mudança de paradigma (perdoem-me o chavão, mas em alguns momentos ele é válido) na comunicação e sim nas relações sociais. Levar em conta as implicações sociais dessa tendência auxilia a se adaptar a ela (e a se beneficiar dela, por que não?).
Em educação corporativa, penso que essa tendência pode (e deve) influenciar a maneira como os funcionários “visualizam” seu próprio treinamento. Na minha opinião, essa “visualização” passa (ou vai passar) por alguns pontos:
- Uma forte preferência para canais de comunicação que permitam transmissão de dados tanto síncrona quanto assíncrona. Para quem não está familiarizado com os termos, dê uma olhada AQUI.
- Flexibilidade é uma expectativa chave. Funcionários esperam cada vez mais flexibilidade, em todos os níveis, com isso ela deixa de ser uma demanda e passa a ser uma necessidade.
- Flexibilidade impacta em outro tópico, autogerenciamento. Sei que não “serve” para todos os perfis, mas impacta de alguma forma na utilização do tempo, das ferramentas e dos recursos usados para o trabalho.
- O fenômeno BYOD (Bring Your Own Device – algo como “traga o seu próprio aparelho) é cada vez mais notável. A empresa deve se preparar e chegar a um acordo em relação ao uso de aparelhos ou serviços que, a priori, parecem dispensáveis para a performance dos funcionários. Vai desde serviços e aplicativos como Evernote, até ferramentas mais complexas como os “ambientes de desenvolvedores” nas nuvens (os IDEs).
- Informações apresentadas de forma clara e direta. A tendência descrita no início do texto, impacta diretamente aqui. As pessoas tendem a se beneficiar mais tendo contato com o “núcleo” da questão.
- Outro ponto em relação à apresentação de informação diz respeito à sua aparência. A tendência também influencia diretamente no modo como se “escolhe” a informação, portanto fazê-la parecer interessante e chamativa é importante (novamente, não entro em conclusões em relação à qualidade da prática). Dessa maneira, o conteúdo multimídia se torna especialmente relevante.
- É indispensável considerar a mobilidade como ponto fundamental na educação corporativa. Não apenas na “entrega” ou disseminação da ação educacional, mas como um modo de facilitar a ubiquidade[1] dos funcionários.
Concorde-se ou não com a tendência exposta, é preciso ter em mente duas coisas. A primeira é que a razão disto não é a tecnologia, mas o uso que escolhemos fazer dela. O elemento “tempo” foi propositalmente deixado de fora quando se criou a “programação computacional”. Isso quer dizer que para a “máquina” pouco importa se você vai responder uma mensagem em 2 segundos ou em 10 horas. Dá no mesmo para ela, o que importa são os comandos. A “máquina” só vai enviar quando você der o comando “send”.
A segunda é que na era da conectividade permanente, o aprendizado tende a caminhar para o não-formal. Isso quer dizer que colocar um grupo em um mesmo espaço para participar de um treinamento ou um workshop corporativo nos moldes tradicionais vai ser, cada vez mais, difícil. É preciso começar a deixar um pouco de lado os conceitos do Malcolm Knowles (que popularizou o modelo palestra/curso/workshop) e começar a “misturar” Alan Turing com John Dewey, incluir a tecnologia e a implementação prática para estimular o aprendizado.
[1] Não é um termo usual, mas significa a faculdade “divina” de estar concomitantemente “presente” em toda parte e a todo momento.
Edtech – mídia social e colaborativa
outubro 27, 2015 § Deixe um comentário
Para finalizar essa sequência de posts a respeito do conceito “Edtech”[1], nada melhor do que abordar a ferramenta tecnológica mais popular dos dias de hoje, a rede social. Os pesquisadores Eunice Ivala e Daniela Gachago da Cape Peninsula University of Technology, na África do Sul, encontraram uma relação positiva entre o uso da mídia social e o engajamento de aprendizes. Em um estudo publicado em 2012, descobriram que o uso apropriado de blogs e grupos no Facebook aumentam a integração acadêmica, dentro e fora do campus, e aumentam o engajamento em atividades de aprendizagem.
Isto acontece por conta do “poder colaborativo” da rede social. Ao fornecer uma “estrutura” para comentários e compartilhamento de tarefas, estas ferramentas dão oportunidades para que os aprendizes mostrem suas habilidades multimídias e o modo como “constroem” determinado trabalho acadêmico. Isto torna a discussão mais envolvente, aumentando o nível de troca intelectual.
A mídia social também promove o que os especialistas chamam de “conceito check-up”, que a exemplo do similar exame médico, permite identificar problemas e determinar caminhos de ação ao se analisar as interações registradas nela.
Outros dois artigos acadêmicos dão suporte ao estudo citado acima. A pesquisadora Latha R. Chandrasekar conseguiu medir o impacto da mídia social e ferramentas colaborativas no comportamento emocional e no engajamento cognitivo de estudantes. Os pesquisadores da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, Tom Stafford, Herman Elgueta e Harriet Cameron descobriram que o uso de ferramentas do tipo Wiki (cujo melhor exemplo é a Wikipedia) aumentam a habilidade de escrita dos seus usuários.
Estudos deste tipo ajudam a mostrar que, dependendo de como são utilizadas, ferramentas tecnológicas podem estimular e aumentar o aprendizado. A forma como as utilizamos é pessoal, se a opção for pelo uso restrito será este o resultado que se terá. Mas a boa notícia é que o antônimo também é verdadeiro.
Quem quiser conhecer mais dicas de como a mídia social pode ser usada para estimular o engajamento, recomendo o guia produzido pela associação WISE (Wales Initiative for Student Engagement), do País de Gales, que o disponibilizou pela plataforma Moodle.
[1] Para relembrar, o termo “Edtech” é utilizado para se referir ao uso da tecnologia em educação.
Edtech – Blended Learning
outubro 22, 2015 § Deixe um comentário

A abordagem para solução de “problemas” tem um apelo maior para os aprendizes do que o repasse conceitual. Este é um fato, apesar das 2 abordagens terem sua importância. O conceito tem o objetivo de fornecer um entendimento crítico a respeito de determinado tema e a implementação, de trabalhar o modo de aplicação de um determinado conceito ou propriedade intelectual. O ideal é “juntar” as duas. Esta é a base de um conceito intitulado blended learning (algo como aprendizado misturado).
Como fazemos com outros conceitos “importados” (como por exemplo, o de startup), o termo blended learning ficou restrito no Brasil à mistura presencial (sala de aula) e não-presencial (ensino a distância), mas vai bem além disto. Ele acontece sempre que se utiliza mais de um “modelo” educacional para estimular a aprendizagem.
Kavita Gupta é uma professora de química da região de São Francisco, Califórnia. Ela iniciou em 2011 uma bem-sucedida abordagem “blended”, utilizando o método de instrução direta (também chamado de “tradicional”) associado com o conceito conhecido como “flipped classroom” (abordado em posts anteriores) – que a grosso modo significa inverter a lógica da sala de aula, fazendo o “dever de casa” em sala e o repasse do conteúdo em “casa” – e com ferramentas online para suporte como podcasts gravados por ela e uma comunidade de suporte via Facebook.
Kavita viu o número de alunos matriculados para suas aulas subir 67% (de 140 para 235) e o AP scores deles (é um resultado consolidado em exame, similar ao nosso ENEM, que permite o ingresso em universidades) subir em média 12%. São números robustos, sem dúvida. Ela sintetiza a sua experiência com blended learning da seguinte maneira:
- O modelo “liberou” tempo em sala para se aprofundar o entendimento da matéria e focar realmente na resolução de “problemas”.
- Os estudantes se engajaram ativamente no aprendizado, trabalhando em conjunto em experiências químicas ou em avaliações por meio de tarefas.
- O aprendizado foi individualizado e “estendido” para além do ambiente formal com a utilização do Facebook, podcasts e sites na internet.
Kavita Gupta concluiu que o modelo blended efetivamente aumentou o engajamento, melhorou o aproveitamento do tempo formal e, “de quebra”, estendeu o tempo dispendido pelos alunos em atividades de aprendizado.
A inevitabilidade da tecnologia
outubro 20, 2015 § Deixe um comentário

Uma questão que tenho ouvido com frequência é a seguinte: “é inevitável o uso da tecnologia na educação”? Como toda pergunta relevante, a resposta não é simples. Do modo como vejo, a resposta é sim e não. No longo prazo sim, é inevitável – e explicarei porque daqui a pouco. No curto e médio prazo, não. Não apenas não é inevitável, como é evitável – obviamente aceitando-se pagar os “custos” sociais que essa decisão acarreta mais adiante.
No longo prazo é inevitável por conta de uma pequena invenção feita a mais ou menos 30 anos, a internet. Ainda não nos damos conta do impacto total dela – creio que no futuro a internet irá inclusive nos modificar biologicamente – mas alguns dos seus impactos já são claramente notados, em especial os que envolvem o nosso comportamento social. Em educação, o seu maior impacto – na minha opinião – é na percepção do que significa ser um professor. Explico: antes da internet, professores (e centros educacionais) eram verdadeiramente as fontes principais de distribuição de conhecimento. Não mais. Obviamente esse tipo de mudança tem seus pontos negativos e positivos, e causa toda sorte de reação a ela, mas se servir de consolo – também na minha opinião – a importância do professor não será diminuída.
Outro grande impacto da internet na educação foi a elevação da importância de uma característica pessoal – que embora admirada, não era considerada essencial pela sociedade – a capacidade de autoaprendizado (na minha época de criança esse pessoal era chamado de “autodidata” e tinha uma áurea de genialidade). É preciso ter em mente que com centros de distribuição de conhecimentos como escolas, universidades e professores, realmente a capacidade de autoaprendizado podia ser relegada a segundo plano. Não mais.
Um dos pontos positivos que a internet possibilitou pelo autoaprendizado foi a diminuição do custo (absurdamente caro) de um aprendizado baseado essencialmente em ambientes formais. Isto dá uma capacidade de monetização a esta habilidade e poder “contar” algo em termos de “grana”, facilita o entendimento da sua relevância – principalmente quando se pode “guardar” o que se conseguiu economizar “estudando por conta própria”. Também é essa capacidade de monetização que possibilita alguém com esta habilidade “valer” mais para aquela entidade meio abstrata, o mercado.
A elevação da importância do autoaprendizado também impacta positivamente em outro tópico de grande interesse para qualquer sistema educacional, a qualidade do seu aprendizado (e é aí que está a importância – não diminuída – do professor – no estimulo desta habilidade alçada a novo patamar – a habilidade de “aprender a aprender”). Qualquer sociedade que já experimentou (ou experimenta) um processo de universalização do seu sistema educacional tem uma característica em comum: a perda da qualidade do seu ensino e aprendizado. Embora natural, é claro que não se pode “cruzar os braços” e não se fazer nada em relação a isto. Algumas sociedades optaram por definir um padrão mínimo aceitável de qualidade e estimular o aparecimento de “centros” de excelência educacional, acessíveis pelo mérito (sabemos que não só, mas também). É um caminho viável e testado – como dizem em inglês, “a sure bet”.
A outra opção é o estímulo ao autoaprendizado, embasado principalmente pelo uso da tecnologia e o acesso à internet. Podem ter a certeza de que está opção já está sendo testada – Finlândia, Canadá, Austrália, alguns estados norte-americanos, Japão, Singapura, Coréia do Sul, alguns locais da China, enfim, a lista é grande. É por esta razão que considero inevitável, no longo prazo, o uso da tecnologia na educação.
Bom, voltemos agora ao curto e médio prazo. Como citei no início do texto, ao se considerar o curto e médio prazo, não apenas não é inevitável como é possível se evitar deliberadamente a tecnologia para fins educacionais. Depende essencialmente da ideologia dos que detêm o poder de tomar ou influenciar essa decisão social (em especial as autoridades públicas, mas também os “formadores de opinião” da sociedade civil e a própria sociedade), da forma de pensar desse pessoal e, principalmente, da importância que dão ao conhecimento.
Citei também no início do texto “custos sociais”, que custos são estes? O século XXI é o “século do conhecimento” – obviamente este é um “chavão”, quem gosta de história pode nomear diversos “séculos do conhecimento” antes do atual – mas este tem uma característica peculiar. Nunca foi tão fácil criar e disponibilizar o conhecimento. Também nunca foi tão fácil “cobrar” por isso – principalmente porque a aplicação prática do conhecimento (também conhecida pelo termo “know-how”) tem uma alta capacidade de monetização. Isto quer dizer que é possível fazer a inovação virar “produtos” ou “negócios” mais facilmente. Quem conseguir estimular consistentemente o uso do autoaprendizado pela sua sociedade irá levar vantagem no “mercado” global, uma vez que terá mais capacidade de gerar consistentemente inovação e entregá-la “embrulhada pra presente”. Os lugares que citei levam vantagem por terem visualizado essa possibilidade antes e saído na frente. Os demais, terão que “correr atrás”. E a distância que deverão “tirar” dos que saíram a frente dependerá do quanto demoraram para aceitar a inevitabilidade da tecnologia.