Desenvolvendo mentes curiosas – parte 1
setembro 15, 2015 § 4 Comentários

Terminei o post passado sinalizando a importância de se pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas (e de quebra, uma visão mais abrangente). Penso que a primeira pergunta a ser respondida nesse sentido é: o que precisamos mudar no nosso ambiente atual para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?
Creio que é uma pergunta que estimula muita reflexão – assim como somos 200 milhões de “técnicos” da seleção brasileira durante qualquer copa do mundo de futebol – possivelmente cada um tem as suas convicções a respeito desse tema. Pretendo contribuir com algumas linhas a respeito do assunto.
Penso que poucos devem discordar de que foi correto o enfoque dado nos últimos 20 anos ao estímulo da universalização do ensino no Brasil. Com cada vez mais pessoas buscando (e recebendo) algum tipo de qualificação, conseguimos ao menos instigar a percepção de que o estudo é fundamental para alguém que pretende de alguma forma “melhorar de vida”. Creio que é hora de abrangermos agora o enfoque e refletir se o que as pessoas estão aprendendo e como estão se preparando para serem produtivas é a melhor opção. Quanto mais penso nesta questão, mais percebo a resposta como sendo no mínimo dúbia. Para pensar de verdade “no futuro”, ele precisa abranger mais do que 2, 4 ou mesmo 8 anos. Muito do que tem sido discutido a respeito de novas metodologias educacionais e conceitos, como “aprendizes do século XXI” ou “nativos digitais”[1], é feito sob a estrutura do século XX. É “super atual” ser digital, mas creio que os objetivos educacionais ainda continuam os mesmos: estudar para se formar e arrumar um emprego – de preferência na administração pública[2].
Mas, voltando à pergunta do início do post, o que precisamos mudar para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?
Na minha opinião, para começarmos a responder, é preciso primeiro mudar os objetivos do nosso sistema educacional. Se queremos de verdade estimular o aparecimento de inovadores – como 10 entre 10 políticos, empresários e especialistas dizem – temos que focar em desenvolver o indivíduo e a sua capacidade de pensamento. Embora a nossa legislação declare que o objetivo do nosso sistema educacional é estimular o pensamento crítico e reflexivo, a bem da verdade é que isso, na prática, não está acontecendo. Já que o objetivo pessoal de muita gente ainda é estudar para se formar e arrumar um emprego.
A razão disto, para mim, reside na maneira como a nossa sociedade está estruturada (e o sistema educacional é “retrato” da sociedade). Estamos estruturados de maneira linear, como em uma linha de produção. Para muitos, as coisas só fazem sentido quando vem em passo a passo, há muito pouco estímulo para perceber a conectividade entre elas.
Para não ficar “só reclamando”, pretendo no próximo (e talvez, nos próximos) post(s), abordar pequenas mudanças que penso podem contribuir para mudarmos o enfoque e estimular um pensamento mais “big picture”.
[1] O conceito de nativos digitais foi cunhado pelo educador e pesquisador Marc Prensky (2001) para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis na internet.
[2] Antes que alguém interprete como uma crítica a quem trabalha ou quer trabalhar na administração pública, deixe-me dar algumas explicações. Primeiro, não considero de forma alguma um trabalho fácil, a pessoa tem a sua discricionariedade extremamente limitada por legislações, regulações e normas burocráticas; segundo, precisa enfrentar o imaginário popular que a vê como incompetente e pouco afeita ao trabalho; terceiro, tem seus méritos e esforços muito pouco reconhecidos por superiores – e pela própria sociedade. É um trabalho que, ao meu ver, exige vocação verdadeira. Mas, é fato que o salário médio pago pela administração pública, especialmente a federal, é muito superior à média do mercado, o que estimula muita gente, que nem sempre tem a vocação, a prestar concurso público. Penso apenas que o país só teria a se beneficiar com mais pessoas com o objetivo de criar propriedade intelectual e não de arrumar um emprego e esta é a verdadeira intenção que pretendi dar à frase.
Visão abrangente
setembro 10, 2015 § 4 Comentários
Um dos termos em inglês que mais acho interessante é “big picture” (ou sua variação “bigger picture”). É um daqueles termos estrangeiros que não tem muitos correspondentes em outras línguas. Como “saudade”, em português, é preciso entender o seu significado para que possamos compreender o seu real impacto quando colocado em uma frase.
“Big picture” não significa simplesmente “foto grande”, significa visão abrangente (ou a necessidade de abranger a sua visão). Significa expandir o seu entendimento e compreender as diversas relações de algo.
Mas, por que enxergar a “foto grande” é importante? Para compreender de verdade o motivo, é preciso perceber o seu alcance. Uma pesquisa bem abrangente coordenada pela Universidade de Stanford, chamada PERTS – Project for Education Research That Scales – algo como “projeto de pesquisa educacional escalável” – mediu o impacto do pensamento “big picture” em cerca de 1.360 graduandos do ensino médio (lá, a famosa high school), de baixa-renda de escolas públicas de regiões urbanas da Califórnia, Texas, Nova York e Arkansas.
Na primeira etapa de testes, os adolescentes sentavam-se a frente do computador e realizavam testes simples envolvendo subtrações matemáticas, vídeos no YouTube e o jogo Tetris. O objetivo era investigar a presença de uma forma de pensar específica, que chamaram de “aprendizagem com objetivo auto-transcedente”, que em português (ou inglês) claro significa uma forma de pensar que envolva a visão abrangente. Uma espécie de aprendizado “big picture”.
Os adolescentes com “objetivo auto-trancendente”, que concordaram, por exemplo, com declarações de cunho social como “quero me tornar um cidadão educado que pode contribuir para a sociedade” pontuaram mais em medidas como “coragem” e “autocontrole” do que colegas que só relataram motivos para aprender de cunho pessoal, como “conseguir um bom emprego” ou “ganhar mais dinheiro”.
Possivelmente você pensou o que eu pensei ao ler a pesquisa, “e daí?”. Daí, que os adolescentes mais “altruístas” eram também os menos propensos a sucumbir às distrações digitais, resolviam mais problemas de matemática e eram os mais interessados em se matricular em uma faculdade no ano seguinte. O motivo? Eles conseguiam enxergar a “big picture”.
Isto ficou mais evidente na segunda etapa de testes feitos com o mesmo grupo, que investigou se o fato de possuir um “senso de propósito” melhorava o rendimento em matemática e ciências. O grupo identificado como mais altruísta escrevia pequenas redações explicando porque não estudavam para simplesmente arrumar um emprego e porque queriam realizar algo relevante no mundo. Estas redações eram lidas pelos participantes mais individualistas em diversos períodos ao longo dos meses seguintes. Ao final do ano letivo, os pesquisadores avaliaram a performance dos adolescentes. Perceberam algo interessante em relação aos participantes mais individualistas, estes tiveram uma melhora nas matérias avaliadas de cerca de 20%. Ao checarem o motivo, descobriram que ao conseguirem “enxergar” além do “próprio umbigo”, os adolescentes desenvolveram uma maior capacidade de planejamento e organização do próprio tempo. O “senso de propósito” os auxiliou a tornarem suas mentes mais curiosas e adaptativas.
A pesquisa ajuda a perceber, no meu entendimento, a importância de pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas. Sem ela, as gerações futuras não terão possibilidade de resolver questões como mudança climática e desigualdade social ou lidar com os impactos da globalização nos locais aonde vivem. Impacta diretamente no tipo de sociedade em que viveremos em 10, 15 ou 20 anos. Instigar um “senso de propósito” para estimular uma visão mais abrangente e uma criticidade maior no pensamento, ao meu ver, é parte desse processo.
Inovação e adaptabilidade
setembro 3, 2015 § 7 Comentários
Bycast, uma empresa com sede em Vancouver, tinha como foco de atuação até meados dos anos 2000, o envio de vídeo e conteúdo de áudio em forma comprimida através da Internet. Com a popularização do YouTube e dos vídeos steaming, esse mercado desapareceu quase que “da noite para o dia”. A empresa precisava encontrar um novo mercado, “o tempo estava se esgotando e o nosso capital estava sendo queimado no processo de busca”, lembra Alan Chiu, ex-diretor da empresa.
A solução veio de uma fonte improvável, a instituição médica canadense The British Columbia Cancer Agency. Com uma “biblioteca” de CDs com imagens médicas que enchiam salas e mais salas, a instituição tinha cada vez mais dificuldades em mantê-los organizados e disponíveis para os médicos e pessoal autorizado das suas instalações de saúde. Como solução, a Bycast desenvolveu um software que auxiliava a gerenciar uma quantidade massiva de dados em diferentes localidades geográficas. “Isso levou à descoberta de um segmento de mercado em torno de imagem médica e compartilhamento de dados em vários locais”, Chiu lembra. Quando a Bycast foi adquirida pela NetApp em 2010, a sua base de dados incluía alguns dos maiores repositórios de conteúdo digital do mundo.
A inovação surge de maneira inusitada, mas uma das características essenciais do processo é a flexibilidade. É ela que permite que não nos agarremos a soluções costumeiras e nos adaptemos. Alan Chiu virou um dos sócios da Xseed Capital, uma empresa que atua como investidor-anjo[1] em novos negócios. Nesta posição, tem ajudado jovens empreendedores tanto financeiramente, quanto compartilhando seu conhecimento em negócios. Essa experiência o levou a ser convidado pela Universidade de Stanford – é um ex-aluno de lá – a contar um pouco da sua experiência e dar dicas de melhores práticas (para assistir ao vídeo, clique AQUI). Um dos seus conselhos, penso eu, transcende o mundo corporativo e pode ser aplicado em nossa própria vida.
“Seja intelectualmente honesto e adaptável” diz ele. Empreendedores (não só, mas também) tendem a ser pessoas naturalmente otimistas, mas não convém manter um “otimismo cego”. Quem é otimista sem ser honesto consigo mesmo está mais suscetível a ser enganado pelos seus próprios preconceitos. Estar aberto a novas informações, novos dados e novas recomendações é o primeiro passo para exercitar a sua habilidade em se adaptar.
Isto não quer dizer que não possamos ter nossas convicções, pelo contrário, acreditar em algo é de extrema importância para se chegar em algum lugar. Mas é preciso estar aberto à mudança e à correção de rumo.
Tricia Seibold, uma excelente designer e aluna em Stanford nos presenteia com seu talento, compartilhando um infográfico com as principais dicas da palestra do Alan Chiu. Em um post anterior, compartilhei um dos seus infográficos atribuindo-o a alunos de Stanford. Aproveito aqui para retificar a minha informação.
[1] É o investimento efetuado por pessoas físicas ou jurídicas em empresas nascentes com alto potencial de crescimento (as startups) apresentando as seguintes características: é efetuado por profissionais (empresários, executivos e profissionais liberais) experientes, que agregam valor para o empreendedor com seus conhecimentos, experiência e rede de relacionamentos além dos recursos financeiros, por isto é conhecido como smart-money ; tem normalmente uma participação minoritária no negócio; não tem posição executiva na empresa, mas apoiam o empreendedor atuando como um mentor/conselheiro.
Aprendizado ao invés de educação
agosto 27, 2015 § 3 Comentários
Joi Ito é o diretor do MIT MediaLab, um dos lugares mais inovadores do mundo, que fica em uma das instituições de educação formal mais respeitadas da atualidade (o MIT) e mesmo assim tem como crença pessoal a certeza de que as pessoas deveriam se preocupar mais em aprender e menos em “receber” educação. Em uma palestra TED no ano passado declarou: “educação é o que os outros fazem para você, aprendizado é o que você faz para si mesmo”.
Na palestra, Ito conta como formou um grupo chamado Safecast, que mede a quantidade de radiação nuclear presente no mundo. Frisa que são todos amadores e que ainda assim conseguiram montar seus próprios contadores Geiger, a um custo mais barato e disponibilizar seus dados via site e aplicativo para quem quiser. Marotamente pergunta: “como é que um bando de amadores que realmente não sabiam o que estavam fazendo, de alguma forma conseguiu se unir e fazer o que as ONGs e o governo eram completamente incapazes de fazer?”. Ito atribui à conectividade permitida pela internet e pela disposição em fazer mais e planejar menos. Cunhou até um termo para representar a atitude, “now-ism” (algo como “agoraismo” – que seria o antônimo de futurismo).
Recomendo assistirem ao vídeo (disponibilizo o link AQUI), mas gostaria de focar e abranger a “bola levantada” pelo Ito em relação à aprendizado X educação. Como compartilhamos essa mesma crença, sinto-me compelido a fazer alguns esclarecimentos. De certa forma, esse sentimento expresso pelo diretor do MediaLab coaduna com o chamado feito por parte das pessoas envolvidas com educação para que a sociedade dê mais atenção ao autoaprendizado e tire proveito das possibilidades proporcionadas pela conectividade. Não é, de forma alguma, uma campanha para acabar com a educação formal. Mas, é preciso ter consciência de que o custo de uma educação formal se tornou tão escandalosamente alto que já não faz sentido depender exclusivamente dos sistemas formais de educação. Quando abordo a questão do custo, não me refiro somente à educação particular, o nosso sistema público universal de educação gasta boa parte dos orçamentos federal, estaduais e municipais.
Como tornar o brasileiro mais preparado para atuar no mundo contemporâneo onde a inovação, a criatividade e a geração de conhecimento fazem a diferença? Para mim, a resposta passa por cada brasileiro tomar em suas mãos as rédeas do seu próprio aprendizado. Não pretendo abordar neste post como estimular o autoaprendizado, já o fiz em uma sequência de posts que publiquei em maio deste ano e em meu livro, Conexão do Conhecimento, lançado este mês (quem quiser disponibilizo o link para a compra na seção PUBLICAÇÕES), mas gostaria de reforçar a importância dessa prática com 3 princípios levantados pelo Joi Ito em seu conceito de “now-ism” e relacioná-los ao aprendizado.
1) Implemente ou Morra (Deploy or Die): pessoalmente considero que essas afirmações excessivamente incisivas geram mais angústia do que reflexão, mas compreendo a estratégia. O que Ito pretende com este mote é instigar a “arregaçar as mangas” e produzir: coisas, conhecimento, inovações. O que importa é colocar à disposição de todos o seu trabalho. Em suas palavras, “deveríamos estar nós mesmos lá fora, construindo,e não dependendo que grandes instituições façam isto por nós” (no original, para não impor meu entendimento, “we should be getting out there ourselves and not depending on large institutions to do it for us”).
Em aprendizagem significa compartilhar suas ideias e conhecimentos. Para aprender bem nunca é demais 3 coisas, planejamento (saber o que você quer aprender), resiliência (se manter no caminho, mesmo na adversidade) e avaliação (um feedback em relação ao que você sabe é fundamental para que se possa checar a eficácia do seu aprendizado). A internet pode ajudar muito nessa história, atuando como uma “ferramenta” de colaboração e amplificando o aprendizado, mesmo porque a melhor maneira de aprender não está mais no isolamento – creio que nem os monges acreditam mais nisto.
2) Puxe ao invés de Empurrar (Pull over Push): a ideia aqui é “puxar” os recursos que você precisa da rede – no sentido amplo, pode ser tanto a internet, quanto a sua rede de contato pessoal – ao invés de concentrar e controlar em algum “centro” – também em um sentido amplo, pode ser tanto um centro acadêmico quanto uma pasta no seu computador.
No contexto da aprendizagem, significa o fim do conceito de “sabichão”, aquelas pessoas extremamente especialistas, que conhecem tudo sobre sua matéria porque se condicionaram a “estocar” informações. Antes da internet havia espaço para esse perfil, agora basta uma pesquisa no Google para levantar a maioria das informações necessárias sobre qualquer assunto. Saber procurar, achar e entender como as informações necessárias para você se relacionam é mais eficiente do que estocá-la.
3) Compasso ao invés de Mapa (Compass over Maps): aqui confesso que há uma divergência entre meu entendimento e do Ito. Vou abordar os dois. Para o Ito, planejamento é superestimado, diz: “o custo de planejar ou mapear algo está se tornando muito caro e muitas vezes não é muito preciso ou útil” (no original, pelo mesmo motivo exposto anteriormente, “the cost of writing a plan or mapping something is getting so expensive, and it’s not very accurate or useful”). Vejo de outro modo, planejar e mapear são importantes para definir objetivos (o que se quer alcança) e traçar parâmetros (por onde começar, como saber se estou fazendo certo, o que preciso para colocar em prática). Concordamos, porém, na necessidade da flexibilidade para as correções necessárias quando estivermos fazendo o que queremos (ou precisamos) fazer. Esse é o real significado do “compass over maps” e por isso, mesmo discordando do argumento, creio que é um princípio válido.
Em aprendizado, similarmente, é preciso colocar a “cara a tapa” e mudar de rumo se o seu método de aprendizagem não estiver dando resultado. Mas para saber isto, é preciso medir (e se planejar).
Acredito no “poder” do aprendizado e acredito que ninguém está “limitado” ao seu expertise atual. Um advogado pode (e deve) saber como programar um site ou um aplicativo se isto for beneficiá-lo de alguma forma e um programador pode (e deve) conhecer legislação se ela interferir (e certamente interfere) de algum modo na sua vida. A verdade é que, advogados e programadores, professores e alunos, adultos e crianças, têm mais em comum do que se pode perceber em um primeiro momento: são todos aprendizes. Por isso “aprender a aprender” é tão importante e praticar o autoaprendizado é fundamental para quem quer realmente fazer a diferença neste louco século XXI.
Competências para o século XXI – parte 3
agosto 20, 2015 § Deixe um comentário
Estimular competências valorizadas (ou valorizáveis) neste século em um ambiente formal de aprendizagem pode ser uma tarefa (bem) desafiadora. Isto porque para que elas “aflorem” há um elemento essencial nessa “equação”: o aprendiz. Ou melhor, a motivação do aprendiz.
Motivação é um termo “malandro”, ao mesmo tempo em que explica muito resultado positivo, também age para tornar nebuloso resultados negativos. Esta complexidade se deve ao fato de que tanto elementos externos quanto internos ao indivíduo agem combinados para influenciar este “estado de espírito”. Soma-se a isto uma característica fundamental para que a motivação se mantenha consistente ao longo do tempo, a resiliência. Insistir em algo é fundamental para alcançar resultados positivos em termo de aprendizado. Não é todo o dia que se está verdadeiramente disposto a aprender ou a ensinar, portanto continuar seguindo nesses “dias nublados” é tão importante quanto nos de “sol brilhante”.
Um dos pontos comuns das dicas a seguir para se construir um ambiente formal de aprendizagem que estimule as competências abordadas anteriormente é a crença de que o conhecimento é valioso e como tal, importante. Note que uso o termo “conhecimento” e não “educação”. Associar educação ao desenvolvimento de um aprendizado é uma armadilha que deve ser evitada. Primeiro porque educação é um investimento de longo prazo, que está dissociado de “causa e efeito”. Segundo, um ambiente formal de educação não gera necessariamente aprendizado. Terceiro, a base de qualquer sistema educacional é o conhecimento, ele sendo valorizado transcende o próprio sistema e se torna parte integrante do indivíduo (e por tabela, da sociedade). Sem mais delongas, vejamos como podemos ajudar a estimulá-las:
Crie cenários que testem a transferência das habilidades e não apenas as habilidades em si. É preciso que o aprendiz desenvolva a capacidade de aplicar as habilidades, conhecimentos, atitudes ou estratégias vistas em um contexto em outro. É desta maneira que se avalia um aprendizado, estimulando que pensem e analisem como seu conhecimento se aplica em uma situação ou realidade diferente da que foi utilizada para repassá-lo.
Tire um tempo durante o repasse para estimular uma visão abrangente. Os aprendizes devem compreender as relações entre as variáveis e como podem aplicar este entendimento em contextos diferentes. Ao entenderem como um determinado tópico se encaixa em um sentido mais amplo, a relevância do aprendizado de um determinado conhecimento se torna mais claro – e mais motivador.
Trate a tecnologia como parte natural do aprendizado. Encaremos os fatos, dificilmente hoje um aprendiz – de qualquer idade – irá conceber sua vida sem o envolvimento da tecnologia. Ela está tão presente em vários aspectos da vida que realmente deveríamos parar de pensar em como integrar a tecnologia no aprendizado e fazermos o inverso: pensar em como integrar o aprendizado na tecnologia. Encará-la como parte natural da história é um bom começo.
Torne suas lições (ou aulas) interdisciplinares. Sei que algumas palavras são tão repetidas que acabam se tornando “da moda”. Muitas vezes, por conta dessa repetição, paramos de dar a devida atenção a elas. Não se pode deixar que este seja o caso aqui, interdisciplinaridade é um “modo de vida”. O aprendiz precisa ter consciência do porque cada disciplina é importante, como elas se integram, como um novo conhecimento é criado e como é difundido. Este é o modo de se “ensinar” a metacognição, ou como é conhecida no popular, “aprender a aprender”.
Aborde diretamente o que for mal-entendido ou o que tem possibilidade de má compreensão. Alguns assuntos são densos ou ambíguos mesmo. É natural que as pessoas tenham alguns mal-entendidos a respeito de como as coisas ou o mundo funciona. Se não tiverem a oportunidade de visualizar explicações alternativas, esses entendimentos tendem a se solidificar.
Promova trabalho em equipe. Esta é uma habilidade que é ao mesmo tempo processo e resultado. Há uma frase atribuída a Machado de Assis que diz “quem troca pães, fica com um, quem troca ideias, fica com as duas”. Colaboração é estimulada muito pelo exemplo, por isso promover um ambiente colaborativo é fundamental para que o trabalho em equipe apareça naturalmente. Some-se a isto, a necessidade de haver uma “cultura da aplicação”. Isto quer dizer que é preciso estimular os aprendizes a aplicarem o que aprenderam em coisas tangíveis. Um bom modo de se fazer isto é por meio de projetos. Utilize esta metodologia de aprendizagem como parte do seu planejamento instrucional e permita que os aprendizes experimentem diferentes papéis ao trabalharem um projeto em grupo. Nada de “distribuir camisas”, estimule que ora sejam “gerentes”, ora “organizadores”, ora “artistas” e assim por diante.
Por fim, não se esqueça de para que se possa “lidar” com a enorme quantidade de informação disponível, o modo como se acessa e se traduz essas informações é fundamental. Estimule que busquem e comparem as fontes de um determinado assunto. Assim se estimula a análise crítica, fundamental para sairmos da “armadilha” do dogma e das “respostas prontas”.
Competências para o século XXI – parte 1
agosto 13, 2015 § 4 Comentários
Empresários e educadores ao redor do mundo compartilham de uma crença conjunta: a de que desenvolver as habilidades necessárias para o século XXI não é mais um “luxo” e sim uma necessidade. Tenho certeza de que este é um “papo” que você já “ouviu” em algum lugar, mas a pergunta que não quer calar é “que habilidades são essas” exatamente?
Uma habilidade é melhor percebida quando associada à competência que ela estimula, portanto nada mais natural do que focarmos nela – ou nelas – para que se possa deixar mais claro do que se trata essa “história”. Estas competências incluem (1) as habilidades cognitivas do pensamento crítico, resolução de problemas, aplicação do conhecimento (que chamo de conexão) e da criatividade; (2) as habilidades interpessoais de comunicação e colaboração, liderança e consciência global e intercultural (a boa e velha empatia); e (3) habilidades intrapessoais como auto-direção (que podemos traduzir como proatividade), motivação e autoaprendizado (aprender a aprender).
Um dos meus grandes interesses são as formas de medição. Utilizo esse conhecimento para pensar formas de avaliar ações educacionais, qualidade da democracia e outros assuntos os quais me envolvo profissionalmente. Esse interesse também me estimula a pesquisar bastante para construir minhas referências (olha o autoaprendizado aí), o que me levou a direcionar o “olhar” para formas de integrar habilidades e medir as competências do século XXI. Afinal, as habilidades e competências passíveis de serem testadas, são as habilidades e competências passíveis de serem estimuladas.
O pessoal que está mais adiantado nesse estágio de medição das competências necessárias ao nosso século, são os asiáticos. China, Singapura e Coréia do Sul têm se dedicado a planejar ações educacionais e medi-las para entenderem como as competências atuam estimuladas pelo aprendizado. Hong Kong, por exemplo, é uma das muitas cidades chinesas que introduziu avaliações baseadas em projetos, que exigem que os alunos apliquem seus conhecimentos para solucionar novos problemas. Xangai (outra cidade chinesa) ainda não têm um quadro abrangente para medir as habilidades do século XXI, mas está usando testes do PISA voltados à resolução de problemas como uma maneira de estimular a mudança das competências abordadas pelas suas escolas.
Singapura é um excelente estudo de caso de um sistema de ensino que está tentando equilibrar a transmissão de conhecimentos com uma atenção mais explícita em relação às competências do século XXI. Elas estão sendo integradas em todo o currículo escolar, bem como na preparação dos professores e no seu desenvolvimento profissional. Diferentes pedagogias estão sendo incentivadas (o que corrobora com a minha tese de que modelos educacionais funcionam melhor em conjunto), incluindo uma maior utilização da aprendizagem baseada na investigação, da tecnologia da informação e comunicação, da aprendizagem cooperativa em grupos, rotinas de resolução de problemas, entre outras ações. Estão ainda revendo o sistema nacional de exame para incorporar a habilidade do pensamento crítico, usando formas diferentes da famigerada avaliação universal (a nossa múltipla-escolha ou prova objetiva) como por exemplo, provas com questões abertas e baseadas em fontes (que conhecemos como prova discursiva). Algumas competências estão sendo avaliadas em nível escolar mesmo, tais como as habilidades dos alunos no planejamento e realização de experimentos de ciência e na execução de projetos e trabalhos de criação em outras áreas curriculares. Nas escolas primárias, a avaliação e os relatórios para os pais são digamos, mais holísticos, indo além do desempenho acadêmico e abrangendo outras áreas do desenvolvimento do aluno, como atitudes proativas, envolvimento em trabalhos conjuntos, liderança, etc. Além disto, os objetivos esperados pelas ações de desenvolvimento ou formação dos professores estão sendo alterados para coincidirem com as metas de resultados dos alunos.
Tudo isto apoiado por um enorme sistema de medição e avaliação. É possível conhecer uma parte dele pelo guia organizado pela Asia Society, que é uma instituição asiática que faz parte da Global Cities Education Network (GCEN), que é uma comunidade internacional de compartilhamento de aprendizado e melhores práticas de cooperação para melhorar o sistema educacional de cidades da Ásia, Oceania e América do Norte. As cidades participantes são Denver, Hong Kong, Melbourne, Seattle, Seul, Xangai, Singapura, Houston, Lexington e Toronto. Por que será que nenhuma cidade brasileira se interessou por algo parecido?
No próximo post pretendo abordar as competências do século XXI mais críticas a serem desenvolvidas.
O software está devorando o mundo (?)
agosto 6, 2015 § 5 Comentários

Em 2011, o fundador da Netscape – alguém se lembra? Foi um dos primeiros navegadores da internet – Marc Andreessen cunhou a frase “software is eating the world” (cuja tradução é o título do post) em um artigo para o The Wall Street Journal, delineando sua “previsão” de que empresas com foco em desenvolvimento de software (hoje a atividade é chamada coding) seriam as que mais gerariam valor econômico, inclusive interrompendo uma ampla gama de setores industriais.
4 anos depois, 1 em cada 20 vagas de trabalho abertas nos EUA são destinadas à engenharia e desenvolvimento de softwares, mostrando uma tendência similar à previsão do Marc Andreessen. A demanda e competição por desenvolvedores de software no mercado de trabalho é muitas vezes centrada em torno de empresas de tecnologia como Uber, Facebook e afins. Mas é facilmente notado que organizações de todos os tipos estão competindo por este mesmo talento – de empresas financeiras e agências governamentais a hospitais, a procura por pessoas com conhecimento em coding é extremamente ampla.
Penso que o coding é apenas a ponta do iceberg, a habilidade que envolve esta busca por desenvolvedores é outra: a capacidade analítica para processar, interpretar e retrabalhar com base nos insights que podem ser gerados pelas inúmeras fontes de informação e conhecimento disponíveis. O coding leva vantagem pelo fato de facilitar o “acesso” ao “big data”.
As habilidades que devemos focar em desenvolver estão relacionadas à capacidade de interpretar o mundo a nossa volta por conta própria (também conhecida por pensamento crítico) e à capacidade de criar a partir do que já sabemos (que também atende pelo nome de pensamento reflexivo). Estas são habilidades que não podem ser ensinadas.
Mas não se desespere, apesar de não poderem ser ensinadas, elas podem ser aprendidas. Ou melhor, desenvolvidas. O “pontapé inicial” que você deve dar está ligado à sua capacidade de interpretação de texto. Por mais que a melhor forma de aprendizado para você envolva alguma outra “mídia” (uso a palavra por falta de outra melhor) – como assistir a uma aula, participar de um debate, observar alguém fazendo, etc. – uma que você não pode abrir mão é a leitura. O fato é que a maior parte do conhecimento humano está registrado “por escrito” (e vem sendo assim há milênios). Portanto, prescindir da leitura é dispensar uma gigantesca fonte de informação e conhecimento. Em outras palavras, um “tiro no pé”.
É assustador saber que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Isto indica que a nossa sociedade não valoriza o conhecimento como deveria, apesar de qualquer brasileiro, quando perguntado, dizer que melhorar a educação é a solução para boa parte dos “problemas” do país. Como pode ser a solução se não há a valorização do “alicerce” de qualquer sistema educacional, o próprio conhecimento?
Na verdade, não é o software que está devorando o mundo, é o desprezo pela leitura. De qualquer forma, também é reconfortante saber que a solução para isto reside em cada um de nós. Que tal tirar aquele livro “empoeirado” da estante?
O valor da engenhosidade
julho 23, 2015 § Deixe um comentário

Engenhosidade é um substantivo feminino que significa basicamente ter a capacidade de encontrar maneiras rápidas e inteligentes para superar as dificuldades. Com todas as facilidades da vida moderna (do supermercado ao Google), esta é uma habilidade em que é preciso ter insistência para desenvolver – mesmo porque, em um primeiro momento parece (apenas parece) desnecessária para nossa sobrevivência.
Em plena “era da conveniência”, para estimular a sua engenhosidade é preciso estar disposto a “receber de braços abertos” a inconveniência. Apenas desafiando nossas próprias ideias (e a dos outros), abraçando obstáculos e conflitos e reconhecendo o valor do desconforto, poderemos estimular a capacidade de “pensar diferente” e escolher a criatividade ao invés do conforto.
Uma das melhores maneiras para estimular a engenhosidade é colocar a “mão na massa” e fazer algo que nunca fez. Por exemplo, quem não tem intimidade com a cozinha deveria se voluntariar a preparar o jantar da família. Algumas instituições educacionais já perceberam a importância de estimular esta habilidade desde cedo e têm pensado em soluções para colocar o assunto em pauta. Um exemplo é o Kitchen Garden Program, que em mais de 800 escolas na Austrália já colocou 100 mil estudantes para “sujar as mãos” e aprender a cultivar, preparar e compartilhar comida “fresca e saudável”. Para um “jardineiro inconstante” como eu (que digam minhas plantas) é um exemplo e tanto.
Um dos grandes aliados da engenhosidade pode ser resumido em uma palavrinha inglesa chamada “grit” (com toda sinceridade não sei como traduzi-la em um similar português), que como substantivo assume o significado de coragem, perseverança ou força de caráter. Desenvolver esta característica nos deixa conscientes de que vamos enfrentar contratempos durante nossa caminhada e que não há nada de errado em “dar um passo atrás, para dar dois à frente”. Frustação é um dos grandes destruidores da engenhosidade. Há um texto interessante escrito pela psicóloga Julie DeNeen a respeito de como promover “grit”. É focado para a “sala de aula”, mas é possível fazer a correlação para aplicar no nosso próprio desenvolvimento.
Outro aliado é o pensamento crítico. Um “espírito” crítico tem mais possibilidade de gravitar em torno da engenhosidade do que uma mente que não faz perguntas. Desenvolva o hábito de pensar de forma ampla.
Para fechar, concentrar-se no propósito ao invés da tarefa é mais um aliado na sua busca pela engenhosidade. Seu benefício está em colocar a tarefa em um “quadro maior”, que além de permitir pensar de forma mais ampla, permite pensar com mais profundidade nas possibilidades que o propósito traz.
Engajamento para o aprendizado – parte 2
julho 21, 2015 § 2 Comentários
Segundo os pesquisadores Ming-Te Wang (Universidade de Pittsburgh) e Jacquelynne S. Eccles (Universidade de Michigan), historicamente costuma-se levar somente em consideração o comportamento dos alunos para medir o seu envolvimento. Eles acreditam que esta abordagem “não conta toda a história” e que é preciso incluir “na conta” a emoção e a cognição.
Os dois publicaram em 2013 um estudo que está entre as primeiras tentativas de se levantar dados que permitam explorar uma abordagem multidimensional do impacto do engajamento para o aprendizado. Uma das descobertas mostrou que os estudantes que consideravam os temas estudados relevantes e as atividades propostas significativas e correlacionadas aos seus objetivos, eram mais emocionalmente e cognitivamente engajados do que aqueles que, embora bem-comportados, não se interessavam tanto pelo que estavam estudando.
Wang e Eccles também descobriram que o ambiente educacional pode ajudar ou prejudicar o engajamento e tem um impacto maior do que a própria infraestrutura do local. Segundo eles, um ambiente positivo, que apoie o aprendizado, além de oferecer oportunidades para os alunos fazerem as suas próprias escolhas, deve proporcionar o suporte necessário para que os alunos saibam o que fazer e o que esperar do seu aprendizado.
Dependendo do nível acadêmico do aluno e do tipo de engajamento envolvido (comportamental, cognitivo ou emocional), a estratégia instrucional muda. Por exemplo, para aumentar o engajamento comportamental, reforçar as relações professor-aluno é mais eficaz do que aumentar o nível das tarefas acadêmicas. Para estimular o engajamento cognitivo, incluir temas que reflitam os objetivos e interesses pessoais dos estudantes tem mais impacto do que mudar o método educacional.
O uso de uma perspectiva multidimensional do engajamento permite que se tenha uma melhor compreensão do que fazer em um determinado contexto educacional. Em geral, o estudo identificou cinco principais fatores que contribuem para o envolvimento dos alunos: (1) clareza da expectativa, (2) coerência de atitude, (3) previsibilidade de reação, (4) apoio emocional e (5) apoio aos objetivos e interesses pessoais dos estudantes.
Um fator que se esperava que tivesse um impacto maior no engajamento, mas não o fez, foi a liberdade de escolha. No entanto, ela não deve ser menosprezada se quisermos estimular a habilidade de autoaprendizado, importante para o desenvolvimento posterior.
Veja como os fatores atuam de acordo com o tipo de engajamento:
Engajamento Comportamental: quando os professores são claros a respeito das suas expectativas, fornecem respostas consistentes e ajustam as estratégias de ensino ao nível do aluno, fornecem a estrutura que dá suporte a uma maior participação em tarefas acadêmicas (engajamento comportamental) e fomentam um sentimento mais forte de ligação à escola (engajamento emocional).
Engajamento Emocional: quando professores e alunos “criam” um ambiente de carinho e de apoio social, aumentam a propensão de engajamento emocional (e de quebra, comportamental). Os resultados do estudo Wang- Eccles adicionam evidência de que as percepções dos alunos sobre a natureza e a qualidade do ambiente social da escola são tão importantes quanto o ambiente acadêmico em si (tarefas acadêmicas e práticas de ensino) na promoção do envolvimento para o aprendizado.
Engajamento Cognitivo: o fator que o estudo mostrou que mais contribuiu para o engajamento cognitivo (a atenção dada ao aprendizado) foi a percepção da relevância do assunto em relação aos objetivos e interesses pessoais dos alunos. A motivação acadêmica flutuava com base em quão agradável eles achavam que uma tarefa seria, o quão útil entendiam que ela seria para o cumprimento de metas de curto e longo prazo e como percebiam que ela poderia atender às necessidades pessoais de cada um. De acordo com o estudo, a relevância também impacta no engajamento comportamental e emocional, mas em um grau muito menor.
Quem se interessar mais, pode adquirir o artigo científico na página do Science Direct, que é um dos databases científicos mais acessados do mundo.
Engajamento para o aprendizado – parte 1
julho 16, 2015 § Deixe um comentário

Tenho notado uma crescente preocupação com o engajamento para o aprendizado, como pode-se comprovar pelas publicações do relatório do plano de ação da CEA (Canadian Education Association) e pelas pesquisas a respeito do clima escolar conduzida pela PUC-RS e do engajamento para o aprendizado feita pela ESPM-RJ.
Esta preocupação, ao meu ver, deriva em grande parte das observações de educadores sobre os efeitos da tecnologia no nível de interesse dos alunos. Muitos jovens – principalmente em países mais avançados, embora o mesmo comportamento possa também ser observado por aqui – têm-se “desconectado” do aprendizado tradicional e se “conectado” em seus smartphones. A tecnologia fornece um meio mais rápido e variado para a transferência de informações do que um professor e por isso, penso eu, os alunos estão se desinteressando cada vez mais pelos meios tradicionais de instrução.
O objetivo atual das pesquisas (e em alguns locais, das campanhas) de engajamento dos alunos é corrigir esta discrepância. Currículos escolares em diferentes locais do mundo estão apostando na abordagem blended learning (método que engloba ações educacionais presenciais e não presenciais) na esperança de “dar um gás” no envolvimento dos alunos.
No entanto, é preciso ter em mente que nem todo engajamento é criado da mesma forma e que levar em consideração as próprias expectativas de quem aprende é tão (ou mais) importante do que os métodos usados para gerar os 3 tipos de engajamento (emocional, comportamental e cognitivo).
Inspirada nestas questões, a já citada Associação Canadense de Educação (Canadian Education Association) criou um projeto chamado “O que você fez hoje na escola?” (no original, “What did you do in school today?”), em que pergunta aos próprios estudantes, dentre outros assuntos, como imaginam o ambiente ideal para a sua aprendizagem. Abaixo, uma compilação das expectativas:
- Resolver problemas reais
- Ter contato com conhecimentos realmente importantes
- Me preparar para fazer a diferença no mundo
- Ser respeitado
- Entender como os temas estão interligados
- Aprender em conjunto com os outros e com as pessoas da comunidade
- Estar em contato com especialistas e conhecer suas opiniões
- Ter mais oportunidades para dialogar e conversar
É claro que há diferenças entre as realidades canadense e brasileira, mas com o mundo tão conectado como o atual e com cada vez mais possibilidades de compartilhar interesses, pensamentos e experiências, é válido inferir que algumas expectativas também são compartilhadas por pessoas de origens diferentes. Desta forma, o compilado de expectativa dos estudantes canadenses pode ser levado em consideração (comparativamente) e adaptado ao Brasil. Certamente nossos estudantes também se beneficiariam de um ambiente educacional que atendesse ao menos algumas das expectativas.
No próximo post pretendo tratar um pouco mais da abordagem multidimensional do engajamento (os 3 tipos que citei mais acima).




