Momento “Aha!”
fevereiro 16, 2016 § Deixe um comentário

Para início de conversa, vale esclarecer que o título não tem conexão com a famosa banda dos anos 80. Escolhi porque me soa melhor do que “eureca”, por exemplo. O sentido é o mesmo, está relacionado àquela “hora” em que algo parece “clicar” na cabeça e o que era complicado, como em um passe de mágica, se descomplica. Aposto que em algum momento já aconteceu com todo mundo.
Quando estamos aprendendo algo, o momento “aha!” de tão esperado parece nunca chegar. Muitos se cansam e desistem no meio do caminho. Outros perseveram, mas encontram um processo tão repleto de frustações que aprender se torna sinônimo de sofrimento. Sei que muitas vezes conselhos como “siga em seu próprio ritmo”, apesar de corretos, tem efeito muito reduzido quando se está desiludido com a própria velocidade de aquisição de conhecimento.
É meio senso comum que perguntas são uma das melhores opções para se testar o entendimento. Mas elas também são uma das causas da desilusão com o próprio aprendizado quando propõe uma reflexão incompleta – e acredite, na maioria das vezes é esta a proposta. Isto porque a própria pergunta é incompleta. Ou é muito objetiva, ou é muito subjetiva, ou é simplesmente mal formulada. Para podermos refletir adequadamente a respeito de algum conteúdo – e estimular o tal momento “aha!” – devemos aprofundar 4 tipos (ou níveis) de questionamento (ou pergunta, se preferir):
O que este conteúdo diz?
Como este conteúdo funciona?
O que este conteúdo significa?
O que este conteúdo me inspira a fazer?
Vou abordar um pouco cada uma delas para poder contextualizar melhor (por exemplo, a pergunta 3, apesar de parecer, não levanta as mesmas reflexões que a pergunta 1).
O que este conteúdo diz?
Esta categoria de questionamento requer que se pense, literalmente, a respeito do conteúdo. É preciso focar tanto na ideia ou entendimento geral quanto nos detalhes-chave. Em literatura, por exemplo, é a famosa “interpretação de texto”. Entender o conteúdo em sentido literal é pré-requisito para que se possa, eventualmente, entendê-lo em níveis mais profundos.
É impossível alguém fazer qualquer tipo de inferência a respeito de algo se não entender o que aquilo quer dizer. Esta categoria é tão importante que gerou um dos pilares da Inteligência Artificial, a representação do conhecimento.
Como este conteúdo funciona?
Quando temos o entendimento literal do conteúdo, é hora de partirmos para o segundo nível de questionamento, o nível estrutural. Para facilitar o entendimento, vou usar como exemplo um conteúdo que tenha sido disponibilizado em texto (como este). Os seus questionamentos devem focar em vocabulário, escolha das palavras, estrutura do texto, habilidade do escritor (narrativa, recursos literários – como metáfora, por exemplo) e propósito.
A análise estrutural requer que se pense nas particularidades do conteúdo. Quanto mais entendemos as suas estruturas internas, mais entendemos as informações contidas nele. Quem conhece a respeito da hierarquia DIKW (comumente chamada de hierarquia do conhecimento) sabe que informação é dado contextualizado. Este nível procura exatamente esclarecer esta contextualização.
O que este conteúdo significa?
Este nível de questionamento lida com a análise inferencial e aborda as conclusões lógicas que se faz a partir do conteúdo. É o momento de se comparar conteúdos e ideias – relacionadas ou não – ao que se está aprendendo. Ao fazermos isso, estamos estimulando a formação da nossa própria opinião e argumentação em relação ao conteúdo utilizado para o aprendizado.
Mas atenção, embora tenha optado por não numerar os níveis de questionamento – para não dar a impressão de que são processuais – há uma certa relação com o grau de entendimento que temos do conteúdo. A análise inferencial é baseada na compreensão do conteúdo nos níveis literais e estruturais – não por acaso os níveis comentados anteriormente.
É realmente difícil responder a esse tipo de pergunta se não tivermos ideia do que o conteúdo diz, literalmente, ou como ele foi construído.
O que este conteúdo me inspira a fazer?
Quando se compreende profundamente algo, é natural que se queira agir, colocar para funcionar, colocar a mão na massa. Cresce a vontade em utilizar a informação ou a perspectiva desenvolvida. Este é o momento que temos a certeza de que aprendemos algo (e que chamei de “aha!”).
Mas é importante saber que nem todo mundo se inspira da mesma forma. Alguns se sentem impelidos a escrever algo a respeito, outros em aprofundar a pesquisa, outros em pensar em maneiras de tangibilizar, como por exemplo um produto ou negócio. Alguns querem participar de debates a respeito para testarem a sua convicção ou força do argumento. Não há modo certo e é isto que faz com que o aprendizado seja estimulante. É isto também que faz com que o aprendizado seja uma experiência pessoal. Ele nos “atinge” de maneiras diferentes.
E é também por isso que alguns (como este que escreve) defendem que o aprendizado seja estimulado por formas diferentes das tradicionais (também conhecidas como formais). A força do aprendizado formal só é potencializada quando incluímos o aprendizado informal e o autoaprendizado na equação. É bom aprender com o professor. Mas também é bom aprender com o Bill Gates, com o Steve Jobs, com o John Lennon e com o Zé das Couves, que vende verdura ali na esquina.
Storytelling, aprendizado e o nosso cérebro
fevereiro 10, 2016 § Deixe um comentário

Contam que certa vez, para demonstrar os seus dotes de escritor, Ernest Hemingway aceitou o desafio de escrever uma história com apenas 6 palavras. Saiu-se com a seguinte frase: “For sale: baby shoes, never worn” – em uma rápida tradução, “à venda: sapatos de bebê, nunca usados”. A frase ficou conhecida como o conto mais curto do mundo e ganhou notoriedade muito pela fama do autor. Atualmente tem sido estudada não em classes de literatura, mas em pesquisas cognitivas. Pesquisadores a usam para determinar o quão poderoso é o efeito de uma boa história sobre o cérebro.
O neurocientista Paul J. Zak, diretor do centro para estudos neuroeconômicos da Universidade de Claremont, em um artigo publicado na revista “Cerebrum”, analisa o conto, focando sua “força” em 3 aspectos, comuns em histórias inspiradoras: a) utiliza o conceito de limiar de atenção do cérebro (attention span) a seu favor; b) utiliza o poder do impacto emocional; c) utiliza a combinação dos 2 (limiar de atenção e impacto emocional) como atalho para a mensagem.
Histórias captam melhor a nossa atenção do que outras formas de informação porque deixam um traço físico e emocional no cérebro. Em parte, por razões evolutivas. Como somos criaturas sociais, interagindo regularmente com desconhecidos, histórias cumprem o papel de transmitir efetivamente informações e valores culturais de um indivíduo ou comunidade a outro. Histórias pessoais ou emocionais tinham a função de facilitar a lembrança do que era passado e por esta razão, eram mais utilizadas do que uma simples declaração de fatos.
Zak e sua equipe utilizaram em sua pesquisa uma animação que conta a história de Ben, um menino de 2 anos que tem um tumor cerebral. O vídeo traz o “pai” de Ben contando que o filho tem apenas alguns meses de vida, enquanto o próprio garoto brinca ao fundo (para assisti-lo, clique AQUI). Os pesquisadores perceberam que após assistir ao vídeo, cerca de metade das pessoas doavam dinheiro para instituições que tratavam de crianças com câncer. Construíram então, um modelo matemático para analisar uma série de histórias emocionais e ajudar a “prever” a reação das pessoas a elas. “Descobriram” 2 aspectos fundamentais nas histórias que consideraram mais efetivas. O primeiro, ela deve não apenas chamar a atenção, mas mantê-la durante um período de tempo. O segundo, deve transpor quem a ouve para o lugar ou o “mundo” dos personagens.
Como se aprende por histórias?
Como não são todas as histórias que conseguem manter a atenção de alguém durante certo período e transpor para o “mundo” dos personagens, é preciso entender como isto acontece. Na visão de alguns teoristas da narrativa existe uma “estrutura universal de histórias”, chamada de “arco dramático”. Ele começa com algo novo e surpreendente, proporciona um aumento de tensão com dificuldades que os personagens devem superar, geralmente por conta de uma falha ou crise em seu passado, leva ao clímax, onde os personagens devem “olhar” para dentro de si para poderem superar os problemas e então, uma vez que se reinventarem ao encontrarem “sua verdade”, a história se resolve por conta própria.
Esta estrutura ajuda a transmitir a informação de forma que não nos esqueçamos dela facilmente. Instintivamente, procuramos pela “estrutura universal” quando sentimos a necessidade ou a urgência de “decodificar” algum dado que acreditamos relevante. O “arco dramático” é a “razão” pela qual boa parte das pessoas olha para acidentes de carro ao passar por eles. É preciso saber se há sobreviventes porque talvez eles tenham feito algo que os fez sobreviver. Ou então, é preciso saber se o motorista fez algo que causou o acidente. E nós, por uma questão evolutiva, temos a necessidade de conhecer informações importantes para a nossa sobrevivência.
Explorando o potencial educacional de histórias (e do “arco dramático”), algumas organizações estão integrando narrativas aos seus esforços (educacionais ou não) com resultados animadores:
Criada em 2012, a iniciativa Narrative 4 ou N4, estimula o aprendizado via histórias com um processo bem simples, que está sendo replicado em diversas escolas e centros comunitários mundo afora. 2 participantes “criam” cada um uma história e a contam para o outro. Quem ouviu a história, tem que recontá-la para mais duas pessoas e assim por diante. O objetivo é quebrar barreiras e preconceitos por meio da “troca” de conhecimento.
Storycorps, o já lendário projeto de história oral de Dave Isay, começou em 2003 com uma cabine de gravação no Grand Central Terminal de trens em Nova York, onde pessoas comuns gravavam a “história” da sua vida para compartilhar com os demais. Treze anos depois (e mais de 50 mil gravações), estas histórias individuais constituem um dos maiores legados sociológicos contemporâneos.
Humans of New York, é um blog lançado pelo fotógrafo Brandon Stanton, para registrar a imagem e as histórias de nova-iorquinos comuns. Com mais de 20 milhões de seguidores hoje, o “projeto” é considerado um “senso fotográfico” da cidade nos dias atuais e usado como fonte de pesquisa em diversos estudos acadêmicos.
A narrativa (ou mais conhecida em alguns meios como storytelling) não é apenas um processo artístico para criação de entretenimento. É um fio condutor memorável que também pode nos ajudar a reter informações importantes e aumentar o aprendizado, uma vez que “estimula” o cérebro a “processar” a informação no ritmo em que ela é passada.
Obama, programação e robótica
fevereiro 2, 2016 § Deixe um comentário

Em janeiro último, o presidente Obama fez o seu discurso final ao congresso americano. É uma prática centenária chamada “State of the Union”, em que o mandatário do poder executivo presta contas aos poderes legislativo e judiciário e compartilha o planejamento para o ano corrente. Em um dos tópicos, Obama verbalizou a importância em “ajudar os estudantes a aprenderem a escrever códigos para computadores”. Ao se comunicar diretamente com estudantes em um evento posterior, o presidente americano os instigou a “dominar as ferramentas e tecnologias que irão mudar tudo o que conhecemos”.
Obama está certo. Não apenas estudantes, mas todos nós, deveríamos mudar o foco de recebedores passivos de tecnologia para criadores ativos de programas, aplicativos, invenções tecnológicas, etc. Esta mudança de atitude, mais do que uma “corrida” tecnológica, significa adequar a forma de pensar para uma mentalidade dinâmica, em que se destaca a “nutrição” do pensamento com conhecimentos abrangentes e a imaginação para melhorar criativamente a comunidade a nossa volta. A “criação” de tecnologia é apenas um condutor (não o único) para esta energia. É bem verdade que é um condutor altamente eficaz, o que leva o presidente dos EUA a “fazer campanha” a seu favor.
Apesar do custo ser apontado como um inviabilizador da iniciativa de se promover uma distribuição coletiva deste tipo de conhecimento, algumas alternativas, como o uso de conhecimentos do tipo acesso livre (open access), ajuda a mitigá-los. Opções como Khan Academy e Code.org já oferecem seus conteúdos em diversas línguas, inclusive o português. São gratuitos (para educadores, estudantes e pais), oferecem incentivos motivacionais e atraem os mais novos com gráficos altamente coloridos e interfaces que usam personagens conhecidos de videogames e temas “lúdicos” como zumbis. Sites como estes representam o primeiro passo para introduzir o coding (como a programação de computadores vem sendo chamada) na vida de um leigo.
O passo seguinte para atingir o que Obama sugeriu (“dominar as ferramentas e tecnologias que irão mudar tudo o que conhecemos”) é a robótica. Instituições e ferramentas destinadas a popularizar o conhecimento e o aprendizado de robótica como Sphero, Wonder Workshop e Lego Mindstorms – apesar de estarem por enquanto disponíveis apenas em inglês, não são empecilho para quem tem algum conhecimento na língua (mesmo em nível escolar) e disposição para aprender. Estas opções para o aprendizado em robótica demonstram que não é necessário montar um laboratório caríssimo do nível do M.I.T. para colocar a “mão na massa”. A robótica “promove” quem conhece coding, da interface solitária de uma tela de computador para uma comunidade social ativa.
Agora que vimos “como” o apelo do Obama pode ser colocado em prática, proponho analisar “porque” ele deve ser colocado em prática. Fugindo de viés social ou econômico – que também podem ser usados para justificá-lo – pretendo focar no viés cognitivo. Afinal, como dizem, preparo educacional e inteligência são algo que nenhuma crise econômica tira de uma pessoa.
Ponto 1: aprendizado sensorial
Seres humanos aprendem utilizando todos os seus sentidos. Alguns pesquisadores têm se esforçado para demonstrar que uma abordagem multissensorial ativa um número maior de conexões cognitivas do que a abordagem tradicional, focada no audiovisual. Programação e robótica atuam neste sentido, encorajando quem as aprende a tocar, construir, medir, avaliar e testar o que fazem. Isto envolve emocionalmente e fisicamente quem aprende, estimulando o aumento de conexões neurais que resultam em um aprendizado ativo e reforçam, pela experiência, a memória de longo prazo.
Ponto 2: melhora da socialização
Aprendizado pela socialização não é nada novo. Lá nos anos 1970, Albert Bandura estabeleceu a teoria mais conhecida da aprendizagem por socialização, que estimulava as pessoas a aprendem umas com as outras, através da observação, imitação e criação de modelos. Esta linha de pensamento é ainda relevante hoje, quando observamos o crescimento da comunicação e colaboração como habilidades críticas para o sucesso profissional. Estratégias para aprendizagem que utilizam como ferramentas a programação computacional e a robótica, além de oferecerem oportunidades de socialização, estimulam o desenvolvimento da habilidade de escutar e avaliar perspectivas alternativas (em um mundo que parece se radicalizar pelos extremos – tanto em uma linha conservadora quanto liberal – esta habilidade pode ser essencial para evitar que explodamos uns aos outros no futuro).
Ponto 3: oportunidade para promover inovação ao alcance das mãos
Em um livro que recomendo bastante, Daniel H. Pink, autor de obras lidas por interessados em administração de empresas, teoriza que nestes anos iniciais do século XXI temos testemunhado uma mudança de mentalidade que irá “pavimentar” o caminho para o restante do século (os 84 anos que ainda temos pela frente). Neste “novo mundo”, o MFA (Master in Fine Arts) irá substituir o MBA (Master in Business Administration) em importância. A questão que Pink aborda, é que não basta “gerenciar” para estimular a inovação. É necessário ter disponível as habilidades criativas para tal. Embora criatividade e pensamento inovador não possam ser automatizados em um programa de computador, o raciocínio lógico que a programação computacional se nutre também estimula oportunidades de construir e expressar a imaginação. Associadas à robótica, estas oportunidades se potencializam.
Ponto 4: aumento do rigor intelectual
Os níveis mais altos da Taxonomia de Bloom (criada pelo psicólogo Benjamin Bloom em 1956) são as capacidades de aplicação, análise, síntese e avaliação. Ao atingir este ápice de pensamento, a pessoa adquire a capacidade de visualizar maneiras viáveis (e novas) de aplicar seu conhecimento. Programação computacional e robótica permite transformar fatos e ideias em “blocos” que podem ser usados para “construir” aplicativos, produtos e invenções. Os 84 anos que temos adiante irão demandar um alto nível de pensamento para enfrentarmos os desafios que nos aguardam. Por que não utilizar “caminhos” que ajudem atingirmos este nível com mais facilidade?
O desejo de criar não é nada novo na história da humanidade. A combinação de corações, mentes e corpos sempre contribuiu para a melhoria do mundo – especialmente após o iluminismo do século XVIII. Mas, me pergunto se estamos nos preparando adequadamente para valorizar nossa criatividade e aumentar nossa possibilidade de criação. Obama está deixando o seu cargo, mas tocou em um ponto fundamental não apenas para americanos, mas para o restante do mundo. Vale a pena ouvir.
O futuro da educação
janeiro 26, 2016 § Deixe um comentário
Não são poucos os que afirmam que “as perguntas são mais importantes que as respostas” – uma rápida pesquisa pelo Google aponta “aproximadamente” 18.700.000 resultados – somente para a frase em português. Seguindo essa premissa a Bright, publicação online baseada na plataforma Medium e que recebeu aporte financeiro de ninguém menos que o fundador da Microsoft (por meio da The Bill & Melinda Gates Foundation), fez a seguinte pergunta a alguns educadores participantes do TED-Ed Innovative Educators: “como a escola vai estar em 2050?”. Como para a maioria das pessoas, conscientemente ou não, a escola está diretamente ligada à educação, a pergunta pode ser entendida como uma previsão (ou “jogo de adivinhação”) a ser checada daqui a 34 anos a respeito do próprio futuro da educação.
Como de se esperar, as respostas variam de “não vai mudar muito” até “será completamente diferente” (quem quiser pode checar AQUI). O interessante, para mim, não são as respostas em si, mas o que se pode subentender por elas. Dos que responderam que alguma mudança virá, o fazem sob 3 premissas básicas: uso maciço da tecnologia, criatividade como habilidade profissional desejada e uso prático do conhecimento como forma de aprendizagem.
Scott Teplin, um dos colaboradores da Bright, captou bem as 3 premissas em algumas ilustrações que replico abaixo. A sala de aula pode se transformar no próprio colégio.
Pátio do recreio

Illustration by Scott Teplin
Cafeteria da escola

Illustration by Scott Teplin
Exercícios de “futurologia” à parte, o que liga estas 3 premissas (que na minha opinião são válidas) é a capacidade de se propor desafios para o aprendiz. Uma das formas de estimular desafios é utilizando os campos de conhecimento formadores do acrônimo em inglês STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Uma das razões do enfoque nestes campos é a eficiência deles em estimular a imaginação e o engajamento pela prática.
É claro que o simples fato de disponibilizar as disciplinas não irá gerar desafio algum por si só. O que faz diferença é a forma como as disciplinas são implementadas. A organização MESA USA (Mathematics, Engineering, Science Achievement), que desde 1970 advoga em favor das disciplinas STEM e já ajudou, através de seus programas, milhares de estudantes a se transformarem em cientistas, engenheiros e matemáticos, investiu mais de um ano de trabalho e de recursos financeiros desenvolvendo “desafios” para estimular o aprendizado em STEM e compartilhou 5 estratégias que podem ser aplicadas para quem quer construir os seus próprios desafios de aprendizado.
1) Faça algo pessoal: escolha temas que possam se relacionar pessoalmente com você (ou com os aprendizes). A MESA escolheu, por exemplo, o desenvolvimento de próteses de baixo custo, porque conecta a engenharia a uma questão relevante. Segundo David Coronado, presidente da organização, “vários estudantes veem de campo de refugiados ou de países com pouco acesso à serviço médico e medicamentos”. Como possuem histórias pessoais envolvendo o tema, percebem imediatamente o benefício que seu trabalho pode gerar, desta forma se conectam a ele com mais facilidade.
2) Procure conselhos e opiniões: a organização se consultou com especialistas quando estava desenvolvendo seus desafios para poder construí-los de maneira autêntica. Para o desafio das próteses, buscaram conselhos da associação de veteranos de guerra e de médicos que trabalham com amputados. Desta forma, puderam direcionar os estudantes a implementarem os mesmos testes que são implementados por profissionais que desenvolvem próteses.
3) Faça pequeno: quando se desenvolve projetos com objetivos educacionais, é preciso lidar com situações pouco comuns às instituições de ensino, como por exemplo, estocar os produtos criados. A solução encontrada pela MESA foi a construção de próteses em tamanhos reduzidos, mas que pudessem ser fabricadas em tamanho normal se fossem entrar em uma linha de produção de verdade.
4) Faça barato: definir um limite das despesas força quem desenvolve um “produto” a ser criativo para reutilizar e “reimaginar” materiais. No caso dos protótipos, os estudantes foram orientados a usar o lixo reciclável – metais, plásticos e vidros são a matéria-prima dos protótipos, não há motivo para desperdiçar o que outros não querem mais. Modelagem e protótipos são usados para comunicar o que o “inventor” está pensando, isto está relacionado à experimentação, à construção e a “brincar” com as ideias e não com o uso do “material certo”.
5) Pense “low-tech”: apesar de ser um dos componentes do STEM, a organização deliberadamente evitou soluções de tecnologia em seu desafio de próteses. “Nós não queremos passar seis meses ensinando robótica aos alunos “, afirmou Coronado. Em vez disso, a ênfase foi no processo de design thinking.
É preciso engenhosidade, vontade em construir, aceitação da falha e certeza de que implementar o conhecimento é tentar novamente. Estas atitudes estão intimamente ligadas ao sucesso de quem quer implementar a sua propriedade intelectual. Se conseguirmos estimulá-las via nosso sistema educacional, não importa como ele seja em 2050, vai ter cumprido o papel que se espera em uma sociedade baseada no conhecimento.
Flipped Classroom em 5 (fáceis) passos
janeiro 19, 2016 § Deixe um comentário

Muita gente tem experimentado uma mudança que, penso eu, em alguns poucos anos será inevitável para boa parte do mundo: integrar tecnologia com a metodologia de ensino tradicional. Um método tem se destacado neste esforço, o chamado flipped classroom – em uma tradução aproximada, “sala de aula invertida” (AQUI o que já escrevi sobre o tema) – por ajudar a tornar as “aulas” e o “ambiente” em sala mais pessoal e por facilitar a retenção do conhecimento passado.
Antes de abordar as dicas para ajudar quem se interessar em implementar, creio que vale uma pequena introdução ao tema. Em uma sala de aula tradicional, o professor é o foco principal da aula e o aluno o olha como o detentor do conhecimento. Esses alunos também são estimulados a utilizar apostilas e praticar seus exercícios fora da aula, em seus deveres de casa.
Uma “sala de aula invertida” é uma forma de blended learning, onde os aprendizes recebem o conteúdo online por meio de vídeos ou palestras, geralmente em casa, e o “dever de casa” é feito em sala de aula, com a orientação e apoio do professor, que promove discussões e resoluções conjuntas de atividades. A interação professor-aluno tende a ser mais pessoal, com a orientação substituindo o repasse de conteúdo.
Segundo dados da organização Flipped Learning Network, destinada a divulgar a prática, 9 em 10 professores que “inverteram” suas aulas notaram uma mudança positiva no comprometimento de seus alunos com o aprendizado. Outro dado que chama a atenção é o número de professores que experimentaram o método nos EUA. Em 2012, 48% deles “inverteram” ao menos 1 aula, em 2014 o número havia subido para 78% (ainda não foram divulgados dados de 2015, mas a tendência era de alta pelo quarto ano consecutivo).
Existem diversas formas de se promover uma flipped classroom (é possível encontrar na própria organização citada, Flipped Learning Network, uma série de orientações). Minha intenção é dar 5 passos (ou dicas) para facilitar o “pontapé inicial”.
Passo 1: Grave um vídeo
Uma das formas mais usuais de “inverter” uma aula é gravá-la (ou gravar um vídeo específico sobre determinado assunto). Para experimentar, utilize alguma ferramenta online de gravação. Para ajudá-los aí vão 12 ferramentas que podem auxiliar na gravação e 5 melhores práticas a serem seguidas.
Passo 2: Compartilhe com os aprendizes
Após criar seu vídeo, o compartilhe online – usando o YouTube, por exemplo – ou uma LMS, como a Digital Chalk – para que os aprendizes possam assisti-lo fora do horário de aula (esse ponto é importante, do contrário não há “inversão”). Avise-os para que se preparem para debater o assunto e participarem dos exercícios em sala.
Passo 3: Encoraje a preparação pessoal e a participação em sala
Deixe claras as expectativas e o objetivo dos vídeos a serem assistidos em casa. Muitos professores distribuem ementas de aulas e um calendário de atividades. Alguns encorajam a preparação de seus aprendizes por meio de quizz ou lista de perguntas a serem respondidas.
Passo 4: Promova atividades em sala
Uma vez “liberado” o tempo de repasse de conteúdo, este deve ser “preenchido” por atividades em sala. É muito importante utilizar o horário de aula para feedback imediato e resposta a dúvidas encontradas. Também é válido facilitar e encorajar debates entre os aprendizes para estimular a colaboração e, de quebra, o aprendizado.
Ferramentas de discussão online podem auxiliar na preparação e para levantar pontos a serem esmiuçados em sala. Para ajudá-los, algumas dicas para promover o engajamento via fórum online.
Passo 5: Repita os passos anteriores
Em uma sala de aula completamente “invertida”, todo o repasse de conteúdo acontece fora dela. Isto significa ter todas os assuntos gravados, arquivados online e prontos para serem usados. Lembre-se de ter todas as suas atividades de sala planejadas de antemão – da mesma forma que faria em um modelo de aula tradicional.
Antes de fechar, vale tocar em um ponto adicional. É possível que ao aprofundar sua pesquisa a respeito do tema, você encontre o termo flipped learning. Apesar de usarem termos similares (flipped), inverter a sala de aula e o aprendizado são “coisas” diferentes. É possível implementar o método de flipped classroom dentro da filosofia tradicional de ensino, é apenas uma questão de inverter a estrutura – o “dever de casa” é feito em sala e o conteúdo é repassado em casa. Flipped learning envolve uma mudança de filosofia e impacta diretamente o ambiente de aprendizado, a cultura de aprendizado, o conteúdo e o profissional de educação envolvido – tanto que o termo F-L-I-P virou um acrônimo dos 4 pilares de sustentação do modelo, na ordem: Flexible Enviroment (ambiente flexível); Learning Culture (cultura de aprendizado); Intentional Content (conteúdo específico); Professional Educator (profissional educador).
Conclusão: uma coisa não é outra. Flipped classroom pode levar (mas não necessariamente) ao flipped learning. Para tal, é preciso incorporar os tais 4 pilares (sugiro a leitura deste material aos interessados) à crença pessoal do professor.
Pessoalmente, acredito que algo novo – até pela própria incipiência inicial – deva ser experimentado aos poucos, em projetos pilotos, para que cada um possa visualizar por conta própria a validade (ou não) do proposto. Minha sugestão é que os interessados foquem em “inverter” a sala de aula antes de “alçar” voos mais altos.
Project-Based Learning na prática
janeiro 12, 2016 § Deixe um comentário

No último ano, Project-Based Learning (ou simplesmente PBL) entrou no “radar” de muita gente envolvida, de uma forma ou outra, com educação (AQUI um compilado do que já produzi sobre o tema). Essa nova roupagem das ideias do John Dewey vem ganhando adeptos por estimular o aprendizado por meio da experiência prática – que por sua vez estimula a implementação do conhecimento aprendido – e aqui vale “lembrar” que conhecimento aplicado (ou implementado) é a base para a criação da propriedade intelectual, o “combustível” da economia nas próximas décadas do século XXI.
Mais do que uma “estratégia” educacional, Project-Based Learning está virando uma “estratégia” econômica por facilitar o aparecimento da “matéria-prima” principal que permitirá o “boom” econômico das próximas décadas: pessoas com capacidade de gerar propriedade intelectual.
Como tudo que “ganha” importância “da noite pro dia” – embora discorde pessoalmente dessa afirmação no caso das ideias do Dewey, defendidas há várias décadas aqui no Brasil por grandes pensadores como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro – o senso de urgência leva muitas vezes à interpretações e aplicações equivocadas, gerando a sensação de se estar construindo um avião em pleno voo. Fato que, obviamente, leva as pessoas a se questionarem se aquilo é realmente importante ou mais uma “modinha”.
Retomando a “resolução de ano novo” que citei no post anterior, penso ser importante trazer alguns pontos que ajudem a contextualizar os interessados a respeito de como acontece um PBL dentro de uma “sala de aula” (uso o termo por força do hábito, mas transcendam o significado para qualquer ambiente de aprendizado). Como todos precisamos de ideias e estratégias específicas para “ajudar” o nosso cérebro a “trabalhar” utilizando contextos diferentes dos que estamos acostumados, aí vão algumas que são utilizadas em um Project-Based Learning:
1) Diferenciação por equipes: todos sabemos (ao menos presumo) o quão bem funciona equipes heterogêneas, em que as diferentes habilidades dos integrantes se combinam para gerar resultados próximos a excelentes. Mas, algumas vezes, equipes homogêneas são mais eficientes em otimizar os resultados de um projeto. Por exemplo, em um projeto de PBL que envolva o aprendizado de literatura e interpretação de texto, é mais apropriado se diferenciar grupos por habilidade de leitura do que por interesse ou afinidade. Desta forma é possível identificar com mais facilidade os diferentes níveis de atenção que cada grupo requer e assegurar que os que tem mais dificuldade recebam a atenção necessária para que possam superar a sua lacuna. Acredito que a “criação” de uma equipe deve ser intencional. É preciso saber o “porquê” para que se possa pensar em “como” estruturar a equipe. Em um projeto de PBL, equipes podem ser um bom modo de se diferenciar a instrução, mas é preciso saber o porquê se quer diferenciar: por causa da habilidade acadêmica, habilidade colaborativa, habilidade socioemocional etc.
2) Reflexão e definição de meta: reflexão é um componente essencial (se não, o) de um PBL. No decorrer do projeto, os aprendizes devem constantemente refletir no trabalho que estão realizando e definir metas para os próximos passos. É uma grande oportunidade para que personalizem suas metas de aprendizado e para que os seus professores personalizem a instrução de acordo com essas metas. Antes que alguém possa “confundir” isto como uma “aula particular” para cada um dos 50 alunos de uma classe (na minha época de escola, chamávamos de “turma”), vamos “clarificar” com um exemplo. Em um momento pré-determinado de um projeto, um professor pode promover uma reflexão com sua classe a respeito do que aprenderam até o momento em matemática e ciências e definir em conjunto declarações de metas a respeito do que ainda irão aprender – aqui o equilíbrio entre o que devem e o que querem aprender é fundamental, em um PBL o aprendiz também é “construtor” do aprendizado. O professor então projeta as atividades de apoio ao aprendizado dos alunos levando em consideração tanto o que querem quanto o que precisam saber.
3) Miniaulas e recursos: além de ser uma ótima estratégia de gestão para evitar perda de tempo em sala de aula, as miniaulas são uma boa maneira de diferenciar o ensino. Como focam um conceito específico em um tempo reduzido, é possível utilizá-la para ensinar aos alunos a empregar de maneira mais assertiva uma variedade de recursos que podem ajudá-los a aprofundar o conceito visto (incluindo vídeos, jogos e leituras). Imagine o impacto de centenas de miniaulas durante um período de aprendizado, estimulando os aprendizes a desenvolverem sua habilidade de metacognição. Imagine esse processo acontecendo durante os anos de formação educacional de uma pessoa. Imaginou? Agora, tente comparar mentalmente alguém com essa habilidade em relação a alguém sem ela. Esta é a lacuna que países (e pessoas) terão que enfrentar em alguns anos – minha “aposta” é em 15 anos, quando a primeira geração de finlandeses formada exclusivamente sob a orientação de um currículo destinado a estimular a metacognição entrar no mercado de trabalho.
4) Voz e escolha: outro componente essencial em um projeto de PBL é a “voz” e a “escolha” do aprendiz, tanto em relação ao que “produz” quanto em como usa seu tempo. Especificamente em relação à comprovação do aprendizado, é possível dar opção ao aprendiz para que possa mostrar o que sabe de diversas formas. Vou usar este termo (comprovação) e não avaliação para não restringir o pensamento de quem tem interesse em desenvolver um Project-Based Learning. Composição de dissertações ou utilização de componentes artísticos ou teatrais podem substituir a boa e velha prova com maestria. É claro que tudo depende dos critérios e indicadores que se queira checar, mas se escolhermos verificar o entendimento ao longo do caminho, fica mais fácil avaliar formalmente de maneira diferente do modo tradicional quando desejarmos. Pode ser em forma de uma palestra do aprendiz ou uma série de respostas escritas ou então, por meio de um trabalho gráfico ou colagem, o mais importante é que essas comprovações permitam checar o status do aprendizado e diferenciar o tipo de instrução necessária para a etapa seguinte.
5) Equilíbrio entre trabalho em equipe e individual: trabalho em equipe e colaboração acontecem de maneira regular em um projeto de PBL, pois se quer estimular a aplicação do conteúdo. Mas há horas em que aprendizado individual e prática de exercícios são necessários. Project-Based Learning não significa “jogar fora” o método tradicional de aprendizado e sim associar diferentes métodos para estimular o aprendizado pela prática. É preciso diferenciar o ambiente de aprendizagem porque alguns alunos aprendem melhor por conta própria, enquanto outros aprendem melhor em conjunto ou por meio de instrução direta. A bem da verdade é que todos nós precisamos de tempo para processar e pensar sozinhos, tanto quanto precisamos de tempo para aprender com nossos pares. Portanto, equilibrar os métodos de estímulo ao aprendizado é fundamental para encorajar um ambiente colaborativo e que, ao mesmo tempo, atenda os estudantes em uma base individual.
Como a prática leva à perfeição, a medida em que se for implementando projetos de PBL, se descobrirá não apenas como adequá-lo à “realidade brasileira” (ou portuguesa, angolana, moçambicana, cabo-verdiana, americana, etc), mas também como adequá-la à realidade da “turma” de aprendizes.
Esquentando os motores
janeiro 6, 2016 § 1 comentário

Com 2016 prometendo ser um ano “agitado” (novo ministro da fazenda, olimpíadas no Rio, eleições municipais…), nada melhor do que focar em que é realmente importante: como atuar em uma sociedade que tende, cada vez mais, ser baseada no conhecimento. Embora esta não seja uma preocupação prioritária da nossa sociedade brasileira (pelo menos com base no que vejo por aí – mas posso estar enganado), creio ser essencial que cada um, por conta própria, comece a olhar essa realidade com mais atenção. Gosto de lembrar que só pegamos o “bonde” da revolução industrial na sua terceira etapa, em pleno século XX (só para efeito de comparação, a primeira etapa se deu no século XVIII – quem quiser relembrar, um resumo da Wikipedia), temos a chance de não repetir o mesmo padrão neste momento de mudança de uma sociedade industrial (a mesma gerada pela citada “revolução”) para uma sociedade baseada no conhecimento.
Voltando ao foco principal, nada melhor do que conhecer o que tem sido feito por pessoas que já estão atuando nesta nova realidade. Portanto, como “resolução de ano novo”, pretendo apresentar alguns casos que possam servir como exemplo prático e inspirar ações com o mesmo propósito. O primeiro deles a seguir:
Katie Feather, uma inglesa que dá aulas na Escola Internacional das Nações Unidas (conhecida pela sigla UNIS) – instituição fundada pelas famílias de funcionários da ONU – em Nova York, percebeu o potencial para melhorar a comunicação, os recursos didáticos e o aprendizado de seus alunos utilizando a LMS (Learning Management System ou Sistema de Gestão da Aprendizagem) disponibilizada pela escola. Aqui vale um “parêntesis”, a UNIS vem desenvolvendo uma iniciativa pedagógica baseada em blended learning, que une estratégias instrucionais presenciais e online. Vale a pena conhecer um pouco mais o programa (disponibilizo o link AQUI), chamo a atenção para uma das disciplinas ensinadas, “Teoria do Conhecimento”, que tem como objetivo estimular o entendimento e o contato com os diversos “pontos de entrada” do conhecimento (percepção sensorial, razão, emoção, fé, imaginação, intuição, memória, linguagem, dentre outros) e dar um embasamento teórico aos estudantes que os ajudem a “navegar” por estes “pontos”. Nada mais apropriado para estes tempos contemporâneos.
Katie ensina biologia e com a ajuda da própria escola, que promoveu uma conferência durante as férias escolares, em que os professores debateram estratégias instrucionais conjuntas, começou a dar mais enfoque ao design visual de suas aulas e a procurar interfaces que proporcionassem mais interatividade aos alunos para utilizarem os conteúdos passados em aula. Uma destas interfaces foi a Visme, uma ferramenta online para criação de apresentações e infográficos. Um dos infográficos criados, trazia as atividades de aprendizado e avaliação dos estudantes, integrados com os documentos e materiais que deveriam ser utilizados (Katie gentilmente disponibilizou um pequeno vídeo mostrando o material e um screenshot dele).
São pequenas iniciativas que promovem grandes mudanças. Para começarmos a atuar em uma sociedade do conhecimento não é preciso esperar uma emenda constitucional ou uma legislação específica, basta começar a modificar a sua percepção em relação ao que é conhecimento e como se adquire. No mais, ele está por aí, literalmente a um clique de distância.
Pesquisas educacionais: top 10 de 2015
dezembro 22, 2015 § 3 Comentários

Para quem gosta de se manter informado a respeito de práticas educacionais, 2015 foi um ano muito produtivo. Inúmeras pesquisas educacionais foram publicadas, muitas delas ajudando inclusive a direcionar reformas amplas na área (casos na Finlândia e Índia).
Abaixo, um apanhado de 10 delas (um agradecimento especial a Youki Terada – colaborador do site Edutopia – pela compilação):
- Salas de aula bem projetadas impulsionam o aprendizado: o espaço físico aonde se realiza o aprendizado influencia enormemente na forma como ele acontece. Um estudo em 27 escolas na Inglaterra, mostrou que a melhoria do aspecto físico de uma sala de aula, incluindo iluminação, layout e decoração, pode melhorar o desempenho acadêmico em até 16%.
Referência: Barrett, P. S., Zhang, Y., Davies, F., & Barrett, L. C. (2015). Clever Classrooms: Summary report of the HEAD project. University of Salford, Manchester.
- Os benefícios da gentileza, do Jardim de Infância à Idade Adulta: a gentileza faz a diferença. Comprovando o que dizia o “Profeta Gentileza”, um estudo acompanhou 753 crianças de 1991 a 2010 e percebeu que os alunos do jardim de infância que compartilham, ajudam e mostram empatia pelos outros são mais propensos a ter sucesso pessoal, educacional e profissional quando adultos.
Referência: Jones, D. E., Greenberg, M., Crowley, M. (2015). Early social-emotional functioning and public health: The relationship between kindergarten social competence and future wellness. American Journal of Public Health, e-View Ahead of Print.
- A ciência do aprendizado: nesta excelente revisão de pesquisas que abordam como os alunos aprendem, é apresentado um relatório dividido em seis princípios, trazendo uma lista com referência completa e dicas de ensino. Para quem se interessa pela ciência da cognição, é um “presente de natal” antecipado.
Referência: Deans for Impact (2015). The Science of Learning. Austin, TX: Deans for Impact.
- Alunos de baixa renda são maioria: esta é uma tendência mundial e uma questão que as políticas públicas educacionais devem considerar durante seu planejamento. Pode parecer uma obviedade quando consideramos a realidade brasileira, mas é preciso lembrar que desde que os sistemas de educação pública foram montados (na sua maioria durante o século XX), a maior parte dos alunos vinham da classe média. Hoje, 51% deles vem de famílias de baixa renda.
Referência: A New Majority Research Bulletin: Low Income Students Now a Majority in the Nation’s Public Schools
- Sesame Street impulsiona aprendizagem de crianças na pré-escola: para os pais preocupados com o que seus filhos assistem na TV, programas com uma “pegada” educativa podem ser um passatempo instrutivo. Lançada há 40 anos, a Sesame Street (creio que aqui no Brasil ficou conhecido como “Vila Sésamo”), é um programa educacional destinado a preparar as crianças para a escola e efetivamente “entrega” o que promete. Examinando dados do censo, os pesquisadores descobriram que crianças que viviam em áreas em que o programa era mais assistido, tinham melhor desempenho escolar.
Referência: Kearney, M. S., & Levine, P. B. (2015). Early Childhood Education by MOOC: Lessons From Sesame Street (No. w21229). National Bureau of Economic Research.
- Não passe mais do que 70 minutos de “dever de casa”: o estudo mostrou que para alunos do ensino médio, passar até 70 minutos de lição de casa diária em matemática e ciência é mais benéfico do que passar entre 90-100 minutos. Os alunos que tinham um volume maior de atividades “para casa” e utilizavam mais tempo para resolver suas lições tiveram um declínio no desempenho acadêmico em comparação com os que tinham menos “dever” e precisavam de menos tempo.
Referência: Fernández-Alonso, R., Suárez-Álvarez, J., & Muñiz, J. (2015).Adolescents’ Homework Performance in Mathematics and Science: Personal Factors and Teaching Practices. Journal of Educational Psychology, 107(4), 1075–1085.
- Exercícios para melhorar a concentração impulsionam as notas em matemática: exercícios para aprimorar a concentração e o foco, além de melhorar a autoestima, ajudam a impulsionar o aprendizado em matemática. Segundo o estudo, os alunos que participaram de cursos para estimular a concentração e o foco, tiveram um desempenho 15% maior em suas notas de matemática.
Referência: Schonert-Reichl, K. A., Oberle, E., Lawlor, M. S., Abbott, D., Thomson, K., Oberlander, T. F., & Diamond, A. (2015). Enhancing cognitive and social–emotional development through a simple-to-administer mindfulness-based school program for elementary school children: A randomized controlled trial. Developmental Psychology, 51(1), 52.
- Os princípios de psicologia que todo educador deveria saber: como os estudantes pensam e aprendem? A American Psychological Association se fez esta mesma pergunta e se propôs a respondê-la com a ajuda de especialistas de vários ramos da psicologia. Publicou o resultado na forma de 20 princípios que explicam como o comportamento e fatores sociais influenciam o aprendizado.
Referência: American Psychological Association, Coalition for Psychology in Schools and Education. (2015). Top 20 Principles from Psychology for PreK–12 Teaching and Learning.
- A neurociência por trás da habilidade em matemática: não é segredo que diversos países ao redor do mundo tem uma política educacional voltada para o desenvolvimento da habilidade matemática – sendo ela uma das habilidades fundamentais para o século XXI, a atitude é coerente com a observação sociológica que indica a mudança de uma sociedade industrial para uma sociedade baseada no conhecimento. Saber como o cérebro desenvolve essa habilidade se torna fundamental para gerar insights a respeito de como estimular assertivamente esse aprendizado.
Referência: Chaddock-Heyman, L., Erickson, K. I., Kienzler, C., King, M., Pontifex, M. B., Raine, L. B., Hillman, C. H., & Kramer, A. F. (2015). The Role of Aerobic Fitness in Cortical Thickness and Mathematics Achievement in Preadolescent Children. PLOS ONE, 10(8), e0134115.
- Quando os professores atuam em conjunto, a habilidade matemática e de leitura aumenta: ensinar pode até ser um “ato” solitário na prática (1 professor por classe), mas esta não precisa ser a realidade no planejamento da aula. Quando professores atuam em grupo no seu planejamento instrucional, o aprendizado geral tende a ser impulsionado.
Referência: Ronfeldt, M., Farmer, S. O., McQueen, K., & Grissom, J. A. (2015).Teacher Collaboration in Instructional Teams and Student Achievement. American Educational Research Journal, 52(3), 475-514.
Vou dar uma “parada” nestes dias finais do ano para “recarregar a bateria”. Desejo a todos um 2016 com muita energia.
Para explorar o universo open source educacional
dezembro 15, 2015 § Deixe um comentário

Apesar da grande disponibilidade, o fato é que a qualidade dos materiais educacionais na internet varia muito. Alguns são excelentes, outros passáveis e muitos dispensáveis. Conhecer alguns critérios usados em curadoria digital pode ajudar muito na hora de separar o “joio do trigo”.
Gostaria de compartilhar 3 deles – peço que considerem como dicas para avaliar um material ou como metas, se por acaso estiver interessado em desenvolver um recurso / ferramenta educacional open source.
1) O material deve encorajar quem o acessa a querer criar e não apenas “consumir”: deveríamos considerar um material educacional (ou ter a intenção de deixá-lo) tão atrativo quanto uma peça de comunicação, mas sem nunca esquecer que os dois possuem objetivos diferentes – o segundo é atrair uma “audiência”, o primeiro é estimular um aprendizado. Deixar o aprendiz com aquela vontade de colocar em prática o conhecimento disponibilizado é a maior prova da qualidade de qualquer material que pretenda minimamente ser chamado de didático.
2) O material deve estimular o aprendiz a interagir com ele: aprendizado não é algo passivo, em que ficamos “parados” sendo “bombardeados” com informações e conhecimentos. Temos que interagir com o que recebemos para podermos, de verdade, nos apropriar deles. Por exemplo, sou mais atraído por ebooks ou tutoriais online que me permitam clicar, deslizar, escrever, arrastar, enfim, “mexer”. Interatividade gera um engajamento maior.
3) O material deve encorajar compartilhamentos, comentários e colaboração: autoaprendizado não significa aprender sozinho, significa saber aprender por conta própria. Aprender por conta própria envolve conhecer o próprio perfil de aprendizagem, envolve planejar o próprio aprendizado, envolve buscar os assuntos e os recursos mais apropriados para a sua necessidade. Nada do que citei envolve necessariamente se “trancar” no quarto ou na biblioteca com o rosto em frente a uma tela de computador (ou página de livro). Um processo de aprendizagem não é uma viagem fácil, sem “turbulência”. Haverá momentos de cansaço, de desinteresse, de não entendimento e de frustação. Compartilhar e colaborar com outros na mesma situação não só aumenta a possibilidade de retenção do que foi visto, aumenta também a motivação para continuar seguindo em frente. Tendo isto em mente, um recurso / ferramenta educacional open source deve dar possibilidade aos aprendizes de compartilharem exemplos, experiências e receberem feedback, nem que seja em um nível mínimo.
Um OER (Open Education Resource) é de extrema importância para aqueles que querem exercer o autoaprendizado, mas sua força e impacto podem ser melhor sentidos quando utilizados por um educador como recurso de ensino, seja em um contexto formal ou informal. Essa “dobradinha” – professor e OER – tem o potencial de mudar completamente a percepção que temos do que é (boa) educação.
Open Education Resources
dezembro 8, 2015 § Deixe um comentário

Também conhecido pela sigla OER. Nada mais é do que “coisas de graça na internet que se pode usar para aprender”. Apesar da minha definição “meio tosca”, OER tem sido tratada como coisa séria por várias instituições que estimulam o autoaprendizado, como por exemplo a “The William and Flora Hewlett Foundation”.
A base da OER reside em recursos de ensino, aprendizagem e pesquisa que estão em domínio público ou que tenham sido publicados sob uma licença de propriedade intelectual que permite a sua livre utilização. Engloba cursos completos, materiais de cursos, módulos, livros didáticos, vídeos, testes, software e quaisquer outras ferramentas, materiais ou técnicas utilizadas para apoiar o acesso ao conhecimento.
Um dos melhores exemplos de OER nos é dado pela organização TED, que no espírito do seu slogan (“ideas worth spreading”, algo como “ideias que valem a pena espalhar”) disponibiliza vídeos completos de seus eventos, alguns com legendas em vários idiomas, questões para discussão e transcrições dos vídeos que podem ser “baixadas” e que permitem anotações via programas como o Scrible.
Outro bom exemplo de “generosidade” educacional é o mundialmente famoso MIT, que disponibiliza cursos inteiros, com seus respectivos arquivos em pdf, no iTunes. Há também incontáveis ebooks e tutoriais disponíveis sobre diversos assuntos, como por exemplo os do Michael Hartl a respeito de linguagens computacionais, como Ruby.
Por que essas instituições, empresas e pessoas fazem isto? Por três motivos:
O primeiro, é que há muita coisa disponível na internet, mas ao mesmo tempo “solta” (no sentido de não organizada). Esse grande volume de recursos online precisa de algum tipo de propósito e organização para que possamos aproveitá-los verdadeiramente em um “ecossistema”. Com o crescimento do conceito da “democratização da informação”, a Internet tornou-se uma “placa de Petri” impressionante de conteúdos, esperando para serem descobertos. Como ninguém consegue peneirar tudo e encontrar esses recursos facilmente, surgiu a necessidade de uma “curadoria digital”. Essas instituições, empresas e pessoas se propuseram a realizá-la.
O segundo, são legislações que “pipocaram” ao redor do mundo – como por exemplo a da Califórnia criada após o caso “Williams vs. California” – para garantir o acesso a materiais didáticos atualizados.
O terceiro, que já comentei em outros posts a respeito do assunto, são os custos excessivos da educação formal (incluindo o da atualização de materiais didáticos), que estimulam a busca por outros meios de aprendizagem, como a educação informal e o próprio autoaprendizado.
No próximo post, pretendo abordar 3 dicas para ajudar quem quer explorar o universo “open source” educacional, possa fazê-lo de maneira mais direcionada.