Pesquisas educacionais: top 10 de 2015
dezembro 22, 2015 § 3 Comentários

Para quem gosta de se manter informado a respeito de práticas educacionais, 2015 foi um ano muito produtivo. Inúmeras pesquisas educacionais foram publicadas, muitas delas ajudando inclusive a direcionar reformas amplas na área (casos na Finlândia e Índia).
Abaixo, um apanhado de 10 delas (um agradecimento especial a Youki Terada – colaborador do site Edutopia – pela compilação):
- Salas de aula bem projetadas impulsionam o aprendizado: o espaço físico aonde se realiza o aprendizado influencia enormemente na forma como ele acontece. Um estudo em 27 escolas na Inglaterra, mostrou que a melhoria do aspecto físico de uma sala de aula, incluindo iluminação, layout e decoração, pode melhorar o desempenho acadêmico em até 16%.
Referência: Barrett, P. S., Zhang, Y., Davies, F., & Barrett, L. C. (2015). Clever Classrooms: Summary report of the HEAD project. University of Salford, Manchester.
- Os benefícios da gentileza, do Jardim de Infância à Idade Adulta: a gentileza faz a diferença. Comprovando o que dizia o “Profeta Gentileza”, um estudo acompanhou 753 crianças de 1991 a 2010 e percebeu que os alunos do jardim de infância que compartilham, ajudam e mostram empatia pelos outros são mais propensos a ter sucesso pessoal, educacional e profissional quando adultos.
Referência: Jones, D. E., Greenberg, M., Crowley, M. (2015). Early social-emotional functioning and public health: The relationship between kindergarten social competence and future wellness. American Journal of Public Health, e-View Ahead of Print.
- A ciência do aprendizado: nesta excelente revisão de pesquisas que abordam como os alunos aprendem, é apresentado um relatório dividido em seis princípios, trazendo uma lista com referência completa e dicas de ensino. Para quem se interessa pela ciência da cognição, é um “presente de natal” antecipado.
Referência: Deans for Impact (2015). The Science of Learning. Austin, TX: Deans for Impact.
- Alunos de baixa renda são maioria: esta é uma tendência mundial e uma questão que as políticas públicas educacionais devem considerar durante seu planejamento. Pode parecer uma obviedade quando consideramos a realidade brasileira, mas é preciso lembrar que desde que os sistemas de educação pública foram montados (na sua maioria durante o século XX), a maior parte dos alunos vinham da classe média. Hoje, 51% deles vem de famílias de baixa renda.
Referência: A New Majority Research Bulletin: Low Income Students Now a Majority in the Nation’s Public Schools
- Sesame Street impulsiona aprendizagem de crianças na pré-escola: para os pais preocupados com o que seus filhos assistem na TV, programas com uma “pegada” educativa podem ser um passatempo instrutivo. Lançada há 40 anos, a Sesame Street (creio que aqui no Brasil ficou conhecido como “Vila Sésamo”), é um programa educacional destinado a preparar as crianças para a escola e efetivamente “entrega” o que promete. Examinando dados do censo, os pesquisadores descobriram que crianças que viviam em áreas em que o programa era mais assistido, tinham melhor desempenho escolar.
Referência: Kearney, M. S., & Levine, P. B. (2015). Early Childhood Education by MOOC: Lessons From Sesame Street (No. w21229). National Bureau of Economic Research.
- Não passe mais do que 70 minutos de “dever de casa”: o estudo mostrou que para alunos do ensino médio, passar até 70 minutos de lição de casa diária em matemática e ciência é mais benéfico do que passar entre 90-100 minutos. Os alunos que tinham um volume maior de atividades “para casa” e utilizavam mais tempo para resolver suas lições tiveram um declínio no desempenho acadêmico em comparação com os que tinham menos “dever” e precisavam de menos tempo.
Referência: Fernández-Alonso, R., Suárez-Álvarez, J., & Muñiz, J. (2015).Adolescents’ Homework Performance in Mathematics and Science: Personal Factors and Teaching Practices. Journal of Educational Psychology, 107(4), 1075–1085.
- Exercícios para melhorar a concentração impulsionam as notas em matemática: exercícios para aprimorar a concentração e o foco, além de melhorar a autoestima, ajudam a impulsionar o aprendizado em matemática. Segundo o estudo, os alunos que participaram de cursos para estimular a concentração e o foco, tiveram um desempenho 15% maior em suas notas de matemática.
Referência: Schonert-Reichl, K. A., Oberle, E., Lawlor, M. S., Abbott, D., Thomson, K., Oberlander, T. F., & Diamond, A. (2015). Enhancing cognitive and social–emotional development through a simple-to-administer mindfulness-based school program for elementary school children: A randomized controlled trial. Developmental Psychology, 51(1), 52.
- Os princípios de psicologia que todo educador deveria saber: como os estudantes pensam e aprendem? A American Psychological Association se fez esta mesma pergunta e se propôs a respondê-la com a ajuda de especialistas de vários ramos da psicologia. Publicou o resultado na forma de 20 princípios que explicam como o comportamento e fatores sociais influenciam o aprendizado.
Referência: American Psychological Association, Coalition for Psychology in Schools and Education. (2015). Top 20 Principles from Psychology for PreK–12 Teaching and Learning.
- A neurociência por trás da habilidade em matemática: não é segredo que diversos países ao redor do mundo tem uma política educacional voltada para o desenvolvimento da habilidade matemática – sendo ela uma das habilidades fundamentais para o século XXI, a atitude é coerente com a observação sociológica que indica a mudança de uma sociedade industrial para uma sociedade baseada no conhecimento. Saber como o cérebro desenvolve essa habilidade se torna fundamental para gerar insights a respeito de como estimular assertivamente esse aprendizado.
Referência: Chaddock-Heyman, L., Erickson, K. I., Kienzler, C., King, M., Pontifex, M. B., Raine, L. B., Hillman, C. H., & Kramer, A. F. (2015). The Role of Aerobic Fitness in Cortical Thickness and Mathematics Achievement in Preadolescent Children. PLOS ONE, 10(8), e0134115.
- Quando os professores atuam em conjunto, a habilidade matemática e de leitura aumenta: ensinar pode até ser um “ato” solitário na prática (1 professor por classe), mas esta não precisa ser a realidade no planejamento da aula. Quando professores atuam em grupo no seu planejamento instrucional, o aprendizado geral tende a ser impulsionado.
Referência: Ronfeldt, M., Farmer, S. O., McQueen, K., & Grissom, J. A. (2015).Teacher Collaboration in Instructional Teams and Student Achievement. American Educational Research Journal, 52(3), 475-514.
Vou dar uma “parada” nestes dias finais do ano para “recarregar a bateria”. Desejo a todos um 2016 com muita energia.
Para explorar o universo open source educacional
dezembro 15, 2015 § Deixe um comentário

Apesar da grande disponibilidade, o fato é que a qualidade dos materiais educacionais na internet varia muito. Alguns são excelentes, outros passáveis e muitos dispensáveis. Conhecer alguns critérios usados em curadoria digital pode ajudar muito na hora de separar o “joio do trigo”.
Gostaria de compartilhar 3 deles – peço que considerem como dicas para avaliar um material ou como metas, se por acaso estiver interessado em desenvolver um recurso / ferramenta educacional open source.
1) O material deve encorajar quem o acessa a querer criar e não apenas “consumir”: deveríamos considerar um material educacional (ou ter a intenção de deixá-lo) tão atrativo quanto uma peça de comunicação, mas sem nunca esquecer que os dois possuem objetivos diferentes – o segundo é atrair uma “audiência”, o primeiro é estimular um aprendizado. Deixar o aprendiz com aquela vontade de colocar em prática o conhecimento disponibilizado é a maior prova da qualidade de qualquer material que pretenda minimamente ser chamado de didático.
2) O material deve estimular o aprendiz a interagir com ele: aprendizado não é algo passivo, em que ficamos “parados” sendo “bombardeados” com informações e conhecimentos. Temos que interagir com o que recebemos para podermos, de verdade, nos apropriar deles. Por exemplo, sou mais atraído por ebooks ou tutoriais online que me permitam clicar, deslizar, escrever, arrastar, enfim, “mexer”. Interatividade gera um engajamento maior.
3) O material deve encorajar compartilhamentos, comentários e colaboração: autoaprendizado não significa aprender sozinho, significa saber aprender por conta própria. Aprender por conta própria envolve conhecer o próprio perfil de aprendizagem, envolve planejar o próprio aprendizado, envolve buscar os assuntos e os recursos mais apropriados para a sua necessidade. Nada do que citei envolve necessariamente se “trancar” no quarto ou na biblioteca com o rosto em frente a uma tela de computador (ou página de livro). Um processo de aprendizagem não é uma viagem fácil, sem “turbulência”. Haverá momentos de cansaço, de desinteresse, de não entendimento e de frustação. Compartilhar e colaborar com outros na mesma situação não só aumenta a possibilidade de retenção do que foi visto, aumenta também a motivação para continuar seguindo em frente. Tendo isto em mente, um recurso / ferramenta educacional open source deve dar possibilidade aos aprendizes de compartilharem exemplos, experiências e receberem feedback, nem que seja em um nível mínimo.
Um OER (Open Education Resource) é de extrema importância para aqueles que querem exercer o autoaprendizado, mas sua força e impacto podem ser melhor sentidos quando utilizados por um educador como recurso de ensino, seja em um contexto formal ou informal. Essa “dobradinha” – professor e OER – tem o potencial de mudar completamente a percepção que temos do que é (boa) educação.
Open Education Resources
dezembro 8, 2015 § Deixe um comentário

Também conhecido pela sigla OER. Nada mais é do que “coisas de graça na internet que se pode usar para aprender”. Apesar da minha definição “meio tosca”, OER tem sido tratada como coisa séria por várias instituições que estimulam o autoaprendizado, como por exemplo a “The William and Flora Hewlett Foundation”.
A base da OER reside em recursos de ensino, aprendizagem e pesquisa que estão em domínio público ou que tenham sido publicados sob uma licença de propriedade intelectual que permite a sua livre utilização. Engloba cursos completos, materiais de cursos, módulos, livros didáticos, vídeos, testes, software e quaisquer outras ferramentas, materiais ou técnicas utilizadas para apoiar o acesso ao conhecimento.
Um dos melhores exemplos de OER nos é dado pela organização TED, que no espírito do seu slogan (“ideas worth spreading”, algo como “ideias que valem a pena espalhar”) disponibiliza vídeos completos de seus eventos, alguns com legendas em vários idiomas, questões para discussão e transcrições dos vídeos que podem ser “baixadas” e que permitem anotações via programas como o Scrible.
Outro bom exemplo de “generosidade” educacional é o mundialmente famoso MIT, que disponibiliza cursos inteiros, com seus respectivos arquivos em pdf, no iTunes. Há também incontáveis ebooks e tutoriais disponíveis sobre diversos assuntos, como por exemplo os do Michael Hartl a respeito de linguagens computacionais, como Ruby.
Por que essas instituições, empresas e pessoas fazem isto? Por três motivos:
O primeiro, é que há muita coisa disponível na internet, mas ao mesmo tempo “solta” (no sentido de não organizada). Esse grande volume de recursos online precisa de algum tipo de propósito e organização para que possamos aproveitá-los verdadeiramente em um “ecossistema”. Com o crescimento do conceito da “democratização da informação”, a Internet tornou-se uma “placa de Petri” impressionante de conteúdos, esperando para serem descobertos. Como ninguém consegue peneirar tudo e encontrar esses recursos facilmente, surgiu a necessidade de uma “curadoria digital”. Essas instituições, empresas e pessoas se propuseram a realizá-la.
O segundo, são legislações que “pipocaram” ao redor do mundo – como por exemplo a da Califórnia criada após o caso “Williams vs. California” – para garantir o acesso a materiais didáticos atualizados.
O terceiro, que já comentei em outros posts a respeito do assunto, são os custos excessivos da educação formal (incluindo o da atualização de materiais didáticos), que estimulam a busca por outros meios de aprendizagem, como a educação informal e o próprio autoaprendizado.
No próximo post, pretendo abordar 3 dicas para ajudar quem quer explorar o universo “open source” educacional, possa fazê-lo de maneira mais direcionada.
A nova face dos quadrinhos
dezembro 2, 2015 § Deixe um comentário

Neste ano, pela primeira vez, o equivalente ao ministério da educação da Austrália incluiu revistas em quadrinhos na sua lista de recomendações de leitura. Títulos como “X-men” de Joss Whedon, “Batman: o cavaleiro das trevas” de Frank Miller e “Watchmen” de Alan Moore figuram juntos a “Apanhador no campo de centeio” de J. D. Salinger e “O grande Gatsby” de F.Scott Fitzgerald.
Nos últimos 10 anos, o crescente interesse de especialistas em educação pelos quadrinhos tem produzido uma série de estudos acadêmicos, que recentemente chamaram a atenção de autoridades públicas. A razão se deve à validação por parte da academia de que os quadrinhos ajudam de fato a melhorar a compreensão da leitura, talvez até mais do que os romances tradicionais e os livros ilustrados.
Apesar do “sucesso de crítica”, muitos professores ainda relutam em aceitá-los como materiais de estudo – por convicção ou preconceito – o fato é que esta forma de expressão literária, popularizada a partir dos anos 1930, já enfrentou muita adversidade. Ficou famosa a campanha feita por conservadores norte-americanos nos anos 1950 pedindo a proibição dos quadrinhos, sob a alegação de que estimulavam a delinquência juvenil. A dra. Janette Hughes, professora de biblioteconomia do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário, no Canadá, e defensora do uso dos quadrinhos em educação, conta que ainda há muita relutância em aceitá-los como “leitura digna”. Em suas próprias palavras: “como professora e bibliotecária, ouço isso o tempo todo quando sugiro quadrinhos para os estudantes. Seus professores são os primeiros a dizer que eles precisam ler um livro ‘de verdade’.”
A inclusão dos quadrinhos como material didático está sendo feita de forma lenta, mas constante. Em 2008, pela primeira vez, um quadrinho concorreu ao prêmio literário oferecido pelo governo canadense. Trata-se de “Skim”, de Mariko e Jillian Tamaki, sobre uma adolescente oriental convivendo em uma escola católica só para meninas.
Pesquisas feitas pela University of Northern Iowa e Clemson University, mostraram que 80% dos estudantes preferem quadrinhos aos textos tradicionais. A pesquisa da Clemson University foi um pouco além e utilizou o conto “O Barril de Amontillado” de Edgar Allan Poe para explorar os efeitos dos quadrinhos. Utilizou uma adaptação do conto em quadrinhos como suplemento ao texto tradicional e como alternativa ao texto original. Nos dois casos, quem utilizou a versão em quadrinhos tirou uma nota significativamente maior em um teste de compreensão do que quem apenas utilizou a versão em texto.
Outro estudo, produzido para testar o ensino de inglês como segunda língua, em uma escola em Ankara, Turquia, pelos pesquisadores Hüseyin Öz e Emine Efecioğlu comparou a utilização da versão em quadrinhos de “Macbeth” com o texto original de Shakespeare e descobriu que os quadrinhos tiveram um papel fundamental no entendimento: 1) de elementos literários como símbolo, configuração e prognóstico; 2) de inferência; e 3) de vocabulário.
O fato é que o nosso principal sentido, a visão, age em favor dos quadrinhos (e de qualquer informação visual). A psicologia cognitiva chama isto de “efeito da superioridade da imagem” (no original, “picture superiority effect”), que facilita a lembrança de conceitos quando apresentados em imagens. Quando uma informação é apresentada combinando texto e imagem, a retenção é de 65% (no período de 3 dias após a termos recebido). Isto explica a superioridade dos quadrinhos em relação ao “texto corrido”, levantada pelos estudos.
A ironia é que o nosso cérebro processa os quadrinhos de forma bem similar ao modo como processa o “texto corrido”. Mais um estudo (perdoem-me o excesso de referências, mas o assunto é realmente “palpitante”), este feito pelo Dr. Neil Cohn, que procurava entender como o cérebro reagia aos quadrinhos, descobriu que usamos o mesmo processo cognitivo para entender quadrinhos e sentenças em texto. A frase “ideias verdes incolores dormem furiosamente”, cunhada pelo linguista Noam Chomsky expressa o processo utilizado no estudo. Ao entrarmos em contato com uma comunicação incoerente, nosso cérebro automaticamente busca alguma lógica que possa demonstrar um sentido. No estudo, o pesquisador utilizou quadrinhos que passavam uma informação incoerente e percebeu que apesar dos participantes terem dificuldades em entender os quadrinhos, eles reconheciam uma lógica subjacente a eles. Isto demostrou que utilizavam a gramática para entender a história que o quadrinho contava, da mesma forma que utilizamos a gramática para entender o texto que lemos.
Como um leitor voraz, comecei meu interesse pela literatura através das histórias em quadrinhos. Li “Tarzan” e “Em busca do tempo perdido” em suas versões em quadrinhos e confesso que elas me estimularam a procurar os textos originais. Creio que essa forma literária pode ser utilizada para estimular o prazer pela leitura. Mais do que um hábito, ler deve ser encarado como um entretenimento, um hobbie que ao mesmo tempo em que diverte, ensina.
Arte dentro das disciplinas – parte 2
novembro 25, 2015 § Deixe um comentário

Para fechar os exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas, neste post conheceremos a integração da arte com estudos sociais e história; leitura; e, por fim, no próprio ensino.
A já citada Integrated Arts Academy (IAA), utiliza os assuntos definidos no próprio currículo de estudos sociais como temas das aulas de “redação”. Os alunos são estimulados a confeccionarem roteiros para serem encenados, utilizando os temas, e debatem as conexões dramáticas determinadas pelo volume e entonação da voz, além da perspectiva do texto.
O uso de artes visuais pode colaborar bastante no entendimento da história. Segundo a especialista em educação Marjorie Coheen Manifold, em seu texto “Art Education in the Social Studies”, o estudo de obras de arte do passado promove o entendimento dos valores da sociedade da época e como a arte foi influenciada pelas crenças econômicas, políticas e sociais. Um outro exemplo do impacto destas crenças na sociedade (desta vez, abordando a má influência) é dada pelo historiador Eric S. Yellin em seu livro “Racism in the Nation’s Service”, onde aborda o impacto da política racista do presidente americano Woodrow Wilson na década de 1910, que reverteu 30 anos de políticas integracionistas. Recomendo pessoalmente o livro, que pode ser lido gratuitamente em pdf, disponibilizado o pelo projeto educacional mantido por editoras norte-americanas chamado “Project Muse”.
Os amantes dos quadrinhos ficarão felizes em saber que esta forma de arte, que durante décadas foi desprezada, vem ajudando na alfabetização e estimulo à leitura. Histórias em quadrinhos – em especial as chamadas graphic novels – comprovadamente auxiliam na compreensão e na interpretação dos textos. Um estudo publicado na revista “Literacy”, demostrou que quadrinhos são excelentes suportes metacognitivos a estratégias de desenvolvimento de leitura e escrita.
Os pesquisadores examinaram ainda a relação entre as graphic novels e estratégias de compreensão de leitura e descobriram que as crianças adquirem uma melhor compreensão das histórias ao lerem este tipo de quadrinhos – além de um entusiasmo maior pelo aprendizado. Uma explicação para isto, segundo os pesquisadores, é que elas utilizam uma estratégia única durante a leitura de graphic novels: conectam o estilo da letra e do formato com o elemento emocional da história, analisam as informações sobre os personagens com base nas expressões faciais e corporais, e reconhecem a mudança de tempo ao longo da história através da informação visual que acompanha o texto, mesmo que não explicitamente indicado. A combinação desses elementos, propiciados pelos quadrinhos, ajuda as crianças a deduzirem o que acontece na história.
Resultados do teste Adolescent Motivation to Read Profile (AMRP) corroboram com o estudo, ao indicar uma melhora significativa na valorização da leitura e do “autoreconhecimento” como leitor. As respostas dos participantes do teste referentes a quadrinhos, mostraram que este tipo de literatura aumenta o engajamento para a leitura e tem um impacto extremamente positivo na satisfação gerada por ela.
A integração com a arte também pode ajudar os próprios professores a melhorarem seu ensino. Novamente a IAA aparece como exemplo. A escola promove 2 vezes por ano um retiro aonde os professores são estimulados a criar arte e testar lições e métodos de ensino uns com os outros. O objetivo dos retiros é estimular um senso de comunidade, a colaboração e promover um espaço onde os próprios professores podem se desenvolver como artistas. Como bem atesta o diretor da instituição, Bobby Riley, não se pode apenas pedir que as pessoas colaborem, é preciso criar a estrutura para isto e estimular a habilidade para que a coisa aconteça.
O aprendizado é por si só uma arte. Devemos tratá-lo com a mesma seriedade com que tratamos os temas e assuntos que precisamos aprender. Isto significa pensar e debater o processo de aprendizado, desde técnicas de memorização até estratégias de retenção de conhecimento. Se queremos, de verdade, construir uma sociedade baseada no conhecimento, tudo, absolutamente tudo, deve estar relacionado de alguma forma com a arte de aprender.
Arte dentro das disciplinas – parte 1
novembro 18, 2015 § Deixe um comentário
Pretendo neste e no próximo post mostrar alguns exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas. Neste primeiro, veremos integrada à escrita e matemática. Vale reforçar que o que veremos a seguir são exemplos de como algumas instituições de ensino implementaram a abordagem do uso da arte no aprendizado, não é uma “receita” e sim uma indicação do que pode ser feito. O modus operandi deve ser determinado por cada um.
A Cashman Elementary School, no estado norte-americano de Massachusetts tem experimentado a integração da música à escrita com crianças de 8 e 9 anos. Funciona da seguinte forma: a professora de música pede a seus alunos que escutem a famosa música “Dança do Sabre” do compositor armênio Aram Khachaturian em diversos momentos do dia – no recreio, na hora do lanche, etc. Depois, explica a dinâmica da música, seu tempo e instrumentação. Em seguida, os alunos são estimulados a fazerem um desenho a respeito do que sentiram em relação à música e por fim, devem criar um enredo e desenvolver uma história baseada no desenho.
Em Annapolis, no estado de Maryland, a escola Wiley H. Bates Middle School ensina a seus alunos matemática e mosaicos mexicanos ao mesmo tempo. Os alunos estudam os tradicionais mosaicos turquesas do México e criam suas próprias versões com pedaços de papel. Em seguida, recolhem amostras de diferentes tamanhos e as usam para calcular o número de peças utilizadas na obra de arte.
Outro exemplo da integração da arte com a matemática vem do estado de Nova Jersey. A Stockton University, em seu curso de matemática, usa origamis no ensino da matéria. A professora Barbara Pearl, autora do livro “Math in Motion: Origami in the Classroom”, usa a “mistura” há vários anos com resultados animadores. Ensina ângulos, frações e geometria espacial com base na arte de “dobrar papel”.
Como diz a especialista em integração da arte Laura Brino, “estudar e observar arte, sem medo de cometer algum erro, incentiva a autoconfiança e a coragem em assumir riscos”. Além de ser um modo de estimular a apreciação da cultura, que nos torna ser-humanos mais capazes.
A arte no aprendizado
novembro 11, 2015 § 2 Comentários

Na Grécia antiga havia um ramo do conhecimento denominado “arte liberal”. Consistia em uma série de assuntos e habilidades que um cidadão deveria aprender para poder exercer um papel ativo na sociedade em que vivia. Os assuntos estudados incluíam gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, teoria musical e astronomia. Para aplicar estes conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para a cidadania, a pessoa deveria ainda participar de debates públicos, se “defender” em um tribunal, servir como jurado em um julgamento e participar do serviço militar. Ainda hoje se vê “ecos” dos conceitos da “arte liberal” em nossa sociedade, embora distorcida pela compartimentalização. Naquela época era tudo visto de maneira integrada, hoje como matérias individualizadas.
Alguns países têm em seu currículo do ensino médio a denominação “arte liberal”, que na maioria das vezes engloba algumas das matérias estudadas na antiguidade – e mais uma vez, compartimentalizadas. Mas essa história está mudando. Algumas escolas, notadamente nos EUA, têm implementado uma abordagem digamos, clássica, da “arte liberal”. Em uma definição filosófica de arte, estes locais têm se referido a ela não como um tema, mas como um conceito que encara os assuntos ensinados na instituição de forma mais livre, tratando cada um deles como uma “arte”. Com isto, o foco da instituição deixa de ser repassar conhecimento e se torna desenvolver um modo de pensar. Estes locais acreditam que quando tratado como arte, um assunto deixa de ser uma série de regras para memorizar e passa a ser análogo a uma linguagem a ser aprendida (comentei que era uma abordagem mais filosófica).
Para entender como funciona na prática, nada melhor do que um exemplo. A escola Wheeler Elementary, no estado de Vermont, começou a implementar esse conceito há cerca de 6 anos. Hoje ela se chama Integrated Arts Academy (IAA) e seus alunos são bons não apenas em arte. Em matemática, as notas cresceram 66%. Como conseguiram isto?
O diretor Bobby Riley atribui ao que chama de “confiança criativa”, uma mistura de pensamento altamente analítico, raciocínio e uma “voz própria” trazida pela arte. Esta confiança é estimulada pela introdução de componentes mais subjetivos aos trabalhos e tarefas. Por exemplo, em geometria os alunos avaliam a obra do artista russo Wassily Kandinsky. É promovida uma discussão abordando a sua obra e os alunos recebem como tarefa criar sua própria arte utilizando os ângulos no estilo Kandinsky. Depois, é pedido que identifiquem os ângulos utilizados e os retirem do trabalho para realizar o seu cálculo.
Algumas evidências científicas dão sustentação a esta abordagem, como aponta Wendy Strauch-Nelson que coordena outra iniciativa neste estilo no estado de Wisconsin, a ArtsCore. Segundo ela, ao incorporar movimento, desenho, pintura, música e emoções em um aprendizado, se estimula a retenção do que foi visto.
Não são apenas crianças e jovens que se beneficiam da abordagem. Em um estudo baseado em pesquisa de campo, as pesquisadoras Christine Jarvis e Patricia Gouthro, descobriram que adultos também são melhor estimulados com a integração da arte ao desenvolvimento profissional. Elas identificaram 5 grandes áreas em que a abordagem pode trazer bons resultados: (1) na exploração da aplicação da prática profissional; (2) no entendimento dos dilemas profissionais; (3) no desenvolvimento da empatia e da percepção de insights; (4) na exploração das identidades profissionais; (5) no desenvolvimento do autoconhecimento e habilidade interpessoal.
Segundo o estudo, as abordagens baseadas em artes podem ajudar a se fazer uma avaliação crítica do próprio papel e identidade dentro da profissão e considerar o impacto do seu trabalho na sociedade de uma forma mais ampla.
Agora que vimos como a arte pode beneficiar de uma maneira geral o aprendizado, pretendo nos próximos posts trazer exemplos do seu impacto em disciplinas mais específicas, como escrita, ciências e matemática. Por conta de compromissos profissionais, a partir desta semana reduzo as publicações a 1 post semanal. Pretendo retomar ao habitual 2 posts por semana tão logo seja possível.
Diferentes níveis de atenção para diferentes tarefas
novembro 6, 2015 § Deixe um comentário

No dia a dia temos a tendência de entender os estados de atenção de maneira direta: “estamos prestando atenção” ou “não estamos”. O primeiro caso é encarado como bom, o segundo não. A verdade é que as coisas são um pouco mais complicadas do que isto.
Um estudo publicado na revista “Nature” há alguns meses sugere que pessoas criativas (retomando o assunto do post anterior) têm maiores ligações entre duas áreas do cérebro que são normalmente difíceis de conciliar: a rede associada com foco e controle da atenção e a rede associada com a imaginação e espontaneidade.
Um dos autores do estudo, Scott Barry Kaufman, diz que “as pessoas criativas não são caracterizadas por qualquer um desses estados por si só”. Segundo ele, a capacidade de adaptação e a capacidade de misturar estados de atenção e desatenção (aparentemente incompatíveis de coexistir), dependendo da tarefa, estimula mais a “conexão de ideias” do que simplesmente dedicar “toda a atenção”, como costumamos acreditar. Brinca dizendo que “pessoas criativas têm mentes confusas”.
Isto me faz recordar daquelas “horas” – que costumo chamar de “momento eureka” – em que se está assistindo televisão, lendo um livro ou tomando banho e aparece aquele “clique”, aquela “conexão” que estava faltando para resolver um determinado problema. Reforçando a ideia, também já comentada no post anterior, é a livre associação que permite que o cérebro faça conexões mais variadas. De qualquer forma, creio que criatividade e flexibilidade andam juntas, uma vez que ao diversificarmos nossas experiências, nos “empurramos” para fora do nosso padrão de pensamento “normal”.
P.S: A imagem “provocadora” que abre o texto é de um artista australiano chamado Tony Albert. Quem se interessar, pode encontrar mais trabalhos dele AQUI.
Divergir para convergir
novembro 3, 2015 § 1 comentário

No seu nível mais básico, novas ideias têm a ver com novas conexões. Não sei se é verdade, mas é atribuída a Steve Jobs uma frase que diz mais ou menos o seguinte: “criatividade é apenas conectar coisas”. Se foi ele mesmo (ou algum anônimo), a verdade é que a frase tem um fundo de verdade, pelo menos quanto à forma como o cérebro “cria” novos conhecimentos. Quando aprendemos algo novo, nossos neurônios se conectam entre si, formando “redes” de compreensão. Pode-se considerar que a diferença entre um cérebro “criativo” e um cérebro médio é a quantidade e a força das conexões neurais e a habilidade em criá-las. Este mesmo processo (conexão neural) também está relacionado ao processo natural de formação do que chamamos de “inteligência”. Será que inteligência e criatividade é a mesma coisa – criação de conexão (como na frase citada no início do texto)?
Uma pesquisa feita pelo California Institute of Technology (também conhecido como Caltech), mostrou que a inteligência é algo que se encontra por todo o cérebro. Os pesquisadores descobriram que, ao invés de estar residente em um único local, a inteligência geral é determinada por uma rede de regiões em ambos os lados do cérebro. Já a criatividade, conforme mostrou uma pesquisa feita em 1921 pelo psicólogo Lewis Terman, nem sempre anda de mãos dadas com a inteligência. No estudo feito há 94 anos, Terman descobriu que após certo nível, a inteligência não tem muito efeito sobre a criatividade. Este estudo e subsequentes deram origem à chamada “teoria da soleira” (no original, “threshold theory”).
Por que essa história é importante? Porque ela demonstra que criatividade está ligada à forma de pensar e não ao QI (essa introdução toda foi para podermos chegar a este ponto). É muito popular hoje em dia as ideias do Joy Paul Guilford a respeito do pensamento convergente e divergente. Também é muito popular vê-los como opostos. O primeiro estaria ligado à capacidade de se chegar a uma única e bem estabelecida resposta a determinado problema. O pensamento convergente enfatiza a velocidade, a precisão e a lógica e centra-se no reconhecimento do familiar, nas técnicas de reaplicação e no acumulo de informações.
Em contraste, o pensamento divergente normalmente ocorre de maneira espontânea, com fluxo livre, onde muitas ideias são geradas e avaliadas. Várias soluções possíveis são exploradas em um curto espaço de tempo e conexões inesperadas são desenhadas.
Testes de múltipla-escolha são exemplos clássicos da utilização prática do pensamento convergente (testes de QI também) e o método de brainstorming é o exemplo clássico da utilização do pensamento divergente.
Na maioria das vezes, os dois tipos de pensamento são “vendidos” como não conciliáveis. Como opções a serem feitas: ou se é lógico ou se é criativo. A verdade é que para ser criativo, é preciso ser lógico também. Criatividade envolve um processo cíclico de geração de ideias associado a um trabalho sistemático que ajude a selecionar as que realmente têm possibilidade de “frutificar”. Criatividade deveria ser vista como 2 estágios, o de geração – que envolve o pensamento divergente – e o de exploração – que envolve o pensamento convergente (para mais detalhes, sugiro o artigo do cientista Scott Barry Kaufman, publicado na revista “Psychology Today”).
Acredito que a criatividade está ligada à associação e essa associação é facilitada pela diversificação de informações e conhecimentos que se tem. Ser curioso intelectualmente é um bom jeito para estimular a sua criatividade. É aquela história, se você lê (ou faz) o mesmo que todo mundo, vai pensar do mesmo jeito que todo mundo.
Educação corporativa em 2020
outubro 30, 2015 § Deixe um comentário
Enquanto o tempo de uso da internet aumenta, diminui o tempo que “gastamos” lendo uma notícia ou visitando websites. Quanto mais diversificada a informação consultada, menos profundidade se dá a cada uma delas. Essa é uma tendência bem atual – não é à toa que qualquer informação no Twitter tem que ser passada em 140 caracteres.
Não é tarefa fácil analisar o impacto dessa mudança de comportamento no futuro, mas uma coisa é certa: é evidente que “consumimos” a informação de maneira diferente hoje e é essa forma que nos leva a procurar por respostas ou soluções imediatas para as questões do dia a dia. Não quero entrar em conclusões (principalmente se a prática é boa ou não), mas com base no comportamento, é compreensível a expectativa da “imediatibilidade”.
No nível corporativo, a tendência influencia a comunicação entre a empresa e seus clientes, seus funcionários, a sua infraestrutura, a sua dinâmica de trabalho, etc. Não é uma questão tecnologia apenas, é algo mais profundo. Não é uma mudança de paradigma (perdoem-me o chavão, mas em alguns momentos ele é válido) na comunicação e sim nas relações sociais. Levar em conta as implicações sociais dessa tendência auxilia a se adaptar a ela (e a se beneficiar dela, por que não?).
Em educação corporativa, penso que essa tendência pode (e deve) influenciar a maneira como os funcionários “visualizam” seu próprio treinamento. Na minha opinião, essa “visualização” passa (ou vai passar) por alguns pontos:
- Uma forte preferência para canais de comunicação que permitam transmissão de dados tanto síncrona quanto assíncrona. Para quem não está familiarizado com os termos, dê uma olhada AQUI.
- Flexibilidade é uma expectativa chave. Funcionários esperam cada vez mais flexibilidade, em todos os níveis, com isso ela deixa de ser uma demanda e passa a ser uma necessidade.
- Flexibilidade impacta em outro tópico, autogerenciamento. Sei que não “serve” para todos os perfis, mas impacta de alguma forma na utilização do tempo, das ferramentas e dos recursos usados para o trabalho.
- O fenômeno BYOD (Bring Your Own Device – algo como “traga o seu próprio aparelho) é cada vez mais notável. A empresa deve se preparar e chegar a um acordo em relação ao uso de aparelhos ou serviços que, a priori, parecem dispensáveis para a performance dos funcionários. Vai desde serviços e aplicativos como Evernote, até ferramentas mais complexas como os “ambientes de desenvolvedores” nas nuvens (os IDEs).
- Informações apresentadas de forma clara e direta. A tendência descrita no início do texto, impacta diretamente aqui. As pessoas tendem a se beneficiar mais tendo contato com o “núcleo” da questão.
- Outro ponto em relação à apresentação de informação diz respeito à sua aparência. A tendência também influencia diretamente no modo como se “escolhe” a informação, portanto fazê-la parecer interessante e chamativa é importante (novamente, não entro em conclusões em relação à qualidade da prática). Dessa maneira, o conteúdo multimídia se torna especialmente relevante.
- É indispensável considerar a mobilidade como ponto fundamental na educação corporativa. Não apenas na “entrega” ou disseminação da ação educacional, mas como um modo de facilitar a ubiquidade[1] dos funcionários.
Concorde-se ou não com a tendência exposta, é preciso ter em mente duas coisas. A primeira é que a razão disto não é a tecnologia, mas o uso que escolhemos fazer dela. O elemento “tempo” foi propositalmente deixado de fora quando se criou a “programação computacional”. Isso quer dizer que para a “máquina” pouco importa se você vai responder uma mensagem em 2 segundos ou em 10 horas. Dá no mesmo para ela, o que importa são os comandos. A “máquina” só vai enviar quando você der o comando “send”.
A segunda é que na era da conectividade permanente, o aprendizado tende a caminhar para o não-formal. Isso quer dizer que colocar um grupo em um mesmo espaço para participar de um treinamento ou um workshop corporativo nos moldes tradicionais vai ser, cada vez mais, difícil. É preciso começar a deixar um pouco de lado os conceitos do Malcolm Knowles (que popularizou o modelo palestra/curso/workshop) e começar a “misturar” Alan Turing com John Dewey, incluir a tecnologia e a implementação prática para estimular o aprendizado.
[1] Não é um termo usual, mas significa a faculdade “divina” de estar concomitantemente “presente” em toda parte e a todo momento.