Competências para o século XXI – parte 1

agosto 13, 2015 § 4 Comentários

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Empresários e educadores ao redor do mundo compartilham de uma crença conjunta: a de que desenvolver as habilidades necessárias para o século XXI não é mais um “luxo” e sim uma necessidade. Tenho certeza de que este é um “papo” que você já “ouviu” em algum lugar, mas a pergunta que não quer calar é “que habilidades são essas” exatamente?

Uma habilidade é melhor percebida quando associada à competência que ela estimula, portanto nada mais natural do que focarmos nela – ou nelas – para que se possa deixar mais claro do que se trata essa “história”. Estas competências incluem (1) as habilidades cognitivas do pensamento crítico, resolução de problemas, aplicação do conhecimento (que chamo de conexão) e da criatividade; (2) as habilidades interpessoais de comunicação e colaboração, liderança e consciência global e intercultural (a boa e velha empatia); e (3) habilidades intrapessoais como auto-direção (que podemos traduzir como proatividade), motivação e autoaprendizado (aprender a aprender).

Um dos meus grandes interesses são as formas de medição. Utilizo esse conhecimento para pensar formas de avaliar ações educacionais, qualidade da democracia e outros assuntos os quais me envolvo profissionalmente. Esse interesse também me estimula a pesquisar bastante para construir minhas referências (olha o autoaprendizado aí), o que me levou a direcionar o “olhar” para formas de integrar habilidades e medir as competências do século XXI. Afinal, as habilidades e competências passíveis de serem testadas, são as habilidades e competências passíveis de serem estimuladas.

O pessoal que está mais adiantado nesse estágio de medição das competências necessárias ao nosso século, são os asiáticos. China, Singapura e Coréia do Sul têm se dedicado a planejar ações educacionais e medi-las para entenderem como as competências atuam estimuladas pelo aprendizado. Hong Kong, por exemplo, é uma das muitas cidades chinesas que introduziu avaliações baseadas em projetos, que exigem que os alunos apliquem seus conhecimentos para solucionar novos problemas. Xangai (outra cidade chinesa) ainda não têm um quadro abrangente para medir as habilidades do século XXI, mas está usando testes do PISA voltados à resolução de problemas como uma maneira de estimular a mudança das competências abordadas pelas suas escolas.

Singapura é um excelente estudo de caso de um sistema de ensino que está tentando equilibrar a transmissão de conhecimentos com uma atenção mais explícita em relação às competências do século XXI. Elas estão sendo integradas em todo o currículo escolar, bem como na preparação dos professores e no seu desenvolvimento profissional. Diferentes pedagogias estão sendo incentivadas (o que corrobora com a minha tese de que modelos educacionais funcionam melhor em conjunto), incluindo uma maior utilização da aprendizagem baseada na investigação, da tecnologia da informação e comunicação, da aprendizagem cooperativa em grupos, rotinas de resolução de problemas, entre outras ações. Estão ainda revendo o sistema nacional de exame para incorporar a habilidade do pensamento crítico, usando formas diferentes da famigerada avaliação universal (a nossa múltipla-escolha ou prova objetiva) como por exemplo, provas com questões abertas e baseadas em fontes (que conhecemos como prova discursiva). Algumas competências estão sendo avaliadas em nível escolar mesmo, tais como as habilidades dos alunos no planejamento e realização de experimentos de ciência e na execução de projetos e trabalhos de criação em outras áreas curriculares. Nas escolas primárias, a avaliação e os relatórios para os pais são digamos, mais holísticos, indo além do desempenho acadêmico e abrangendo outras áreas do desenvolvimento do aluno, como atitudes proativas, envolvimento em trabalhos conjuntos, liderança, etc. Além disto, os objetivos esperados pelas ações de desenvolvimento ou formação dos professores estão sendo alterados para coincidirem com as metas de resultados dos alunos.

Tudo isto apoiado por um enorme sistema de medição e avaliação. É possível conhecer uma parte dele pelo guia organizado pela Asia Society, que é uma instituição asiática que faz parte da Global Cities Education Network (GCEN), que é uma comunidade internacional de compartilhamento de aprendizado e melhores práticas de cooperação para melhorar o sistema educacional de cidades da Ásia, Oceania e América do Norte. As cidades participantes são Denver, Hong Kong, Melbourne, Seattle, Seul, Xangai, Singapura, Houston, Lexington e Toronto. Por que será que nenhuma cidade brasileira se interessou por algo parecido?

No próximo post pretendo abordar as competências do século XXI mais críticas a serem desenvolvidas.

Como integrar tecnologia à educação?

agosto 11, 2015 § 3 Comentários

Esta é uma pergunta que tenho ouvido muito em conversas e debates sobre o tema que tenho participado. Alguns acreditam que a tecnologia possa ter um papel mais importante, outros nem tanto, mas a maioria concorda que vale a pena olhar com um pouco mais de atenção o assunto.

O que respondo com frequência é o que costumo reforçar quando sou questionado a respeito da implementação de algum novo modelo educacional, como por exemplo aprendizado baseado em projetos (project-based learning) ou classe de aula invertida (flipped classroom): modelos educacionais são propostos como opções e não tanto como alternativas. Não se deve basear um projeto educacional (ou um sistema educacional) em apenas um modelo, eles funcionam melhor em associação. Aprendizado baseado em projetos pode e deve ser usado em conjunto com o modelo tradicional (ou construtivista, aristotélico, etc). O mesmo ocorre com a tecnologia.

Alguns exemplos do uso de tablets em aulas mostram que o equipamento funciona melhor como ferramenta de trabalho. O caso da escola suíça Zurich International School, que distribuiu Ipads aos seus alunos mostra que o importante não é o conteúdo que os aprendizes colocam no tablet e sim o que fazem com o equipamento. É usado como filmadora, gravador e “caderno de anotação” multimídia.

Em uma escola do subúrbio da cidade de Washington, a Buck Lodge Middle School, os estudantes usam tablets para gravar vídeos, criar apresentações e usar aplicativos educacionais como parte de suas atividades, com bons resultados. As escolas da região que utilizam a ferramenta tiveram um rendimento 175% melhor em matemática do as que não utilizam e um aumento de 35% no número de estudantes que atingiram o nível avançado de leitura.

Para entender como um tablet pode auxiliar um ambiente educacional, um pesquisador da Universidade de Adelaide na Austrália, Allan Carrington, desenvolveu a “Roda (i)Padgógica” (perceberam o trocadilho? Incluí o “i” para facilitar), utilizando a Taxonomia de Bloom, o modelo SAMR (já publiquei um post sobre ele) e uma lista de aplicativos educacionais.

O ponto principal da Roda (a imagem abaixo) é a definição de critérios para os aplicativos.

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Uns funcionam melhor para estimular o entendimento a respeito de algo, outros para a lembrança, um outro grupo para aplicar o que foi aprendido, um quarto para estimular a análise, outro para a avaliação e um último para a criação de algo utilizando o conhecimento aprendido. Definir estes critérios e associar os aplicativos apropriados é essencial para que o tablet realmente possa cumprir o seu papel de ferramenta. Não adianta oferecê-lo apenas como repositório de apostila ou como ferramenta livre. Acabará sendo usado da forma como a maioria está acostumada a utilizá-lo, como entretenimento.  Por enquanto a “Roda (i)Padgógica” está disponível apenas em inglês. Pretendo trabalhar uma versão dela em nosso idioma assim que tiver disponibilidade para tal. De qualquer forma, disponibilizo o link para quem quiser acessar ao pdf original com as indicações dos critérios e aplicativos associados até o momento.

É inevitável que a tecnologia assuma cada vez mais um papel, ouso dizer, predominante no dia a dia de uma sociedade realmente integrada ao século XXI. É inevitável porque facilita a vida de quem a utiliza. Brigar contra inovações como Uber, por exemplo, é o mesmo que combater monstros imaginários na forma de moinhos como fazia o Don Quixote na obra mágica de Cervantes. Lembro da minha mãe dizendo há uns 30 anos que todos da família tínhamos que aprender a “mexer no computador” para não sermos “analfabetos digitais”. É claro que usar ou não a tecnologia em um ambiente educacional não é uma decisão com resultados tão dramáticos quanto às palavras da minha mãe, mas certamente quem tiver a oportunidade irá se beneficiar bem mais do que quem não tiver.

7 dicas para ajudar a revisar o seu texto

agosto 4, 2015 § 2 Comentários

Sejamos sinceros, revisar o que escrevemos pode ser bastante trabalhoso e chato, embora extremamente necessário. Recentemente passei por esta “gincana” ao revisar as provas para o meu livro – permitam-me o “jabazinho”, chama-se “Conexão do Conhecimento: conectar para gerar ideias, inovações e aprendizado”, informarei melhor quando o lançamento se aproximar – e sei o quão extenso o processo pode ser.

Felizmente há modos de tornar esse processo menos penoso e mais produtivo. Funcionou para mim, pode ser que ajude outros também.

1. Fique “ligado” nos erros que mais comete

Todos temos nossos pontos fortes, entretanto também temos nossos fracos e são estes que levam à recorrência de erros. Por exemplo, se grafia não for a sua melhor habilidade, muito provavelmente seu texto terá várias palavras transcritas de forma errada. Por isso é importante ter consciência dos erros que mais cometemos para poder redobrar a atenção ao buscá-los quando revisarmos o que escrevemos. Sempre vale a pena dar aquele “polimento” nestas áreas mais problemáticas.

2. Lembre-se que uma revisão envolve várias etapas e não apenas uma leitura rápida

Para ser capaz de encontrar múltiplos erros e ter certeza de que o que escreveu está claro e conciso, é preciso revisar algumas vezes. Sugiro que “quebre” o processo em sessões de revisão, de modo a não ficar sobrecarregado pela tarefa e perder pontos cruciais. No meu caso, dedicava 1 hora ou 1 hora e meia diária a cada capítulo. Isto me deu a oportunidade de realizar a tarefa com qualidade sem deixar de lado as outras coisas que precisava fazer. Entendo que sempre há um prazo de entrega e que ele nem sempre permite que se “gaste” tanto tempo em algo (eu também tinha o meu “deadline” para entrega), mas é uma questão de “gerenciamento do tempo”, não sou muito fã do termo, mas algumas vezes ele é correto. De qualquer forma, tenha em mente que revisão é um processo que não pode (ou não deve) ser apressado, mas vale a pena todo o tempo e esforço colocado nele. De qualquer forma, fique de “olho” no prazo.

3. “Apare” as frases longas para torná-las concisas

Um dos meus interesses pessoais é a jardinagem e este hobbie me ensina algumas coisas que aplico ao meu dia a dia. Para que a planta cresça mais forte, aparar é fundamental. O mesmo acontece com o texto. Preste atenção não apenas ao que está escrito, mas também à forma como é apresentado. Um dos grandes problemas que longos blocos de textos trazem é a sobrecarga cognitiva. Por isso, minha dica é que mantenha “as coisas” curtas e simples. Sentenças muito longas ou abundância de informação podem confundir o leitor. Sentenças mais curtas tornam um texto mais digerível e recomendo usá-las (a não ser que você tenha a intenção de se eleger um dia para a Academia Brasileira de Letras).

4. Leia o conteúdo em voz alta

Quando revisar o seu texto, leia-o ao menos uma vez em voz alta. Algo que em um primeiro momento pode parecer bom na tela do computador, pode ser na verdade confuso e ambíguo quando lido em voz alta. Isso pode ajudá-lo a garantir que o conteúdo flua bem e que o ritmo seja suave.

5. Não confie na verificação ortográfica para pegar todos os erros

As ferramentas de verificação automática de ortografia ajudam a “adiantar o seu lado”, mas não substituem uma revisão cuidadosa. É preciso passar o chamado “pente fino” para poder realmente reduzir a possibilidade de erros ortográficos e gramaticais.

6. Deixe o projeto “de lado” antes da última leitura

É preciso colocar alguma distância entre você e o seu texto. Há um ditado que diz que “quem escreve não deveria revisar”, esta é uma “meia-verdade” ou uma “mentira sincera” (como diz a letra do Barão Vermelho). É impossível evitar revisar o que escreveu pelo simples motivo de que é você quem sabe o que realmente queria passar. Mas é preciso também “descansar” o seu olhar para que possa ter a possibilidade de perceber algo que deixou “de lado” em leituras anteriores.

7. Não espere até o dia do prazo final

Sei que já comentei a respeito do prazo no ponto 2, mas nunca é demais reforçar. Para aqueles que têm a tendência de esperar até o último minuto, esta dica é, digamos, desafiadora. Esperar até o dia do prazo para finalizar a sua revisão é dar “chance ao azar”. A possibilidade de “deixar passar” erros é grande, além de ter que lidar com estresse e preocupação desnecessários. Tente finalizar pelo menos “um par de dias antes” (como diz um amigo português meu). Isto permitirá que você possa “dar uma olhada” uma última vez antes de enviar. Por exemplo, escrevo estes posts 1 ou 2 dias antes de publicá-los. Isto me dá a oportunidade de “cuidar” um pouco mais do que escrevo.

Disponibilizar o tempo e a atenção necessários à revisão ajuda a assegurar que o que você oferece ao seu “leitor”, usando a linguagem corporativa, é algo com mais “valor agregado”. E saber que tipo de erro procurar pode ajudar a tornar o seu processo de revisão menos estressante e mais produtivo. Boa escrita e revisão.

Mundo acadêmico e corporativo

julho 30, 2015 § 2 Comentários

Esta semana tive a oportunidade de participar de um workshop no instituto de ciências políticas da UERJ. Como de costume, as discussões e debates do evento foram de alto nível, mas (também como de costume) o que aconteceu fora da “sala”, nas conversas do cafezinho, almoço e confraternizações me chamaram tanto a atenção quanto o evento em si.

Como um proveniente do mundo corporativo, fui solicitado por alguns dos participantes a compartilhar minhas impressões a respeito do mundo acadêmico e seu impacto na comunidade dos negócios. Sendo o mais diplomático possível, disse identificar uma falta de interesse mútuo entre a academia e os negócios no Brasil. Tirando algumas iniciativas em relação à suporte em consultoria e ações como incubadoras de empresas, não via uma parceria muito abrangente.

O “papo” evoluiu para um “exercício” de propostas destinadas a estimular um diálogo entre dois mundos que não conversam tanto quanto poderiam. Duas delas me pareceram bem razoáveis por serem, na minha opinião, implementáveis em curto prazo.

Parceria em pesquisa

São formadas quando empresa e universidade concordam em colaborar em um determinado projeto de pesquisa. É muito comum em áreas como a farmacologia. Geralmente são conduzidas por pesquisadores mais graduados de instituições acadêmicas e financiadas por empresas, que viram sócias da propriedade intelectual desenvolvida. Propus fazer algo semelhante, mas envolvendo estudantes não tão graduados, que poderiam ter a oportunidade de realizar pesquisas para uma empresa via academia. Meu argumento girou em torno de um ponto: ao demonstrar suas habilidades aplicadas em um negócio, um estudante aumenta a sua “empregabilidade”. Não é um estágio, a pessoa atua pela universidade, mas em contato direto com uma empresa.

Parcerias de formação

É a criação (ou direcionamento) de cursos baseados em necessidades específicas das empresas. Meu exemplo se baseou na experiência de parceria entre empresas de TI e instituições acadêmicas que oferecem o nanodegree. O benefício deste tipo de programa para os estudantes é uma formação focada na implementação prática do conhecimento (além da possibilidade de contratação) e, para as empresas, ter indivíduos especialmente formados. Como potenciais desafios foram levantados dois pontos: (1) uma formação que só pode ser aplicada ao negócio específico e (2) a empresa exigir uma cláusula de “não concorrência” para os estudantes. Pontos que, ao meu ver, são passíveis de negociação entre as partes e não incapacitam a iniciativa.

Fui muito bem recebido, conheci pessoas interessantes nessa experiência e tive a oportunidade de trocar ideias com elas. Fiquei muito satisfeito também em conhecer iniciativas da academia brasileira para facilitar a geração de propriedade intelectual e o esforço que acadêmicos brasileiros e estrangeiros, como os professores alemães Wolfgang Merkel, que se juntará ano que vem à equipe da UERJ e a professora Brigitte Weiffen, que já faz parte do corpo docente da USP, fazem neste sentido. São duas mentes inquietas que conseguimos trazer ao nosso convívio. O país certamente se beneficiará disto no futuro.

O valor da engenhosidade

julho 23, 2015 § Deixe um comentário

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Engenhosidade é um substantivo feminino que significa basicamente ter a capacidade de encontrar maneiras rápidas e inteligentes para superar as dificuldades. Com todas as facilidades da vida moderna (do supermercado ao Google), esta é uma habilidade em que é preciso ter insistência para desenvolver – mesmo porque, em um primeiro momento parece (apenas parece) desnecessária para nossa sobrevivência.

Em plena “era da conveniência”, para estimular a sua engenhosidade é preciso estar disposto a “receber de braços abertos” a inconveniência. Apenas desafiando nossas próprias ideias (e a dos outros), abraçando obstáculos e conflitos e reconhecendo o valor do desconforto, poderemos estimular a capacidade de “pensar diferente” e escolher a criatividade ao invés do conforto.

Uma das melhores maneiras para estimular a engenhosidade é colocar a “mão na massa” e fazer algo que nunca fez. Por exemplo, quem não tem intimidade com a cozinha deveria se voluntariar a preparar o jantar da família. Algumas instituições educacionais já perceberam a importância de estimular esta habilidade desde cedo e têm pensado em soluções para colocar o assunto em pauta. Um exemplo é o Kitchen Garden Program, que em mais de 800 escolas na Austrália já colocou 100 mil estudantes para “sujar as mãos” e aprender a cultivar, preparar e compartilhar comida “fresca e saudável”. Para um “jardineiro inconstante” como eu (que digam minhas plantas) é um exemplo e tanto.

Um dos grandes aliados da engenhosidade pode ser resumido em uma palavrinha inglesa chamada “grit” (com toda sinceridade não sei como traduzi-la em um similar português), que como substantivo assume o significado de coragem, perseverança ou força de caráter. Desenvolver esta característica nos deixa conscientes de que vamos enfrentar contratempos durante nossa caminhada e que não há nada de errado em “dar um passo atrás, para dar dois à frente”. Frustação é um dos grandes destruidores da engenhosidade. Há um texto interessante escrito pela psicóloga Julie DeNeen a respeito de como promover “grit”. É focado para a “sala de aula”, mas é possível fazer a correlação para aplicar no nosso próprio desenvolvimento.

Outro aliado é o pensamento crítico. Um “espírito” crítico tem mais possibilidade de gravitar em torno da engenhosidade do que uma mente que não faz perguntas. Desenvolva o hábito de pensar de forma ampla.

Para fechar, concentrar-se no propósito ao invés da tarefa é mais um aliado na sua busca pela engenhosidade. Seu benefício está em colocar a tarefa em um “quadro maior”, que além de permitir pensar de forma mais ampla, permite pensar com mais profundidade nas possibilidades que o propósito traz.

Engajamento para o aprendizado – parte 2

julho 21, 2015 § 2 Comentários

student engagement Segundo os pesquisadores Ming-Te Wang (Universidade de Pittsburgh) e Jacquelynne S. Eccles (Universidade de Michigan), historicamente costuma-se levar somente em consideração o comportamento dos alunos para medir o seu envolvimento. Eles acreditam que esta abordagem “não conta toda a história” e que é preciso incluir “na conta” a emoção e a cognição.

Os dois publicaram em 2013 um estudo que está entre as primeiras tentativas de se levantar dados que permitam explorar uma abordagem multidimensional do impacto do engajamento para o aprendizado. Uma das descobertas mostrou que os estudantes que consideravam os temas estudados relevantes e as atividades propostas significativas e correlacionadas aos seus objetivos, eram mais emocionalmente e cognitivamente engajados do que aqueles que, embora bem-comportados, não se interessavam tanto pelo que estavam estudando.

Wang e Eccles também descobriram que o ambiente educacional pode ajudar ou prejudicar o engajamento e tem um impacto maior do que a própria infraestrutura do local. Segundo eles, um ambiente positivo, que apoie o aprendizado, além de oferecer oportunidades para os alunos fazerem as suas próprias escolhas, deve proporcionar o suporte necessário para que os alunos saibam o que fazer e o que esperar do seu aprendizado.

Dependendo do nível acadêmico do aluno e do tipo de engajamento envolvido (comportamental, cognitivo ou emocional), a estratégia instrucional muda. Por exemplo, para aumentar o engajamento comportamental, reforçar as relações professor-aluno é mais eficaz do que aumentar o nível das tarefas acadêmicas. Para estimular o engajamento cognitivo, incluir temas que reflitam os objetivos e interesses pessoais dos estudantes tem mais impacto do que mudar o método educacional.

O uso de uma perspectiva multidimensional do engajamento permite que se tenha uma melhor compreensão do que fazer em um determinado contexto educacional. Em geral, o estudo identificou cinco principais fatores que contribuem para o envolvimento dos alunos: (1) clareza da expectativa, (2) coerência de atitude, (3) previsibilidade de reação, (4) apoio emocional e (5) apoio aos objetivos e interesses pessoais dos estudantes.

Um fator que se esperava que tivesse um impacto maior no engajamento, mas não o fez, foi a liberdade de escolha. No entanto, ela não deve ser menosprezada se quisermos estimular a habilidade de autoaprendizado, importante para o desenvolvimento posterior.

Veja como os fatores atuam de acordo com o tipo de engajamento:

Engajamento Comportamental: quando os professores são claros a respeito das suas expectativas, fornecem respostas consistentes e ajustam as estratégias de ensino ao nível do aluno, fornecem a estrutura que dá suporte a uma maior participação em tarefas acadêmicas (engajamento comportamental) e fomentam um sentimento mais forte de ligação à escola (engajamento emocional).

Engajamento Emocional: quando professores e alunos “criam” um ambiente de carinho e de apoio social, aumentam a propensão de engajamento emocional (e de quebra, comportamental). Os resultados do estudo Wang- Eccles adicionam evidência de que as percepções dos alunos sobre a natureza e a qualidade do ambiente social da escola são tão importantes quanto o ambiente acadêmico em si (tarefas acadêmicas e práticas de ensino) na promoção do envolvimento para o aprendizado.

Engajamento Cognitivo: o fator que o estudo mostrou que mais contribuiu para o engajamento cognitivo (a atenção dada ao aprendizado) foi a percepção da relevância do assunto em relação aos objetivos e interesses pessoais dos alunos. A motivação acadêmica flutuava com base em quão agradável eles achavam que uma tarefa seria, o quão útil entendiam que ela seria para o cumprimento de metas de curto e longo prazo e como percebiam que ela poderia atender às necessidades pessoais de cada um. De acordo com o estudo, a relevância também impacta no engajamento comportamental e emocional, mas em um grau muito menor.

Quem se interessar mais, pode adquirir o artigo científico na página do Science Direct, que é um dos databases científicos mais acessados do mundo.

Engajamento para o aprendizado – parte 1

julho 16, 2015 § Deixe um comentário

Tenho notado uma crescente preocupação com o engajamento para o aprendizado, como pode-se comprovar pelas publicações do relatório do plano de ação da CEA (Canadian Education Association) e pelas pesquisas a respeito do clima escolar conduzida pela PUC-RS e do engajamento para o aprendizado feita pela ESPM-RJ.

Esta preocupação, ao meu ver, deriva em grande parte das observações de educadores sobre os efeitos da tecnologia no nível de interesse dos alunos. Muitos jovens – principalmente em países mais avançados, embora o mesmo comportamento possa também ser observado por aqui – têm-se “desconectado” do aprendizado tradicional e se “conectado” em seus smartphones. A tecnologia fornece um meio mais rápido e variado para a transferência de informações do que um professor e por isso, penso eu, os alunos estão se desinteressando cada vez mais pelos meios tradicionais de instrução.

O objetivo atual das pesquisas (e em alguns locais, das campanhas) de engajamento dos alunos é corrigir esta discrepância. Currículos escolares em diferentes locais do mundo estão apostando na abordagem blended learning (método que engloba ações educacionais presenciais e não presenciais) na esperança de “dar um gás” no envolvimento dos alunos.

No entanto, é preciso ter em mente que nem todo engajamento é criado da mesma forma e que levar em consideração as próprias expectativas de quem aprende é tão (ou mais) importante do que os métodos usados para gerar os 3 tipos de engajamento (emocional, comportamental e cognitivo).

Inspirada nestas questões, a já citada Associação Canadense de Educação (Canadian Education Association) criou um projeto chamado “O que você fez hoje na escola?” (no original, “What did you do in school today?”), em que pergunta aos próprios estudantes, dentre outros assuntos, como imaginam o ambiente ideal para a sua aprendizagem. Abaixo, uma compilação das expectativas:

  1. Resolver problemas reais
  2. Ter contato com conhecimentos realmente importantes
  3. Me preparar para fazer a diferença no mundo
  4. Ser respeitado
  5. Entender como os temas estão interligados
  6. Aprender em conjunto com os outros e com as pessoas da comunidade
  7. Estar em contato com especialistas e conhecer suas opiniões
  8. Ter mais oportunidades para dialogar e conversar

É claro que há diferenças entre as realidades canadense e brasileira, mas com o mundo tão conectado como o atual e com cada vez mais possibilidades de compartilhar interesses, pensamentos e experiências, é válido inferir que algumas expectativas também são compartilhadas por pessoas de origens diferentes. Desta forma, o compilado de expectativa dos estudantes canadenses pode ser levado em consideração (comparativamente) e adaptado ao Brasil. Certamente nossos estudantes também se beneficiariam de um ambiente educacional que atendesse ao menos algumas das expectativas.

No próximo post pretendo tratar um pouco mais da abordagem multidimensional do engajamento (os 3 tipos que citei mais acima).

Crítica é boa para inovação?

julho 9, 2015 § 1 comentário

Jonathan Bendor, professor da Universidade de Stanford acredita que sim. Para ele, o que falta na maioria dos locais de trabalho não é criatividade, mas sim visão crítica. Muitos acreditam que a crítica e a criatividade são incompatíveis em um ambiente de trabalho criativo (vide as recomendações de técnicas como brainstorming), mas como Bendor vê a situação, criatividade e crítica são como os princípios chineses do yin e yang: duas forças complementares que interagem para formar um todo maior. “Eu acho que não só elas podem viver juntas”, diz ele, “como têm de viver juntas.”

Apesar de gostar de causar desconforto com suas observações – como podem checar pelo infográfico que seus alunos fizeram dos seus conceitos (pérolas como “a maioria das ideias são ruins” ou “leia e escreva usando as dicas “Strunk & White”[1]) – algumas delas são realmente válidas, como a referente ao uso de rubricas como forma de feedback.

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Explico melhor, uma maneira de dar aos funcionários (ou colaboradores na linguagem atual) um feedback útil é através de uma rubrica formal ou sistema de pontuação, onde suas ideias são classificadas em várias dimensões, tais como “mérito técnico” e “potencial de mercado”. Ao contrário de uma crítica global como “Isso não é bom!”, as rubricas podem ajudar a solucionar problemas ao darem mais parâmetros para a avaliação de uma ideia e indicarem como ela pode ser melhorada.

“Se uma ideia é corrigível”, diz Bendor, “um gerente pode apontar para a rubrica e dizer: esta parte da solução está OK. Esta parte precisa ser retrabalhada e esta parte, refeita totalmente”. Ele acrescenta que pessoas em todos os níveis de uma organização podem se beneficiar de um feedback despersonalizado como este – mesmo o CEO.

Quem quiser ouvi-lo falar, pode acessar ao vídeo disponibilizado por Stanford. São 12 minutinhos que vale a pena “gastar”.

[1] William Strunk, Jr. publicou em 1919 um manual de escrita, revisado e atualizado em 1959 pelo seu ex-aluno E.B. White, chamado “The Elements of Style” em que dá dicas para escrever um texto corretamente. Quem já teve oportunidade de frequentar alguma aula de literatura em uma High School americana deve ter recebido o livrinho, que é odiado pela maioria dos estudantes.

Big data & Wide data

julho 7, 2015 § Deixe um comentário

Não é de hoje que precisamos nos relacionar com uma quantidade absurda de dados e informações. O mundo conectado online (sou um rebelde, não concordo com opção portuguesa e espanhola pela grafia on-line, que não tem o mesmo significado que online em inglês) potencializou exponencialmente o volume – daí o termo big data – que só algoritmos “lidos” por máquinas conseguem lidar.

Somado ao volume, temos também a amplitude desses dados e informações – daí o termo wide data – que requer uma certa criticidade para analisar. É da amplitude que vêm as previsões e conclusões e, há até pouco tempo, domínio total do cérebro humano. Bom, não usei o termo “exponencial” à toa. O volume alongou a amplitude disponível a tal ponto que o cérebro humano simplesmente não processa as variáveis disponíveis. A solução para a “dobradinha” big & wide data são as ferramentas que promovem “machine learning”, uma espécie de inteligência artificial, que permite máquinas aperfeiçoarem o seu desempenho em alguma tarefa, em outras palavras, aprender.

Como todo o processo de aprendizado das máquinas é baseado no próprio processo humano de aprendizagem (pelo menos até que alguma “revolta das máquinas” aconteça), adaptar um ao outro pode ajudar os 2 lados. 3 conceitos usados em “machine learning” me chamaram a atenção e penso ser válido compartilhá-los.

Feature extraction, que determina quais dados devem ser usados no modelo. Definir as características (features) que são importantes em determinado aprendizado ajuda a eliminar uma quantidade imensa de variáveis. Quando se está lidando com dados brutos, saber o que “cortar” poupa tempo e torna a busca pela informação mais assertiva.

Regularization, que determina a forma como os dados são ponderadas dentro do modelo. Regularização é determinar a relevância de cada dado e a sua prioridade. É a “atitude” que transforma um dado em informação, o que dá o contexto. Em seu aprendizado, use este conceito para definir o seu plano de estudo, ordenando o que focará primeiro e tentando visualizar possíveis conexões interdisciplinares.

Cross-validation, que testa a precisão do modelo. A validação cruzada é uma técnica usada para avaliar a capacidade de generalização de um modelo, usando um conjunto de dados. O objetivo do seu uso em “machine learning” (e em análise humana) é a predição. Adaptando para o nosso aprendizado, use o conceito de validação cruzada para determinar o seu processo de avaliação (afinal, como saber se está realmente aprendendo?).

“Machine learning” é um tema fascinante e pode ajudar muito na criação de processos educacionais aplicáveis a nós mesmos, humanos. Para quem quiser se iniciar, sugiro começar pelos chamados “No Free Lunch Theorems” – matemáticos também têm senso de humor – que mostram que todos os algoritmos que buscam um extremo de uma função, agem exatamente da mesma maneira. Alguma semelhança com o nosso comportamento?

Salvar informações antigas nos ajuda a aprender novas informações

julho 2, 2015 § Deixe um comentário

 O simples ato de “salvar” uma informação (como por exemplo, um arquivo no computador), nos ajuda a preparar a memória para receber uma nova informação. De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC), o ato de “salvar” ou “guardar” uma informação nos ajuda a “liberar” recursos cognitivos que podem ser usados para lembrar uma nova.

A ideia por trás do conceito é muito simples: o ato de “salvar” atua como uma forma de descarregamento (offloading é o termo original). Ao garantir que determinadas informações estarão digitalmente acessíveis, podemos realocar recursos cognitivos que de outra forma seriam usados para “manter” essa informação no nosso cérebro e nos concentrarmos em lembrar novas (ou mais importantes) informações. É claro que é extremamente necessário criar antes um processo de “recuperação” desses arquivos. Não adianta nada guardar a informação e “esquecer-se” de onde ela se encontra, do que se trata ou como se pode acessá-la.

Segundo o pesquisador Benjamin Storm, temos a tendência de considerar o esquecimento uma “falha” de memória, mas a pesquisa sugere que ele, na verdade, desempenha um papel essencial no apoio ao funcionamento adaptativo de memória e cognição.

Com o desenvolvimento tecnológico possibilitando cada vez mais “espaço” em HDs de computadores, smartphones e outros equipamentos, considerá-los extensões da nossa memória pode nos ajudar a minimizar as “falhas” de memória e transformá-las em uma vantagem, estimulando nossa habilidade em pensar novas ideias ou encontrar outras alternativas para solucionar problemas (o nome disto, não se esqueçam, é inovação).

Estas pesquisas também apontam tendências que podem ser usadas em planejamentos instrucionais, como por exemplo o mobile learning – aprendizado via aparelhos móveis como smartphones e tablets – que utiliza aplicativos educacionais para aumentar o aprendizado, possibilitar uma entrega flexível de conteúdo ou apoiar um aprendizado formal.

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