Project-Based Learning na prática
janeiro 12, 2016 § Deixe um comentário

No último ano, Project-Based Learning (ou simplesmente PBL) entrou no “radar” de muita gente envolvida, de uma forma ou outra, com educação (AQUI um compilado do que já produzi sobre o tema). Essa nova roupagem das ideias do John Dewey vem ganhando adeptos por estimular o aprendizado por meio da experiência prática – que por sua vez estimula a implementação do conhecimento aprendido – e aqui vale “lembrar” que conhecimento aplicado (ou implementado) é a base para a criação da propriedade intelectual, o “combustível” da economia nas próximas décadas do século XXI.
Mais do que uma “estratégia” educacional, Project-Based Learning está virando uma “estratégia” econômica por facilitar o aparecimento da “matéria-prima” principal que permitirá o “boom” econômico das próximas décadas: pessoas com capacidade de gerar propriedade intelectual.
Como tudo que “ganha” importância “da noite pro dia” – embora discorde pessoalmente dessa afirmação no caso das ideias do Dewey, defendidas há várias décadas aqui no Brasil por grandes pensadores como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro – o senso de urgência leva muitas vezes à interpretações e aplicações equivocadas, gerando a sensação de se estar construindo um avião em pleno voo. Fato que, obviamente, leva as pessoas a se questionarem se aquilo é realmente importante ou mais uma “modinha”.
Retomando a “resolução de ano novo” que citei no post anterior, penso ser importante trazer alguns pontos que ajudem a contextualizar os interessados a respeito de como acontece um PBL dentro de uma “sala de aula” (uso o termo por força do hábito, mas transcendam o significado para qualquer ambiente de aprendizado). Como todos precisamos de ideias e estratégias específicas para “ajudar” o nosso cérebro a “trabalhar” utilizando contextos diferentes dos que estamos acostumados, aí vão algumas que são utilizadas em um Project-Based Learning:
1) Diferenciação por equipes: todos sabemos (ao menos presumo) o quão bem funciona equipes heterogêneas, em que as diferentes habilidades dos integrantes se combinam para gerar resultados próximos a excelentes. Mas, algumas vezes, equipes homogêneas são mais eficientes em otimizar os resultados de um projeto. Por exemplo, em um projeto de PBL que envolva o aprendizado de literatura e interpretação de texto, é mais apropriado se diferenciar grupos por habilidade de leitura do que por interesse ou afinidade. Desta forma é possível identificar com mais facilidade os diferentes níveis de atenção que cada grupo requer e assegurar que os que tem mais dificuldade recebam a atenção necessária para que possam superar a sua lacuna. Acredito que a “criação” de uma equipe deve ser intencional. É preciso saber o “porquê” para que se possa pensar em “como” estruturar a equipe. Em um projeto de PBL, equipes podem ser um bom modo de se diferenciar a instrução, mas é preciso saber o porquê se quer diferenciar: por causa da habilidade acadêmica, habilidade colaborativa, habilidade socioemocional etc.
2) Reflexão e definição de meta: reflexão é um componente essencial (se não, o) de um PBL. No decorrer do projeto, os aprendizes devem constantemente refletir no trabalho que estão realizando e definir metas para os próximos passos. É uma grande oportunidade para que personalizem suas metas de aprendizado e para que os seus professores personalizem a instrução de acordo com essas metas. Antes que alguém possa “confundir” isto como uma “aula particular” para cada um dos 50 alunos de uma classe (na minha época de escola, chamávamos de “turma”), vamos “clarificar” com um exemplo. Em um momento pré-determinado de um projeto, um professor pode promover uma reflexão com sua classe a respeito do que aprenderam até o momento em matemática e ciências e definir em conjunto declarações de metas a respeito do que ainda irão aprender – aqui o equilíbrio entre o que devem e o que querem aprender é fundamental, em um PBL o aprendiz também é “construtor” do aprendizado. O professor então projeta as atividades de apoio ao aprendizado dos alunos levando em consideração tanto o que querem quanto o que precisam saber.
3) Miniaulas e recursos: além de ser uma ótima estratégia de gestão para evitar perda de tempo em sala de aula, as miniaulas são uma boa maneira de diferenciar o ensino. Como focam um conceito específico em um tempo reduzido, é possível utilizá-la para ensinar aos alunos a empregar de maneira mais assertiva uma variedade de recursos que podem ajudá-los a aprofundar o conceito visto (incluindo vídeos, jogos e leituras). Imagine o impacto de centenas de miniaulas durante um período de aprendizado, estimulando os aprendizes a desenvolverem sua habilidade de metacognição. Imagine esse processo acontecendo durante os anos de formação educacional de uma pessoa. Imaginou? Agora, tente comparar mentalmente alguém com essa habilidade em relação a alguém sem ela. Esta é a lacuna que países (e pessoas) terão que enfrentar em alguns anos – minha “aposta” é em 15 anos, quando a primeira geração de finlandeses formada exclusivamente sob a orientação de um currículo destinado a estimular a metacognição entrar no mercado de trabalho.
4) Voz e escolha: outro componente essencial em um projeto de PBL é a “voz” e a “escolha” do aprendiz, tanto em relação ao que “produz” quanto em como usa seu tempo. Especificamente em relação à comprovação do aprendizado, é possível dar opção ao aprendiz para que possa mostrar o que sabe de diversas formas. Vou usar este termo (comprovação) e não avaliação para não restringir o pensamento de quem tem interesse em desenvolver um Project-Based Learning. Composição de dissertações ou utilização de componentes artísticos ou teatrais podem substituir a boa e velha prova com maestria. É claro que tudo depende dos critérios e indicadores que se queira checar, mas se escolhermos verificar o entendimento ao longo do caminho, fica mais fácil avaliar formalmente de maneira diferente do modo tradicional quando desejarmos. Pode ser em forma de uma palestra do aprendiz ou uma série de respostas escritas ou então, por meio de um trabalho gráfico ou colagem, o mais importante é que essas comprovações permitam checar o status do aprendizado e diferenciar o tipo de instrução necessária para a etapa seguinte.
5) Equilíbrio entre trabalho em equipe e individual: trabalho em equipe e colaboração acontecem de maneira regular em um projeto de PBL, pois se quer estimular a aplicação do conteúdo. Mas há horas em que aprendizado individual e prática de exercícios são necessários. Project-Based Learning não significa “jogar fora” o método tradicional de aprendizado e sim associar diferentes métodos para estimular o aprendizado pela prática. É preciso diferenciar o ambiente de aprendizagem porque alguns alunos aprendem melhor por conta própria, enquanto outros aprendem melhor em conjunto ou por meio de instrução direta. A bem da verdade é que todos nós precisamos de tempo para processar e pensar sozinhos, tanto quanto precisamos de tempo para aprender com nossos pares. Portanto, equilibrar os métodos de estímulo ao aprendizado é fundamental para encorajar um ambiente colaborativo e que, ao mesmo tempo, atenda os estudantes em uma base individual.
Como a prática leva à perfeição, a medida em que se for implementando projetos de PBL, se descobrirá não apenas como adequá-lo à “realidade brasileira” (ou portuguesa, angolana, moçambicana, cabo-verdiana, americana, etc), mas também como adequá-la à realidade da “turma” de aprendizes.
Esquentando os motores
janeiro 6, 2016 § 1 comentário

Com 2016 prometendo ser um ano “agitado” (novo ministro da fazenda, olimpíadas no Rio, eleições municipais…), nada melhor do que focar em que é realmente importante: como atuar em uma sociedade que tende, cada vez mais, ser baseada no conhecimento. Embora esta não seja uma preocupação prioritária da nossa sociedade brasileira (pelo menos com base no que vejo por aí – mas posso estar enganado), creio ser essencial que cada um, por conta própria, comece a olhar essa realidade com mais atenção. Gosto de lembrar que só pegamos o “bonde” da revolução industrial na sua terceira etapa, em pleno século XX (só para efeito de comparação, a primeira etapa se deu no século XVIII – quem quiser relembrar, um resumo da Wikipedia), temos a chance de não repetir o mesmo padrão neste momento de mudança de uma sociedade industrial (a mesma gerada pela citada “revolução”) para uma sociedade baseada no conhecimento.
Voltando ao foco principal, nada melhor do que conhecer o que tem sido feito por pessoas que já estão atuando nesta nova realidade. Portanto, como “resolução de ano novo”, pretendo apresentar alguns casos que possam servir como exemplo prático e inspirar ações com o mesmo propósito. O primeiro deles a seguir:
Katie Feather, uma inglesa que dá aulas na Escola Internacional das Nações Unidas (conhecida pela sigla UNIS) – instituição fundada pelas famílias de funcionários da ONU – em Nova York, percebeu o potencial para melhorar a comunicação, os recursos didáticos e o aprendizado de seus alunos utilizando a LMS (Learning Management System ou Sistema de Gestão da Aprendizagem) disponibilizada pela escola. Aqui vale um “parêntesis”, a UNIS vem desenvolvendo uma iniciativa pedagógica baseada em blended learning, que une estratégias instrucionais presenciais e online. Vale a pena conhecer um pouco mais o programa (disponibilizo o link AQUI), chamo a atenção para uma das disciplinas ensinadas, “Teoria do Conhecimento”, que tem como objetivo estimular o entendimento e o contato com os diversos “pontos de entrada” do conhecimento (percepção sensorial, razão, emoção, fé, imaginação, intuição, memória, linguagem, dentre outros) e dar um embasamento teórico aos estudantes que os ajudem a “navegar” por estes “pontos”. Nada mais apropriado para estes tempos contemporâneos.
Katie ensina biologia e com a ajuda da própria escola, que promoveu uma conferência durante as férias escolares, em que os professores debateram estratégias instrucionais conjuntas, começou a dar mais enfoque ao design visual de suas aulas e a procurar interfaces que proporcionassem mais interatividade aos alunos para utilizarem os conteúdos passados em aula. Uma destas interfaces foi a Visme, uma ferramenta online para criação de apresentações e infográficos. Um dos infográficos criados, trazia as atividades de aprendizado e avaliação dos estudantes, integrados com os documentos e materiais que deveriam ser utilizados (Katie gentilmente disponibilizou um pequeno vídeo mostrando o material e um screenshot dele).
São pequenas iniciativas que promovem grandes mudanças. Para começarmos a atuar em uma sociedade do conhecimento não é preciso esperar uma emenda constitucional ou uma legislação específica, basta começar a modificar a sua percepção em relação ao que é conhecimento e como se adquire. No mais, ele está por aí, literalmente a um clique de distância.
Pesquisas educacionais: top 10 de 2015
dezembro 22, 2015 § 3 Comentários

Para quem gosta de se manter informado a respeito de práticas educacionais, 2015 foi um ano muito produtivo. Inúmeras pesquisas educacionais foram publicadas, muitas delas ajudando inclusive a direcionar reformas amplas na área (casos na Finlândia e Índia).
Abaixo, um apanhado de 10 delas (um agradecimento especial a Youki Terada – colaborador do site Edutopia – pela compilação):
- Salas de aula bem projetadas impulsionam o aprendizado: o espaço físico aonde se realiza o aprendizado influencia enormemente na forma como ele acontece. Um estudo em 27 escolas na Inglaterra, mostrou que a melhoria do aspecto físico de uma sala de aula, incluindo iluminação, layout e decoração, pode melhorar o desempenho acadêmico em até 16%.
Referência: Barrett, P. S., Zhang, Y., Davies, F., & Barrett, L. C. (2015). Clever Classrooms: Summary report of the HEAD project. University of Salford, Manchester.
- Os benefícios da gentileza, do Jardim de Infância à Idade Adulta: a gentileza faz a diferença. Comprovando o que dizia o “Profeta Gentileza”, um estudo acompanhou 753 crianças de 1991 a 2010 e percebeu que os alunos do jardim de infância que compartilham, ajudam e mostram empatia pelos outros são mais propensos a ter sucesso pessoal, educacional e profissional quando adultos.
Referência: Jones, D. E., Greenberg, M., Crowley, M. (2015). Early social-emotional functioning and public health: The relationship between kindergarten social competence and future wellness. American Journal of Public Health, e-View Ahead of Print.
- A ciência do aprendizado: nesta excelente revisão de pesquisas que abordam como os alunos aprendem, é apresentado um relatório dividido em seis princípios, trazendo uma lista com referência completa e dicas de ensino. Para quem se interessa pela ciência da cognição, é um “presente de natal” antecipado.
Referência: Deans for Impact (2015). The Science of Learning. Austin, TX: Deans for Impact.
- Alunos de baixa renda são maioria: esta é uma tendência mundial e uma questão que as políticas públicas educacionais devem considerar durante seu planejamento. Pode parecer uma obviedade quando consideramos a realidade brasileira, mas é preciso lembrar que desde que os sistemas de educação pública foram montados (na sua maioria durante o século XX), a maior parte dos alunos vinham da classe média. Hoje, 51% deles vem de famílias de baixa renda.
Referência: A New Majority Research Bulletin: Low Income Students Now a Majority in the Nation’s Public Schools
- Sesame Street impulsiona aprendizagem de crianças na pré-escola: para os pais preocupados com o que seus filhos assistem na TV, programas com uma “pegada” educativa podem ser um passatempo instrutivo. Lançada há 40 anos, a Sesame Street (creio que aqui no Brasil ficou conhecido como “Vila Sésamo”), é um programa educacional destinado a preparar as crianças para a escola e efetivamente “entrega” o que promete. Examinando dados do censo, os pesquisadores descobriram que crianças que viviam em áreas em que o programa era mais assistido, tinham melhor desempenho escolar.
Referência: Kearney, M. S., & Levine, P. B. (2015). Early Childhood Education by MOOC: Lessons From Sesame Street (No. w21229). National Bureau of Economic Research.
- Não passe mais do que 70 minutos de “dever de casa”: o estudo mostrou que para alunos do ensino médio, passar até 70 minutos de lição de casa diária em matemática e ciência é mais benéfico do que passar entre 90-100 minutos. Os alunos que tinham um volume maior de atividades “para casa” e utilizavam mais tempo para resolver suas lições tiveram um declínio no desempenho acadêmico em comparação com os que tinham menos “dever” e precisavam de menos tempo.
Referência: Fernández-Alonso, R., Suárez-Álvarez, J., & Muñiz, J. (2015).Adolescents’ Homework Performance in Mathematics and Science: Personal Factors and Teaching Practices. Journal of Educational Psychology, 107(4), 1075–1085.
- Exercícios para melhorar a concentração impulsionam as notas em matemática: exercícios para aprimorar a concentração e o foco, além de melhorar a autoestima, ajudam a impulsionar o aprendizado em matemática. Segundo o estudo, os alunos que participaram de cursos para estimular a concentração e o foco, tiveram um desempenho 15% maior em suas notas de matemática.
Referência: Schonert-Reichl, K. A., Oberle, E., Lawlor, M. S., Abbott, D., Thomson, K., Oberlander, T. F., & Diamond, A. (2015). Enhancing cognitive and social–emotional development through a simple-to-administer mindfulness-based school program for elementary school children: A randomized controlled trial. Developmental Psychology, 51(1), 52.
- Os princípios de psicologia que todo educador deveria saber: como os estudantes pensam e aprendem? A American Psychological Association se fez esta mesma pergunta e se propôs a respondê-la com a ajuda de especialistas de vários ramos da psicologia. Publicou o resultado na forma de 20 princípios que explicam como o comportamento e fatores sociais influenciam o aprendizado.
Referência: American Psychological Association, Coalition for Psychology in Schools and Education. (2015). Top 20 Principles from Psychology for PreK–12 Teaching and Learning.
- A neurociência por trás da habilidade em matemática: não é segredo que diversos países ao redor do mundo tem uma política educacional voltada para o desenvolvimento da habilidade matemática – sendo ela uma das habilidades fundamentais para o século XXI, a atitude é coerente com a observação sociológica que indica a mudança de uma sociedade industrial para uma sociedade baseada no conhecimento. Saber como o cérebro desenvolve essa habilidade se torna fundamental para gerar insights a respeito de como estimular assertivamente esse aprendizado.
Referência: Chaddock-Heyman, L., Erickson, K. I., Kienzler, C., King, M., Pontifex, M. B., Raine, L. B., Hillman, C. H., & Kramer, A. F. (2015). The Role of Aerobic Fitness in Cortical Thickness and Mathematics Achievement in Preadolescent Children. PLOS ONE, 10(8), e0134115.
- Quando os professores atuam em conjunto, a habilidade matemática e de leitura aumenta: ensinar pode até ser um “ato” solitário na prática (1 professor por classe), mas esta não precisa ser a realidade no planejamento da aula. Quando professores atuam em grupo no seu planejamento instrucional, o aprendizado geral tende a ser impulsionado.
Referência: Ronfeldt, M., Farmer, S. O., McQueen, K., & Grissom, J. A. (2015).Teacher Collaboration in Instructional Teams and Student Achievement. American Educational Research Journal, 52(3), 475-514.
Vou dar uma “parada” nestes dias finais do ano para “recarregar a bateria”. Desejo a todos um 2016 com muita energia.
Para explorar o universo open source educacional
dezembro 15, 2015 § Deixe um comentário

Apesar da grande disponibilidade, o fato é que a qualidade dos materiais educacionais na internet varia muito. Alguns são excelentes, outros passáveis e muitos dispensáveis. Conhecer alguns critérios usados em curadoria digital pode ajudar muito na hora de separar o “joio do trigo”.
Gostaria de compartilhar 3 deles – peço que considerem como dicas para avaliar um material ou como metas, se por acaso estiver interessado em desenvolver um recurso / ferramenta educacional open source.
1) O material deve encorajar quem o acessa a querer criar e não apenas “consumir”: deveríamos considerar um material educacional (ou ter a intenção de deixá-lo) tão atrativo quanto uma peça de comunicação, mas sem nunca esquecer que os dois possuem objetivos diferentes – o segundo é atrair uma “audiência”, o primeiro é estimular um aprendizado. Deixar o aprendiz com aquela vontade de colocar em prática o conhecimento disponibilizado é a maior prova da qualidade de qualquer material que pretenda minimamente ser chamado de didático.
2) O material deve estimular o aprendiz a interagir com ele: aprendizado não é algo passivo, em que ficamos “parados” sendo “bombardeados” com informações e conhecimentos. Temos que interagir com o que recebemos para podermos, de verdade, nos apropriar deles. Por exemplo, sou mais atraído por ebooks ou tutoriais online que me permitam clicar, deslizar, escrever, arrastar, enfim, “mexer”. Interatividade gera um engajamento maior.
3) O material deve encorajar compartilhamentos, comentários e colaboração: autoaprendizado não significa aprender sozinho, significa saber aprender por conta própria. Aprender por conta própria envolve conhecer o próprio perfil de aprendizagem, envolve planejar o próprio aprendizado, envolve buscar os assuntos e os recursos mais apropriados para a sua necessidade. Nada do que citei envolve necessariamente se “trancar” no quarto ou na biblioteca com o rosto em frente a uma tela de computador (ou página de livro). Um processo de aprendizagem não é uma viagem fácil, sem “turbulência”. Haverá momentos de cansaço, de desinteresse, de não entendimento e de frustação. Compartilhar e colaborar com outros na mesma situação não só aumenta a possibilidade de retenção do que foi visto, aumenta também a motivação para continuar seguindo em frente. Tendo isto em mente, um recurso / ferramenta educacional open source deve dar possibilidade aos aprendizes de compartilharem exemplos, experiências e receberem feedback, nem que seja em um nível mínimo.
Um OER (Open Education Resource) é de extrema importância para aqueles que querem exercer o autoaprendizado, mas sua força e impacto podem ser melhor sentidos quando utilizados por um educador como recurso de ensino, seja em um contexto formal ou informal. Essa “dobradinha” – professor e OER – tem o potencial de mudar completamente a percepção que temos do que é (boa) educação.
Open Education Resources
dezembro 8, 2015 § Deixe um comentário

Também conhecido pela sigla OER. Nada mais é do que “coisas de graça na internet que se pode usar para aprender”. Apesar da minha definição “meio tosca”, OER tem sido tratada como coisa séria por várias instituições que estimulam o autoaprendizado, como por exemplo a “The William and Flora Hewlett Foundation”.
A base da OER reside em recursos de ensino, aprendizagem e pesquisa que estão em domínio público ou que tenham sido publicados sob uma licença de propriedade intelectual que permite a sua livre utilização. Engloba cursos completos, materiais de cursos, módulos, livros didáticos, vídeos, testes, software e quaisquer outras ferramentas, materiais ou técnicas utilizadas para apoiar o acesso ao conhecimento.
Um dos melhores exemplos de OER nos é dado pela organização TED, que no espírito do seu slogan (“ideas worth spreading”, algo como “ideias que valem a pena espalhar”) disponibiliza vídeos completos de seus eventos, alguns com legendas em vários idiomas, questões para discussão e transcrições dos vídeos que podem ser “baixadas” e que permitem anotações via programas como o Scrible.
Outro bom exemplo de “generosidade” educacional é o mundialmente famoso MIT, que disponibiliza cursos inteiros, com seus respectivos arquivos em pdf, no iTunes. Há também incontáveis ebooks e tutoriais disponíveis sobre diversos assuntos, como por exemplo os do Michael Hartl a respeito de linguagens computacionais, como Ruby.
Por que essas instituições, empresas e pessoas fazem isto? Por três motivos:
O primeiro, é que há muita coisa disponível na internet, mas ao mesmo tempo “solta” (no sentido de não organizada). Esse grande volume de recursos online precisa de algum tipo de propósito e organização para que possamos aproveitá-los verdadeiramente em um “ecossistema”. Com o crescimento do conceito da “democratização da informação”, a Internet tornou-se uma “placa de Petri” impressionante de conteúdos, esperando para serem descobertos. Como ninguém consegue peneirar tudo e encontrar esses recursos facilmente, surgiu a necessidade de uma “curadoria digital”. Essas instituições, empresas e pessoas se propuseram a realizá-la.
O segundo, são legislações que “pipocaram” ao redor do mundo – como por exemplo a da Califórnia criada após o caso “Williams vs. California” – para garantir o acesso a materiais didáticos atualizados.
O terceiro, que já comentei em outros posts a respeito do assunto, são os custos excessivos da educação formal (incluindo o da atualização de materiais didáticos), que estimulam a busca por outros meios de aprendizagem, como a educação informal e o próprio autoaprendizado.
No próximo post, pretendo abordar 3 dicas para ajudar quem quer explorar o universo “open source” educacional, possa fazê-lo de maneira mais direcionada.
A nova face dos quadrinhos
dezembro 2, 2015 § Deixe um comentário

Neste ano, pela primeira vez, o equivalente ao ministério da educação da Austrália incluiu revistas em quadrinhos na sua lista de recomendações de leitura. Títulos como “X-men” de Joss Whedon, “Batman: o cavaleiro das trevas” de Frank Miller e “Watchmen” de Alan Moore figuram juntos a “Apanhador no campo de centeio” de J. D. Salinger e “O grande Gatsby” de F.Scott Fitzgerald.
Nos últimos 10 anos, o crescente interesse de especialistas em educação pelos quadrinhos tem produzido uma série de estudos acadêmicos, que recentemente chamaram a atenção de autoridades públicas. A razão se deve à validação por parte da academia de que os quadrinhos ajudam de fato a melhorar a compreensão da leitura, talvez até mais do que os romances tradicionais e os livros ilustrados.
Apesar do “sucesso de crítica”, muitos professores ainda relutam em aceitá-los como materiais de estudo – por convicção ou preconceito – o fato é que esta forma de expressão literária, popularizada a partir dos anos 1930, já enfrentou muita adversidade. Ficou famosa a campanha feita por conservadores norte-americanos nos anos 1950 pedindo a proibição dos quadrinhos, sob a alegação de que estimulavam a delinquência juvenil. A dra. Janette Hughes, professora de biblioteconomia do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário, no Canadá, e defensora do uso dos quadrinhos em educação, conta que ainda há muita relutância em aceitá-los como “leitura digna”. Em suas próprias palavras: “como professora e bibliotecária, ouço isso o tempo todo quando sugiro quadrinhos para os estudantes. Seus professores são os primeiros a dizer que eles precisam ler um livro ‘de verdade’.”
A inclusão dos quadrinhos como material didático está sendo feita de forma lenta, mas constante. Em 2008, pela primeira vez, um quadrinho concorreu ao prêmio literário oferecido pelo governo canadense. Trata-se de “Skim”, de Mariko e Jillian Tamaki, sobre uma adolescente oriental convivendo em uma escola católica só para meninas.
Pesquisas feitas pela University of Northern Iowa e Clemson University, mostraram que 80% dos estudantes preferem quadrinhos aos textos tradicionais. A pesquisa da Clemson University foi um pouco além e utilizou o conto “O Barril de Amontillado” de Edgar Allan Poe para explorar os efeitos dos quadrinhos. Utilizou uma adaptação do conto em quadrinhos como suplemento ao texto tradicional e como alternativa ao texto original. Nos dois casos, quem utilizou a versão em quadrinhos tirou uma nota significativamente maior em um teste de compreensão do que quem apenas utilizou a versão em texto.
Outro estudo, produzido para testar o ensino de inglês como segunda língua, em uma escola em Ankara, Turquia, pelos pesquisadores Hüseyin Öz e Emine Efecioğlu comparou a utilização da versão em quadrinhos de “Macbeth” com o texto original de Shakespeare e descobriu que os quadrinhos tiveram um papel fundamental no entendimento: 1) de elementos literários como símbolo, configuração e prognóstico; 2) de inferência; e 3) de vocabulário.
O fato é que o nosso principal sentido, a visão, age em favor dos quadrinhos (e de qualquer informação visual). A psicologia cognitiva chama isto de “efeito da superioridade da imagem” (no original, “picture superiority effect”), que facilita a lembrança de conceitos quando apresentados em imagens. Quando uma informação é apresentada combinando texto e imagem, a retenção é de 65% (no período de 3 dias após a termos recebido). Isto explica a superioridade dos quadrinhos em relação ao “texto corrido”, levantada pelos estudos.
A ironia é que o nosso cérebro processa os quadrinhos de forma bem similar ao modo como processa o “texto corrido”. Mais um estudo (perdoem-me o excesso de referências, mas o assunto é realmente “palpitante”), este feito pelo Dr. Neil Cohn, que procurava entender como o cérebro reagia aos quadrinhos, descobriu que usamos o mesmo processo cognitivo para entender quadrinhos e sentenças em texto. A frase “ideias verdes incolores dormem furiosamente”, cunhada pelo linguista Noam Chomsky expressa o processo utilizado no estudo. Ao entrarmos em contato com uma comunicação incoerente, nosso cérebro automaticamente busca alguma lógica que possa demonstrar um sentido. No estudo, o pesquisador utilizou quadrinhos que passavam uma informação incoerente e percebeu que apesar dos participantes terem dificuldades em entender os quadrinhos, eles reconheciam uma lógica subjacente a eles. Isto demostrou que utilizavam a gramática para entender a história que o quadrinho contava, da mesma forma que utilizamos a gramática para entender o texto que lemos.
Como um leitor voraz, comecei meu interesse pela literatura através das histórias em quadrinhos. Li “Tarzan” e “Em busca do tempo perdido” em suas versões em quadrinhos e confesso que elas me estimularam a procurar os textos originais. Creio que essa forma literária pode ser utilizada para estimular o prazer pela leitura. Mais do que um hábito, ler deve ser encarado como um entretenimento, um hobbie que ao mesmo tempo em que diverte, ensina.
Arte dentro das disciplinas – parte 2
novembro 25, 2015 § Deixe um comentário

Para fechar os exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas, neste post conheceremos a integração da arte com estudos sociais e história; leitura; e, por fim, no próprio ensino.
A já citada Integrated Arts Academy (IAA), utiliza os assuntos definidos no próprio currículo de estudos sociais como temas das aulas de “redação”. Os alunos são estimulados a confeccionarem roteiros para serem encenados, utilizando os temas, e debatem as conexões dramáticas determinadas pelo volume e entonação da voz, além da perspectiva do texto.
O uso de artes visuais pode colaborar bastante no entendimento da história. Segundo a especialista em educação Marjorie Coheen Manifold, em seu texto “Art Education in the Social Studies”, o estudo de obras de arte do passado promove o entendimento dos valores da sociedade da época e como a arte foi influenciada pelas crenças econômicas, políticas e sociais. Um outro exemplo do impacto destas crenças na sociedade (desta vez, abordando a má influência) é dada pelo historiador Eric S. Yellin em seu livro “Racism in the Nation’s Service”, onde aborda o impacto da política racista do presidente americano Woodrow Wilson na década de 1910, que reverteu 30 anos de políticas integracionistas. Recomendo pessoalmente o livro, que pode ser lido gratuitamente em pdf, disponibilizado o pelo projeto educacional mantido por editoras norte-americanas chamado “Project Muse”.
Os amantes dos quadrinhos ficarão felizes em saber que esta forma de arte, que durante décadas foi desprezada, vem ajudando na alfabetização e estimulo à leitura. Histórias em quadrinhos – em especial as chamadas graphic novels – comprovadamente auxiliam na compreensão e na interpretação dos textos. Um estudo publicado na revista “Literacy”, demostrou que quadrinhos são excelentes suportes metacognitivos a estratégias de desenvolvimento de leitura e escrita.
Os pesquisadores examinaram ainda a relação entre as graphic novels e estratégias de compreensão de leitura e descobriram que as crianças adquirem uma melhor compreensão das histórias ao lerem este tipo de quadrinhos – além de um entusiasmo maior pelo aprendizado. Uma explicação para isto, segundo os pesquisadores, é que elas utilizam uma estratégia única durante a leitura de graphic novels: conectam o estilo da letra e do formato com o elemento emocional da história, analisam as informações sobre os personagens com base nas expressões faciais e corporais, e reconhecem a mudança de tempo ao longo da história através da informação visual que acompanha o texto, mesmo que não explicitamente indicado. A combinação desses elementos, propiciados pelos quadrinhos, ajuda as crianças a deduzirem o que acontece na história.
Resultados do teste Adolescent Motivation to Read Profile (AMRP) corroboram com o estudo, ao indicar uma melhora significativa na valorização da leitura e do “autoreconhecimento” como leitor. As respostas dos participantes do teste referentes a quadrinhos, mostraram que este tipo de literatura aumenta o engajamento para a leitura e tem um impacto extremamente positivo na satisfação gerada por ela.
A integração com a arte também pode ajudar os próprios professores a melhorarem seu ensino. Novamente a IAA aparece como exemplo. A escola promove 2 vezes por ano um retiro aonde os professores são estimulados a criar arte e testar lições e métodos de ensino uns com os outros. O objetivo dos retiros é estimular um senso de comunidade, a colaboração e promover um espaço onde os próprios professores podem se desenvolver como artistas. Como bem atesta o diretor da instituição, Bobby Riley, não se pode apenas pedir que as pessoas colaborem, é preciso criar a estrutura para isto e estimular a habilidade para que a coisa aconteça.
O aprendizado é por si só uma arte. Devemos tratá-lo com a mesma seriedade com que tratamos os temas e assuntos que precisamos aprender. Isto significa pensar e debater o processo de aprendizado, desde técnicas de memorização até estratégias de retenção de conhecimento. Se queremos, de verdade, construir uma sociedade baseada no conhecimento, tudo, absolutamente tudo, deve estar relacionado de alguma forma com a arte de aprender.
Arte dentro das disciplinas – parte 1
novembro 18, 2015 § Deixe um comentário
Pretendo neste e no próximo post mostrar alguns exemplos do impacto da arte em disciplinas mais específicas. Neste primeiro, veremos integrada à escrita e matemática. Vale reforçar que o que veremos a seguir são exemplos de como algumas instituições de ensino implementaram a abordagem do uso da arte no aprendizado, não é uma “receita” e sim uma indicação do que pode ser feito. O modus operandi deve ser determinado por cada um.
A Cashman Elementary School, no estado norte-americano de Massachusetts tem experimentado a integração da música à escrita com crianças de 8 e 9 anos. Funciona da seguinte forma: a professora de música pede a seus alunos que escutem a famosa música “Dança do Sabre” do compositor armênio Aram Khachaturian em diversos momentos do dia – no recreio, na hora do lanche, etc. Depois, explica a dinâmica da música, seu tempo e instrumentação. Em seguida, os alunos são estimulados a fazerem um desenho a respeito do que sentiram em relação à música e por fim, devem criar um enredo e desenvolver uma história baseada no desenho.
Em Annapolis, no estado de Maryland, a escola Wiley H. Bates Middle School ensina a seus alunos matemática e mosaicos mexicanos ao mesmo tempo. Os alunos estudam os tradicionais mosaicos turquesas do México e criam suas próprias versões com pedaços de papel. Em seguida, recolhem amostras de diferentes tamanhos e as usam para calcular o número de peças utilizadas na obra de arte.
Outro exemplo da integração da arte com a matemática vem do estado de Nova Jersey. A Stockton University, em seu curso de matemática, usa origamis no ensino da matéria. A professora Barbara Pearl, autora do livro “Math in Motion: Origami in the Classroom”, usa a “mistura” há vários anos com resultados animadores. Ensina ângulos, frações e geometria espacial com base na arte de “dobrar papel”.
Como diz a especialista em integração da arte Laura Brino, “estudar e observar arte, sem medo de cometer algum erro, incentiva a autoconfiança e a coragem em assumir riscos”. Além de ser um modo de estimular a apreciação da cultura, que nos torna ser-humanos mais capazes.
A arte no aprendizado
novembro 11, 2015 § 2 Comentários

Na Grécia antiga havia um ramo do conhecimento denominado “arte liberal”. Consistia em uma série de assuntos e habilidades que um cidadão deveria aprender para poder exercer um papel ativo na sociedade em que vivia. Os assuntos estudados incluíam gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, teoria musical e astronomia. Para aplicar estes conhecimentos e desenvolver as habilidades necessárias para a cidadania, a pessoa deveria ainda participar de debates públicos, se “defender” em um tribunal, servir como jurado em um julgamento e participar do serviço militar. Ainda hoje se vê “ecos” dos conceitos da “arte liberal” em nossa sociedade, embora distorcida pela compartimentalização. Naquela época era tudo visto de maneira integrada, hoje como matérias individualizadas.
Alguns países têm em seu currículo do ensino médio a denominação “arte liberal”, que na maioria das vezes engloba algumas das matérias estudadas na antiguidade – e mais uma vez, compartimentalizadas. Mas essa história está mudando. Algumas escolas, notadamente nos EUA, têm implementado uma abordagem digamos, clássica, da “arte liberal”. Em uma definição filosófica de arte, estes locais têm se referido a ela não como um tema, mas como um conceito que encara os assuntos ensinados na instituição de forma mais livre, tratando cada um deles como uma “arte”. Com isto, o foco da instituição deixa de ser repassar conhecimento e se torna desenvolver um modo de pensar. Estes locais acreditam que quando tratado como arte, um assunto deixa de ser uma série de regras para memorizar e passa a ser análogo a uma linguagem a ser aprendida (comentei que era uma abordagem mais filosófica).
Para entender como funciona na prática, nada melhor do que um exemplo. A escola Wheeler Elementary, no estado de Vermont, começou a implementar esse conceito há cerca de 6 anos. Hoje ela se chama Integrated Arts Academy (IAA) e seus alunos são bons não apenas em arte. Em matemática, as notas cresceram 66%. Como conseguiram isto?
O diretor Bobby Riley atribui ao que chama de “confiança criativa”, uma mistura de pensamento altamente analítico, raciocínio e uma “voz própria” trazida pela arte. Esta confiança é estimulada pela introdução de componentes mais subjetivos aos trabalhos e tarefas. Por exemplo, em geometria os alunos avaliam a obra do artista russo Wassily Kandinsky. É promovida uma discussão abordando a sua obra e os alunos recebem como tarefa criar sua própria arte utilizando os ângulos no estilo Kandinsky. Depois, é pedido que identifiquem os ângulos utilizados e os retirem do trabalho para realizar o seu cálculo.
Algumas evidências científicas dão sustentação a esta abordagem, como aponta Wendy Strauch-Nelson que coordena outra iniciativa neste estilo no estado de Wisconsin, a ArtsCore. Segundo ela, ao incorporar movimento, desenho, pintura, música e emoções em um aprendizado, se estimula a retenção do que foi visto.
Não são apenas crianças e jovens que se beneficiam da abordagem. Em um estudo baseado em pesquisa de campo, as pesquisadoras Christine Jarvis e Patricia Gouthro, descobriram que adultos também são melhor estimulados com a integração da arte ao desenvolvimento profissional. Elas identificaram 5 grandes áreas em que a abordagem pode trazer bons resultados: (1) na exploração da aplicação da prática profissional; (2) no entendimento dos dilemas profissionais; (3) no desenvolvimento da empatia e da percepção de insights; (4) na exploração das identidades profissionais; (5) no desenvolvimento do autoconhecimento e habilidade interpessoal.
Segundo o estudo, as abordagens baseadas em artes podem ajudar a se fazer uma avaliação crítica do próprio papel e identidade dentro da profissão e considerar o impacto do seu trabalho na sociedade de uma forma mais ampla.
Agora que vimos como a arte pode beneficiar de uma maneira geral o aprendizado, pretendo nos próximos posts trazer exemplos do seu impacto em disciplinas mais específicas, como escrita, ciências e matemática. Por conta de compromissos profissionais, a partir desta semana reduzo as publicações a 1 post semanal. Pretendo retomar ao habitual 2 posts por semana tão logo seja possível.
Educação corporativa em 2020
outubro 30, 2015 § Deixe um comentário
Enquanto o tempo de uso da internet aumenta, diminui o tempo que “gastamos” lendo uma notícia ou visitando websites. Quanto mais diversificada a informação consultada, menos profundidade se dá a cada uma delas. Essa é uma tendência bem atual – não é à toa que qualquer informação no Twitter tem que ser passada em 140 caracteres.
Não é tarefa fácil analisar o impacto dessa mudança de comportamento no futuro, mas uma coisa é certa: é evidente que “consumimos” a informação de maneira diferente hoje e é essa forma que nos leva a procurar por respostas ou soluções imediatas para as questões do dia a dia. Não quero entrar em conclusões (principalmente se a prática é boa ou não), mas com base no comportamento, é compreensível a expectativa da “imediatibilidade”.
No nível corporativo, a tendência influencia a comunicação entre a empresa e seus clientes, seus funcionários, a sua infraestrutura, a sua dinâmica de trabalho, etc. Não é uma questão tecnologia apenas, é algo mais profundo. Não é uma mudança de paradigma (perdoem-me o chavão, mas em alguns momentos ele é válido) na comunicação e sim nas relações sociais. Levar em conta as implicações sociais dessa tendência auxilia a se adaptar a ela (e a se beneficiar dela, por que não?).
Em educação corporativa, penso que essa tendência pode (e deve) influenciar a maneira como os funcionários “visualizam” seu próprio treinamento. Na minha opinião, essa “visualização” passa (ou vai passar) por alguns pontos:
- Uma forte preferência para canais de comunicação que permitam transmissão de dados tanto síncrona quanto assíncrona. Para quem não está familiarizado com os termos, dê uma olhada AQUI.
- Flexibilidade é uma expectativa chave. Funcionários esperam cada vez mais flexibilidade, em todos os níveis, com isso ela deixa de ser uma demanda e passa a ser uma necessidade.
- Flexibilidade impacta em outro tópico, autogerenciamento. Sei que não “serve” para todos os perfis, mas impacta de alguma forma na utilização do tempo, das ferramentas e dos recursos usados para o trabalho.
- O fenômeno BYOD (Bring Your Own Device – algo como “traga o seu próprio aparelho) é cada vez mais notável. A empresa deve se preparar e chegar a um acordo em relação ao uso de aparelhos ou serviços que, a priori, parecem dispensáveis para a performance dos funcionários. Vai desde serviços e aplicativos como Evernote, até ferramentas mais complexas como os “ambientes de desenvolvedores” nas nuvens (os IDEs).
- Informações apresentadas de forma clara e direta. A tendência descrita no início do texto, impacta diretamente aqui. As pessoas tendem a se beneficiar mais tendo contato com o “núcleo” da questão.
- Outro ponto em relação à apresentação de informação diz respeito à sua aparência. A tendência também influencia diretamente no modo como se “escolhe” a informação, portanto fazê-la parecer interessante e chamativa é importante (novamente, não entro em conclusões em relação à qualidade da prática). Dessa maneira, o conteúdo multimídia se torna especialmente relevante.
- É indispensável considerar a mobilidade como ponto fundamental na educação corporativa. Não apenas na “entrega” ou disseminação da ação educacional, mas como um modo de facilitar a ubiquidade[1] dos funcionários.
Concorde-se ou não com a tendência exposta, é preciso ter em mente duas coisas. A primeira é que a razão disto não é a tecnologia, mas o uso que escolhemos fazer dela. O elemento “tempo” foi propositalmente deixado de fora quando se criou a “programação computacional”. Isso quer dizer que para a “máquina” pouco importa se você vai responder uma mensagem em 2 segundos ou em 10 horas. Dá no mesmo para ela, o que importa são os comandos. A “máquina” só vai enviar quando você der o comando “send”.
A segunda é que na era da conectividade permanente, o aprendizado tende a caminhar para o não-formal. Isso quer dizer que colocar um grupo em um mesmo espaço para participar de um treinamento ou um workshop corporativo nos moldes tradicionais vai ser, cada vez mais, difícil. É preciso começar a deixar um pouco de lado os conceitos do Malcolm Knowles (que popularizou o modelo palestra/curso/workshop) e começar a “misturar” Alan Turing com John Dewey, incluir a tecnologia e a implementação prática para estimular o aprendizado.
[1] Não é um termo usual, mas significa a faculdade “divina” de estar concomitantemente “presente” em toda parte e a todo momento.