Criando uma “nuvem de palavras”
junho 18, 2015 § Deixe um comentário
A “nuvem de palavras” – no original word cloud – vem sendo usada há alguns anos para mostrar a força de certas palavras em relação a outras em um determinado texto, discurso, etc. Está se tornando popular também o seu uso educacional e não é difícil ver o porquê. É uma ótima maneira para os estudantes sintetizarem e resumirem informações, chegarem ao cerne de uma questão e visualizarem ideias e conceitos importantes de forma rápida.
Além disto, “nuvens de palavras” utilizam-se de uma característica fundamental dos seres humanos, a afinidade para o visual (são particularmente úteis para os aprendizes visuais). Se estiver interessado em utilizar a ferramenta, é preciso ter em mente que o processo de criação de “nuvens de palavras” é tão importante quanto os seus resultados. Deve ser usada em atividades estimulantes que engajem inclusive aprendizes relutantes. Já que mencionei resultados, vale a penas listar alguns vindos do uso de “nuvens de palavras” no ambiente educacional:
1) Ajuda a melhorar o vocabulário.
2) Podem ser usadas como ferramenta de auto-avaliação, quando os aprendizes estiverem escrevendo seus textos.
3) Podem ser usadas como “estratégias de ativação” – que é estimular o pensamento crítico por meio da associação de um tópico de estudo à um assunto ou conceito relacionado.
4) Podem ser usadas como ferramenta de integração – é particularmente útil para aprendizes tímidos que precisam se apresentar ou a algum tópico.
5) Ajuda no entendimento da importância das avaliações – excelente para apresentar rubricas que mostrem suas expectativas, os critérios de avaliação e a descrição dos níveis de qualidade esperados.
Uma boa dica para quem quer começar a utilizar a “nuvem de palavras”, é o site Word it Out que traz uma ferramenta online fácil de usar (a imagem no início deste texto foi feita por ela).
O que a matemática no PISA me ensinou
junho 16, 2015 § 5 Comentários

Historicamente, as aulas de matemática valorizam um único tipo de aluno: aquele que consegue memorizar bem e calcular rápido. No entanto, dados dos 13 milhões de alunos que fizeram os testes PISA, mostraram que os estudantes que alcançaram as notas mais baixas em todo o mundo, foram exatamente aqueles que utilizaram a estratégia de memorização no seu aprendizado. Esta estratégia é aquela que estimula a pensar a matemática como um conjunto de métodos de memorização – alguém se recorda dos exercícios para decorar a tabuada? Em contrapartida, os alunos com maior rendimento foram aqueles que abordavam a matemática como um conjunto conectado de grandes ideias. Estes dados podem ser verificados pelos resultados do PISA de 2012, disponibilizados pela OECD.
Esta diferença de performance se deu porque a matemática, ao contrário do que nosso sistema educacional sugere, é um assunto amplo e multidimensional. A verdadeira matemática deve estimular investigação, comunicação, conexões e ideias visuais. Ela envolve Conexão de Conhecimento e não apenas repasse.
O Brasil, em minha opinião, não precisa de alunos que possam calcular rapidamente. Precisamos sim, de aprendizes que possam fazer boas perguntas, mapear caminhos, encontrar soluções para questões complexas, configurar modelos e se comunicar em diferentes formas. Todas essas habilidades deveriam ser encorajadas pelo nosso sistema educacional e nossa posição no teste – 38º de 44 países – deveria gerar não apenas indignação, mas um amplo debate (não bate-boca ou concurso de gritos – como tenho visto por aí) para pensarmos os objetivos que queremos para nossa sociedade e o que precisamos fazer para alcançá-los. A construção da Base Nacional Comum (BNC) pelo MEC – que é a definição do que é essencial ser aprendido – é um primeiro passo para isto, mas só vai realmente contribuir para o desenvolvimento do país se for sustentada por modelos educacionais que privilegiem a aplicação prática do que é aprendido.
Infográficos Flipped Classroom e Project-Based Learning
junho 11, 2015 § 1 comentário
Acredito no poder do compartilhamento, inclusive esse foi o conceito que me motivou a lançar alguns anos atrás esse espaço. Como mais uma forma de partilhar o que tenho aprendido, resolvi “abrir” uma nova página no site para disponibilizar materiais originais, frutos dos meus estudos. É a seção “Publicações” que pode ser acessada pelo menu aí do lado esquerdo.
A primeira “publicação” disponibilizada é um kit de infográficos com 2 modelos educacionais que têm chamado muito a minha atenção: Flipped Classroom e Project-Based Learning. O primeiro, estimula o desenvolvimento do pensamento crítico (que é entender o mundo à volta e a sua relação com ele) e o segundo, o pensamento reflexivo (criar algo novo a partir do seu conhecimento). Os infográficos trazem o passo a passo para implementar tanto um quanto o outro.
Como o que é de graça nem sempre é valorizado, na “minha mão” sai pelo módico preço de… 1 compartilhamento. Pode ser via Twitter, um post no Facebook ou um post no LinkedIn, você escolhe a melhor forma. Aqui devo um agradecimento especial ao meu amigo Illan Sztejnman pela ideia.
Você pode baixar pela seção ou neste post, ambos clicando no botão abaixo. Ah, quem puder, me dê um feedback do material (na seção “O Escritório” tem um formulário de contato).
5 dicas para começar a usar o blog como ferramenta educacional
junho 3, 2015 § Deixe um comentário

No post anterior comentei os motivos pelos quais considero que o blog deve ser encarado como uma ferramenta educacional de ponta. Neste, pretendo abordar 5 dicas rápidas para colocar a ferramenta em prática e tornar sua experiência de implementação quase um “passeio no parque”.
Use um aplicativo de blog simples
Sugiro que comece procurando aplicativos populares de blog (não é por acaso que são populares). Há alguns específicos para serem usados como ferramenta educacional, são os chamados “classroom blogging apps”. Os mais usados dessa vertente são:
Edublogs, permite que se crie e gerencie blogs (tanto de aprendizes quanto de professores), personalize projetos e inclua vídeos, fotos e podcasts.
Kidblog, possui ferramentas que ajudam os aprendizes a escreverem com segurança antes de publicarem online. Esse aliás é um dos grandes debates acerca da utilização da internet como ferramenta educacional, a necessidade de se promover o “digital citizenship”. É preciso garantir aos estudantes um espaço seguro para exercerem sua “cidadania digital”, com monitoramento de toda a atividade pelos professores.
Os blogs tradicionais como Blogger, WordPress, Weebly e Tumblr (para photoblogs) também são boas opções.
Dê o “pontapé inicial”
Se você utilizar o modelo de blog comunitário ao invés do individual, não se esqueça de que é sua responsabilidade fazer os posts iniciais e estimular o comentário dos aprendizes. À medida que eles demonstrarem tanto entusiasmo quanto responsabilidade com seus comentários, dê-lhes mais liberdade, concedendo o direito a escrever no blog comunitário. Ou então, os estimule a criar seus próprios blogs.
Crie uma rubrica
Rubricas são ferramentas educacionais usadas para avaliar o desempenho dos aprendizes. São essenciais para fornecer explicações detalhadas para uma tarefa. Além de facilitar o entendimento dela pelos aprendizes, os ajuda a checar sua performance individual. Não deixe de incluir as suas expectativas para a tarefa, assim como responder aos comentários. Para mais informações a respeito de rubricas e como implementá-las em seu blog, recomendo a seção a respeito de avaliações do site EdTech Teacher.
Defina seu público
Criar um público “cativo” para o blog é importante para os aprendizes encararem a ferramenta como uma oportunidade para mostrarem seu aprendizado (e talento), além de gerar feedbacks realmente construtivos. Inicialmente, o professor e os colegas de classe são a melhor audiência para o blog, mas considere a possibilidade de compartilhar com outros, como pais ou familiares.
Use conteúdos concisos
Peças concisas e fáceis de ler são ideais para a maioria dos leitores online. Textos mais longos, complexos ou complicados podem confundir e afugentar seus aprendizes. Exerça e estimule a assertividade. Ir direto ao ponto é uma habilidade valiosa, tanto na carreira acadêmica quanto na profissional. Seus aprendizes agradecerão.
Que tal começar um blog?
junho 1, 2015 § Deixe um comentário
Blogs podem ser usados para expandir a criatividade dos aprendizes e as suas habilidades de escrita, mas são constantemente menosprezados como ferramenta educacional. Apesar de serem rapidamente criados, surpreendentemente fáceis de usar, facilmente mantidos e exigirem conhecimento técnico mínimo, muita gente “torce o nariz” para a simples sugestão “por que você não cria um blog?”.
Um dos motivos pode ser o fato de ser uma ferramenta “antiga” na sempre inovadora internet ou então a falta de credibilidade que muitos atribuem ao conteúdo deles (apesar do “jornal” mais lido na internet ser um blog, o Huffington Post).
De qualquer forma, pretendo explorar 4 motivos pelos quais o blog deve ser considerado uma ferramenta educacional de ponta:
1. Permite uma aprendizagem multifacetada: já é largamente aceito que deve-se proporcionar múltiplas formas de aprendizagem porque cada um aprende de maneira diferente. Não cabe aqui insistir nisto, então sugiro apenas que reflitam na possibilidade de usar um blog para proporcionar diferentes maneiras de um aprendiz demonstrar o seu aprendizado. Por exemplo, uma pessoa tímida pode sentir menos pressão quando precisar “falar” a respeito de um tema em seu blog ou quando precisar dar feedback aos seus pares. Sem contar que o formato de registro diário proporcionado por um blog funciona muito bem com aprendizes visuais e com os chamados read-and-write learners (os que aprendem melhor lendo e anotando, como este que vos escreve).
2. Blogs ajudam a alfabetizar e aguçar habilidades de escrita: “bloggar” permite que os aprendizes se tornem “autores publicados” e mostrem suas habilidades de escrita. Funciona como uma “aula de redação” on-the-job, além de “treinar” sua escrita a pessoa pode receber dicas para melhorar dos seus próprios “leitores”. “Falando” nisto, este é um dos maiores benefícios de um blog, dar aos aprendizes a capacidade de melhorar a comunicação e a colaboração por meio do recurso “comentários”. A revisão por pares e o feedback tornam-se uma parte valiosa do processo de aprendizado. Outro ponto importante é o aumento da atenção quando se sabe que o que se escreve será lido por várias pessoas. Cada palavra, frase, sentença e pontuação adquire outro status.
3. Blogs são acessíveis e engajadores: com a disponibilização cada vez maior de aplicativos de blog, o seu uso tornou-se ainda mais simples e acessível. Pode-se escrever sobre qualquer coisa, de qualquer lugar, sempre que estiver com vontade. Não estarmos “amarrados” a uma mesa, estimula que nos sintamos mais livres para usar a “mídia” escrita. Nunca é demais reforçar que escrever melhora a capacidade de refletir a respeito do “mundo à volta”. Junto com outros artefatos multimídia como fotografia e vídeos, os blogs transcendem a “formação” de “escritores”, estimulando uma abordagem mais ampla da comunicação.
4. Blogs podem servir como ferramenta de gestão de “sala de aula”: para finalizar, quando usados como ferramenta para disponibilizar atividades e exercícios, tanto dentro quanto fora da “sala de aula”, ajudam a manter o foco e o engajamento nas atividades propostas. Além disto, ao se criar blogs “comunitários” (ao invés de blogs individuais), promove-se comunidades online para os aprendizes e amplia-se a “sala de aula” para além das quatro paredes. O aprendizado continua onde quer que se vá, estimulando que os pensamentos e conversas dos aprendizes se perpetuem.
STEM e a gente
maio 28, 2015 § Deixe um comentário
STEM é o acrônimo para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (em inglês, science, technology, engineering e mathematic). O termo é utilizado para nomear políticas educacionais e curriculares feitas especificamente para as áreas. O interesse vem crescendo em diversos países pelo fato da maioria das projeções para criação de vagas de emprego no mundo, sinalizarem um aumento para os 4 campos. Não por acaso, são os campos de trabalho que mais geram inovação. Vale também uma explicação específica do termo “engenharia”. No Brasil, geralmente o relacionamos à engenharia civil, mas ele é mais amplo abarcando cerca de 30 tipos de engenharia, incluindo da computação, ambiental, elétrica, etc. O que une todas é o fato de serem ciências exatas.

Outro ponto importante é o fato do pensamento criativo ser uma das habilidades básicas destas profissões, portanto um currículo baseado nas 4 áreas estimula o seu desenvolvimento e impacta o sistema educacional como um todo. Alguns consideram o currículo baseado em STEM o benefício mais importante que uma “escola moderna” pode oferecer aos seus alunos.
Mas, o que isso tem a ver com a gente? A lei das diretrizes e bases da educação (lei 9394 de 1996) define que os estabelecimentos de ensino são responsáveis por “elaborar e executar sua proposta pedagógica”. Isto quer dizer que é incumbência de cada escola e instituição de ensino no Brasil definir o seu currículo, metodologia e método de ensino. Liberdade total, no papel. Há um porém, devem necessariamente respeitar “as normas comuns e as do seu sistema de ensino” que trocando em miúdos quer dizer que devem seguir as orientações dadas pela União, Estados e Municípios, o que muitas vezes limita a “liberdade” da escola. De qualquer maneira ainda há muito espaço para trabalhar, principalmente nos quesitos metodologia e método de ensino.
Nos EUA há uma linha orçamentária federal destinada a estimular a implementação de um currículo baseado em STEM nas escolas públicas e algumas delas já encorajam seus alunos a construírem robôs e ferramentas, usando tecnologias como impressoras 3D. Aqui no Brasil há iniciativas voltadas à formação dos professores das áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática para que possam preparar alunos de escolas públicas para a faculdade e uma carreira mais próspera, como a promovida pela organização STEM Brasil.
O que une as duas iniciativas (americana e brasileira)? A metodologia baseada em projetos (project-based learning) que comentei alguns posts atrás. Fica a dica para nossas escolas se inteirarem mais a respeito da obra do John Dewey.
Motivação, performance e aprendizado
maio 22, 2015 § Deixe um comentário

Em 2009, a dra. Heidi Grant Halvorson1 conduziu um teste para avaliar a motivação e o seu impacto na performance. Ela dividiu os participantes em 2 grupos: o grupo dos “seja bom” e o grupo dos “faça melhor”. Ao primeiro grupo, disse que o resultado do teste “refletiria as suas habilidades conceituais e analíticas”, ao segundo, que os problemas propostos eram para ajudá-los a “treinar” e que “aproveitassem a oportunidade para aprenderem o máximo possível”.
Durante os testes, a dra Halvorson aumentava a dificuldade das questões, incluindo até algumas insolúveis. Enquanto os integrantes do grupo “faça melhor” se mantiveram imperturbáveis e resolveram a maior quantidade possível de questões (fáceis e difíceis), tentando aprender o máximo que pudessem, os integrantes do grupo “seja bom” se mostraram desmotivados a medida que os obstáculos se tornavam mais desafiadores.
Segundo a pesquisadora, a diferença de performance foi causada pelo modo como as metas iniciais de aprendizado foram definidas. O aprendizado deve ser definido pelo seu objetivo global e não por objetivos de performance (como por exemplo, “aumentar o índice de aprovação para 80%”). A performance é consequência e não razão de um aprendizado.
Esse e outros cases podem ser encontrados no livro “ Succeed: How We Can Reach Our Goals”.
1 Halvorson, Heidi Grant. Succeed: How We Can Reach Our Goals. Plume. 2011. p64-68.
Educação no ar – parte 3
maio 20, 2015 § 1 comentário

3. Empowerment
É preciso, em português claro, empoderar. Dar poder às pessoas para que possam realizar suas ambições e experiências. Talvez, essa seja a atitude mais difícil de se aplicar quando “falamos” em educação. Há muita amarra, burocrática e mental, quando se faz qualquer proposta educacional que envolva colocar a responsabilidade nas mãos dos agentes finais, professores e aprendizes. No entanto, é o primeiro passo a se dar no caminho de uma mudança no sistema educacional de qualquer país.
A primeira amarra discutida durante o evento, foi a relacionada ao empoderamento dos alunos. A Google tem um projeto em parceria com diversas escolas espalhadas pelos EUA, Canadá e Reino Unido, que envolve a mudança do conceito de “sala de aula”, inclusive como espaço físico, por meio do uso da tecnologia. A empresa distribui chromebooks (que é a nova geração de notebooks) e tablets para professores e alunos e banca a reforma física da sala de aula. Saem carteiras e lousas e entram mesas compartilhadas, pufes, conexão wi-fi e os equipamentos. Os professores e alunos participantes tem a responsabilidade de cuidar do espaço e dos equipamentos e implementar um método de ensino e aprendizado que envolve “tangibilizar” o assunto estudado. Por exemplo, para estudar o funcionamento dos vulcões, é preciso pesquisar imagens, vídeos ou sites que mostrem vulcões em atividade e como eles funcionam. O aprendizado no caso, está literalmente na mão dos alunos, responsáveis em localizar essas informações. O professor atua como facilitador e participante do processo ao promover as discussões sobre o tema e o direcionamento das atividades, utilizando seu conhecimento de formação.
Um dos primeiros bloqueios que a Google encontrou foi contra a ideia de colocar equipamentos eletrônicos nas mãos da garotada, em horário de aula. Imaginando os diálogos que teriam de travar, se tal projeto fosse proposto aqui no Brasil, certamente chegaríamos a algo parecido com: “eles vão usar o tablet para acessar o youtube para ver o clip do Mr. Catra”. Com certeza vão, mas também usarão o youtube para ver o vídeo a respeito de sintaxe da língua portuguesa, recomendado pelo professor. Ou então, “vão acessar o Facebook para fofocar”. Novamente, tenho certeza que vão, mas também acessarão o Facebook para compartilhar o link de um assunto referente à matéria vista. A verdade é que as duas coisas aconteceriam (o estudo e o entretenimento), mas o fato de uma acontecer não inviabiliza que a outra aconteça também e não é justificativa para que se negue a implementação de um projeto-piloto do tipo. A Google conseguiu “vencer” essa resistência inicial e tem cases para mostrar.
A segunda amarra é em relação à iniciativa dos professores. Muitos tem boas ideias e vontade de as colocar em prática, mas são sistematicamente “sabotados” por instituições, governos e outros envolvidos (inclusive professores e pais de alunos). Um caso que me chamou bastante atenção foi da professora Esther, de uma escola em Palo Alto, na Califórnia. Em 1984, Esther se “apaixonou” por um computador da Apple e o queria utilizar para dar um “gás” em suas aulas. Mas, o preço do equipamento estava muito acima das suas disponibilidades (US$5.000 na época, segundo ela, era dinheiro que não acabava mais). A primeira porta que ela “bateu” para tentar levantar o equipamento foi na secretaria de educação da Califórnia. Chegando lá, foi sonoramente ignorada, aula, segundo os burocratas da secretaria, tinha que ser dada com livros e apostilas. A segunda porta, foi a da própria Apple. A empresa enviou gratuitamente 10 computadores para a escola. Esther, que nunca tinha tocado em um computador antes, foi auxiliada pelos próprios alunos e começou a dar suas aulas usando os equipamentos. De 1984 até meados dos anos 2000, suas aulas foram tão populares que ela se tornou diretora do colégio. Nesse período, foi constantemente assediada pelos “district inspectors”, espécie de fiscais da secretaria de educação, para que encerrasse suas aulas por computador (novamente, tinha que usar livros e apostilas). Somente em 2005, o governo da Califórnia autorizou que fossem usados computadores para aulas de qualquer matéria nas escolas do estado (mais de 20 anos depois de Esther ter começado as suas). Isto aconteceu em um estado que é o “celeiro tecnológico” do mundo, imagine em locais com menos tradição tecnológica?
Isso prova que pessoas são sempre mais ágeis do que instituições e governos. Portanto, tem que ser colocada em suas mãos a capacidade de implementar uma nova prática educacional, sem burocracia, mas com indicadores claros de avaliação (afinal, é preciso saber se está dando certo). Ao conhecer o caso contado pela Esther, veio imediatamente na minha mente um trecho da canção “Civil War”, da banda Guns n Roses: “você não pode confiar na liberdade, quando ela não está em suas mãos”. Nada mais verdadeiro.
Quem quiser assistir aos vídeos das conferências e sessões que ocorreram durante o “Education on air”, basta clicar AQUI. A Google as disponibilizou On Demand. Espero que tenham para vocês um impacto semelhante ao que tiveram para mim, apesar do meu final de semana ter começado apenas no sábado, às 22h30 (esse negócio de fuso horário é brabo).
Educação no ar – parte 2
maio 18, 2015 § 1 comentário

2. Project-based learning
Foi o método educacional mais debatido durante as conferências. Um dos motivos é o fato da maioria dos participantes do evento serem de língua inglesa e esses países são muito influenciados pelo trabalho do John Dewey (já o citei em posts anteriores). John Dewey representa para eles o que Paulo Freire e Darcy Ribeiro representam para nós, brasileiros, um patrono educacional.
O enfoque do John Dewey estava ligado à ideia de que o sistema educacional deveria ser centrado no aluno e no provimento de experiências de aprendizagem, como forma de ligar o aluno ao seu meio social. Aqui no Brasil esse enfoque ficou conhecido como Escolanovista ou Progressista. Project-based learning nada mais é do que a releitura atual das ideias de Dewey e tem o objetivo de provocar o aprendizado por meio da experiência gerada pelo desenvolvimento de projetos. Para tangibilizar o conceito, vou compartilhar alguns casos apresentados.
Uma escola em San Diego, na Califórnia, precisava reformar a biblioteca. Organizou então um projeto com os alunos para levantar o dinheiro, que envolvia a abertura de um Food Truck. Os alunos tiveram que se organizar e tocar o projeto, levantando desde as licenças necessárias na prefeitura, até resolver como o Food Truck seria adquirido e administrar o negócio. Durante o projeto, tiveram que desenvolver habilidades como empreendedorismo, negociação, matemática financeira, contabilidade, culinária, dentre outras (olha a interdisciplinariedade aí, na prática).
Há 3 anos, uma adolescente, Brittany Wenger (na época com 17 anos), ficou muito abalada com o câncer de mama desenvolvido por uma prima. A partir daí, quis saber mais a respeito da doença e começou a trabalhar com o seu professor de biologia para aprender tudo o que pudesse sobre o câncer e o funcionamento do seio feminino. A medida que seu conhecimento sobre o assunto aumentava, deu início a um “projeto” pessoal, queria desenvolver uma ferramenta que ajudasse na identificação do câncer de mama. Foi estudar programação no próprio colégio e desenvolveu um aplicativo chamado “cloud4cancer” que ajuda a determinar se a massa encontrada no seio, em um exame do toque, é maligna ou benigna, por meio de um algorítimo que analisa os padrões da imagem em todos os bancos de dados públicos disponíveis nos EUA sobre o assunto. Acuracidade da resposta bate a casa dos 99%. Brittany, hoje com 20 anos, cursa a faculdade de programação.
O Project-based learning permite que se coloque em prática uma dica dada pelo Laszlo Bock, que é o Diretor de RH da Google (ou como eles chamam por lá, Google’s People Chief). Ele disse, “don’t trust your guts”, algo como “não confie nos seus instintos”, a frase, colocada no contexto correto, significa que não devemos nos basear no “achômetro”, é preciso praticar e testar para saber se uma ideia vai dar certo, ou seja, ter experiência.
Educação no ar – parte 1
maio 14, 2015 § 1 comentário

Esse foi o nome da conferência focada em educação organizada pela Google, que aconteceu nos dias 08 e 09 de maio. Foram 2 dias de muito debate e compartilhamento de cases, envolvendo o tema educação. O nome da conferência, no original “Education on air”, faz mais sentido quando se sabe que ela aconteceu inteiramente online, o que não diminuiu em nada a intensidade dos trabalhos, apesar dos diferentes fusos horários envolvidos.
Me juntei à participantes e conferencistas de toda a parte do mundo, principalmente dos EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália, Índia (os países de língua inglesa compareceram massivamente), mas também da Finlândia, Filipinas e México, dentre outros. No primeiro dia, as discussões tiveram um viés mais conceitual, em que foram debatidas teorias, métodos educacionais, papel da comunidade e governo e analisados casos. O segundo dia, apesar de igualmente interessante, foi mais voltado ao uso educacional das ferramentas do Google (como dizem os americanos, “não existe almoço grátis”). Pretendo compartilhar nesse e nos próximos 2 posts o que vi de mais interessante nas sessões que tomei parte.
1. Quais são as habilidades do futuro?
Esse foi o tema que tomou a maior parte do primeiro dia. Apesar de cada um ter sua própria opinião (principalmente os especialistas), duas delas foram bastante citadas e me chamaram a atenção pelas consequências envolvidas.
A primeira é a programação, ou usando o nome moderno, “coding”. Para falar a verdade, comecei a refletir na necessidade do coding como habilidade há 2 anos, em um curso que tomei parte no MIT (se chamava “learning creative learning”). O mote na ocasião, era de que o mundo estava se tornando cada vez mais digital e não entender de programação seria como saber ler, mas não escrever, ou seja, sua participação ficaria restrita, como ator passivo, apenas “consumindo” o que é criado por outros. Essa abordagem continua válida, mas acrescenta-se outra, que é a interdisciplinariedade que o coding permite.
Recentemente a Finlândia mudou o seu currículo educacional e a sua experiência vem sendo acompanhada com interesse pelo restante do mundo, por ser um caminho para o tipo de sistema educacional que se pensa adequado à realidade do século XXI. Em primeiro lugar, reduziram as disciplinas ensinadas e focaram na integração das disciplinas antigas em novas. Por exemplo, a de coding envolve matemática, geometria, biologia e robótica. Integrar mais as áreas de conhecimento pode ser a solução para a questão do tempo restrito que se tem para “ensinar” tudo que os currículos educacionais consideram importante.
A segunda habilidade foi a resolução de problemas. Se debateu muito sobre a necessidade dos sistemas educacionais formarem indivíduos que tenham realmente a capacidade de identificar uma necessidade ou problema e propor soluções para ele. A habilidade de resolução de problemas envolve outras como flexibilidade, capacidade de adaptação e de colaboração. Como bem colocado por um dos conferencistas, lord David Puttnam, produtor de filmes como “Carruagens de Fogo” e “A Missão”, “não vivemos mais em uma sociedade mediana”. Há 60, 50 anos era possível viver muito bem sendo um profissional mediano, hoje a norma é a excelência. São poucos os que conseguem alcançar a excelência por conta própria, por isso, para sermos excelentes de fato, temos que ser cada vez mais colaborativos e trabalhar em conjunto para que os resultados alcançados estejam dentro do “padrão excelência”.



