Diferentes níveis de atenção para diferentes tarefas

novembro 6, 2015 § Deixe um comentário

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No dia a dia temos a tendência de entender os estados de atenção de maneira direta: “estamos prestando atenção” ou “não estamos”. O primeiro caso é encarado como bom, o segundo não. A verdade é que as coisas são um pouco mais complicadas do que isto.

Um estudo publicado na revista “Nature” há alguns meses sugere que pessoas criativas (retomando o assunto do post anterior) têm maiores ligações entre duas áreas do cérebro que são normalmente difíceis de conciliar: a rede associada com foco e controle da atenção e a rede associada com a imaginação e espontaneidade.

Um dos autores do estudo, Scott Barry Kaufman, diz que “as pessoas criativas não são caracterizadas por qualquer um desses estados por si só”. Segundo ele, a capacidade de adaptação e a capacidade de misturar estados de atenção e desatenção (aparentemente incompatíveis de coexistir), dependendo da tarefa, estimula mais a “conexão de ideias” do que simplesmente dedicar “toda a atenção”, como costumamos acreditar. Brinca dizendo que “pessoas criativas têm mentes confusas”.

Isto me faz recordar daquelas “horas” – que costumo chamar de “momento eureka” – em que se está assistindo televisão, lendo um livro ou tomando banho e aparece aquele “clique”, aquela “conexão” que estava faltando para resolver um determinado problema. Reforçando a ideia, também já comentada no post anterior, é a livre associação que permite que o cérebro faça conexões mais variadas. De qualquer forma, creio que criatividade e flexibilidade andam juntas, uma vez que ao diversificarmos nossas experiências, nos “empurramos” para fora do nosso padrão de pensamento “normal”.

P.S: A imagem “provocadora” que abre o texto é de um artista australiano chamado Tony Albert. Quem se interessar, pode encontrar mais trabalhos dele AQUI.

Divergir para convergir

novembro 3, 2015 § 1 comentário

No seu nível mais básico, novas ideias têm a ver com novas conexões. Não sei se é verdade, mas é atribuída a Steve Jobs uma frase que diz mais ou menos o seguinte: “criatividade é apenas conectar coisas”. Se foi ele mesmo (ou algum anônimo), a verdade é que a frase tem um fundo de verdade, pelo menos quanto à forma como o cérebro “cria” novos conhecimentos. Quando aprendemos algo novo, nossos neurônios se conectam entre si, formando “redes” de compreensão. Pode-se considerar que a diferença entre um cérebro “criativo” e um cérebro médio é a quantidade e a força das conexões neurais e a habilidade em criá-las. Este mesmo processo (conexão neural) também está relacionado ao processo natural de formação do que chamamos de “inteligência”. Será que inteligência e criatividade é a mesma coisa – criação de conexão (como na frase citada no início do texto)?

Uma pesquisa feita pelo California Institute of Technology (também conhecido como Caltech), mostrou que a inteligência é algo que se encontra por todo o cérebro. Os pesquisadores descobriram que, ao invés de estar residente em um único local, a inteligência geral é determinada por uma rede de regiões em ambos os lados do cérebro. Já a criatividade, conforme mostrou uma pesquisa feita em 1921 pelo psicólogo Lewis Terman, nem sempre anda de mãos dadas com a inteligência. No estudo feito há 94 anos, Terman descobriu que após certo nível, a inteligência não tem muito efeito sobre a criatividade. Este estudo e subsequentes deram origem à chamada “teoria da soleira” (no original, “threshold theory”).

Por que essa história é importante? Porque ela demonstra que criatividade está ligada à forma de pensar e não ao QI (essa introdução toda foi para podermos chegar a este ponto). É muito popular hoje em dia as ideias do Joy Paul Guilford a respeito do pensamento convergente e divergente. Também é muito popular vê-los como opostos. O primeiro estaria ligado à capacidade de se chegar a uma única e bem estabelecida resposta a determinado problema. O pensamento convergente enfatiza a velocidade, a precisão e a lógica e centra-se no reconhecimento do familiar, nas técnicas de reaplicação e no acumulo de informações.

Em contraste, o pensamento divergente normalmente ocorre de maneira espontânea, com fluxo livre, onde muitas ideias são geradas e avaliadas. Várias soluções possíveis são exploradas em um curto espaço de tempo e conexões inesperadas são desenhadas.

Testes de múltipla-escolha são exemplos clássicos da utilização prática do pensamento convergente (testes de QI também) e o método de brainstorming é o exemplo clássico da utilização do pensamento divergente.

Na maioria das vezes, os dois tipos de pensamento são “vendidos” como não conciliáveis. Como opções a serem feitas: ou se é lógico ou se é criativo. A verdade é que para ser criativo, é preciso ser lógico também. Criatividade envolve um processo cíclico de geração de ideias associado a um trabalho sistemático que ajude a selecionar as que realmente têm possibilidade de “frutificar”. Criatividade deveria ser vista como 2 estágios, o de geração – que envolve o pensamento divergente – e o de exploração – que envolve o pensamento convergente (para mais detalhes, sugiro o artigo do cientista Scott Barry Kaufman, publicado na revista “Psychology Today”).

Acredito que a criatividade está ligada à associação e essa associação é facilitada pela diversificação de informações e conhecimentos que se tem. Ser curioso intelectualmente é um bom jeito para estimular a sua criatividade. É aquela história, se você lê (ou faz) o mesmo que todo mundo, vai pensar do mesmo jeito que todo mundo.

Educação corporativa em 2020

outubro 30, 2015 § Deixe um comentário

lifelong-learning-companies-21st-century Enquanto o tempo de uso da internet aumenta, diminui o tempo que “gastamos” lendo uma notícia ou visitando websites. Quanto mais diversificada a informação consultada, menos profundidade se dá a cada uma delas. Essa é uma tendência bem atual – não é à toa que qualquer informação no Twitter tem que ser passada em 140 caracteres.

Não é tarefa fácil analisar o impacto dessa mudança de comportamento no futuro, mas uma coisa é certa: é evidente que “consumimos” a informação de maneira diferente hoje e é essa forma que nos leva a procurar por respostas ou soluções imediatas para as questões do dia a dia. Não quero entrar em conclusões (principalmente se a prática é boa ou não), mas com base no comportamento, é compreensível a expectativa da “imediatibilidade”.

No nível corporativo, a tendência influencia a comunicação entre a empresa e seus clientes, seus funcionários, a sua infraestrutura, a sua dinâmica de trabalho, etc. Não é uma questão tecnologia apenas, é algo mais profundo. Não é uma mudança de paradigma (perdoem-me o chavão, mas em alguns momentos ele é válido) na comunicação e sim nas relações sociais. Levar em conta as implicações sociais dessa tendência auxilia a se adaptar a ela (e a se beneficiar dela, por que não?).

Em educação corporativa, penso que essa tendência pode (e deve) influenciar a maneira como os funcionários “visualizam” seu próprio treinamento.  Na minha opinião, essa “visualização” passa (ou vai passar) por alguns pontos:

  • Uma forte preferência para canais de comunicação que permitam transmissão de dados tanto síncrona quanto assíncrona. Para quem não está familiarizado com os termos, dê uma olhada AQUI.
  • Flexibilidade é uma expectativa chave. Funcionários esperam cada vez mais flexibilidade, em todos os níveis, com isso ela deixa de ser uma demanda e passa a ser uma necessidade.
  • Flexibilidade impacta em outro tópico, autogerenciamento. Sei que não “serve” para todos os perfis, mas impacta de alguma forma na utilização do tempo, das ferramentas e dos recursos usados para o trabalho.
  • O fenômeno BYOD (Bring Your Own Device – algo como “traga o seu próprio aparelho) é cada vez mais notável. A empresa deve se preparar e chegar a um acordo em relação ao uso de aparelhos ou serviços que, a priori, parecem dispensáveis para a performance dos funcionários. Vai desde serviços e aplicativos como Evernote, até ferramentas mais complexas como os “ambientes de desenvolvedores” nas nuvens (os IDEs).
  • Informações apresentadas de forma clara e direta. A tendência descrita no início do texto, impacta diretamente aqui. As pessoas tendem a se beneficiar mais tendo contato com o “núcleo” da questão.
  • Outro ponto em relação à apresentação de informação diz respeito à sua aparência. A tendência também influencia diretamente no modo como se “escolhe” a informação, portanto fazê-la parecer interessante e chamativa é importante (novamente, não entro em conclusões em relação à qualidade da prática). Dessa maneira, o conteúdo multimídia se torna especialmente relevante.
  • É indispensável considerar a mobilidade como ponto fundamental na educação corporativa. Não apenas na “entrega” ou disseminação da ação educacional, mas como um modo de facilitar a ubiquidade[1] dos funcionários.

Concorde-se ou não com a tendência exposta, é preciso ter em mente duas coisas. A primeira é que a razão disto não é a tecnologia, mas o uso que escolhemos fazer dela. O elemento “tempo” foi propositalmente deixado de fora quando se criou a “programação computacional”. Isso quer dizer que para a “máquina” pouco importa se você vai responder uma mensagem em 2 segundos ou em 10 horas. Dá no mesmo para ela, o que importa são os comandos. A “máquina” só vai enviar quando você der o comando “send”.

A segunda é que na era da conectividade permanente, o aprendizado tende a caminhar para o não-formal. Isso quer dizer que colocar um grupo em um mesmo espaço para participar de um treinamento ou um workshop corporativo nos moldes tradicionais vai ser, cada vez mais, difícil. É preciso começar a deixar um pouco de lado os conceitos do Malcolm Knowles (que popularizou o modelo palestra/curso/workshop) e começar a “misturar” Alan Turing com John Dewey, incluir a tecnologia e a implementação prática para estimular o aprendizado.

[1] Não é um termo usual, mas significa a faculdade “divina” de estar concomitantemente “presente” em toda parte e a todo momento.

Edtech – Blended Learning

outubro 22, 2015 § Deixe um comentário

A abordagem para solução de “problemas” tem um apelo maior para os aprendizes do que o repasse conceitual. Este é um fato, apesar das 2 abordagens terem sua importância. O conceito tem o objetivo de fornecer um entendimento crítico a respeito de determinado tema e a implementação, de trabalhar o modo de aplicação de um determinado conceito ou propriedade intelectual. O ideal é “juntar” as duas. Esta é a base de um conceito intitulado blended learning (algo como aprendizado misturado).

Como fazemos com outros conceitos “importados” (como por exemplo, o de startup), o termo blended learning ficou restrito no Brasil à mistura presencial (sala de aula) e não-presencial (ensino a distância), mas vai bem além disto. Ele acontece sempre que se utiliza mais de um “modelo” educacional para estimular a aprendizagem.

Kavita Gupta é uma professora de química da região de São Francisco, Califórnia. Ela iniciou em 2011 uma bem-sucedida abordagem “blended”, utilizando o método de instrução direta (também chamado de “tradicional”) associado com o conceito conhecido como “flipped classroom” (abordado em posts anteriores) – que a grosso modo significa inverter a lógica da sala de aula, fazendo o “dever de casa” em sala e o repasse do conteúdo em “casa” – e com ferramentas online para suporte como podcasts gravados por ela e uma comunidade de suporte via Facebook.

Kavita viu o número de alunos matriculados para suas aulas subir 67% (de 140 para 235) e o AP scores deles (é um resultado consolidado em exame, similar ao nosso ENEM, que permite o ingresso em universidades) subir em média 12%. São números robustos, sem dúvida. Ela sintetiza a sua experiência com blended learning da seguinte maneira:

  • O modelo “liberou” tempo em sala para se aprofundar o entendimento da matéria e focar realmente na resolução de “problemas”.
  • Os estudantes se engajaram ativamente no aprendizado, trabalhando em conjunto em experiências químicas ou em avaliações por meio de tarefas.
  • O aprendizado foi individualizado e “estendido” para além do ambiente formal com a utilização do Facebook, podcasts e sites na internet.

Kavita Gupta concluiu que o modelo blended efetivamente aumentou o engajamento, melhorou o aproveitamento do tempo formal e, “de quebra”, estendeu o tempo dispendido pelos alunos em atividades de aprendizado.

A inevitabilidade da tecnologia

outubro 20, 2015 § Deixe um comentário

Uma questão que tenho ouvido com frequência é a seguinte: “é inevitável o uso da tecnologia na educação”? Como toda pergunta relevante, a resposta não é simples. Do modo como vejo, a resposta é sim e não. No longo prazo sim, é inevitável – e explicarei porque daqui a pouco. No curto e médio prazo, não. Não apenas não é inevitável, como é evitável – obviamente aceitando-se pagar os “custos” sociais que essa decisão acarreta mais adiante.

No longo prazo é inevitável por conta de uma pequena invenção feita a mais ou menos 30 anos, a internet. Ainda não nos damos conta do impacto total dela – creio que no futuro a internet irá inclusive nos modificar biologicamente – mas alguns dos seus impactos já são claramente notados, em especial os que envolvem o nosso comportamento social. Em educação, o seu maior impacto – na minha opinião – é na percepção do que significa ser um professor. Explico: antes da internet, professores (e centros educacionais) eram verdadeiramente as fontes principais de distribuição de conhecimento. Não mais. Obviamente esse tipo de mudança tem seus pontos negativos e positivos, e causa toda sorte de reação a ela, mas se servir de consolo – também na minha opinião – a importância do professor não será diminuída.

Outro grande impacto da internet na educação foi a elevação da importância de uma característica pessoal – que embora admirada, não era considerada essencial pela sociedade – a capacidade de autoaprendizado (na minha época de criança esse pessoal era chamado de “autodidata” e tinha uma áurea de genialidade). É preciso ter em mente que com centros de distribuição de conhecimentos como escolas, universidades e professores, realmente a capacidade de autoaprendizado podia ser relegada a segundo plano. Não mais.

Um dos pontos positivos que a internet possibilitou pelo autoaprendizado foi a diminuição do custo (absurdamente caro) de um aprendizado baseado essencialmente em ambientes formais. Isto dá uma capacidade de monetização a esta habilidade e poder “contar” algo em termos de “grana”, facilita o entendimento da sua relevância – principalmente quando se pode “guardar” o que se conseguiu economizar “estudando por conta própria”. Também é essa capacidade de monetização que possibilita alguém com esta habilidade “valer” mais para aquela entidade meio abstrata, o mercado.

A elevação da importância do autoaprendizado também impacta positivamente em outro tópico de grande interesse para qualquer sistema educacional, a qualidade do seu aprendizado (e é aí que está a importância – não diminuída – do professor – no estimulo desta habilidade alçada a novo patamar – a habilidade de “aprender a aprender”). Qualquer sociedade que já experimentou (ou experimenta) um processo de universalização do seu sistema educacional tem uma característica em comum: a perda da qualidade do seu ensino e aprendizado. Embora natural, é claro que não se pode “cruzar os braços” e não se fazer nada em relação a isto. Algumas sociedades optaram por definir um padrão mínimo aceitável de qualidade e estimular o aparecimento de “centros” de excelência educacional, acessíveis pelo mérito (sabemos que não só, mas também). É um caminho viável e testado – como dizem em inglês, “a sure bet”.

A outra opção é o estímulo ao autoaprendizado, embasado principalmente pelo uso da tecnologia e o acesso à internet. Podem ter a certeza de que está opção já está sendo testada – Finlândia, Canadá, Austrália, alguns estados norte-americanos, Japão, Singapura, Coréia do Sul, alguns locais da China, enfim, a lista é grande. É por esta razão que considero inevitável, no longo prazo, o uso da tecnologia na educação.

Bom, voltemos agora ao curto e médio prazo. Como citei no início do texto, ao se considerar o curto e médio prazo, não apenas não é inevitável como é possível se evitar deliberadamente a tecnologia para fins educacionais. Depende essencialmente da ideologia dos que detêm o poder de tomar ou influenciar essa decisão social (em especial as autoridades públicas, mas também os “formadores de opinião” da sociedade civil e a própria sociedade), da forma de pensar desse pessoal e, principalmente, da importância que dão ao conhecimento.

Citei também no início do texto “custos sociais”, que custos são estes? O século XXI é o “século do conhecimento” – obviamente este é um “chavão”, quem gosta de história pode nomear diversos “séculos do conhecimento” antes do atual – mas este tem uma característica peculiar. Nunca foi tão fácil criar e disponibilizar o conhecimento. Também nunca foi tão fácil “cobrar” por isso – principalmente porque a aplicação prática do conhecimento (também conhecida pelo termo “know-how”) tem uma alta capacidade de monetização. Isto quer dizer que é possível fazer a inovação virar “produtos” ou “negócios” mais facilmente. Quem conseguir estimular consistentemente o uso do autoaprendizado pela sua sociedade irá levar vantagem no “mercado” global, uma vez que terá mais capacidade de gerar consistentemente inovação e entregá-la “embrulhada pra presente”. Os lugares que citei levam vantagem por terem visualizado essa possibilidade antes e saído na frente. Os demais, terão que “correr atrás”. E a distância que deverão “tirar” dos que saíram a frente dependerá do quanto demoraram para aceitar a inevitabilidade da tecnologia.

Learning Analytics – parte 2

outubro 9, 2015 § 2 Comentários

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Terminei o post anterior com um teaser “prometendo” abordar como o conceito pode afetar no futuro o nosso entendimento a respeito do que é educação. Ao invés de “entrar direto” nesse assunto, gostaria de começar com os pontos fracos do modelo. Por mais que se acredite em algo, é preciso considerar os seus possíveis problemas. É apenas desta forma que podemos nos preparar para enfrentá-los, caso se apresentem.

A primeira “leva” deles diz respeito às suas limitações e custos. Quando indicadores (ou qualquer tipo de métrica) são utilizados para interpretar termos subjetivos (por exemplo, engajamento do aprendiz, interesses, etc.), a possibilidade de erros de interpretação é significativa. É preciso considerar esse cenário e entender que muitas vezes se atuará como em um “jogo” de tentativa e erro. Mesmo porque, dificilmente se terá condições de padronização (criar padrões que possam tornar a interpretação mais objetiva).

Dados levantados por organizações[1] voltadas à educação mostraram que de 70% a 85% da análise dos dados levantados por modelos que utilizam o conceito “Learning Analytics” precisam ser feitas por seres humanos. Isto quer dizer que atividades como limpeza, formatação e alinhamento de dados serão feitas por pessoas (e não algoritmos). Não vou negar que isto aumenta (bastante) o custo de um projeto desses.

A segunda “leva” de possíveis problemas explica, de certa forma, porque o conceito ainda não é amplamente usado. Ainda há restrições, tanto de aprendizes quanto de professores, a respeito da privacidade. Quem tem acesso aos dados? Como serão usados? Que tipo de informação pessoal precisa ser usada? São considerações que influenciam na motivação de quem utiliza e que são essenciais quando a quase totalidade dos dados passam por seres humanos. Compreender essas limitações é fundamental para uma “entrega” eficiente utilizando o conceito.

Mudando um pouco o enfoque, vamos pensar nos possíveis impactos do conceito “learning analytics” no futuro da educação. O principal é a mudança no modo de entendermos o aprendizado. Sairemos do entendimento via hipóteses – como é atualmente, baseado em conceitualização, sobretudo teórica – para um entendimento baseado em análise de dados. Isto, por si só, não é pouca coisa porque acrescenta à formação teórica de profissionais de educação a necessidade de entender modelos analíticos. Isto envolve:

  • Capacitar educadores a diferenciar via “learning analytics” aprendizes que iniciam lentamente e aceleram em um momento posterior dos que realmente estão com dificuldades no aprendizado.
  • Possibilitar que os aprendizes realmente “customizem” o seu aprendizado, fornecendo um retrato amplo da sua performance.
  • Introduzir o conceito de peer grading (algo como classificação pelos pares) e self-grading (algo como auto-classificação) associados à classificação pela performance (a temível meritocracia, tão combatida em nosso país) para determinar o nível de graduação dos aprendizes, já que o conceito “meio que” inviabiliza a divisão em turmas ou séries, por ser altamente “customizador”.
  • Acrescentar “mais um papel” às várias personas do professor. Além de instrutor e facilitador, também analista. É preciso checar se não é muito papel para uma pessoa só e se a vocação pessoal permite esta inclusão. É muito simples “deixar nas costas” de quem está na ponta esses “pormenores”. Não é pormenor e não são todos os professores dispostos a fazer esse papel. Penso que esse ponto é o maior entrave para o conceito e que não é algo facilmente resolvido. Talvez seja necessário ter vários tipos de profissionais dedicados a promover o aprendizado atuando na ponta, mas obviamente, aumenta (e muito) o custo de uma educação formal.

Vale também acrescentar a necessidade de se estimular desde cedo a habilidade do autoaprendizado. Não adianta criar um ambiente que permita “personalizar” o processo de aprendizado se quem for aprender não tiver a capacidade de conduzir este processo.

Há 3 anos, estudos mostravam um horizonte para a adoção desse conceito por uma quantidade mais ampla de pessoas para 2 ou 3 anos. Esse tempo já transcorreu sem que a previsão se concretizasse. Sou da opinião de que no período de 1 ou 2 gerações (de 25 a 50 anos) teremos um sistema educacional muito diferente do que temos hoje. Quem estava na “escola” por volta de 1990 pode atestar o quanto já mudou nos últimos 25 anos. Como diz o personagem Buzz Lightyear:  “ao infinito… e além”.

[1] Organizações como OpenColleges, Edudemics e Educause.

Conteúdo aberto

outubro 1, 2015 § Deixe um comentário

Apesar de não ser propriamente uma novidade – o conteúdo aberto está por aí basicamente desde o início da web – o tópico tem recebido uma atenção especial nos últimos anos. Eu mesmo só comecei a me familiarizar com o protocolo Creative Commons há pouco mais (ou menos, perdoem-me a memória) de um ano. De qualquer forma, relativamente recente.

O uso de conteúdo aberto (no original “open content” – a variação “open access” também é usada) facilita um bocado a vida de quem quer se manter atualizado em qualquer área do conhecimento. Se torna um ativo quando associado à habilidade de encontrar, avaliar e colocar em uso uma nova informação. Quando utilizado de maneira contextualizada, vira curadoria digital – uma área de grande crescimento quando se trata da “entrega” de informação.

A vantagem de se “criar” processos para utilizar a “riqueza” disponível pelo conteúdo aberto é particularmente compensadora quando voltada ao aprendizado. Quando comparado com um material didático como a apostila ou o livro-texto – pesados, lentos para atualizar e particularmente caros – os conteúdos Creative Commons tem levado vantagens em algumas áreas, particularmente matemática, história e ciências. Ao ser associado a conceitos como “aprendizado analítico” (no original, “learning analytics”) que combina a análise de dados da interação dos aprendizes em ferramentas educacionais, em especial online, com o direcionamento (ou como se diz atualmente, customização) da experiência de aprendizado, os resultados são elevados exponencialmente.

Acredito que conceitos novos são melhor compreendidos quando podemos observar sua aplicação na prática. Dessa forma, gostaria de compartilhar 3 exemplos do uso do conteúdo aberto, envolvendo as 3 áreas que citei acima.

História: Learn NC (algo como “aprenda Carolina do Norte”) é um programa desenvolvido pela Universidade da Carolina do Norte para compartilhar melhores práticas na utilização de recursos online com os professores deste estado norte-americano. Sua “apostila digital” de história (minha tradução para “digital textbook”) contém uma coleção de fontes, leituras e multimídia que podem ser pesquisados e reorganizados pelos professores para se adequarem à necessidade de aprendizado de cada turma, pode inclusive ser individualizado para cada aluno.

Matemática: o professor James Sousa desenvolveu mais de 3.000 vídeos-tutoriais em seu projeto particular intitulado Mathispower4u abordando assuntos que vão de aritmética à cálculo.  Todos licenciados com a atribuição Creative Commons.

Ciências: uma parceria entre a Universidade Bringham Young e a Fundação Hewlett, proporcionou um projeto envolvendo professores de todo o estado de Utah, que se reuniram para criarem juntos “apostilas digitais” gratuitas. O projeto Utah Science Open Educational Resources desenvolveu materiais que abordam temas como biologia, química, física e fenômenos naturais, além de um guia de uso para que os professores possam explorar as “apostilas digitais” em sua totalidade.

A internet é possivelmente uma das maiores “tangibilizações” do conceito “batido” e muitas vezes desprezado da democracia. As possibilidades proporcionadas pelo seu uso dependem muito mais de quem a usa do que de quem “permite” o acesso – mesmo nos locais em que o uso é controlado por governos, é possível “burlar” vigilâncias. Essa foi uma das razões da minha “bronca” em relação à condenação do uso de celulares em sala de aula, que comentei no post anterior. Acredito ser mais válido estimular o uso da internet, mostrando suas reais possibilidades – que vão infinitamente além do acesso a redes sociais – do que tentar “fabricar” qualquer espécie de restrição a ela.

10 dicas rápidas para um aprendizado efetivo

setembro 24, 2015 § Deixe um comentário

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Confesso que tenho uma “queda” por listas estilo “Top 10”. Talvez por ter sido um adolescente da “geração MTV” ou ter sido influenciado por filmes como “Alta Fidelidade” – aquele em que o ator John Cusack é dono de uma loja de discos e elabora listas de melhores músicas – o fato é que esse tipo de “compilação” estimula minha mente.

Seguindo essa “tradição” bem década de 90, não resisti em fazer minha própria “listinha” com dicas – que possivelmente já abordei em outros posts – sobre como podemos estimular um aprendizado (ou melhor, autoaprendizado) mais efetivo. Perdoem-me possíveis repetições, mas listas estilo “Top 10” são prodígios da recorrência.

  1. Personalize: identifique seu “estilo” pessoal de aprendizagem e o adapte aos seus hábitos diários.
  2. Sistematize: aborde o seu processo de aprendizado de forma sistemática. Aprender está mais para maratona do que para 100 metros rasos, por isso expanda seu conceito a respeito do que é aprendizado e como ele acontece.
  3. Diversifique: não é à toa que essa é a palavra mágica usada por qualquer consultor financeiro. Aprenda de diversas formas, usando diferentes materiais e recursos.
  4. Foque: elimine as possibilidades de distração. Tudo o que possa te desconcentrar ou tirar sua atenção entra nesse tópico. Aqui a qualidade vale tanto quanto a quantidade, lembre-se que meia hora é melhor do que nenhuma hora.
  5. Conecte: tente construir associações que liguem os diversos assuntos estudados. Ajuda a melhorar a retenção.
  6. Organize: gerencie seu processo de aprendizado, a começar pelo seu planejamento. Técnicas e dicas de gerenciamento do tempo também ajudam bastante nessa hora.
  7. Fique confortável: organize seu “espaço de estudo” levando em conta as coisas que te deixam confortável – tanto aquela caneta que você gosta quanto a sua lista de favoritos do browser podem atuar a seu favor nessa hora.
  8. Reflita: procure entender a perspectiva do material didático que você está utilizando, mas nunca (nunca mesmo) deixe de usar a sua própria interpretação como guia.
  9. Simplifique: quanto estiver diante de assuntos difíceis ou tarefas complicadas, divida e vá por partes. Sei que parece óbvio, mas quando não se tem muito tempo disponível o óbvio costuma “ficar pra escanteio”.
  10. Compartilhe: troque ideias com pessoas que estão estudando ou têm o mesmo interesse que você. Não subestime o valor de visões diferentes da sua.

Como diz Bruce Springsteen em uma “participação super-especial” no citado filme: “se prepare para começar de novo, vai te fazer bem”.

Thanks, Boss.

Aprendizado estilo japonês

setembro 22, 2015 § Deixe um comentário

O rugby é uma tradição familiar desde que um dos meus primos mais velhos ajudou a fundar um clube em Niterói dedicado à modalidade. Fui “apresentado” muito novo ao esporte e o pratiquei durante vários anos em clubes e selecionados. Tenho boas lembranças, principalmente dos anos em que joguei pelo Rio Rugby, na época basicamente composto por estrangeiros e uns poucos brasileiros.

Desde que “parei” de jogar, em 2004, minha relação com este esporte se tornou um tanto distante (possivelmente por o ter praticado tanto). Tirando esporádicos jogos familiares de touch (uma versão mais leve da modalidade) e um ou outro jogo assistido, de lá pra cá não dei muita atenção ao que acontecia no “mundo” do rugby.

Faço esta pequena introdução para dar um panorama geral do meu “passado” com a modalidade e para marcar o quão incomum foi, em um início de tarde “preguiçosa” de sábado (o último) parar em frente da TV e assistir despretensiosamente um jogo da Copa do Mundo, que está sendo disputada este mês na Inglaterra. O jogo em questão foi África do Sul Vs Japão, aqui vale uma explicação adicional para os que não estão familiarizados, a seleção sul-africana está para o rugby assim como a seleção brasileira está para o futebol, é uma potência do esporte, duas vezes campeã mundial. O Japão? Bem, está para a modalidade assim como está para o futebol, uma equipe bem mediana.

Contra todas as expectativas, quem ganhou foi o Japão. Aqui vale outra explicação adicional, no rugby não tem muito essa história de “zebra”, dificilmente a melhor equipe deixa de ganhar. Portanto, estava diante de uma situação realmente inusitada. Mas será que era inusitada mesmo?

O técnico japonês é o australiano (a Austrália é outra potência do esporte, também com 2 títulos mundiais) Eddie Jones, que já atuou tanto como jogador quanto como técnico pela sua seleção natal. Jones após se aposentar e antes de iniciar sua carreira de treinador, se tornou professor de escola, chegando a atuar como diretor de colégio. Sabendo da importância do aprendizado contínuo, Eddie Jones também faz parte de um grupo de treinadores de diferentes modalidades, como o espanhol Pep Guardiola, que costumam trocar impressões e melhores práticas a respeito de táticas, em especial posicionamento dos jogadores para “fechar” espaço no campo e tipos de jogadas destinadas a “abrir” o espaço “fechado” pelos jogadores.

Durante a partida foi possível identificar os japoneses praticando jogadas típicas de outras modalidades, como entregar a bola por detrás das costas a um companheiro, muito comum no basquete. Questionado por que nunca havia aplicado esse conhecimento na época em que treinava a Austrália, Jones foi sincero, não o possuía e mesmo que possuísse seria extremamente difícil convencer os jogadores australianos a “toparem” esse tipo de novidade.

Para que a inovação aconteça, além de se “expor” ao máximo a diferentes conhecimentos – para aumentar a possibilidade de conexões inusitadas – também é preciso “estar” em um ambiente que estimule essas conexões inusitadas. O Japão, pelo menos desde a sua reconstrução após a segunda guerra, em que aceitou a ajuda de antigos inimigos para se reerguer, tem-se demonstrado seguidamente “aberto” a novas práticas e conhecimentos. Nos esportes, já aplicaram esta característica nacional ao baseball (o país é uma das potências da modalidade), ao futebol e agora, ao que parece, ao rugby.

Ah sim, o rugby. Ao longo da minha vida, este esporte me apresentou a alguns valores como atuação em equipe, respeito pelas diferenças e pelo compromisso assumido, agora os reforça e os demonstra na prática, com o exemplo japonês, de que não basta ensinar, é preciso também querer aprender.

Desenvolvendo mentes curiosas – parte 2

setembro 17, 2015 § Deixe um comentário

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Relacionei “mentes curiosas” a uma visão mais abrangente, que por falta de capacidade adjetiva minha chamei pelo termo anglo-luso “pensamento big picture”. Penso ser válido explicar porque fiz essa correlação. Do modo como vejo, a curiosidade intelectual requer que seu (ou sua) “proprietário(a)” tenha uma certa motivação interna, algo que o(a) impulsione a se questionar e procurar respostas. Essa motivação não virá se a pessoa não tiver pelo menos um vislumbre do benefício que terá com isto. Mesmo que não esteja muito claro e que seja apenas um sentimento ou sensação, é preciso crer que essa “busca” trará algum benefício. Essa sensação é o que caracterizei como “pensamento big picture”. É uma espécie de “senso de propósito”.

Conforme prometido, pretendo abordar nesse texto pequenas mudanças de atitude que considero poderem contribuir para estimular um pensamento mais “big picture”. Antes, gostaria de reafirmar a minha crença de que em educação não existe “receita de bolo”. O que proporei a seguir é fruto da minha experiência, mas que não necessariamente é adequada para toda e qualquer situação. Mas penso que pode ajudar alguém que pretenda estimular um “pensamento big picture” em si ou em outros.

Dê sentido aos seus projetos ou tarefas: é preciso trabalhar de maneira séria e focada, mas não todo o tempo. Acredito ser preciso dar a uma determinada tarefa (ou perceber) algum significado emocional, moral ou intelectual. E isso não é possível se apenas “abaixarmos a cabeça” e nos concentrarmos em fazer o que precisamos fazer. É preciso encontrar algum tempo para “levantá-la” e olhar para os lados. É a maneira que conheço para tornar algo mais significativo.

Ligue “lições” antigas a novas: um dos modos que me ajudam a entender a abrangência de algo é “preencher a lacuna” entre o que já sabia e o que aprendi. Dessa forma consigo compreender a inter-relação entre os assuntos e como “colocá-los” dentro de um “retrato maior”.

Estude História de maneira conectada e não linear: acredito ser essencial conhecer História para compreender a si mesmo e a sociedade em que se vive. Somos “frutos” da História brasileira, mas também somos frutos da História cristã-judaica ocidental, da História ibérica, da História africana e de tantas outras. Entender que a História não acontece linearmente me ajuda enormemente a colocar em prática a dica anterior.

Correlacione os detalhes aos conceitos macro: conceitos macros e seu detalhamento estão intrinsecamente relacionados. Uma das primeiras matérias que estudei ao entrar na faculdade foi a “Teoria Geral da Administração” (sou “formado” ou como se diz academicamente “bacharelado” em administração de empresas). Lembro que ao estudar um sistema de produção chamado de Taylorista, que basicamente estipulava que o funcionário deveria apenas exercer a sua função, no menor tempo possível durante o processo produtivo, não havendo necessidade de conhecer a forma como se chegava ao resultado final, percebi o quanto o modelo havia extrapolado a fábrica e se enraizado na nossa concepção de vida. Nesse momento, decidi que não teria vida profissional e vida pessoal, para mim seria a mesma coisa, a minha vida. Obviamente levei anos para tentar colocar isso em prática, mas de certa forma, o simples reconhecimento de que a compartimentalização era algo, a meu ver, antinatural, já me estimulara desde a época da faculdade a tentar entender como o detalhe de algo se relacionava com o seu “todo”.

Foque no “aprendizado real”: “a aprendizagem não é o produto do ensino, é o produto da atividade dos alunos”. A frase anterior é de um cara que me influenciou muito, John Holt. Ela é sobre um conceito que ele chamou de “aprendizado real” (“real learning”, no original), abordado no livro “How Children Learn”. Nele, Holt sugere que se use as mentes imaginativas e inquisitivas das crianças a favor do seu próprio aprendizado e que não se tente “molda-las” para que se “enquadrem” em um determinado comportamento (não vou entrar em detalhes, mas o conceito não significa deixar fazer o que quiser). Este livro me levou a “aceitar” o fato de que informação não significa conhecimento e que era necessário entender o seu contexto para poder “promover” essa migração. “Aprendizado real” para mim é a busca pelo contexto.

Essa é a minha pequena contribuição ao estímulo por um ambiente, digamos, mais “big picture”. Confesso que “deixei” anotadas mais umas 10 dicas, mas não tenho certeza se vou abordá-las no próximo post. Meu professor de kung fu, o Luiz Pessanha, me disse certa vez que o seu mestre Chan Kowk Wai, tinha a “mania” de lhe mostrar alguns poucos movimentos e não dizia mais nada. Isso o estimulava a pensar em como aplicar na prática aquela forma. Muitas vezes o “não dito” ensina mais.

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