Visão abrangente

setembro 10, 2015 § 4 Comentários

  Um dos termos em inglês que mais acho interessante é “big picture” (ou sua variação “bigger picture”). É um daqueles termos estrangeiros que não tem muitos correspondentes em outras línguas. Como “saudade”, em português, é preciso entender o seu significado para que possamos compreender o seu real impacto quando colocado em uma frase.

“Big picture” não significa simplesmente “foto grande”, significa visão abrangente (ou a necessidade de abranger a sua visão). Significa expandir o seu entendimento e compreender as diversas relações de algo.

Mas, por que enxergar a “foto grande” é importante? Para compreender de verdade o motivo, é preciso perceber o seu alcance. Uma pesquisa bem abrangente coordenada pela Universidade de Stanford, chamada PERTS – Project for Education Research That Scales – algo como “projeto de pesquisa educacional escalável” – mediu o impacto do pensamento “big picture” em cerca de 1.360 graduandos do ensino médio (lá, a famosa high school), de baixa-renda de escolas públicas de regiões urbanas da Califórnia, Texas, Nova York e Arkansas.

Na primeira etapa de testes, os adolescentes sentavam-se a frente do computador e realizavam testes simples envolvendo subtrações matemáticas, vídeos no YouTube e o jogo Tetris. O objetivo era investigar a presença de uma forma de pensar específica, que chamaram de “aprendizagem com objetivo auto-transcedente”, que em português (ou inglês) claro significa uma forma de pensar que envolva a visão abrangente. Uma espécie de aprendizado “big picture”.

Os adolescentes com “objetivo auto-trancendente”, que concordaram, por exemplo, com declarações de cunho social como “quero me tornar um cidadão educado que pode contribuir para a sociedade” pontuaram mais em medidas como “coragem” e “autocontrole” do que colegas que só relataram motivos para aprender de cunho pessoal, como “conseguir um bom emprego” ou “ganhar mais dinheiro”.

Possivelmente você pensou o que eu pensei ao ler a pesquisa, “e daí?”. Daí, que os adolescentes mais “altruístas” eram também os menos propensos a sucumbir às distrações digitais, resolviam mais problemas de matemática e eram os mais interessados em se matricular em uma faculdade no ano seguinte. O motivo? Eles conseguiam enxergar a “big picture”.

Isto ficou mais evidente na segunda etapa de testes feitos com o mesmo grupo, que investigou se o fato de possuir um “senso de propósito” melhorava o rendimento em matemática e ciências. O grupo identificado como mais altruísta escrevia pequenas redações explicando porque não estudavam para simplesmente arrumar um emprego e porque queriam realizar algo relevante no mundo. Estas redações eram lidas pelos participantes mais individualistas em diversos períodos ao longo dos meses seguintes. Ao final do ano letivo, os pesquisadores avaliaram a performance dos adolescentes. Perceberam algo interessante em relação aos participantes mais individualistas, estes tiveram uma melhora nas matérias avaliadas de cerca de 20%. Ao checarem o motivo, descobriram que ao conseguirem “enxergar” além do “próprio umbigo”, os adolescentes desenvolveram uma maior capacidade de planejamento e organização do próprio tempo. O “senso de propósito” os auxiliou a tornarem suas mentes mais curiosas e adaptativas.

A pesquisa ajuda a perceber, no meu entendimento, a importância de pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas. Sem ela, as gerações futuras não terão possibilidade de resolver questões como mudança climática e desigualdade social ou lidar com os impactos da globalização nos locais aonde vivem. Impacta diretamente no tipo de sociedade em que viveremos em 10, 15 ou 20 anos. Instigar um “senso de propósito” para estimular uma visão mais abrangente e uma criticidade maior no pensamento, ao meu ver, é parte desse processo.

Avaliação gerando entendimento

setembro 8, 2015 § Deixe um comentário

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Quando Grant Wiggins e Jay McTighe escreveram o livro “Understanding by Design” sabiam que o que propunham ia ao contrário do convencional em metodologia educacional. Colocavam a avaliação como peça central de ensino e aprendizagem, argumentando que testes não deveriam ser “adendos” aplicados posteriormente e sim o ponto central da instrução. Quase 20 anos após a publicação da primeira edição, Understanding by Design (UbD) se tornou uma ferramenta amplamente utilizada, com mais de 250 mil exemplares vendidos, 30 mil manuais em uso (há uma versão estilo workbook) e trabalhada como livro-texto em cursos de mais de 150 universidades.

O modelo conta com o que Wiggins e McTighe chamam de “backward design” (algo como “projeto para trás”). Ao invés de se começar a planejar uma ação educacional definindo conteúdo, atividades e material de apoio, como feito tradicionalmente, o modelo UbD propõe que primeiro se identifique metas de aprendizagem e depois se direcione o planejamento para esse objetivo. No “projeto para trás”, o professor começa com os resultados que deseja alcançar em sala de aula e, em seguida, planeja o currículo e escolhe as atividades e materiais que o ajudarão a avaliar a capacidade do aluno e estimular o seu aprendizado.

A abordagem é desenvolvida em 3 etapas. A primeira começa com a identificação dos resultados desejados, o estabelecimento do objetivo geral das lições usando padrões de conteúdo, núcleo comum ou normas definidas por legislação. Esta etapa também se concentra em identificar “o que os alunos já sabem” (conhecimentos atuais) e determinar “o que os alunos serão capazes de fazer” (habilidades que se deseja desenvolver). Há aqui a definição de um documento chamado “Os alunos vão entender que …” (no original, “Students will understand that…”) que enumera questões essenciais que irão orientar a compreensão do aluno a respeito do conteúdo. Pode-se observar que este primeiro momento é dedicado a definições “estratégicas”.

Os objetivos determinados nesta etapa devem ser de 3 tipos: transferência de aprendizagem, criação de entendimento e aquisição de habilidades. Como exemplo, a versão workbook da ferramenta demonstra o objetivo de uma série de matérias. Compartilharei a de história:

  • Aplicar lições do passado (padrões históricos) em eventos correntes ou futuros (se for identificada uma tendência).
  • Analisar criticamente eventos e reivindicações históricas.

A segunda etapa foca em determinar as evidências do aprendizado por meio de avaliações. É sugerido que se planeje tarefas de desempenho e “provas” de compreensão. Tarefas de desempenho ajudam a avaliar as habilidades que os alunos devem demonstrar e as “provas” atuam como uma forma de evidência, que revela a compreensão do conteúdo. Como “provas”, pode-se incluir a autorreflexão e formas de auto-avaliação.

Mas é preciso ter alguns pontos em mente na hora de definir uma forma de avaliação. Quando alguém realmente compreende algo, pode:

  • Explicar princípios, conceitos e processos em suas próprias palavras.
  • Interpretar o sentido de dados, textos, imagens, analogias, histórias e modelos.
  • Aplicar o que aprendeu, utilizando o conhecimento de maneira efetiva em outro contexto.
  • Desenvolver um senso de perspectiva, analisando situações de forma abrangente e por outros pontos de vista.
  • Demonstrar empatia e conseguir entender o impacto da situação proposta em outras pessoas ou grupos.
  • Desenvolver capacidade de autoconhecimento, demonstrando habilidades de metacognição e refletindo no significado do aprendizado e da experiência.

Finalmente, a terceira etapa foca em planejar as atividades de aprendizado que estimularão os alunos a atingirem os resultados desejados. As atividades devem estar de acordo com os 3 tipos de objetivos definidos na primeira etapa: transferência de aprendizagem, criação de entendimento e aquisição de habilidades. Percebe-se que os 3 objetivos devem ser trabalhados de forma integrada. As atividades que estimulem a transferência de aprendizagem e a criação de entendimento devem necessariamente envolver a demonstração das habilidades que se quer desenvolver. Desta forma, a etapa 2, da avaliação, se torna fundamental para o próprio repasse do conteúdo. É ela que determina o que conta como evidencia do aprendizado e o que o professor quer que o aluno perceba na lição.

A avaliação deveria, cada vez mais, ser vista como um caminho para que se chegue ao domínio de algo (ou como os autores citam, “road to mastery”) e não apenas como testes ou notas.

IMAGENS E ESQUEMAS: Conexão do Conhecimento

setembro 5, 2015 § Deixe um comentário

Compartilhei as imagens e esquemas constantes no livro Conexão do Conhecimento – Conectar para gerar ideias, inovações e aprendizado em um arquivo pdf. O download do arquivo é gratuito, quem quiser basta acessar a seção PUBLICAÇÕES do site e “baixar” de lá.

O arquivo é o segundo exibido na página, após o próprio livro.

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Inovação e adaptabilidade

setembro 3, 2015 § 7 Comentários

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Bycast, uma empresa com sede em Vancouver, tinha como foco de atuação até meados dos anos 2000, o envio de vídeo e conteúdo de áudio em forma comprimida através da Internet.  Com a popularização do YouTube e dos vídeos steaming, esse mercado desapareceu quase que “da noite para o dia”. A empresa precisava encontrar um novo mercado, “o tempo estava se esgotando e o nosso capital estava sendo queimado no processo de busca”, lembra Alan Chiu, ex-diretor da empresa.

A solução veio de uma fonte improvável, a instituição médica canadense The British Columbia Cancer Agency. Com uma “biblioteca” de CDs com imagens médicas que enchiam salas e mais salas, a instituição tinha cada vez mais dificuldades em mantê-los organizados e disponíveis para os médicos e pessoal autorizado das suas instalações de saúde. Como solução, a Bycast desenvolveu um software que auxiliava a gerenciar uma quantidade massiva de dados em diferentes localidades geográficas. “Isso levou à descoberta de um segmento de mercado em torno de imagem médica e compartilhamento de dados em vários locais”, Chiu lembra. Quando a Bycast foi adquirida pela NetApp em 2010, a sua base de dados incluía alguns dos maiores repositórios de conteúdo digital do mundo.

A inovação surge de maneira inusitada, mas uma das características essenciais do processo é a flexibilidade. É ela que permite que não nos agarremos a soluções costumeiras e nos adaptemos. Alan Chiu virou um dos sócios da Xseed Capital, uma empresa que atua como investidor-anjo[1] em novos negócios. Nesta posição, tem ajudado jovens empreendedores tanto financeiramente, quanto compartilhando seu conhecimento em negócios. Essa experiência o levou a ser convidado pela Universidade de Stanford – é um ex-aluno de lá – a contar um pouco da sua experiência e dar dicas de melhores práticas (para assistir ao vídeo, clique AQUI). Um dos seus conselhos, penso eu, transcende o mundo corporativo e pode ser aplicado em nossa própria vida.

“Seja intelectualmente honesto e adaptável” diz ele. Empreendedores (não só, mas também) tendem a ser pessoas naturalmente otimistas, mas não convém manter um “otimismo cego”. Quem é otimista sem ser honesto consigo mesmo está mais suscetível a ser enganado pelos seus próprios preconceitos. Estar aberto a novas informações, novos dados e novas recomendações é o primeiro passo para exercitar a sua habilidade em se adaptar.

Isto não quer dizer que não possamos ter nossas convicções, pelo contrário, acreditar em algo é de extrema importância para se chegar em algum lugar. Mas é preciso estar aberto à mudança e à correção de rumo.

Tricia Seibold, uma excelente designer e aluna em Stanford nos presenteia com seu talento, compartilhando um infográfico com as principais dicas da palestra do Alan Chiu. Em um post anterior, compartilhei um dos seus infográficos atribuindo-o a alunos de Stanford. Aproveito aqui para retificar a minha informação.

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[1] É o investimento efetuado por pessoas físicas ou jurídicas em empresas nascentes com alto potencial de crescimento (as startups) apresentando as seguintes características: é efetuado por profissionais (empresários, executivos e profissionais liberais) experientes, que agregam valor para o empreendedor com seus conhecimentos, experiência e rede de relacionamentos além dos recursos financeiros, por isto é conhecido como smart-money ; tem normalmente uma participação minoritária no negócio; não tem posição executiva na empresa, mas apoiam o empreendedor atuando como um mentor/conselheiro.

Aprendizado ao invés de educação

agosto 27, 2015 § 3 Comentários

Joi Ito é o diretor do MIT MediaLab, um dos lugares mais inovadores do mundo, que fica em uma das instituições de educação formal mais respeitadas da atualidade (o MIT) e mesmo assim tem como crença pessoal a certeza de que as pessoas deveriam se preocupar mais em aprender e menos em “receber” educação. Em uma palestra TED no ano passado declarou: “educação é o que os outros fazem para você, aprendizado é o que você faz para si mesmo”.

Na palestra, Ito conta como formou um grupo chamado Safecast, que mede a quantidade de radiação nuclear presente no mundo. Frisa que são todos amadores e que ainda assim conseguiram montar seus próprios contadores Geiger, a um custo mais barato e disponibilizar seus dados via site e aplicativo para quem quiser. Marotamente pergunta: “como é que um bando de amadores que realmente não sabiam o que estavam fazendo, de alguma forma conseguiu se unir e fazer o que as ONGs e o governo eram completamente incapazes de fazer?”. Ito atribui à conectividade permitida pela internet e pela disposição em fazer mais e planejar menos. Cunhou até um termo para representar a atitude, “now-ism” (algo como “agoraismo” – que seria o antônimo de futurismo).

Recomendo assistirem ao vídeo (disponibilizo o link AQUI), mas gostaria de focar e abranger a “bola levantada” pelo Ito em relação à aprendizado X educação. Como compartilhamos essa mesma crença, sinto-me compelido a fazer alguns esclarecimentos. De certa forma, esse sentimento expresso pelo diretor do MediaLab coaduna com o chamado feito por parte das pessoas envolvidas com educação para que a sociedade dê mais atenção ao autoaprendizado e tire proveito das possibilidades proporcionadas pela conectividade. Não é, de forma alguma, uma campanha para acabar com a educação formal. Mas, é preciso ter consciência de que o custo de uma educação formal se tornou tão escandalosamente alto que já não faz sentido depender exclusivamente dos sistemas formais de educação. Quando abordo a questão do custo, não me refiro somente à educação particular, o nosso sistema público universal de educação gasta boa parte dos orçamentos federal, estaduais e municipais.

Como tornar o brasileiro mais preparado para atuar no mundo contemporâneo onde a inovação, a criatividade e a geração de conhecimento fazem a diferença? Para mim, a resposta passa por cada brasileiro tomar em suas mãos as rédeas do seu próprio aprendizado. Não pretendo abordar neste post como estimular o autoaprendizado, já o fiz em uma sequência de posts que publiquei em maio deste ano e em meu livro, Conexão do Conhecimento, lançado este mês (quem quiser disponibilizo o link para a compra na seção PUBLICAÇÕES), mas gostaria de reforçar a importância dessa prática com 3 princípios levantados pelo Joi Ito em seu conceito de “now-ism” e relacioná-los ao aprendizado.

1) Implemente ou Morra (Deploy or Die): pessoalmente considero que essas afirmações excessivamente incisivas geram mais angústia do que reflexão, mas compreendo a estratégia. O que Ito pretende com este mote é instigar a “arregaçar as mangas” e produzir: coisas, conhecimento, inovações. O que importa é colocar à disposição de todos o seu trabalho. Em suas palavras, “deveríamos estar nós mesmos lá fora, construindo,e não dependendo que grandes instituições façam isto por nós” (no original, para não impor meu entendimento, “we should be getting out there ourselves and not depending on large institutions to do it for us”).

Em aprendizagem significa compartilhar suas ideias e conhecimentos. Para aprender bem nunca é demais 3 coisas, planejamento (saber o que você quer aprender), resiliência (se manter no caminho, mesmo na adversidade) e avaliação (um feedback em relação ao que você sabe é fundamental para que se possa checar a eficácia do seu aprendizado). A internet pode ajudar muito nessa história, atuando como uma “ferramenta” de colaboração e amplificando o aprendizado, mesmo porque a melhor maneira de aprender não está mais no isolamento – creio que nem os monges acreditam mais nisto.

2) Puxe ao invés de Empurrar (Pull over Push): a ideia aqui é “puxar” os recursos que você precisa da rede – no sentido amplo, pode ser tanto a internet, quanto a sua rede de contato pessoal – ao invés de concentrar e controlar em algum “centro” – também em um sentido amplo, pode ser tanto um centro acadêmico quanto uma pasta no seu computador.

No contexto da aprendizagem, significa o fim do conceito de “sabichão”, aquelas pessoas extremamente especialistas, que conhecem tudo sobre sua matéria porque se condicionaram a “estocar” informações. Antes da internet havia espaço para esse perfil, agora basta uma pesquisa no Google para levantar a maioria das informações necessárias sobre qualquer assunto. Saber procurar, achar e entender como as informações necessárias para você se relacionam é mais eficiente do que estocá-la.

3) Compasso ao invés de Mapa (Compass over Maps): aqui confesso que há uma divergência entre meu entendimento e do Ito. Vou abordar os dois. Para o Ito, planejamento é superestimado, diz: “o custo de planejar ou mapear algo está se tornando muito caro e muitas vezes não é muito preciso ou útil” (no original, pelo mesmo motivo exposto anteriormente, “the cost of writing a plan or mapping something is getting so expensive, and it’s not very accurate or useful”). Vejo de outro modo, planejar e mapear são importantes para definir objetivos (o que se quer alcança) e traçar parâmetros (por onde começar, como saber se estou fazendo certo, o que preciso para colocar em prática). Concordamos, porém, na necessidade da flexibilidade para as correções necessárias quando estivermos fazendo o que queremos (ou precisamos) fazer. Esse é o real significado do “compass over maps” e por isso, mesmo discordando do argumento, creio que é um princípio válido.

Em aprendizado, similarmente, é preciso colocar a “cara a tapa” e mudar de rumo se o seu método de aprendizagem não estiver dando resultado. Mas para saber isto, é preciso medir (e se planejar).

Acredito no “poder” do aprendizado e acredito que ninguém está “limitado” ao seu expertise atual. Um advogado pode (e deve) saber como programar um site ou um aplicativo se isto for beneficiá-lo de alguma forma e um programador pode (e deve) conhecer legislação se ela interferir (e certamente interfere) de algum modo na sua vida. A verdade é que, advogados e programadores, professores e alunos, adultos e crianças, têm mais em comum do que se pode perceber em um primeiro momento: são todos aprendizes. Por isso “aprender a aprender” é tão importante e praticar o autoaprendizado é fundamental para quem quer realmente fazer a diferença neste louco século XXI.

Competências para o século XXI – parte 3

agosto 20, 2015 § Deixe um comentário

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Estimular competências valorizadas (ou valorizáveis) neste século em um ambiente formal de aprendizagem pode ser uma tarefa (bem) desafiadora. Isto porque para que elas “aflorem” há um elemento essencial nessa “equação”: o aprendiz. Ou melhor, a motivação do aprendiz.

Motivação é um termo “malandro”, ao mesmo tempo em que explica muito resultado positivo, também age para tornar nebuloso resultados negativos. Esta complexidade se deve ao fato de que tanto elementos externos quanto internos ao indivíduo agem combinados para influenciar este “estado de espírito”. Soma-se a isto uma característica fundamental para que a motivação se mantenha consistente ao longo do tempo, a resiliência. Insistir em algo é fundamental para alcançar resultados positivos em termo de aprendizado. Não é todo o dia que se está verdadeiramente disposto a aprender ou a ensinar, portanto continuar seguindo nesses “dias nublados” é tão importante quanto nos de “sol brilhante”.

Um dos pontos comuns das dicas a seguir para se construir um ambiente formal de aprendizagem que estimule as competências abordadas anteriormente é a crença de que o conhecimento é valioso e como tal, importante. Note que uso o termo “conhecimento” e não “educação”. Associar educação ao desenvolvimento de um aprendizado é uma armadilha que deve ser evitada. Primeiro porque educação é um investimento de longo prazo, que está dissociado de “causa e efeito”. Segundo, um ambiente formal de educação não gera necessariamente aprendizado. Terceiro, a base de qualquer sistema educacional é o conhecimento, ele sendo valorizado transcende o próprio sistema e se torna parte integrante do indivíduo (e por tabela, da sociedade). Sem mais delongas, vejamos como podemos ajudar a estimulá-las:

Crie cenários que testem a transferência das habilidades e não apenas as habilidades em si. É preciso que o aprendiz desenvolva a capacidade de aplicar as habilidades, conhecimentos, atitudes ou estratégias vistas em um contexto em outro. É desta maneira que se avalia um aprendizado, estimulando que pensem e analisem como seu conhecimento se aplica em uma situação ou realidade diferente da que foi utilizada para repassá-lo.

Tire um tempo durante o repasse para estimular uma visão abrangente. Os aprendizes devem compreender as relações entre as variáveis e como podem aplicar este entendimento em contextos diferentes. Ao entenderem como um determinado tópico se encaixa em um sentido mais amplo, a relevância do aprendizado de um determinado conhecimento se torna mais claro – e mais motivador.

Trate a tecnologia como parte natural do aprendizado. Encaremos os fatos, dificilmente hoje um aprendiz – de qualquer idade – irá conceber sua vida sem o envolvimento da tecnologia. Ela está tão presente em vários aspectos da vida que realmente deveríamos parar de pensar em como integrar a tecnologia no aprendizado e fazermos o inverso: pensar em como integrar o aprendizado na tecnologia. Encará-la como parte natural da história é um bom começo.

Torne suas lições (ou aulas) interdisciplinares. Sei que algumas palavras são tão repetidas que acabam se tornando “da moda”. Muitas vezes, por conta dessa repetição, paramos de dar a devida atenção a elas. Não se pode deixar que este seja o caso aqui, interdisciplinaridade é um “modo de vida”. O aprendiz precisa ter consciência do porque cada disciplina é importante, como elas se integram, como um novo conhecimento é criado e como é difundido. Este é o modo de se “ensinar” a metacognição, ou como é conhecida no popular, “aprender a aprender”.

Aborde diretamente o que for mal-entendido ou o que tem possibilidade de má compreensão. Alguns assuntos são densos ou ambíguos mesmo. É natural que as pessoas tenham alguns mal-entendidos a respeito de como as coisas ou o mundo funciona. Se não tiverem a oportunidade de visualizar explicações alternativas, esses entendimentos tendem a se solidificar.

Promova trabalho em equipe. Esta é uma habilidade que é ao mesmo tempo processo e resultado. Há uma frase atribuída a Machado de Assis que diz “quem troca pães, fica com um, quem troca ideias, fica com as duas”. Colaboração é estimulada muito pelo exemplo, por isso promover um ambiente colaborativo é fundamental para que o trabalho em equipe apareça naturalmente. Some-se a isto, a necessidade de haver uma “cultura da aplicação”. Isto quer dizer que é preciso estimular os aprendizes a aplicarem o que aprenderam em coisas tangíveis. Um bom modo de se fazer isto é por meio de projetos. Utilize esta metodologia de aprendizagem como parte do seu planejamento instrucional e permita que os aprendizes experimentem diferentes papéis ao trabalharem um projeto em grupo. Nada de “distribuir camisas”, estimule que ora sejam “gerentes”, ora “organizadores”, ora “artistas” e assim por diante.

Por fim, não se esqueça de para que se possa “lidar” com a enorme quantidade de informação disponível, o modo como se acessa e se traduz essas informações é fundamental. Estimule que busquem e comparem as fontes de um determinado assunto. Assim se estimula a análise crítica, fundamental para sairmos da “armadilha” do dogma e das “respostas prontas”.

Competências para o século XXI – parte 2

agosto 18, 2015 § Deixe um comentário

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Como vimos, as competências podem ser organizadas em 3 grandes grupos de habilidades: cognitivas, interpessoais e intrapessoais. Aqui vale um adendo antes de seguirmos: o agrupamento é importante pelo fato de que não há um consenso em relação às competências a serem ser priorizadas. Por conta de restrições curriculares, de tempo e de dinheiro é preciso fazer escolhas. Os grupos atuam como balizadores, indicando como os faróis fazem com navios, o caminho que se deve seguir (ou evitar).

Pretendo abordar 10 competências que considero importantes. Mas friso que não se deve tomá-las por dogmas. As escolhi porque tenho a tendência a considerar importante a independência pessoal e, no meu entender, elas estimulam o desenvolvimento de uma certa independência (intelectual e de ação).

  1. Aprender a aprender: a educação formal exerce uma função similar ao andaime em uma obra. Auxilia na fundação, na construção e nos acabamentos, mas uma vez terminada a obra cabe ao “proprietário” a sua manutenção e conservação. Saber como aprender e ter vontade em fazê-lo é essencial para uma vida de realizações profissionais e pessoais.
  2. Capacidade de empatia: em um mundo cada vez mais radical, conseguir se colocar no lugar dos outros é um desafio e tanto. Para colocar em prática atividades que promovam desenvolvimento sustentável, saúde, educação, um ambiente propício a negócios, ao desenvolvimento tecnológico, à prestação de serviços e ao desenvolvimento de produtos, requer a capacidade de se conectar com a forma de pensar e a perspectiva do seu cliente, paciente, estudante ou comunidade, enfim, pessoas. Empatia é uma habilidade que impacta diretamente no mundo que deixaremos para nossos filhos e netos.
  3. Criatividade: sempre dou um jeito de abordar essa competência. Faz parte do meu top 10 porque a considero fundamental na resolução de problemas (especialmente em um ambiente de recursos limitados). Mais do que “inspirar” a criatividade em si mesmo ou estimular o seu desenvolvimento em alguém, é necessário entender o porque da sua importância. Criatividade é o combustível da inovação, mas ela necessita tanto de estímulo externo quanto interno e está intimamente ligada à curiosidade. Fazê-la aflorar é responsabilidade de cada um de nós.
  4. Capacidade de previsão: não é necessário ter algum poder mágico como Nostradamus. Enxergar tendências está ligada à capacidade de reconhecer padrões. Isto é algo que o nosso cérebro consegue fazer muito bem naturalmente. Mas precisamos “alimentá-lo” bem com informações e com a prática da análise crítica. Na minha opinião, um dos pontos fracos que nós, brasileiros, temos é a nossa pré-disposição aos dogmas. Não convém entrar em um debate sociológico das causas aqui, mas a verdade é que encaramos a maiorias dos assuntos como alternativas: direita ou esquerda; neoliberalismo ou desenvolvimentismo estatal; mercado autorregulado ou intervencionismo; enfim, a lista pode ser infinita. O fato comum em todas elas é que as vemos como alternativas e como tais, inconciliáveis. Este é um modelo mental que precisamos alterar.
  5. Instrução digital: envolve mais do que usar o computador (ou algum equipamento digital). Aprender a linguagem da programação permite uma ação mais ativa no nosso relacionamento com as máquinas.
  6. Curadoria de informação: em um ambiente cada vez mais sobrecarregado de informações, o “pulo do gato” é encarar essa realidade como uma oportunidade. Quem for capaz de lidar com o fluxo de dados e informações e conseguir filtrar o que é verdadeiramente valioso ou útil, tem uma vantagem imensa em relação aos demais.
  7. Navegar em diversas perspectivas: recentemente tive a oportunidade de conhecer os sócios da SuperUber, Liana, seu marido Russ e o sócio deles Tommy. Os utilizo como exemplo, porque a empresa deles é uma verdadeira tangibilização da habilidade da interdisciplinariedade. Conseguir navegar por vários conhecimentos e conseguir conectá-los de forma apropriada vai ser, cada vez mais, determinante para se manter relevante profissionalmente.
  8. Empreendedorismo: todos temos grandes ideias de tempos em tempos, mas conseguimos de verdade colocá-las em prática? Saber como implementar os seus impulsos criativos é o que separa os verdadeiramente inovadores dos demais.
  9. Virar um “facilitador” de grupos: não chamo esta competência de liderança para não restringir o seu significado. O ponto-chave aqui é o estímulo à colaboração. Não quero inferir que todo mundo tenha que “liderar”, ser um facilitador significa deixar mais fácil (desculpem a redundância) a criatividade “rolar”.
  10. Se manter informado: se você não lê as notícias do dia ou tira um tempinho diariamente para se informar a respeito do que está acontecendo na sua cidade, no seu país e no mundo, comece agora. Qualquer habilidade enferruja se não conseguimos enxergar como aplicá-la e saber o que acontece ao nosso redor é uma ótima maneira para desenvolver essa “sensibilidade” no olhar.

Para fechar esta série de posts, no próximo pretendo abordar como essas competências podem ser estimuladas em um ambiente formal de aprendizagem.

Competências para o século XXI – parte 1

agosto 13, 2015 § 4 Comentários

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Empresários e educadores ao redor do mundo compartilham de uma crença conjunta: a de que desenvolver as habilidades necessárias para o século XXI não é mais um “luxo” e sim uma necessidade. Tenho certeza de que este é um “papo” que você já “ouviu” em algum lugar, mas a pergunta que não quer calar é “que habilidades são essas” exatamente?

Uma habilidade é melhor percebida quando associada à competência que ela estimula, portanto nada mais natural do que focarmos nela – ou nelas – para que se possa deixar mais claro do que se trata essa “história”. Estas competências incluem (1) as habilidades cognitivas do pensamento crítico, resolução de problemas, aplicação do conhecimento (que chamo de conexão) e da criatividade; (2) as habilidades interpessoais de comunicação e colaboração, liderança e consciência global e intercultural (a boa e velha empatia); e (3) habilidades intrapessoais como auto-direção (que podemos traduzir como proatividade), motivação e autoaprendizado (aprender a aprender).

Um dos meus grandes interesses são as formas de medição. Utilizo esse conhecimento para pensar formas de avaliar ações educacionais, qualidade da democracia e outros assuntos os quais me envolvo profissionalmente. Esse interesse também me estimula a pesquisar bastante para construir minhas referências (olha o autoaprendizado aí), o que me levou a direcionar o “olhar” para formas de integrar habilidades e medir as competências do século XXI. Afinal, as habilidades e competências passíveis de serem testadas, são as habilidades e competências passíveis de serem estimuladas.

O pessoal que está mais adiantado nesse estágio de medição das competências necessárias ao nosso século, são os asiáticos. China, Singapura e Coréia do Sul têm se dedicado a planejar ações educacionais e medi-las para entenderem como as competências atuam estimuladas pelo aprendizado. Hong Kong, por exemplo, é uma das muitas cidades chinesas que introduziu avaliações baseadas em projetos, que exigem que os alunos apliquem seus conhecimentos para solucionar novos problemas. Xangai (outra cidade chinesa) ainda não têm um quadro abrangente para medir as habilidades do século XXI, mas está usando testes do PISA voltados à resolução de problemas como uma maneira de estimular a mudança das competências abordadas pelas suas escolas.

Singapura é um excelente estudo de caso de um sistema de ensino que está tentando equilibrar a transmissão de conhecimentos com uma atenção mais explícita em relação às competências do século XXI. Elas estão sendo integradas em todo o currículo escolar, bem como na preparação dos professores e no seu desenvolvimento profissional. Diferentes pedagogias estão sendo incentivadas (o que corrobora com a minha tese de que modelos educacionais funcionam melhor em conjunto), incluindo uma maior utilização da aprendizagem baseada na investigação, da tecnologia da informação e comunicação, da aprendizagem cooperativa em grupos, rotinas de resolução de problemas, entre outras ações. Estão ainda revendo o sistema nacional de exame para incorporar a habilidade do pensamento crítico, usando formas diferentes da famigerada avaliação universal (a nossa múltipla-escolha ou prova objetiva) como por exemplo, provas com questões abertas e baseadas em fontes (que conhecemos como prova discursiva). Algumas competências estão sendo avaliadas em nível escolar mesmo, tais como as habilidades dos alunos no planejamento e realização de experimentos de ciência e na execução de projetos e trabalhos de criação em outras áreas curriculares. Nas escolas primárias, a avaliação e os relatórios para os pais são digamos, mais holísticos, indo além do desempenho acadêmico e abrangendo outras áreas do desenvolvimento do aluno, como atitudes proativas, envolvimento em trabalhos conjuntos, liderança, etc. Além disto, os objetivos esperados pelas ações de desenvolvimento ou formação dos professores estão sendo alterados para coincidirem com as metas de resultados dos alunos.

Tudo isto apoiado por um enorme sistema de medição e avaliação. É possível conhecer uma parte dele pelo guia organizado pela Asia Society, que é uma instituição asiática que faz parte da Global Cities Education Network (GCEN), que é uma comunidade internacional de compartilhamento de aprendizado e melhores práticas de cooperação para melhorar o sistema educacional de cidades da Ásia, Oceania e América do Norte. As cidades participantes são Denver, Hong Kong, Melbourne, Seattle, Seul, Xangai, Singapura, Houston, Lexington e Toronto. Por que será que nenhuma cidade brasileira se interessou por algo parecido?

No próximo post pretendo abordar as competências do século XXI mais críticas a serem desenvolvidas.

Como integrar tecnologia à educação?

agosto 11, 2015 § 3 Comentários

Esta é uma pergunta que tenho ouvido muito em conversas e debates sobre o tema que tenho participado. Alguns acreditam que a tecnologia possa ter um papel mais importante, outros nem tanto, mas a maioria concorda que vale a pena olhar com um pouco mais de atenção o assunto.

O que respondo com frequência é o que costumo reforçar quando sou questionado a respeito da implementação de algum novo modelo educacional, como por exemplo aprendizado baseado em projetos (project-based learning) ou classe de aula invertida (flipped classroom): modelos educacionais são propostos como opções e não tanto como alternativas. Não se deve basear um projeto educacional (ou um sistema educacional) em apenas um modelo, eles funcionam melhor em associação. Aprendizado baseado em projetos pode e deve ser usado em conjunto com o modelo tradicional (ou construtivista, aristotélico, etc). O mesmo ocorre com a tecnologia.

Alguns exemplos do uso de tablets em aulas mostram que o equipamento funciona melhor como ferramenta de trabalho. O caso da escola suíça Zurich International School, que distribuiu Ipads aos seus alunos mostra que o importante não é o conteúdo que os aprendizes colocam no tablet e sim o que fazem com o equipamento. É usado como filmadora, gravador e “caderno de anotação” multimídia.

Em uma escola do subúrbio da cidade de Washington, a Buck Lodge Middle School, os estudantes usam tablets para gravar vídeos, criar apresentações e usar aplicativos educacionais como parte de suas atividades, com bons resultados. As escolas da região que utilizam a ferramenta tiveram um rendimento 175% melhor em matemática do as que não utilizam e um aumento de 35% no número de estudantes que atingiram o nível avançado de leitura.

Para entender como um tablet pode auxiliar um ambiente educacional, um pesquisador da Universidade de Adelaide na Austrália, Allan Carrington, desenvolveu a “Roda (i)Padgógica” (perceberam o trocadilho? Incluí o “i” para facilitar), utilizando a Taxonomia de Bloom, o modelo SAMR (já publiquei um post sobre ele) e uma lista de aplicativos educacionais.

O ponto principal da Roda (a imagem abaixo) é a definição de critérios para os aplicativos.

samr3

Uns funcionam melhor para estimular o entendimento a respeito de algo, outros para a lembrança, um outro grupo para aplicar o que foi aprendido, um quarto para estimular a análise, outro para a avaliação e um último para a criação de algo utilizando o conhecimento aprendido. Definir estes critérios e associar os aplicativos apropriados é essencial para que o tablet realmente possa cumprir o seu papel de ferramenta. Não adianta oferecê-lo apenas como repositório de apostila ou como ferramenta livre. Acabará sendo usado da forma como a maioria está acostumada a utilizá-lo, como entretenimento.  Por enquanto a “Roda (i)Padgógica” está disponível apenas em inglês. Pretendo trabalhar uma versão dela em nosso idioma assim que tiver disponibilidade para tal. De qualquer forma, disponibilizo o link para quem quiser acessar ao pdf original com as indicações dos critérios e aplicativos associados até o momento.

É inevitável que a tecnologia assuma cada vez mais um papel, ouso dizer, predominante no dia a dia de uma sociedade realmente integrada ao século XXI. É inevitável porque facilita a vida de quem a utiliza. Brigar contra inovações como Uber, por exemplo, é o mesmo que combater monstros imaginários na forma de moinhos como fazia o Don Quixote na obra mágica de Cervantes. Lembro da minha mãe dizendo há uns 30 anos que todos da família tínhamos que aprender a “mexer no computador” para não sermos “analfabetos digitais”. É claro que usar ou não a tecnologia em um ambiente educacional não é uma decisão com resultados tão dramáticos quanto às palavras da minha mãe, mas certamente quem tiver a oportunidade irá se beneficiar bem mais do que quem não tiver.

7 dicas para ajudar a revisar o seu texto

agosto 4, 2015 § 2 Comentários

Sejamos sinceros, revisar o que escrevemos pode ser bastante trabalhoso e chato, embora extremamente necessário. Recentemente passei por esta “gincana” ao revisar as provas para o meu livro – permitam-me o “jabazinho”, chama-se “Conexão do Conhecimento: conectar para gerar ideias, inovações e aprendizado”, informarei melhor quando o lançamento se aproximar – e sei o quão extenso o processo pode ser.

Felizmente há modos de tornar esse processo menos penoso e mais produtivo. Funcionou para mim, pode ser que ajude outros também.

1. Fique “ligado” nos erros que mais comete

Todos temos nossos pontos fortes, entretanto também temos nossos fracos e são estes que levam à recorrência de erros. Por exemplo, se grafia não for a sua melhor habilidade, muito provavelmente seu texto terá várias palavras transcritas de forma errada. Por isso é importante ter consciência dos erros que mais cometemos para poder redobrar a atenção ao buscá-los quando revisarmos o que escrevemos. Sempre vale a pena dar aquele “polimento” nestas áreas mais problemáticas.

2. Lembre-se que uma revisão envolve várias etapas e não apenas uma leitura rápida

Para ser capaz de encontrar múltiplos erros e ter certeza de que o que escreveu está claro e conciso, é preciso revisar algumas vezes. Sugiro que “quebre” o processo em sessões de revisão, de modo a não ficar sobrecarregado pela tarefa e perder pontos cruciais. No meu caso, dedicava 1 hora ou 1 hora e meia diária a cada capítulo. Isto me deu a oportunidade de realizar a tarefa com qualidade sem deixar de lado as outras coisas que precisava fazer. Entendo que sempre há um prazo de entrega e que ele nem sempre permite que se “gaste” tanto tempo em algo (eu também tinha o meu “deadline” para entrega), mas é uma questão de “gerenciamento do tempo”, não sou muito fã do termo, mas algumas vezes ele é correto. De qualquer forma, tenha em mente que revisão é um processo que não pode (ou não deve) ser apressado, mas vale a pena todo o tempo e esforço colocado nele. De qualquer forma, fique de “olho” no prazo.

3. “Apare” as frases longas para torná-las concisas

Um dos meus interesses pessoais é a jardinagem e este hobbie me ensina algumas coisas que aplico ao meu dia a dia. Para que a planta cresça mais forte, aparar é fundamental. O mesmo acontece com o texto. Preste atenção não apenas ao que está escrito, mas também à forma como é apresentado. Um dos grandes problemas que longos blocos de textos trazem é a sobrecarga cognitiva. Por isso, minha dica é que mantenha “as coisas” curtas e simples. Sentenças muito longas ou abundância de informação podem confundir o leitor. Sentenças mais curtas tornam um texto mais digerível e recomendo usá-las (a não ser que você tenha a intenção de se eleger um dia para a Academia Brasileira de Letras).

4. Leia o conteúdo em voz alta

Quando revisar o seu texto, leia-o ao menos uma vez em voz alta. Algo que em um primeiro momento pode parecer bom na tela do computador, pode ser na verdade confuso e ambíguo quando lido em voz alta. Isso pode ajudá-lo a garantir que o conteúdo flua bem e que o ritmo seja suave.

5. Não confie na verificação ortográfica para pegar todos os erros

As ferramentas de verificação automática de ortografia ajudam a “adiantar o seu lado”, mas não substituem uma revisão cuidadosa. É preciso passar o chamado “pente fino” para poder realmente reduzir a possibilidade de erros ortográficos e gramaticais.

6. Deixe o projeto “de lado” antes da última leitura

É preciso colocar alguma distância entre você e o seu texto. Há um ditado que diz que “quem escreve não deveria revisar”, esta é uma “meia-verdade” ou uma “mentira sincera” (como diz a letra do Barão Vermelho). É impossível evitar revisar o que escreveu pelo simples motivo de que é você quem sabe o que realmente queria passar. Mas é preciso também “descansar” o seu olhar para que possa ter a possibilidade de perceber algo que deixou “de lado” em leituras anteriores.

7. Não espere até o dia do prazo final

Sei que já comentei a respeito do prazo no ponto 2, mas nunca é demais reforçar. Para aqueles que têm a tendência de esperar até o último minuto, esta dica é, digamos, desafiadora. Esperar até o dia do prazo para finalizar a sua revisão é dar “chance ao azar”. A possibilidade de “deixar passar” erros é grande, além de ter que lidar com estresse e preocupação desnecessários. Tente finalizar pelo menos “um par de dias antes” (como diz um amigo português meu). Isto permitirá que você possa “dar uma olhada” uma última vez antes de enviar. Por exemplo, escrevo estes posts 1 ou 2 dias antes de publicá-los. Isto me dá a oportunidade de “cuidar” um pouco mais do que escrevo.

Disponibilizar o tempo e a atenção necessários à revisão ajuda a assegurar que o que você oferece ao seu “leitor”, usando a linguagem corporativa, é algo com mais “valor agregado”. E saber que tipo de erro procurar pode ajudar a tornar o seu processo de revisão menos estressante e mais produtivo. Boa escrita e revisão.

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