Edtech – mídia social e colaborativa
outubro 27, 2015 § Deixe um comentário
Para finalizar essa sequência de posts a respeito do conceito “Edtech”[1], nada melhor do que abordar a ferramenta tecnológica mais popular dos dias de hoje, a rede social. Os pesquisadores Eunice Ivala e Daniela Gachago da Cape Peninsula University of Technology, na África do Sul, encontraram uma relação positiva entre o uso da mídia social e o engajamento de aprendizes. Em um estudo publicado em 2012, descobriram que o uso apropriado de blogs e grupos no Facebook aumentam a integração acadêmica, dentro e fora do campus, e aumentam o engajamento em atividades de aprendizagem.
Isto acontece por conta do “poder colaborativo” da rede social. Ao fornecer uma “estrutura” para comentários e compartilhamento de tarefas, estas ferramentas dão oportunidades para que os aprendizes mostrem suas habilidades multimídias e o modo como “constroem” determinado trabalho acadêmico. Isto torna a discussão mais envolvente, aumentando o nível de troca intelectual.
A mídia social também promove o que os especialistas chamam de “conceito check-up”, que a exemplo do similar exame médico, permite identificar problemas e determinar caminhos de ação ao se analisar as interações registradas nela.
Outros dois artigos acadêmicos dão suporte ao estudo citado acima. A pesquisadora Latha R. Chandrasekar conseguiu medir o impacto da mídia social e ferramentas colaborativas no comportamento emocional e no engajamento cognitivo de estudantes. Os pesquisadores da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, Tom Stafford, Herman Elgueta e Harriet Cameron descobriram que o uso de ferramentas do tipo Wiki (cujo melhor exemplo é a Wikipedia) aumentam a habilidade de escrita dos seus usuários.
Estudos deste tipo ajudam a mostrar que, dependendo de como são utilizadas, ferramentas tecnológicas podem estimular e aumentar o aprendizado. A forma como as utilizamos é pessoal, se a opção for pelo uso restrito será este o resultado que se terá. Mas a boa notícia é que o antônimo também é verdadeiro.
Quem quiser conhecer mais dicas de como a mídia social pode ser usada para estimular o engajamento, recomendo o guia produzido pela associação WISE (Wales Initiative for Student Engagement), do País de Gales, que o disponibilizou pela plataforma Moodle.
[1] Para relembrar, o termo “Edtech” é utilizado para se referir ao uso da tecnologia em educação.
A inevitabilidade da tecnologia
outubro 20, 2015 § Deixe um comentário

Uma questão que tenho ouvido com frequência é a seguinte: “é inevitável o uso da tecnologia na educação”? Como toda pergunta relevante, a resposta não é simples. Do modo como vejo, a resposta é sim e não. No longo prazo sim, é inevitável – e explicarei porque daqui a pouco. No curto e médio prazo, não. Não apenas não é inevitável, como é evitável – obviamente aceitando-se pagar os “custos” sociais que essa decisão acarreta mais adiante.
No longo prazo é inevitável por conta de uma pequena invenção feita a mais ou menos 30 anos, a internet. Ainda não nos damos conta do impacto total dela – creio que no futuro a internet irá inclusive nos modificar biologicamente – mas alguns dos seus impactos já são claramente notados, em especial os que envolvem o nosso comportamento social. Em educação, o seu maior impacto – na minha opinião – é na percepção do que significa ser um professor. Explico: antes da internet, professores (e centros educacionais) eram verdadeiramente as fontes principais de distribuição de conhecimento. Não mais. Obviamente esse tipo de mudança tem seus pontos negativos e positivos, e causa toda sorte de reação a ela, mas se servir de consolo – também na minha opinião – a importância do professor não será diminuída.
Outro grande impacto da internet na educação foi a elevação da importância de uma característica pessoal – que embora admirada, não era considerada essencial pela sociedade – a capacidade de autoaprendizado (na minha época de criança esse pessoal era chamado de “autodidata” e tinha uma áurea de genialidade). É preciso ter em mente que com centros de distribuição de conhecimentos como escolas, universidades e professores, realmente a capacidade de autoaprendizado podia ser relegada a segundo plano. Não mais.
Um dos pontos positivos que a internet possibilitou pelo autoaprendizado foi a diminuição do custo (absurdamente caro) de um aprendizado baseado essencialmente em ambientes formais. Isto dá uma capacidade de monetização a esta habilidade e poder “contar” algo em termos de “grana”, facilita o entendimento da sua relevância – principalmente quando se pode “guardar” o que se conseguiu economizar “estudando por conta própria”. Também é essa capacidade de monetização que possibilita alguém com esta habilidade “valer” mais para aquela entidade meio abstrata, o mercado.
A elevação da importância do autoaprendizado também impacta positivamente em outro tópico de grande interesse para qualquer sistema educacional, a qualidade do seu aprendizado (e é aí que está a importância – não diminuída – do professor – no estimulo desta habilidade alçada a novo patamar – a habilidade de “aprender a aprender”). Qualquer sociedade que já experimentou (ou experimenta) um processo de universalização do seu sistema educacional tem uma característica em comum: a perda da qualidade do seu ensino e aprendizado. Embora natural, é claro que não se pode “cruzar os braços” e não se fazer nada em relação a isto. Algumas sociedades optaram por definir um padrão mínimo aceitável de qualidade e estimular o aparecimento de “centros” de excelência educacional, acessíveis pelo mérito (sabemos que não só, mas também). É um caminho viável e testado – como dizem em inglês, “a sure bet”.
A outra opção é o estímulo ao autoaprendizado, embasado principalmente pelo uso da tecnologia e o acesso à internet. Podem ter a certeza de que está opção já está sendo testada – Finlândia, Canadá, Austrália, alguns estados norte-americanos, Japão, Singapura, Coréia do Sul, alguns locais da China, enfim, a lista é grande. É por esta razão que considero inevitável, no longo prazo, o uso da tecnologia na educação.
Bom, voltemos agora ao curto e médio prazo. Como citei no início do texto, ao se considerar o curto e médio prazo, não apenas não é inevitável como é possível se evitar deliberadamente a tecnologia para fins educacionais. Depende essencialmente da ideologia dos que detêm o poder de tomar ou influenciar essa decisão social (em especial as autoridades públicas, mas também os “formadores de opinião” da sociedade civil e a própria sociedade), da forma de pensar desse pessoal e, principalmente, da importância que dão ao conhecimento.
Citei também no início do texto “custos sociais”, que custos são estes? O século XXI é o “século do conhecimento” – obviamente este é um “chavão”, quem gosta de história pode nomear diversos “séculos do conhecimento” antes do atual – mas este tem uma característica peculiar. Nunca foi tão fácil criar e disponibilizar o conhecimento. Também nunca foi tão fácil “cobrar” por isso – principalmente porque a aplicação prática do conhecimento (também conhecida pelo termo “know-how”) tem uma alta capacidade de monetização. Isto quer dizer que é possível fazer a inovação virar “produtos” ou “negócios” mais facilmente. Quem conseguir estimular consistentemente o uso do autoaprendizado pela sua sociedade irá levar vantagem no “mercado” global, uma vez que terá mais capacidade de gerar consistentemente inovação e entregá-la “embrulhada pra presente”. Os lugares que citei levam vantagem por terem visualizado essa possibilidade antes e saído na frente. Os demais, terão que “correr atrás”. E a distância que deverão “tirar” dos que saíram a frente dependerá do quanto demoraram para aceitar a inevitabilidade da tecnologia.
Edtech – Design Thinking
outubro 13, 2015 § Deixe um comentário

O termo “Edtech” vem sendo cada vez mais usado para se referir ao uso da tecnologia em educação. Como é geralmente o caso quando se trata de tecnologia, colocar a “mão na massa” e implementar é o caminho para se descobrir novos usos. Nessa hora, poder se beneficiar da experiência alheia ajuda a “cortar caminho” e ser mais assertivo na hora de escolher a ferramenta mais adequada a sua situação.
Pretendo compartilhar neste e nos próximos posts o uso de algumas tecnologias e conceitos aplicados a elas que têm ajudado bastante a estimular o engajamento de aprendizes. Todas são baseadas em estudos de casos, revisão bibliográfica e documentação de uso (estilo “tentativa-e-erro”) para dar um maior embasamento ao exemplo. Citarei, obviamente, as fontes caso alguém queira se aprofundar no tema.
O primeiro que tratarei é o Design Thinking. Para quem não está familiarizado com o termo, Design Thinking é um método usado por várias indústrias – em especial a de tecnologia – para pensar em soluções de maneira integrada, sem focar especificamente no problema e sim no seu objetivo-macro (“pra que eu quero resolver isso mesmo?”). Esse enfoque leva a duas características do conceito: a primeira é ter o usuário no centro da questão (e não o problema em si). A segunda é uma abordagem interdisciplinar.
Em educação, o Design Thinking tem sido usado associado ao modelo project-based learning (aprendizado baseado em projetos) para redefinir a atitude dos aprendizes em relação ao próprio aprendizado. Um bom exemplo vem do instituto “West Michigan Center for Arts + Technology” (na sigla em inglês – WMCAT) que montou um programa para os estudantes das escolas públicas da região desenvolverem, fora do horário de aulas, soluções que possam beneficiar a comunidade em que vivem. Utilizam a dobradinha Design Thinking + Project-based learning para “misturarem” arte e tecnologia nas suas propostas de projetos e os colocam em prática por meio de equipes, de 12 estudantes cada, durante o ano letivo.
Segundo Kim Dabbs, diretora do WMCAT, a dobradinha proporciona:
- Projetos desenvolvidos e liderados pelos próprios estudantes, estimulando o engajamento ao permitir que escolham os próprios temas de trabalho, os times e parceiros com quem trabalharão e conduzam eles mesmos os trabalhos;
- Oportunidades para introduzir pequenos desafios ao longo do caminho que permite aos professores repassar técnicas artísticas e de desenvolvimento tecnológico, com base nas próprias ideias dos estudantes;
- Oportunidade para aprender na prática o que é e como utilizar o Design Thinking.
O site da WMCAT traz informações adicionais a respeito do projeto e a própria Kim Dabbs conta um caso prático do desenvolvimento de um aplicativo para celular feito pelos próprios estudantes.
Learning Analytics – parte 2
outubro 9, 2015 § 2 Comentários
Terminei o post anterior com um teaser “prometendo” abordar como o conceito pode afetar no futuro o nosso entendimento a respeito do que é educação. Ao invés de “entrar direto” nesse assunto, gostaria de começar com os pontos fracos do modelo. Por mais que se acredite em algo, é preciso considerar os seus possíveis problemas. É apenas desta forma que podemos nos preparar para enfrentá-los, caso se apresentem.
A primeira “leva” deles diz respeito às suas limitações e custos. Quando indicadores (ou qualquer tipo de métrica) são utilizados para interpretar termos subjetivos (por exemplo, engajamento do aprendiz, interesses, etc.), a possibilidade de erros de interpretação é significativa. É preciso considerar esse cenário e entender que muitas vezes se atuará como em um “jogo” de tentativa e erro. Mesmo porque, dificilmente se terá condições de padronização (criar padrões que possam tornar a interpretação mais objetiva).
Dados levantados por organizações[1] voltadas à educação mostraram que de 70% a 85% da análise dos dados levantados por modelos que utilizam o conceito “Learning Analytics” precisam ser feitas por seres humanos. Isto quer dizer que atividades como limpeza, formatação e alinhamento de dados serão feitas por pessoas (e não algoritmos). Não vou negar que isto aumenta (bastante) o custo de um projeto desses.
A segunda “leva” de possíveis problemas explica, de certa forma, porque o conceito ainda não é amplamente usado. Ainda há restrições, tanto de aprendizes quanto de professores, a respeito da privacidade. Quem tem acesso aos dados? Como serão usados? Que tipo de informação pessoal precisa ser usada? São considerações que influenciam na motivação de quem utiliza e que são essenciais quando a quase totalidade dos dados passam por seres humanos. Compreender essas limitações é fundamental para uma “entrega” eficiente utilizando o conceito.
Mudando um pouco o enfoque, vamos pensar nos possíveis impactos do conceito “learning analytics” no futuro da educação. O principal é a mudança no modo de entendermos o aprendizado. Sairemos do entendimento via hipóteses – como é atualmente, baseado em conceitualização, sobretudo teórica – para um entendimento baseado em análise de dados. Isto, por si só, não é pouca coisa porque acrescenta à formação teórica de profissionais de educação a necessidade de entender modelos analíticos. Isto envolve:
- Capacitar educadores a diferenciar via “learning analytics” aprendizes que iniciam lentamente e aceleram em um momento posterior dos que realmente estão com dificuldades no aprendizado.
- Possibilitar que os aprendizes realmente “customizem” o seu aprendizado, fornecendo um retrato amplo da sua performance.
- Introduzir o conceito de peer grading (algo como classificação pelos pares) e self-grading (algo como auto-classificação) associados à classificação pela performance (a temível meritocracia, tão combatida em nosso país) para determinar o nível de graduação dos aprendizes, já que o conceito “meio que” inviabiliza a divisão em turmas ou séries, por ser altamente “customizador”.
- Acrescentar “mais um papel” às várias personas do professor. Além de instrutor e facilitador, também analista. É preciso checar se não é muito papel para uma pessoa só e se a vocação pessoal permite esta inclusão. É muito simples “deixar nas costas” de quem está na ponta esses “pormenores”. Não é pormenor e não são todos os professores dispostos a fazer esse papel. Penso que esse ponto é o maior entrave para o conceito e que não é algo facilmente resolvido. Talvez seja necessário ter vários tipos de profissionais dedicados a promover o aprendizado atuando na ponta, mas obviamente, aumenta (e muito) o custo de uma educação formal.
Vale também acrescentar a necessidade de se estimular desde cedo a habilidade do autoaprendizado. Não adianta criar um ambiente que permita “personalizar” o processo de aprendizado se quem for aprender não tiver a capacidade de conduzir este processo.
Há 3 anos, estudos mostravam um horizonte para a adoção desse conceito por uma quantidade mais ampla de pessoas para 2 ou 3 anos. Esse tempo já transcorreu sem que a previsão se concretizasse. Sou da opinião de que no período de 1 ou 2 gerações (de 25 a 50 anos) teremos um sistema educacional muito diferente do que temos hoje. Quem estava na “escola” por volta de 1990 pode atestar o quanto já mudou nos últimos 25 anos. Como diz o personagem Buzz Lightyear: “ao infinito… e além”.
[1] Organizações como OpenColleges, Edudemics e Educause.
Learning Analytics – parte 1
outubro 6, 2015 § 1 comentário

Citei anteriormente o termo “aprendizado analítico”, minha tradução para “learning analytics”. Ainda que a análise de dados gerados por aprendizes não seja lá uma coisa nova, o conceito de “learning analytics” só ganhou amplo apoio entre pesquisadores e profissionais da educação recentemente.
Quando se ouve falar desse termo em inglês, “analytics”, a primeira coisa que alguém familiarizado com ele pensa é no rastreamento de visitas em um website (seja ele um e-commerce, um blog ou a página da empresa em que trabalha). O “learning analytics” usa esse tipo de dados combinados com a performance do aprendiz e com modelos analíticos para verificar como eles aprendem e como se pode melhorar essa experiência de aprendizado.
O que pode fazer?
- Previsões a respeito de performances futuras, baseadas em padrões passados de aprendizado.
- Intervir quando se perceber diferenças no padrão de comportamento do aprendiz que possam sinalizar dificuldades e direcionar feedbacks que possam ajudá-lo.
- Personalizar o processo de aprendizagem de cada aprendiz, usando seus pontos fortes e encorajando melhorias.
- Adaptar estilos de ensino e de aprendizado via socialização, modelos de aprendizagem e tecnologia.
O modelo é excelente para detectar dificuldades de aprendizado via a performance. Isto é feito da seguinte maneira:
- Reconhecimento de demonstração de frustração, por exemplo em mensagens deixadas no ambiente virtual.
- Diminuição do tempo médio de utilização e atividade no ambiente virtual.
- Longos intervalos entre logins.
- Distinção entre “chute” e conhecimento em respostas de múltipla-escolha.
Um dos motivos pelos quais o conceito demorou a ser aceito, foi porque ele “desafia” outro conceito muito popular na área de educação, a hipótese do aprendiz eficiente – “efficient learner hypothesis” (ELF) – que considera que todos os aprendizes começam em um nível igual – daí a prática do nivelamento educacional – e progridem de forma similar – daí a organização dos alunos em turmas e séries.
Por considerar essencial abranger a discussão em relação ao nosso sistema educacional, adaptei um infográfico para facilitar a compreensão do processo de funcionamento do “learning analytics”.
Disponibilizei um pdf do infográfico na seção Publicações para download gratuito. No próximo post pretendo abordar como o conceito pode afetar o futuro do nosso entendimento a respeito do que é educação.
Conteúdo aberto
outubro 1, 2015 § Deixe um comentário

Apesar de não ser propriamente uma novidade – o conteúdo aberto está por aí basicamente desde o início da web – o tópico tem recebido uma atenção especial nos últimos anos. Eu mesmo só comecei a me familiarizar com o protocolo Creative Commons há pouco mais (ou menos, perdoem-me a memória) de um ano. De qualquer forma, relativamente recente.
O uso de conteúdo aberto (no original “open content” – a variação “open access” também é usada) facilita um bocado a vida de quem quer se manter atualizado em qualquer área do conhecimento. Se torna um ativo quando associado à habilidade de encontrar, avaliar e colocar em uso uma nova informação. Quando utilizado de maneira contextualizada, vira curadoria digital – uma área de grande crescimento quando se trata da “entrega” de informação.
A vantagem de se “criar” processos para utilizar a “riqueza” disponível pelo conteúdo aberto é particularmente compensadora quando voltada ao aprendizado. Quando comparado com um material didático como a apostila ou o livro-texto – pesados, lentos para atualizar e particularmente caros – os conteúdos Creative Commons tem levado vantagens em algumas áreas, particularmente matemática, história e ciências. Ao ser associado a conceitos como “aprendizado analítico” (no original, “learning analytics”) que combina a análise de dados da interação dos aprendizes em ferramentas educacionais, em especial online, com o direcionamento (ou como se diz atualmente, customização) da experiência de aprendizado, os resultados são elevados exponencialmente.
Acredito que conceitos novos são melhor compreendidos quando podemos observar sua aplicação na prática. Dessa forma, gostaria de compartilhar 3 exemplos do uso do conteúdo aberto, envolvendo as 3 áreas que citei acima.
História: Learn NC (algo como “aprenda Carolina do Norte”) é um programa desenvolvido pela Universidade da Carolina do Norte para compartilhar melhores práticas na utilização de recursos online com os professores deste estado norte-americano. Sua “apostila digital” de história (minha tradução para “digital textbook”) contém uma coleção de fontes, leituras e multimídia que podem ser pesquisados e reorganizados pelos professores para se adequarem à necessidade de aprendizado de cada turma, pode inclusive ser individualizado para cada aluno.
Matemática: o professor James Sousa desenvolveu mais de 3.000 vídeos-tutoriais em seu projeto particular intitulado Mathispower4u abordando assuntos que vão de aritmética à cálculo. Todos licenciados com a atribuição Creative Commons.
Ciências: uma parceria entre a Universidade Bringham Young e a Fundação Hewlett, proporcionou um projeto envolvendo professores de todo o estado de Utah, que se reuniram para criarem juntos “apostilas digitais” gratuitas. O projeto Utah Science Open Educational Resources desenvolveu materiais que abordam temas como biologia, química, física e fenômenos naturais, além de um guia de uso para que os professores possam explorar as “apostilas digitais” em sua totalidade.
A internet é possivelmente uma das maiores “tangibilizações” do conceito “batido” e muitas vezes desprezado da democracia. As possibilidades proporcionadas pelo seu uso dependem muito mais de quem a usa do que de quem “permite” o acesso – mesmo nos locais em que o uso é controlado por governos, é possível “burlar” vigilâncias. Essa foi uma das razões da minha “bronca” em relação à condenação do uso de celulares em sala de aula, que comentei no post anterior. Acredito ser mais válido estimular o uso da internet, mostrando suas reais possibilidades – que vão infinitamente além do acesso a redes sociais – do que tentar “fabricar” qualquer espécie de restrição a ela.
Como integrar tecnologia à educação?
agosto 11, 2015 § 3 Comentários
Esta é uma pergunta que tenho ouvido muito em conversas e debates sobre o tema que tenho participado. Alguns acreditam que a tecnologia possa ter um papel mais importante, outros nem tanto, mas a maioria concorda que vale a pena olhar com um pouco mais de atenção o assunto.
O que respondo com frequência é o que costumo reforçar quando sou questionado a respeito da implementação de algum novo modelo educacional, como por exemplo aprendizado baseado em projetos (project-based learning) ou classe de aula invertida (flipped classroom): modelos educacionais são propostos como opções e não tanto como alternativas. Não se deve basear um projeto educacional (ou um sistema educacional) em apenas um modelo, eles funcionam melhor em associação. Aprendizado baseado em projetos pode e deve ser usado em conjunto com o modelo tradicional (ou construtivista, aristotélico, etc). O mesmo ocorre com a tecnologia.
Alguns exemplos do uso de tablets em aulas mostram que o equipamento funciona melhor como ferramenta de trabalho. O caso da escola suíça Zurich International School, que distribuiu Ipads aos seus alunos mostra que o importante não é o conteúdo que os aprendizes colocam no tablet e sim o que fazem com o equipamento. É usado como filmadora, gravador e “caderno de anotação” multimídia.
Em uma escola do subúrbio da cidade de Washington, a Buck Lodge Middle School, os estudantes usam tablets para gravar vídeos, criar apresentações e usar aplicativos educacionais como parte de suas atividades, com bons resultados. As escolas da região que utilizam a ferramenta tiveram um rendimento 175% melhor em matemática do as que não utilizam e um aumento de 35% no número de estudantes que atingiram o nível avançado de leitura.
Para entender como um tablet pode auxiliar um ambiente educacional, um pesquisador da Universidade de Adelaide na Austrália, Allan Carrington, desenvolveu a “Roda (i)Padgógica” (perceberam o trocadilho? Incluí o “i” para facilitar), utilizando a Taxonomia de Bloom, o modelo SAMR (já publiquei um post sobre ele) e uma lista de aplicativos educacionais.
O ponto principal da Roda (a imagem abaixo) é a definição de critérios para os aplicativos.
Uns funcionam melhor para estimular o entendimento a respeito de algo, outros para a lembrança, um outro grupo para aplicar o que foi aprendido, um quarto para estimular a análise, outro para a avaliação e um último para a criação de algo utilizando o conhecimento aprendido. Definir estes critérios e associar os aplicativos apropriados é essencial para que o tablet realmente possa cumprir o seu papel de ferramenta. Não adianta oferecê-lo apenas como repositório de apostila ou como ferramenta livre. Acabará sendo usado da forma como a maioria está acostumada a utilizá-lo, como entretenimento. Por enquanto a “Roda (i)Padgógica” está disponível apenas em inglês. Pretendo trabalhar uma versão dela em nosso idioma assim que tiver disponibilidade para tal. De qualquer forma, disponibilizo o link para quem quiser acessar ao pdf original com as indicações dos critérios e aplicativos associados até o momento.
É inevitável que a tecnologia assuma cada vez mais um papel, ouso dizer, predominante no dia a dia de uma sociedade realmente integrada ao século XXI. É inevitável porque facilita a vida de quem a utiliza. Brigar contra inovações como Uber, por exemplo, é o mesmo que combater monstros imaginários na forma de moinhos como fazia o Don Quixote na obra mágica de Cervantes. Lembro da minha mãe dizendo há uns 30 anos que todos da família tínhamos que aprender a “mexer no computador” para não sermos “analfabetos digitais”. É claro que usar ou não a tecnologia em um ambiente educacional não é uma decisão com resultados tão dramáticos quanto às palavras da minha mãe, mas certamente quem tiver a oportunidade irá se beneficiar bem mais do que quem não tiver.
O software está devorando o mundo (?)
agosto 6, 2015 § 5 Comentários

Em 2011, o fundador da Netscape – alguém se lembra? Foi um dos primeiros navegadores da internet – Marc Andreessen cunhou a frase “software is eating the world” (cuja tradução é o título do post) em um artigo para o The Wall Street Journal, delineando sua “previsão” de que empresas com foco em desenvolvimento de software (hoje a atividade é chamada coding) seriam as que mais gerariam valor econômico, inclusive interrompendo uma ampla gama de setores industriais.
4 anos depois, 1 em cada 20 vagas de trabalho abertas nos EUA são destinadas à engenharia e desenvolvimento de softwares, mostrando uma tendência similar à previsão do Marc Andreessen. A demanda e competição por desenvolvedores de software no mercado de trabalho é muitas vezes centrada em torno de empresas de tecnologia como Uber, Facebook e afins. Mas é facilmente notado que organizações de todos os tipos estão competindo por este mesmo talento – de empresas financeiras e agências governamentais a hospitais, a procura por pessoas com conhecimento em coding é extremamente ampla.
Penso que o coding é apenas a ponta do iceberg, a habilidade que envolve esta busca por desenvolvedores é outra: a capacidade analítica para processar, interpretar e retrabalhar com base nos insights que podem ser gerados pelas inúmeras fontes de informação e conhecimento disponíveis. O coding leva vantagem pelo fato de facilitar o “acesso” ao “big data”.
As habilidades que devemos focar em desenvolver estão relacionadas à capacidade de interpretar o mundo a nossa volta por conta própria (também conhecida por pensamento crítico) e à capacidade de criar a partir do que já sabemos (que também atende pelo nome de pensamento reflexivo). Estas são habilidades que não podem ser ensinadas.
Mas não se desespere, apesar de não poderem ser ensinadas, elas podem ser aprendidas. Ou melhor, desenvolvidas. O “pontapé inicial” que você deve dar está ligado à sua capacidade de interpretação de texto. Por mais que a melhor forma de aprendizado para você envolva alguma outra “mídia” (uso a palavra por falta de outra melhor) – como assistir a uma aula, participar de um debate, observar alguém fazendo, etc. – uma que você não pode abrir mão é a leitura. O fato é que a maior parte do conhecimento humano está registrado “por escrito” (e vem sendo assim há milênios). Portanto, prescindir da leitura é dispensar uma gigantesca fonte de informação e conhecimento. Em outras palavras, um “tiro no pé”.
É assustador saber que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Isto indica que a nossa sociedade não valoriza o conhecimento como deveria, apesar de qualquer brasileiro, quando perguntado, dizer que melhorar a educação é a solução para boa parte dos “problemas” do país. Como pode ser a solução se não há a valorização do “alicerce” de qualquer sistema educacional, o próprio conhecimento?
Na verdade, não é o software que está devorando o mundo, é o desprezo pela leitura. De qualquer forma, também é reconfortante saber que a solução para isto reside em cada um de nós. Que tal tirar aquele livro “empoeirado” da estante?
Mundo acadêmico e corporativo
julho 30, 2015 § 2 Comentários

Esta semana tive a oportunidade de participar de um workshop no instituto de ciências políticas da UERJ. Como de costume, as discussões e debates do evento foram de alto nível, mas (também como de costume) o que aconteceu fora da “sala”, nas conversas do cafezinho, almoço e confraternizações me chamaram tanto a atenção quanto o evento em si.
Como um proveniente do mundo corporativo, fui solicitado por alguns dos participantes a compartilhar minhas impressões a respeito do mundo acadêmico e seu impacto na comunidade dos negócios. Sendo o mais diplomático possível, disse identificar uma falta de interesse mútuo entre a academia e os negócios no Brasil. Tirando algumas iniciativas em relação à suporte em consultoria e ações como incubadoras de empresas, não via uma parceria muito abrangente.
O “papo” evoluiu para um “exercício” de propostas destinadas a estimular um diálogo entre dois mundos que não conversam tanto quanto poderiam. Duas delas me pareceram bem razoáveis por serem, na minha opinião, implementáveis em curto prazo.
Parceria em pesquisa
São formadas quando empresa e universidade concordam em colaborar em um determinado projeto de pesquisa. É muito comum em áreas como a farmacologia. Geralmente são conduzidas por pesquisadores mais graduados de instituições acadêmicas e financiadas por empresas, que viram sócias da propriedade intelectual desenvolvida. Propus fazer algo semelhante, mas envolvendo estudantes não tão graduados, que poderiam ter a oportunidade de realizar pesquisas para uma empresa via academia. Meu argumento girou em torno de um ponto: ao demonstrar suas habilidades aplicadas em um negócio, um estudante aumenta a sua “empregabilidade”. Não é um estágio, a pessoa atua pela universidade, mas em contato direto com uma empresa.
Parcerias de formação
É a criação (ou direcionamento) de cursos baseados em necessidades específicas das empresas. Meu exemplo se baseou na experiência de parceria entre empresas de TI e instituições acadêmicas que oferecem o nanodegree. O benefício deste tipo de programa para os estudantes é uma formação focada na implementação prática do conhecimento (além da possibilidade de contratação) e, para as empresas, ter indivíduos especialmente formados. Como potenciais desafios foram levantados dois pontos: (1) uma formação que só pode ser aplicada ao negócio específico e (2) a empresa exigir uma cláusula de “não concorrência” para os estudantes. Pontos que, ao meu ver, são passíveis de negociação entre as partes e não incapacitam a iniciativa.
Fui muito bem recebido, conheci pessoas interessantes nessa experiência e tive a oportunidade de trocar ideias com elas. Fiquei muito satisfeito também em conhecer iniciativas da academia brasileira para facilitar a geração de propriedade intelectual e o esforço que acadêmicos brasileiros e estrangeiros, como os professores alemães Wolfgang Merkel, que se juntará ano que vem à equipe da UERJ e a professora Brigitte Weiffen, que já faz parte do corpo docente da USP, fazem neste sentido. São duas mentes inquietas que conseguimos trazer ao nosso convívio. O país certamente se beneficiará disto no futuro.
Engajamento para o aprendizado – parte 1
julho 16, 2015 § Deixe um comentário

Tenho notado uma crescente preocupação com o engajamento para o aprendizado, como pode-se comprovar pelas publicações do relatório do plano de ação da CEA (Canadian Education Association) e pelas pesquisas a respeito do clima escolar conduzida pela PUC-RS e do engajamento para o aprendizado feita pela ESPM-RJ.
Esta preocupação, ao meu ver, deriva em grande parte das observações de educadores sobre os efeitos da tecnologia no nível de interesse dos alunos. Muitos jovens – principalmente em países mais avançados, embora o mesmo comportamento possa também ser observado por aqui – têm-se “desconectado” do aprendizado tradicional e se “conectado” em seus smartphones. A tecnologia fornece um meio mais rápido e variado para a transferência de informações do que um professor e por isso, penso eu, os alunos estão se desinteressando cada vez mais pelos meios tradicionais de instrução.
O objetivo atual das pesquisas (e em alguns locais, das campanhas) de engajamento dos alunos é corrigir esta discrepância. Currículos escolares em diferentes locais do mundo estão apostando na abordagem blended learning (método que engloba ações educacionais presenciais e não presenciais) na esperança de “dar um gás” no envolvimento dos alunos.
No entanto, é preciso ter em mente que nem todo engajamento é criado da mesma forma e que levar em consideração as próprias expectativas de quem aprende é tão (ou mais) importante do que os métodos usados para gerar os 3 tipos de engajamento (emocional, comportamental e cognitivo).
Inspirada nestas questões, a já citada Associação Canadense de Educação (Canadian Education Association) criou um projeto chamado “O que você fez hoje na escola?” (no original, “What did you do in school today?”), em que pergunta aos próprios estudantes, dentre outros assuntos, como imaginam o ambiente ideal para a sua aprendizagem. Abaixo, uma compilação das expectativas:
- Resolver problemas reais
- Ter contato com conhecimentos realmente importantes
- Me preparar para fazer a diferença no mundo
- Ser respeitado
- Entender como os temas estão interligados
- Aprender em conjunto com os outros e com as pessoas da comunidade
- Estar em contato com especialistas e conhecer suas opiniões
- Ter mais oportunidades para dialogar e conversar
É claro que há diferenças entre as realidades canadense e brasileira, mas com o mundo tão conectado como o atual e com cada vez mais possibilidades de compartilhar interesses, pensamentos e experiências, é válido inferir que algumas expectativas também são compartilhadas por pessoas de origens diferentes. Desta forma, o compilado de expectativa dos estudantes canadenses pode ser levado em consideração (comparativamente) e adaptado ao Brasil. Certamente nossos estudantes também se beneficiariam de um ambiente educacional que atendesse ao menos algumas das expectativas.
No próximo post pretendo tratar um pouco mais da abordagem multidimensional do engajamento (os 3 tipos que citei mais acima).


