Edtech – feedback e portfólio digital
outubro 16, 2015 § Deixe um comentário

Um dos pontos comuns a respeito de técnicas de liderança – quem já atuou em algum posto gerencial e teve a oportunidade de participar de um curso destes pode atestar – é a importância de prover feedback para seus liderados de tempos em tempos. Sua maior força é dar a possibilidade de quem o recebe de melhorar (ou se orgulhar do trabalho bem feito). Feedback é a típica atitude com amplo impacto em diferentes ambientes e situações. Pode ser usado tanto em um ambiente corporativo quanto em ambientes mais pessoais como dentro de casa, no futebol entre amigos ou na academia de ginástica. Pode também ser usado (e bem) na sala de aula.
Google Docs, screencasts (quem convive com alguma criança de adora minecraft certamente conhece bem o conceito), Evernote, enfim, há inúmeras ferramentas que podem ser usadas para prover feedback à aprendizes mantendo, entretanto, o “embalo” do aprendizado.
Pesquisadores da Universidade de Chicago recomendam o uso do feedback por áudio ou vídeo para otimizar o engajamento dos aprendizes. Consideram mais eficiente do que o modelo tradicional, por escrito, por algumas razões, entre elas:
- Estudantes reportaram ao estudo realizado pela Universidade, achar o feedback por vídeo mais pessoal e informativo;
- A novidade que envolve o tipo de feedback (por vídeo) e o Efeito Hawthorne[1] que o acompanha, ajuda a estimular o engajamento de quem o recebe;
- A forma “multimodal” do vídeo oferece mais vantagens aos aprendizes mais audiovisuais do que a forma “unimodal” do feedback escrito.
Além do feedback, a “era digital” também facilitou a curadoria do que é produzido pelos aprendizes. Esta aliás, é uma das peças-chave para estimular o engajamento de quem aprende: dar a eles a responsabilidade pelo que criam. Os portfólios digitais desempenham um bom papel na hora de encorajar o compartilhamento de tarefas educacionais. A importância do seu uso está baseada na disponibilização da “evidência” do aprendizado.
As melhores ferramentas para estimular a performance são aquelas que permitem compartilhamentos e comentários não apenas dos pares, mas de outros “personagens” como professores e pais, no caso de estudantes, por exemplo. Nisto, os portfólios digitais cumprem maravilhosamente bem a função por conterem uma ampla gama de informações que capturam, na maioria das vezes adequadamente, a versatilidade da pessoa. As informações em portfólios digitais podem também ser disponibilizadas em uma variedade de mídias como textos, fotos, ilustrações, diagramas, material da web, arquivos de áudio, vídeos, planilhas e apresentações do PowerPoint, o que estimula o uso de múltiplas-inteligências.
Existem diversos softwares e apps que podem ser usados (uma rápida pesquisa no Google pode atestar). Para quem não está familiarizado com o conceito de portfólio digital, recomendo checar o Troove, por ser bastante utilizado em escolas norte-americanas e canadenses e amigável no uso.
[1] O chamado “Efeito Hawthorne” é um tipo de reação psicológica em que indivíduos modificam ou melhoram seu comportamento ao saberem que estão sendo observados. McCarney R, Warner J, Iliffe S, van Haselen R, Griffin M, Fisher P; Warner; Iliffe; Van Haselen; Griffin; Fisher. “The Hawthorne Effect: a randomised, controlled trial”. BMC Med Res Methodology. 2007.
Edtech – Design Thinking
outubro 13, 2015 § Deixe um comentário

O termo “Edtech” vem sendo cada vez mais usado para se referir ao uso da tecnologia em educação. Como é geralmente o caso quando se trata de tecnologia, colocar a “mão na massa” e implementar é o caminho para se descobrir novos usos. Nessa hora, poder se beneficiar da experiência alheia ajuda a “cortar caminho” e ser mais assertivo na hora de escolher a ferramenta mais adequada a sua situação.
Pretendo compartilhar neste e nos próximos posts o uso de algumas tecnologias e conceitos aplicados a elas que têm ajudado bastante a estimular o engajamento de aprendizes. Todas são baseadas em estudos de casos, revisão bibliográfica e documentação de uso (estilo “tentativa-e-erro”) para dar um maior embasamento ao exemplo. Citarei, obviamente, as fontes caso alguém queira se aprofundar no tema.
O primeiro que tratarei é o Design Thinking. Para quem não está familiarizado com o termo, Design Thinking é um método usado por várias indústrias – em especial a de tecnologia – para pensar em soluções de maneira integrada, sem focar especificamente no problema e sim no seu objetivo-macro (“pra que eu quero resolver isso mesmo?”). Esse enfoque leva a duas características do conceito: a primeira é ter o usuário no centro da questão (e não o problema em si). A segunda é uma abordagem interdisciplinar.
Em educação, o Design Thinking tem sido usado associado ao modelo project-based learning (aprendizado baseado em projetos) para redefinir a atitude dos aprendizes em relação ao próprio aprendizado. Um bom exemplo vem do instituto “West Michigan Center for Arts + Technology” (na sigla em inglês – WMCAT) que montou um programa para os estudantes das escolas públicas da região desenvolverem, fora do horário de aulas, soluções que possam beneficiar a comunidade em que vivem. Utilizam a dobradinha Design Thinking + Project-based learning para “misturarem” arte e tecnologia nas suas propostas de projetos e os colocam em prática por meio de equipes, de 12 estudantes cada, durante o ano letivo.
Segundo Kim Dabbs, diretora do WMCAT, a dobradinha proporciona:
- Projetos desenvolvidos e liderados pelos próprios estudantes, estimulando o engajamento ao permitir que escolham os próprios temas de trabalho, os times e parceiros com quem trabalharão e conduzam eles mesmos os trabalhos;
- Oportunidades para introduzir pequenos desafios ao longo do caminho que permite aos professores repassar técnicas artísticas e de desenvolvimento tecnológico, com base nas próprias ideias dos estudantes;
- Oportunidade para aprender na prática o que é e como utilizar o Design Thinking.
O site da WMCAT traz informações adicionais a respeito do projeto e a própria Kim Dabbs conta um caso prático do desenvolvimento de um aplicativo para celular feito pelos próprios estudantes.
Learning Analytics – parte 2
outubro 9, 2015 § 2 Comentários
Terminei o post anterior com um teaser “prometendo” abordar como o conceito pode afetar no futuro o nosso entendimento a respeito do que é educação. Ao invés de “entrar direto” nesse assunto, gostaria de começar com os pontos fracos do modelo. Por mais que se acredite em algo, é preciso considerar os seus possíveis problemas. É apenas desta forma que podemos nos preparar para enfrentá-los, caso se apresentem.
A primeira “leva” deles diz respeito às suas limitações e custos. Quando indicadores (ou qualquer tipo de métrica) são utilizados para interpretar termos subjetivos (por exemplo, engajamento do aprendiz, interesses, etc.), a possibilidade de erros de interpretação é significativa. É preciso considerar esse cenário e entender que muitas vezes se atuará como em um “jogo” de tentativa e erro. Mesmo porque, dificilmente se terá condições de padronização (criar padrões que possam tornar a interpretação mais objetiva).
Dados levantados por organizações[1] voltadas à educação mostraram que de 70% a 85% da análise dos dados levantados por modelos que utilizam o conceito “Learning Analytics” precisam ser feitas por seres humanos. Isto quer dizer que atividades como limpeza, formatação e alinhamento de dados serão feitas por pessoas (e não algoritmos). Não vou negar que isto aumenta (bastante) o custo de um projeto desses.
A segunda “leva” de possíveis problemas explica, de certa forma, porque o conceito ainda não é amplamente usado. Ainda há restrições, tanto de aprendizes quanto de professores, a respeito da privacidade. Quem tem acesso aos dados? Como serão usados? Que tipo de informação pessoal precisa ser usada? São considerações que influenciam na motivação de quem utiliza e que são essenciais quando a quase totalidade dos dados passam por seres humanos. Compreender essas limitações é fundamental para uma “entrega” eficiente utilizando o conceito.
Mudando um pouco o enfoque, vamos pensar nos possíveis impactos do conceito “learning analytics” no futuro da educação. O principal é a mudança no modo de entendermos o aprendizado. Sairemos do entendimento via hipóteses – como é atualmente, baseado em conceitualização, sobretudo teórica – para um entendimento baseado em análise de dados. Isto, por si só, não é pouca coisa porque acrescenta à formação teórica de profissionais de educação a necessidade de entender modelos analíticos. Isto envolve:
- Capacitar educadores a diferenciar via “learning analytics” aprendizes que iniciam lentamente e aceleram em um momento posterior dos que realmente estão com dificuldades no aprendizado.
- Possibilitar que os aprendizes realmente “customizem” o seu aprendizado, fornecendo um retrato amplo da sua performance.
- Introduzir o conceito de peer grading (algo como classificação pelos pares) e self-grading (algo como auto-classificação) associados à classificação pela performance (a temível meritocracia, tão combatida em nosso país) para determinar o nível de graduação dos aprendizes, já que o conceito “meio que” inviabiliza a divisão em turmas ou séries, por ser altamente “customizador”.
- Acrescentar “mais um papel” às várias personas do professor. Além de instrutor e facilitador, também analista. É preciso checar se não é muito papel para uma pessoa só e se a vocação pessoal permite esta inclusão. É muito simples “deixar nas costas” de quem está na ponta esses “pormenores”. Não é pormenor e não são todos os professores dispostos a fazer esse papel. Penso que esse ponto é o maior entrave para o conceito e que não é algo facilmente resolvido. Talvez seja necessário ter vários tipos de profissionais dedicados a promover o aprendizado atuando na ponta, mas obviamente, aumenta (e muito) o custo de uma educação formal.
Vale também acrescentar a necessidade de se estimular desde cedo a habilidade do autoaprendizado. Não adianta criar um ambiente que permita “personalizar” o processo de aprendizado se quem for aprender não tiver a capacidade de conduzir este processo.
Há 3 anos, estudos mostravam um horizonte para a adoção desse conceito por uma quantidade mais ampla de pessoas para 2 ou 3 anos. Esse tempo já transcorreu sem que a previsão se concretizasse. Sou da opinião de que no período de 1 ou 2 gerações (de 25 a 50 anos) teremos um sistema educacional muito diferente do que temos hoje. Quem estava na “escola” por volta de 1990 pode atestar o quanto já mudou nos últimos 25 anos. Como diz o personagem Buzz Lightyear: “ao infinito… e além”.
[1] Organizações como OpenColleges, Edudemics e Educause.
Learning Analytics – parte 1
outubro 6, 2015 § 1 comentário

Citei anteriormente o termo “aprendizado analítico”, minha tradução para “learning analytics”. Ainda que a análise de dados gerados por aprendizes não seja lá uma coisa nova, o conceito de “learning analytics” só ganhou amplo apoio entre pesquisadores e profissionais da educação recentemente.
Quando se ouve falar desse termo em inglês, “analytics”, a primeira coisa que alguém familiarizado com ele pensa é no rastreamento de visitas em um website (seja ele um e-commerce, um blog ou a página da empresa em que trabalha). O “learning analytics” usa esse tipo de dados combinados com a performance do aprendiz e com modelos analíticos para verificar como eles aprendem e como se pode melhorar essa experiência de aprendizado.
O que pode fazer?
- Previsões a respeito de performances futuras, baseadas em padrões passados de aprendizado.
- Intervir quando se perceber diferenças no padrão de comportamento do aprendiz que possam sinalizar dificuldades e direcionar feedbacks que possam ajudá-lo.
- Personalizar o processo de aprendizagem de cada aprendiz, usando seus pontos fortes e encorajando melhorias.
- Adaptar estilos de ensino e de aprendizado via socialização, modelos de aprendizagem e tecnologia.
O modelo é excelente para detectar dificuldades de aprendizado via a performance. Isto é feito da seguinte maneira:
- Reconhecimento de demonstração de frustração, por exemplo em mensagens deixadas no ambiente virtual.
- Diminuição do tempo médio de utilização e atividade no ambiente virtual.
- Longos intervalos entre logins.
- Distinção entre “chute” e conhecimento em respostas de múltipla-escolha.
Um dos motivos pelos quais o conceito demorou a ser aceito, foi porque ele “desafia” outro conceito muito popular na área de educação, a hipótese do aprendiz eficiente – “efficient learner hypothesis” (ELF) – que considera que todos os aprendizes começam em um nível igual – daí a prática do nivelamento educacional – e progridem de forma similar – daí a organização dos alunos em turmas e séries.
Por considerar essencial abranger a discussão em relação ao nosso sistema educacional, adaptei um infográfico para facilitar a compreensão do processo de funcionamento do “learning analytics”.
Disponibilizei um pdf do infográfico na seção Publicações para download gratuito. No próximo post pretendo abordar como o conceito pode afetar o futuro do nosso entendimento a respeito do que é educação.
Conteúdo aberto
outubro 1, 2015 § Deixe um comentário

Apesar de não ser propriamente uma novidade – o conteúdo aberto está por aí basicamente desde o início da web – o tópico tem recebido uma atenção especial nos últimos anos. Eu mesmo só comecei a me familiarizar com o protocolo Creative Commons há pouco mais (ou menos, perdoem-me a memória) de um ano. De qualquer forma, relativamente recente.
O uso de conteúdo aberto (no original “open content” – a variação “open access” também é usada) facilita um bocado a vida de quem quer se manter atualizado em qualquer área do conhecimento. Se torna um ativo quando associado à habilidade de encontrar, avaliar e colocar em uso uma nova informação. Quando utilizado de maneira contextualizada, vira curadoria digital – uma área de grande crescimento quando se trata da “entrega” de informação.
A vantagem de se “criar” processos para utilizar a “riqueza” disponível pelo conteúdo aberto é particularmente compensadora quando voltada ao aprendizado. Quando comparado com um material didático como a apostila ou o livro-texto – pesados, lentos para atualizar e particularmente caros – os conteúdos Creative Commons tem levado vantagens em algumas áreas, particularmente matemática, história e ciências. Ao ser associado a conceitos como “aprendizado analítico” (no original, “learning analytics”) que combina a análise de dados da interação dos aprendizes em ferramentas educacionais, em especial online, com o direcionamento (ou como se diz atualmente, customização) da experiência de aprendizado, os resultados são elevados exponencialmente.
Acredito que conceitos novos são melhor compreendidos quando podemos observar sua aplicação na prática. Dessa forma, gostaria de compartilhar 3 exemplos do uso do conteúdo aberto, envolvendo as 3 áreas que citei acima.
História: Learn NC (algo como “aprenda Carolina do Norte”) é um programa desenvolvido pela Universidade da Carolina do Norte para compartilhar melhores práticas na utilização de recursos online com os professores deste estado norte-americano. Sua “apostila digital” de história (minha tradução para “digital textbook”) contém uma coleção de fontes, leituras e multimídia que podem ser pesquisados e reorganizados pelos professores para se adequarem à necessidade de aprendizado de cada turma, pode inclusive ser individualizado para cada aluno.
Matemática: o professor James Sousa desenvolveu mais de 3.000 vídeos-tutoriais em seu projeto particular intitulado Mathispower4u abordando assuntos que vão de aritmética à cálculo. Todos licenciados com a atribuição Creative Commons.
Ciências: uma parceria entre a Universidade Bringham Young e a Fundação Hewlett, proporcionou um projeto envolvendo professores de todo o estado de Utah, que se reuniram para criarem juntos “apostilas digitais” gratuitas. O projeto Utah Science Open Educational Resources desenvolveu materiais que abordam temas como biologia, química, física e fenômenos naturais, além de um guia de uso para que os professores possam explorar as “apostilas digitais” em sua totalidade.
A internet é possivelmente uma das maiores “tangibilizações” do conceito “batido” e muitas vezes desprezado da democracia. As possibilidades proporcionadas pelo seu uso dependem muito mais de quem a usa do que de quem “permite” o acesso – mesmo nos locais em que o uso é controlado por governos, é possível “burlar” vigilâncias. Essa foi uma das razões da minha “bronca” em relação à condenação do uso de celulares em sala de aula, que comentei no post anterior. Acredito ser mais válido estimular o uso da internet, mostrando suas reais possibilidades – que vão infinitamente além do acesso a redes sociais – do que tentar “fabricar” qualquer espécie de restrição a ela.
Como usar o celular em sala de aula
setembro 29, 2015 § 1 comentário
Quando algum assunto aparece na TV brasileira, normalmente é porque já atingiu um nível alto de debate (sejamos francos, a pauta jornalística das nossas emissoras, com raras exceções, não é definidora de tendências). Recentemente, tenho notado um crescente interesse a respeito do assunto “vício tecnológico” ou “digital”. Acho válidas as diversas opiniões a respeito, mas creio que algumas envolvendo o uso de celulares em escolas são mais carregadas de preconceitos do que abertas à exposição de opções. Dessa forma, penso que seguem mais uma linha tendenciosa.
Todas as opiniões que tenho visto condenam o uso e colocam a ferramenta no papel de vilão do baixo rendimento do aprendizado. Certamente o uso sem critério provoca desfoque, mas a questão central – que não percebi em nenhuma reportagem a que assisti – é exatamente a definição de critérios de uso que estimulem a sua associação ao aprendizado. Quando a questão dos critérios era citada (esporadicamente), envolvia restrições ou mesmo a proibição ao uso.
Critérios de uso significam estruturas e rotinas. No caso do celular, é preciso em primeiro lugar encará-lo da mesma forma que cadernos e canetas são encarados, como material escolar que os alunos trazem de casa. Sei que tentar algo novo em sala de aula pode ser intimidador, especialmente quando envolve tecnologia. Mas penso ser mais prejudicial encará-la como inimiga, ainda mais quando pode atuar como aliada dos professores no desafio de engajar os alunos e criar um ambiente estimulante intelectualmente.
Mas que estruturas e rotinas poderiam ser usadas para definir os tais critérios de uso? A seguir, pretendo abordar algumas facilmente implementáveis. É a minha contribuição ao debate.
1) Crie um sistema de identificação: não importa o equipamento (celular, tablet ou notebook), é preciso que seja identificado com o nome de cada aluno que o utiliza. Isso vale tanto para equipamento de propriedade do aluno quanto para equipamento fornecido pela instituição. São ferramentas caras, por isso é preciso vinculá-la ao usuário de alguma forma. Os alunos precisam saber que são responsáveis pelo bem-estar dos seus equipamentos e que podem ser facilmente identificados se o utilizarem de maneira desleixada ou não apropriada.
2) Seja claro e consistente: não considere “favas contadas” que os alunos vão saber o que o professor ou a escola está pensando. É preciso alinhar bem do início as expectativas de todos. Tópicos como: para que o equipamento será usado, como será usado, em que situação, o que se espera atingir com isso, como se espera que os alunos se comportem, o que não será aceito, que tipo de retaliação pode ocorrer para quem não cumprir as regras, como os pais serão comunicados, enfim, é preciso abordar, detalhadamente, os pormenores de cada critério. Se deixarmos de listar as expectativas no início, os alunos irão explorar o equipamento de maneiras que ninguém pode antecipar. Seja explícito e não faça suposições. É totalmente válido, por exemplo, pedir que a forma de visualização da tela não seja alterada ou que os aplicativos que serão usados fiquem todos no mesmo lugar.
3) Comece pequeno: escolha dois ou três aplicativos ou programas para serem usados. Para evitar uma sobrecarga de opções, crie uma pequena lista com as opções de uso para esses aplicativos ou sistemas. Procure identificar os alunos que podem atuar como experts em relação aos aplicativos usados, assim, ao incluir um novo, você terá 3 ou 4 aliados em sala que podem atuar como monitores ou tirar dúvidas em relação a como usar.
4) Use em atividades regulares: ao invés de incluir uma tarefa completamente nova para “usar” os equipamentos, os utilize em alguma atividade regular. Por exemplo, utilize um app de “Atlas Geográfico” ao invés de uma apostila. Atividades simples ajudam a desenvolver a confiança no equipamento (a do professor e dos alunos) e no uso da tecnologia como ferramenta para o aprendizado.
Reconheço ser um baita desafio usar tecnologia em sala de aula. Mas penso ser inevitável que ela adquira em um ambiente educacional o mesmo status que tem no dia a dia da sociedade. Tentar impedir o uso só contribui para a mistificação e não ajuda em nada no preparo de futuros profissionais, que certamente precisarão usar estes equipamentos na sua rotina de trabalho.
10 dicas rápidas para um aprendizado efetivo
setembro 24, 2015 § Deixe um comentário
Confesso que tenho uma “queda” por listas estilo “Top 10”. Talvez por ter sido um adolescente da “geração MTV” ou ter sido influenciado por filmes como “Alta Fidelidade” – aquele em que o ator John Cusack é dono de uma loja de discos e elabora listas de melhores músicas – o fato é que esse tipo de “compilação” estimula minha mente.
Seguindo essa “tradição” bem década de 90, não resisti em fazer minha própria “listinha” com dicas – que possivelmente já abordei em outros posts – sobre como podemos estimular um aprendizado (ou melhor, autoaprendizado) mais efetivo. Perdoem-me possíveis repetições, mas listas estilo “Top 10” são prodígios da recorrência.
- Personalize: identifique seu “estilo” pessoal de aprendizagem e o adapte aos seus hábitos diários.
- Sistematize: aborde o seu processo de aprendizado de forma sistemática. Aprender está mais para maratona do que para 100 metros rasos, por isso expanda seu conceito a respeito do que é aprendizado e como ele acontece.
- Diversifique: não é à toa que essa é a palavra mágica usada por qualquer consultor financeiro. Aprenda de diversas formas, usando diferentes materiais e recursos.
- Foque: elimine as possibilidades de distração. Tudo o que possa te desconcentrar ou tirar sua atenção entra nesse tópico. Aqui a qualidade vale tanto quanto a quantidade, lembre-se que meia hora é melhor do que nenhuma hora.
- Conecte: tente construir associações que liguem os diversos assuntos estudados. Ajuda a melhorar a retenção.
- Organize: gerencie seu processo de aprendizado, a começar pelo seu planejamento. Técnicas e dicas de gerenciamento do tempo também ajudam bastante nessa hora.
- Fique confortável: organize seu “espaço de estudo” levando em conta as coisas que te deixam confortável – tanto aquela caneta que você gosta quanto a sua lista de favoritos do browser podem atuar a seu favor nessa hora.
- Reflita: procure entender a perspectiva do material didático que você está utilizando, mas nunca (nunca mesmo) deixe de usar a sua própria interpretação como guia.
- Simplifique: quanto estiver diante de assuntos difíceis ou tarefas complicadas, divida e vá por partes. Sei que parece óbvio, mas quando não se tem muito tempo disponível o óbvio costuma “ficar pra escanteio”.
- Compartilhe: troque ideias com pessoas que estão estudando ou têm o mesmo interesse que você. Não subestime o valor de visões diferentes da sua.
Como diz Bruce Springsteen em uma “participação super-especial” no citado filme: “se prepare para começar de novo, vai te fazer bem”.
Thanks, Boss.
Aprendizado estilo japonês
setembro 22, 2015 § Deixe um comentário

O rugby é uma tradição familiar desde que um dos meus primos mais velhos ajudou a fundar um clube em Niterói dedicado à modalidade. Fui “apresentado” muito novo ao esporte e o pratiquei durante vários anos em clubes e selecionados. Tenho boas lembranças, principalmente dos anos em que joguei pelo Rio Rugby, na época basicamente composto por estrangeiros e uns poucos brasileiros.
Desde que “parei” de jogar, em 2004, minha relação com este esporte se tornou um tanto distante (possivelmente por o ter praticado tanto). Tirando esporádicos jogos familiares de touch (uma versão mais leve da modalidade) e um ou outro jogo assistido, de lá pra cá não dei muita atenção ao que acontecia no “mundo” do rugby.
Faço esta pequena introdução para dar um panorama geral do meu “passado” com a modalidade e para marcar o quão incomum foi, em um início de tarde “preguiçosa” de sábado (o último) parar em frente da TV e assistir despretensiosamente um jogo da Copa do Mundo, que está sendo disputada este mês na Inglaterra. O jogo em questão foi África do Sul Vs Japão, aqui vale uma explicação adicional para os que não estão familiarizados, a seleção sul-africana está para o rugby assim como a seleção brasileira está para o futebol, é uma potência do esporte, duas vezes campeã mundial. O Japão? Bem, está para a modalidade assim como está para o futebol, uma equipe bem mediana.
Contra todas as expectativas, quem ganhou foi o Japão. Aqui vale outra explicação adicional, no rugby não tem muito essa história de “zebra”, dificilmente a melhor equipe deixa de ganhar. Portanto, estava diante de uma situação realmente inusitada. Mas será que era inusitada mesmo?
O técnico japonês é o australiano (a Austrália é outra potência do esporte, também com 2 títulos mundiais) Eddie Jones, que já atuou tanto como jogador quanto como técnico pela sua seleção natal. Jones após se aposentar e antes de iniciar sua carreira de treinador, se tornou professor de escola, chegando a atuar como diretor de colégio. Sabendo da importância do aprendizado contínuo, Eddie Jones também faz parte de um grupo de treinadores de diferentes modalidades, como o espanhol Pep Guardiola, que costumam trocar impressões e melhores práticas a respeito de táticas, em especial posicionamento dos jogadores para “fechar” espaço no campo e tipos de jogadas destinadas a “abrir” o espaço “fechado” pelos jogadores.
Durante a partida foi possível identificar os japoneses praticando jogadas típicas de outras modalidades, como entregar a bola por detrás das costas a um companheiro, muito comum no basquete. Questionado por que nunca havia aplicado esse conhecimento na época em que treinava a Austrália, Jones foi sincero, não o possuía e mesmo que possuísse seria extremamente difícil convencer os jogadores australianos a “toparem” esse tipo de novidade.
Para que a inovação aconteça, além de se “expor” ao máximo a diferentes conhecimentos – para aumentar a possibilidade de conexões inusitadas – também é preciso “estar” em um ambiente que estimule essas conexões inusitadas. O Japão, pelo menos desde a sua reconstrução após a segunda guerra, em que aceitou a ajuda de antigos inimigos para se reerguer, tem-se demonstrado seguidamente “aberto” a novas práticas e conhecimentos. Nos esportes, já aplicaram esta característica nacional ao baseball (o país é uma das potências da modalidade), ao futebol e agora, ao que parece, ao rugby.
Ah sim, o rugby. Ao longo da minha vida, este esporte me apresentou a alguns valores como atuação em equipe, respeito pelas diferenças e pelo compromisso assumido, agora os reforça e os demonstra na prática, com o exemplo japonês, de que não basta ensinar, é preciso também querer aprender.
Desenvolvendo mentes curiosas – parte 2
setembro 17, 2015 § Deixe um comentário
Relacionei “mentes curiosas” a uma visão mais abrangente, que por falta de capacidade adjetiva minha chamei pelo termo anglo-luso “pensamento big picture”. Penso ser válido explicar porque fiz essa correlação. Do modo como vejo, a curiosidade intelectual requer que seu (ou sua) “proprietário(a)” tenha uma certa motivação interna, algo que o(a) impulsione a se questionar e procurar respostas. Essa motivação não virá se a pessoa não tiver pelo menos um vislumbre do benefício que terá com isto. Mesmo que não esteja muito claro e que seja apenas um sentimento ou sensação, é preciso crer que essa “busca” trará algum benefício. Essa sensação é o que caracterizei como “pensamento big picture”. É uma espécie de “senso de propósito”.
Conforme prometido, pretendo abordar nesse texto pequenas mudanças de atitude que considero poderem contribuir para estimular um pensamento mais “big picture”. Antes, gostaria de reafirmar a minha crença de que em educação não existe “receita de bolo”. O que proporei a seguir é fruto da minha experiência, mas que não necessariamente é adequada para toda e qualquer situação. Mas penso que pode ajudar alguém que pretenda estimular um “pensamento big picture” em si ou em outros.
Dê sentido aos seus projetos ou tarefas: é preciso trabalhar de maneira séria e focada, mas não todo o tempo. Acredito ser preciso dar a uma determinada tarefa (ou perceber) algum significado emocional, moral ou intelectual. E isso não é possível se apenas “abaixarmos a cabeça” e nos concentrarmos em fazer o que precisamos fazer. É preciso encontrar algum tempo para “levantá-la” e olhar para os lados. É a maneira que conheço para tornar algo mais significativo.
Ligue “lições” antigas a novas: um dos modos que me ajudam a entender a abrangência de algo é “preencher a lacuna” entre o que já sabia e o que aprendi. Dessa forma consigo compreender a inter-relação entre os assuntos e como “colocá-los” dentro de um “retrato maior”.
Estude História de maneira conectada e não linear: acredito ser essencial conhecer História para compreender a si mesmo e a sociedade em que se vive. Somos “frutos” da História brasileira, mas também somos frutos da História cristã-judaica ocidental, da História ibérica, da História africana e de tantas outras. Entender que a História não acontece linearmente me ajuda enormemente a colocar em prática a dica anterior.
Correlacione os detalhes aos conceitos macro: conceitos macros e seu detalhamento estão intrinsecamente relacionados. Uma das primeiras matérias que estudei ao entrar na faculdade foi a “Teoria Geral da Administração” (sou “formado” ou como se diz academicamente “bacharelado” em administração de empresas). Lembro que ao estudar um sistema de produção chamado de Taylorista, que basicamente estipulava que o funcionário deveria apenas exercer a sua função, no menor tempo possível durante o processo produtivo, não havendo necessidade de conhecer a forma como se chegava ao resultado final, percebi o quanto o modelo havia extrapolado a fábrica e se enraizado na nossa concepção de vida. Nesse momento, decidi que não teria vida profissional e vida pessoal, para mim seria a mesma coisa, a minha vida. Obviamente levei anos para tentar colocar isso em prática, mas de certa forma, o simples reconhecimento de que a compartimentalização era algo, a meu ver, antinatural, já me estimulara desde a época da faculdade a tentar entender como o detalhe de algo se relacionava com o seu “todo”.
Foque no “aprendizado real”: “a aprendizagem não é o produto do ensino, é o produto da atividade dos alunos”. A frase anterior é de um cara que me influenciou muito, John Holt. Ela é sobre um conceito que ele chamou de “aprendizado real” (“real learning”, no original), abordado no livro “How Children Learn”. Nele, Holt sugere que se use as mentes imaginativas e inquisitivas das crianças a favor do seu próprio aprendizado e que não se tente “molda-las” para que se “enquadrem” em um determinado comportamento (não vou entrar em detalhes, mas o conceito não significa deixar fazer o que quiser). Este livro me levou a “aceitar” o fato de que informação não significa conhecimento e que era necessário entender o seu contexto para poder “promover” essa migração. “Aprendizado real” para mim é a busca pelo contexto.
Essa é a minha pequena contribuição ao estímulo por um ambiente, digamos, mais “big picture”. Confesso que “deixei” anotadas mais umas 10 dicas, mas não tenho certeza se vou abordá-las no próximo post. Meu professor de kung fu, o Luiz Pessanha, me disse certa vez que o seu mestre Chan Kowk Wai, tinha a “mania” de lhe mostrar alguns poucos movimentos e não dizia mais nada. Isso o estimulava a pensar em como aplicar na prática aquela forma. Muitas vezes o “não dito” ensina mais.
Desenvolvendo mentes curiosas – parte 1
setembro 15, 2015 § 4 Comentários

Terminei o post passado sinalizando a importância de se pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas (e de quebra, uma visão mais abrangente). Penso que a primeira pergunta a ser respondida nesse sentido é: o que precisamos mudar no nosso ambiente atual para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?
Creio que é uma pergunta que estimula muita reflexão – assim como somos 200 milhões de “técnicos” da seleção brasileira durante qualquer copa do mundo de futebol – possivelmente cada um tem as suas convicções a respeito desse tema. Pretendo contribuir com algumas linhas a respeito do assunto.
Penso que poucos devem discordar de que foi correto o enfoque dado nos últimos 20 anos ao estímulo da universalização do ensino no Brasil. Com cada vez mais pessoas buscando (e recebendo) algum tipo de qualificação, conseguimos ao menos instigar a percepção de que o estudo é fundamental para alguém que pretende de alguma forma “melhorar de vida”. Creio que é hora de abrangermos agora o enfoque e refletir se o que as pessoas estão aprendendo e como estão se preparando para serem produtivas é a melhor opção. Quanto mais penso nesta questão, mais percebo a resposta como sendo no mínimo dúbia. Para pensar de verdade “no futuro”, ele precisa abranger mais do que 2, 4 ou mesmo 8 anos. Muito do que tem sido discutido a respeito de novas metodologias educacionais e conceitos, como “aprendizes do século XXI” ou “nativos digitais”[1], é feito sob a estrutura do século XX. É “super atual” ser digital, mas creio que os objetivos educacionais ainda continuam os mesmos: estudar para se formar e arrumar um emprego – de preferência na administração pública[2].
Mas, voltando à pergunta do início do post, o que precisamos mudar para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?
Na minha opinião, para começarmos a responder, é preciso primeiro mudar os objetivos do nosso sistema educacional. Se queremos de verdade estimular o aparecimento de inovadores – como 10 entre 10 políticos, empresários e especialistas dizem – temos que focar em desenvolver o indivíduo e a sua capacidade de pensamento. Embora a nossa legislação declare que o objetivo do nosso sistema educacional é estimular o pensamento crítico e reflexivo, a bem da verdade é que isso, na prática, não está acontecendo. Já que o objetivo pessoal de muita gente ainda é estudar para se formar e arrumar um emprego.
A razão disto, para mim, reside na maneira como a nossa sociedade está estruturada (e o sistema educacional é “retrato” da sociedade). Estamos estruturados de maneira linear, como em uma linha de produção. Para muitos, as coisas só fazem sentido quando vem em passo a passo, há muito pouco estímulo para perceber a conectividade entre elas.
Para não ficar “só reclamando”, pretendo no próximo (e talvez, nos próximos) post(s), abordar pequenas mudanças que penso podem contribuir para mudarmos o enfoque e estimular um pensamento mais “big picture”.
[1] O conceito de nativos digitais foi cunhado pelo educador e pesquisador Marc Prensky (2001) para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis na internet.
[2] Antes que alguém interprete como uma crítica a quem trabalha ou quer trabalhar na administração pública, deixe-me dar algumas explicações. Primeiro, não considero de forma alguma um trabalho fácil, a pessoa tem a sua discricionariedade extremamente limitada por legislações, regulações e normas burocráticas; segundo, precisa enfrentar o imaginário popular que a vê como incompetente e pouco afeita ao trabalho; terceiro, tem seus méritos e esforços muito pouco reconhecidos por superiores – e pela própria sociedade. É um trabalho que, ao meu ver, exige vocação verdadeira. Mas, é fato que o salário médio pago pela administração pública, especialmente a federal, é muito superior à média do mercado, o que estimula muita gente, que nem sempre tem a vocação, a prestar concurso público. Penso apenas que o país só teria a se beneficiar com mais pessoas com o objetivo de criar propriedade intelectual e não de arrumar um emprego e esta é a verdadeira intenção que pretendi dar à frase.




