Engajamento para o aprendizado – parte 1
julho 16, 2015 § Deixe um comentário

Tenho notado uma crescente preocupação com o engajamento para o aprendizado, como pode-se comprovar pelas publicações do relatório do plano de ação da CEA (Canadian Education Association) e pelas pesquisas a respeito do clima escolar conduzida pela PUC-RS e do engajamento para o aprendizado feita pela ESPM-RJ.
Esta preocupação, ao meu ver, deriva em grande parte das observações de educadores sobre os efeitos da tecnologia no nível de interesse dos alunos. Muitos jovens – principalmente em países mais avançados, embora o mesmo comportamento possa também ser observado por aqui – têm-se “desconectado” do aprendizado tradicional e se “conectado” em seus smartphones. A tecnologia fornece um meio mais rápido e variado para a transferência de informações do que um professor e por isso, penso eu, os alunos estão se desinteressando cada vez mais pelos meios tradicionais de instrução.
O objetivo atual das pesquisas (e em alguns locais, das campanhas) de engajamento dos alunos é corrigir esta discrepância. Currículos escolares em diferentes locais do mundo estão apostando na abordagem blended learning (método que engloba ações educacionais presenciais e não presenciais) na esperança de “dar um gás” no envolvimento dos alunos.
No entanto, é preciso ter em mente que nem todo engajamento é criado da mesma forma e que levar em consideração as próprias expectativas de quem aprende é tão (ou mais) importante do que os métodos usados para gerar os 3 tipos de engajamento (emocional, comportamental e cognitivo).
Inspirada nestas questões, a já citada Associação Canadense de Educação (Canadian Education Association) criou um projeto chamado “O que você fez hoje na escola?” (no original, “What did you do in school today?”), em que pergunta aos próprios estudantes, dentre outros assuntos, como imaginam o ambiente ideal para a sua aprendizagem. Abaixo, uma compilação das expectativas:
- Resolver problemas reais
- Ter contato com conhecimentos realmente importantes
- Me preparar para fazer a diferença no mundo
- Ser respeitado
- Entender como os temas estão interligados
- Aprender em conjunto com os outros e com as pessoas da comunidade
- Estar em contato com especialistas e conhecer suas opiniões
- Ter mais oportunidades para dialogar e conversar
É claro que há diferenças entre as realidades canadense e brasileira, mas com o mundo tão conectado como o atual e com cada vez mais possibilidades de compartilhar interesses, pensamentos e experiências, é válido inferir que algumas expectativas também são compartilhadas por pessoas de origens diferentes. Desta forma, o compilado de expectativa dos estudantes canadenses pode ser levado em consideração (comparativamente) e adaptado ao Brasil. Certamente nossos estudantes também se beneficiariam de um ambiente educacional que atendesse ao menos algumas das expectativas.
No próximo post pretendo tratar um pouco mais da abordagem multidimensional do engajamento (os 3 tipos que citei mais acima).
Sandow Birk e a fisiologia
julho 14, 2015 § Deixe um comentário
Sandow Birk é um artista plástico norte-americano com uma visão muito particular da cultura contemporânea. Ficou famoso o seu trabalho em que retrata o mapa-mundi visto por um liberal (aqui no Brasil chamaríamos de esquerda) e por um conservador (aqui, direita) com todas as suas idiossincrasias.
Porém, o seu trabalho que mais gosto é o que aborda a fisiologia, com “sacadas” como “velha lesão de futebol” para sinalizar o joelho ou “sobremesa” para aquela gordurinha localizada, como podem checar aqui abaixo.
O que acho interessante nesta abordagem é o estímulo à compreensão do funcionamento do corpo humano por meio de correlações com a vida cotidiana. É claro que não substitui o conteúdo clássico da biologia, é apenas um modo de introduzir um assunto mais denso de forma bem-humorada e motivar o aprendizado. Além de ser uma boa maneira para solidificar o conteúdo na memória de longo-prazo (correlacionando-o com “gatilhos” que facilitem rememorá-lo).
Gosto de dizer que não existe “cultura inútil”, é preciso se permitir estar em contato com a maior quantidade possível de fontes de informação para aumentar as suas possibilidades de conectar um conhecimento e, de quebra, inovar.
Quem se interessar em conhecer mais a respeito do trabalho do Birk, pode acessar o seu site diretamente por AQUI.
EatWith
julho 11, 2015 § Deixe um comentário
É mais um exemplo das possibilidades que a conectividade traz ao dia a dia. O EatWith, considerado o Airbnb (o site de alugueis por temporada) da gastronomia, é um site (disponível em app também) que oferece aos participantes a possibilidade de se conhecerem frequentando jantares oferecidos por outros participantes, ou como o site coloca “desfrutar experiências gastronômicas autênticas e íntimas nas casas das pessoas”. A ideia é fomentar uma comunidade global em torno da rede social original: pessoas ao redor da mesa.
Vem sendo bastante usada por chefs que oferecem jantares exclusivos em seus estabelecimentos ou residências, mas também por pessoas que compartilham o interesse por um bom papo e uma boa mesa. É uma boa maneira de conectar pessoas e este é o primeiro passo para se fazer outra conexão importante, a do conhecimento.
Crítica é boa para inovação?
julho 9, 2015 § 1 comentário
Jonathan Bendor, professor da Universidade de Stanford acredita que sim. Para ele, o que falta na maioria dos locais de trabalho não é criatividade, mas sim visão crítica. Muitos acreditam que a crítica e a criatividade são incompatíveis em um ambiente de trabalho criativo (vide as recomendações de técnicas como brainstorming), mas como Bendor vê a situação, criatividade e crítica são como os princípios chineses do yin e yang: duas forças complementares que interagem para formar um todo maior. “Eu acho que não só elas podem viver juntas”, diz ele, “como têm de viver juntas.”
Apesar de gostar de causar desconforto com suas observações – como podem checar pelo infográfico que seus alunos fizeram dos seus conceitos (pérolas como “a maioria das ideias são ruins” ou “leia e escreva usando as dicas “Strunk & White”[1]) – algumas delas são realmente válidas, como a referente ao uso de rubricas como forma de feedback.
Explico melhor, uma maneira de dar aos funcionários (ou colaboradores na linguagem atual) um feedback útil é através de uma rubrica formal ou sistema de pontuação, onde suas ideias são classificadas em várias dimensões, tais como “mérito técnico” e “potencial de mercado”. Ao contrário de uma crítica global como “Isso não é bom!”, as rubricas podem ajudar a solucionar problemas ao darem mais parâmetros para a avaliação de uma ideia e indicarem como ela pode ser melhorada.
“Se uma ideia é corrigível”, diz Bendor, “um gerente pode apontar para a rubrica e dizer: esta parte da solução está OK. Esta parte precisa ser retrabalhada e esta parte, refeita totalmente”. Ele acrescenta que pessoas em todos os níveis de uma organização podem se beneficiar de um feedback despersonalizado como este – mesmo o CEO.
Quem quiser ouvi-lo falar, pode acessar ao vídeo disponibilizado por Stanford. São 12 minutinhos que vale a pena “gastar”.
[1] William Strunk, Jr. publicou em 1919 um manual de escrita, revisado e atualizado em 1959 pelo seu ex-aluno E.B. White, chamado “The Elements of Style” em que dá dicas para escrever um texto corretamente. Quem já teve oportunidade de frequentar alguma aula de literatura em uma High School americana deve ter recebido o livrinho, que é odiado pela maioria dos estudantes.
Big data & Wide data
julho 7, 2015 § Deixe um comentário
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Não é de hoje que precisamos nos relacionar com uma quantidade absurda de dados e informações. O mundo conectado online (sou um rebelde, não concordo com opção portuguesa e espanhola pela grafia on-line, que não tem o mesmo significado que online em inglês) potencializou exponencialmente o volume – daí o termo big data – que só algoritmos “lidos” por máquinas conseguem lidar.
Somado ao volume, temos também a amplitude desses dados e informações – daí o termo wide data – que requer uma certa criticidade para analisar. É da amplitude que vêm as previsões e conclusões e, há até pouco tempo, domínio total do cérebro humano. Bom, não usei o termo “exponencial” à toa. O volume alongou a amplitude disponível a tal ponto que o cérebro humano simplesmente não processa as variáveis disponíveis. A solução para a “dobradinha” big & wide data são as ferramentas que promovem “machine learning”, uma espécie de inteligência artificial, que permite máquinas aperfeiçoarem o seu desempenho em alguma tarefa, em outras palavras, aprender.
Como todo o processo de aprendizado das máquinas é baseado no próprio processo humano de aprendizagem (pelo menos até que alguma “revolta das máquinas” aconteça), adaptar um ao outro pode ajudar os 2 lados. 3 conceitos usados em “machine learning” me chamaram a atenção e penso ser válido compartilhá-los.
Feature extraction, que determina quais dados devem ser usados no modelo. Definir as características (features) que são importantes em determinado aprendizado ajuda a eliminar uma quantidade imensa de variáveis. Quando se está lidando com dados brutos, saber o que “cortar” poupa tempo e torna a busca pela informação mais assertiva.
Regularization, que determina a forma como os dados são ponderadas dentro do modelo. Regularização é determinar a relevância de cada dado e a sua prioridade. É a “atitude” que transforma um dado em informação, o que dá o contexto. Em seu aprendizado, use este conceito para definir o seu plano de estudo, ordenando o que focará primeiro e tentando visualizar possíveis conexões interdisciplinares.
Cross-validation, que testa a precisão do modelo. A validação cruzada é uma técnica usada para avaliar a capacidade de generalização de um modelo, usando um conjunto de dados. O objetivo do seu uso em “machine learning” (e em análise humana) é a predição. Adaptando para o nosso aprendizado, use o conceito de validação cruzada para determinar o seu processo de avaliação (afinal, como saber se está realmente aprendendo?).
“Machine learning” é um tema fascinante e pode ajudar muito na criação de processos educacionais aplicáveis a nós mesmos, humanos. Para quem quiser se iniciar, sugiro começar pelos chamados “No Free Lunch Theorems” – matemáticos também têm senso de humor – que mostram que todos os algoritmos que buscam um extremo de uma função, agem exatamente da mesma maneira. Alguma semelhança com o nosso comportamento?
Salvar informações antigas nos ajuda a aprender novas informações
julho 2, 2015 § Deixe um comentário
O simples ato de “salvar” uma informação (como por exemplo, um arquivo no computador), nos ajuda a preparar a memória para receber uma nova informação. De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC), o ato de “salvar” ou “guardar” uma informação nos ajuda a “liberar” recursos cognitivos que podem ser usados para lembrar uma nova.
A ideia por trás do conceito é muito simples: o ato de “salvar” atua como uma forma de descarregamento (offloading é o termo original). Ao garantir que determinadas informações estarão digitalmente acessíveis, podemos realocar recursos cognitivos que de outra forma seriam usados para “manter” essa informação no nosso cérebro e nos concentrarmos em lembrar novas (ou mais importantes) informações. É claro que é extremamente necessário criar antes um processo de “recuperação” desses arquivos. Não adianta nada guardar a informação e “esquecer-se” de onde ela se encontra, do que se trata ou como se pode acessá-la.
Segundo o pesquisador Benjamin Storm, temos a tendência de considerar o esquecimento uma “falha” de memória, mas a pesquisa sugere que ele, na verdade, desempenha um papel essencial no apoio ao funcionamento adaptativo de memória e cognição.
Com o desenvolvimento tecnológico possibilitando cada vez mais “espaço” em HDs de computadores, smartphones e outros equipamentos, considerá-los extensões da nossa memória pode nos ajudar a minimizar as “falhas” de memória e transformá-las em uma vantagem, estimulando nossa habilidade em pensar novas ideias ou encontrar outras alternativas para solucionar problemas (o nome disto, não se esqueçam, é inovação).
Estas pesquisas também apontam tendências que podem ser usadas em planejamentos instrucionais, como por exemplo o mobile learning – aprendizado via aparelhos móveis como smartphones e tablets – que utiliza aplicativos educacionais para aumentar o aprendizado, possibilitar uma entrega flexível de conteúdo ou apoiar um aprendizado formal.
O dicionário visual do cérebro
junho 30, 2015 § 3 Comentários
Nós processamos as palavras visualmente, não foneticamente. É o que mostra um estudo conduzido pela Georgetown University Medical Center. Segundo o referido estudo, quando olhamos para uma palavra conhecida, nosso cérebro a vê como uma imagem e não como um grupo de palavras a serem processadas. Ao invés de utilizar métodos como soletração (que entende a letra como unidade) ou identificar partes da palavra como se acreditava anteriormente, o cérebro “se lembra” como a palavra toda se parece, agindo como se fosse um “dicionário visual”.
Utilizando a ressonância magnética para mapear o cérebro dos voluntários, descobriu-se que, ao aprender uma nova palavra, uma pequena área do cérebro (oposta à área utilizada para lembrar rostos) é ativada, indicando que o processo utilizado para reconhecer palavras é similar ao utilizado para reconhecer feições. Segundo os pesquisadores, é isto que nos permite ler rapidamente.
A descoberta não apenas ajuda a entender melhor como o cérebro processa palavras, mas também permite insights a respeito de como ajudar o aprendizado de pessoas com dificuldades de leitura. Para aqueles que têm dificuldades em aprender palavras foneticamente (que é o método habitual para o ensino da leitura), ensinar a palavra inteira como um objeto visual pode ser uma boa estratégia.
Exemplo que vem do passado
junho 27, 2015 § Deixe um comentário

“Verney[1], já no século XVIII, em nome de uma plêiade[2] de sábios educados no estrangeiro, clama contra o atraso do ensino nacional, acadêmico, aéreo, falso. Portugal, cheio de conquistas e glórias, será, no campo do pensamento, o “reino cadaveroso”, o “reino da estupidez”: dedicado à navegação, em nada contribuiu para a ciência náutica; voltado para as minas, não se conhece nenhuma contribuição na lavra e na usinagem dos metais. […] A ciência se fazia para as escolas e para os letrados e não para a nação, para suas necessidades materiais, para sua inexistente indústria, sua decrépita agricultura ou seu comércio de especulação. Uma camada de relevo político e social monopolizava a cultura espiritual, pobre de vida e de agitação. Fora dela, cobertos de insultos, ridicularizados, os reformadores clamavam no deserto, forçados a emigrar para a distante Europa, envolvida em outra luz”.[3]
Qualquer semelhança com o Brasil, século XXI, não é mera coincidência. Como explica o saudoso cientista político, Raymundo Faoro, “O Brasil, de terra a explorar, converte-se em três séculos de assimilação, no herdeiro de uma longa história, em cujo seio pulsa a Revolução de Avis e a corte de dom Manuel”. Depende de nós mudar.
[1] Luís António Verney, filósofo, teólogo, padre, professor e escritor português.
[2] Grupo de homens ou de literatos famosos.
[3] Faoro, Raymundo. Os donos do poder. Página 82.
O que a Finlândia tem?
junho 25, 2015 § Deixe um comentário

Foi com muita alegria que li a reportagem publicada nessa semana pela revista Veja a respeito da revolução educacional promovida pela Finlândia. O artigo aborda alguns temas que discuti neste espaço nos últimos meses, em especial coding (como exemplo de integração de disciplinas), project-based learning e empoderamento de alunos e professores (não por acaso temas dos 3 posts da série a respeito da conferência Education on Air). O segundo, tema também do infográfico que disponibilizei a respeito do passo a passo de implementação de uma ação de project-based learning).
Nunca é pouco repetir que para nos integrarmos de verdade ao século XXI, será necessário mudarmos nossa percepção a respeito do que é educação e como investir nela. Mais do que nunca, devemos privilegiar modelos educacionais que estimulem as pessoas a aprenderem a aprender e não os focados em disciplinas e no seu repasse. Aqui, vale o conceito de antidisciplina do Mitchel Resnick (“antidisciplinary” no original) em que nenhum conhecimento é rotulado e empacotado, você estuda o que precisa estudar, não importa a sua especialização.
Também não é pouco repetir que para “criar” propriedade intelectual, é preciso dar “valor” ao conhecimento (no sentido de reconhecimento, importância e consideração que o substantivo tem) e àqueles que possibilitam o seu compartilhamento. Desnecessário dizer que recomendo (e muito) a leitura do artigo (quem quiser, pode acessá-lo AQUI).
Aproveito ainda para deixar meu agradecimento pelas 3.517 visualizações dos 1.541 visitantes do site nos últimos meses (estatísticas do dia 24/06).
Para aprender mais rápido, não se concentre tanto
junho 23, 2015 § Deixe um comentário

Por que alguns desenvolvem habilidades rapidamente, enquanto outros precisam de um tempo extra para praticar? Essa foi a pergunta que Scott Grafton, pesquisador da UCSB (Universidade da Califórnia em Santa Bárbara) se fez. Para descobrir a resposta, desenvolveu um jogo online para medir as conexões entre as diferentes regiões do cérebro enquanto os participantes o tentavam aprender (quem quiser pode conhecer mais sobre o estudo AQUI).
Mapeando as atividades de 112 regiões do cérebro, perceberam uma grande concentração de conexões durante as primeiras tentativas, que diminuíam à medida que o experimento avançava, tornando as regiões mais independentes. Por exemplo, a parte do cérebro que controla o movimento dos dedos e a parte que processa estímulos visuais não interagiam mais ao final da análise. Segundo Grafton, essa tendência já era esperada, pois já conheciam como se desenvolvia o processo de aprendizagem neurologicamente, o que o surpreendeu foi detectar que o maior volume de atividade neural veio dos que aprendiam mais devagar, sugerindo que estes “pensavam demais” (no original, “overthinking”) a tarefa.
A explicação vem do “modus operandi” do cérebro. Quando começamos a aprender algo novo, o cérebro começa a testar inúmeras ferramentas cognitivas para tentar entender e reproduzir o novo conhecimento, com a prática e evolução do aprendizado, ele diminui o uso, focando naquelas que melhor apoiam aquele aprendizado. O que o estudo mostrou, é que algumas dessas ferramentas cognitivas “atrapalham” o aprofundamento de um aprendizado.
Bom, muito interessante, mas por que isso é importante? Porque significa que para um rápido aprendizado, é menos importante se preocupar “em que focar”, do que “como focar”. Manter o “fluxo de atenção” balanceado facilita a reorganização pelo cérebro do fluxo das suas atividades durante um aprendizado mais do que a estratégia de “atenção redobrada” ou “atenção total” que naturalmente utilizamos para aprender algo novo.


