Aprendizado estilo japonês

setembro 22, 2015 § Deixe um comentário

O rugby é uma tradição familiar desde que um dos meus primos mais velhos ajudou a fundar um clube em Niterói dedicado à modalidade. Fui “apresentado” muito novo ao esporte e o pratiquei durante vários anos em clubes e selecionados. Tenho boas lembranças, principalmente dos anos em que joguei pelo Rio Rugby, na época basicamente composto por estrangeiros e uns poucos brasileiros.

Desde que “parei” de jogar, em 2004, minha relação com este esporte se tornou um tanto distante (possivelmente por o ter praticado tanto). Tirando esporádicos jogos familiares de touch (uma versão mais leve da modalidade) e um ou outro jogo assistido, de lá pra cá não dei muita atenção ao que acontecia no “mundo” do rugby.

Faço esta pequena introdução para dar um panorama geral do meu “passado” com a modalidade e para marcar o quão incomum foi, em um início de tarde “preguiçosa” de sábado (o último) parar em frente da TV e assistir despretensiosamente um jogo da Copa do Mundo, que está sendo disputada este mês na Inglaterra. O jogo em questão foi África do Sul Vs Japão, aqui vale uma explicação adicional para os que não estão familiarizados, a seleção sul-africana está para o rugby assim como a seleção brasileira está para o futebol, é uma potência do esporte, duas vezes campeã mundial. O Japão? Bem, está para a modalidade assim como está para o futebol, uma equipe bem mediana.

Contra todas as expectativas, quem ganhou foi o Japão. Aqui vale outra explicação adicional, no rugby não tem muito essa história de “zebra”, dificilmente a melhor equipe deixa de ganhar. Portanto, estava diante de uma situação realmente inusitada. Mas será que era inusitada mesmo?

O técnico japonês é o australiano (a Austrália é outra potência do esporte, também com 2 títulos mundiais) Eddie Jones, que já atuou tanto como jogador quanto como técnico pela sua seleção natal. Jones após se aposentar e antes de iniciar sua carreira de treinador, se tornou professor de escola, chegando a atuar como diretor de colégio. Sabendo da importância do aprendizado contínuo, Eddie Jones também faz parte de um grupo de treinadores de diferentes modalidades, como o espanhol Pep Guardiola, que costumam trocar impressões e melhores práticas a respeito de táticas, em especial posicionamento dos jogadores para “fechar” espaço no campo e tipos de jogadas destinadas a “abrir” o espaço “fechado” pelos jogadores.

Durante a partida foi possível identificar os japoneses praticando jogadas típicas de outras modalidades, como entregar a bola por detrás das costas a um companheiro, muito comum no basquete. Questionado por que nunca havia aplicado esse conhecimento na época em que treinava a Austrália, Jones foi sincero, não o possuía e mesmo que possuísse seria extremamente difícil convencer os jogadores australianos a “toparem” esse tipo de novidade.

Para que a inovação aconteça, além de se “expor” ao máximo a diferentes conhecimentos – para aumentar a possibilidade de conexões inusitadas – também é preciso “estar” em um ambiente que estimule essas conexões inusitadas. O Japão, pelo menos desde a sua reconstrução após a segunda guerra, em que aceitou a ajuda de antigos inimigos para se reerguer, tem-se demonstrado seguidamente “aberto” a novas práticas e conhecimentos. Nos esportes, já aplicaram esta característica nacional ao baseball (o país é uma das potências da modalidade), ao futebol e agora, ao que parece, ao rugby.

Ah sim, o rugby. Ao longo da minha vida, este esporte me apresentou a alguns valores como atuação em equipe, respeito pelas diferenças e pelo compromisso assumido, agora os reforça e os demonstra na prática, com o exemplo japonês, de que não basta ensinar, é preciso também querer aprender.

Desenvolvendo mentes curiosas – parte 2

setembro 17, 2015 § Deixe um comentário

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Relacionei “mentes curiosas” a uma visão mais abrangente, que por falta de capacidade adjetiva minha chamei pelo termo anglo-luso “pensamento big picture”. Penso ser válido explicar porque fiz essa correlação. Do modo como vejo, a curiosidade intelectual requer que seu (ou sua) “proprietário(a)” tenha uma certa motivação interna, algo que o(a) impulsione a se questionar e procurar respostas. Essa motivação não virá se a pessoa não tiver pelo menos um vislumbre do benefício que terá com isto. Mesmo que não esteja muito claro e que seja apenas um sentimento ou sensação, é preciso crer que essa “busca” trará algum benefício. Essa sensação é o que caracterizei como “pensamento big picture”. É uma espécie de “senso de propósito”.

Conforme prometido, pretendo abordar nesse texto pequenas mudanças de atitude que considero poderem contribuir para estimular um pensamento mais “big picture”. Antes, gostaria de reafirmar a minha crença de que em educação não existe “receita de bolo”. O que proporei a seguir é fruto da minha experiência, mas que não necessariamente é adequada para toda e qualquer situação. Mas penso que pode ajudar alguém que pretenda estimular um “pensamento big picture” em si ou em outros.

Dê sentido aos seus projetos ou tarefas: é preciso trabalhar de maneira séria e focada, mas não todo o tempo. Acredito ser preciso dar a uma determinada tarefa (ou perceber) algum significado emocional, moral ou intelectual. E isso não é possível se apenas “abaixarmos a cabeça” e nos concentrarmos em fazer o que precisamos fazer. É preciso encontrar algum tempo para “levantá-la” e olhar para os lados. É a maneira que conheço para tornar algo mais significativo.

Ligue “lições” antigas a novas: um dos modos que me ajudam a entender a abrangência de algo é “preencher a lacuna” entre o que já sabia e o que aprendi. Dessa forma consigo compreender a inter-relação entre os assuntos e como “colocá-los” dentro de um “retrato maior”.

Estude História de maneira conectada e não linear: acredito ser essencial conhecer História para compreender a si mesmo e a sociedade em que se vive. Somos “frutos” da História brasileira, mas também somos frutos da História cristã-judaica ocidental, da História ibérica, da História africana e de tantas outras. Entender que a História não acontece linearmente me ajuda enormemente a colocar em prática a dica anterior.

Correlacione os detalhes aos conceitos macro: conceitos macros e seu detalhamento estão intrinsecamente relacionados. Uma das primeiras matérias que estudei ao entrar na faculdade foi a “Teoria Geral da Administração” (sou “formado” ou como se diz academicamente “bacharelado” em administração de empresas). Lembro que ao estudar um sistema de produção chamado de Taylorista, que basicamente estipulava que o funcionário deveria apenas exercer a sua função, no menor tempo possível durante o processo produtivo, não havendo necessidade de conhecer a forma como se chegava ao resultado final, percebi o quanto o modelo havia extrapolado a fábrica e se enraizado na nossa concepção de vida. Nesse momento, decidi que não teria vida profissional e vida pessoal, para mim seria a mesma coisa, a minha vida. Obviamente levei anos para tentar colocar isso em prática, mas de certa forma, o simples reconhecimento de que a compartimentalização era algo, a meu ver, antinatural, já me estimulara desde a época da faculdade a tentar entender como o detalhe de algo se relacionava com o seu “todo”.

Foque no “aprendizado real”: “a aprendizagem não é o produto do ensino, é o produto da atividade dos alunos”. A frase anterior é de um cara que me influenciou muito, John Holt. Ela é sobre um conceito que ele chamou de “aprendizado real” (“real learning”, no original), abordado no livro “How Children Learn”. Nele, Holt sugere que se use as mentes imaginativas e inquisitivas das crianças a favor do seu próprio aprendizado e que não se tente “molda-las” para que se “enquadrem” em um determinado comportamento (não vou entrar em detalhes, mas o conceito não significa deixar fazer o que quiser). Este livro me levou a “aceitar” o fato de que informação não significa conhecimento e que era necessário entender o seu contexto para poder “promover” essa migração. “Aprendizado real” para mim é a busca pelo contexto.

Essa é a minha pequena contribuição ao estímulo por um ambiente, digamos, mais “big picture”. Confesso que “deixei” anotadas mais umas 10 dicas, mas não tenho certeza se vou abordá-las no próximo post. Meu professor de kung fu, o Luiz Pessanha, me disse certa vez que o seu mestre Chan Kowk Wai, tinha a “mania” de lhe mostrar alguns poucos movimentos e não dizia mais nada. Isso o estimulava a pensar em como aplicar na prática aquela forma. Muitas vezes o “não dito” ensina mais.

Desenvolvendo mentes curiosas – parte 1

setembro 15, 2015 § 4 Comentários

Terminei o post passado sinalizando a importância de se pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas (e de quebra, uma visão mais abrangente). Penso que a primeira pergunta a ser respondida nesse sentido é: o que precisamos mudar no nosso ambiente atual para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?

Creio que é uma pergunta que estimula muita reflexão – assim como somos 200 milhões de “técnicos” da seleção brasileira durante qualquer copa do mundo de futebol – possivelmente cada um tem as suas convicções a respeito desse tema. Pretendo contribuir com algumas linhas a respeito do assunto.

Penso que poucos devem discordar de que foi correto o enfoque dado nos últimos 20 anos ao estímulo da universalização do ensino no Brasil. Com cada vez mais pessoas buscando (e recebendo) algum tipo de qualificação, conseguimos ao menos instigar a percepção de que o estudo é fundamental para alguém que pretende de alguma forma “melhorar de vida”. Creio que é hora de abrangermos agora o enfoque e refletir se o que as pessoas estão aprendendo e como estão se preparando para serem produtivas é a melhor opção. Quanto mais penso nesta questão, mais percebo a resposta como sendo no mínimo dúbia. Para pensar de verdade “no futuro”, ele precisa abranger mais do que 2, 4 ou mesmo 8 anos. Muito do que tem sido discutido a respeito de novas metodologias educacionais e conceitos, como “aprendizes do século XXI” ou “nativos digitais”[1], é feito sob a estrutura do século XX. É “super atual” ser digital, mas creio que os objetivos educacionais ainda continuam os mesmos: estudar para se formar e arrumar um emprego – de preferência na administração pública[2].

Mas, voltando à pergunta do início do post, o que precisamos mudar para estimular o desenvolvimento de mentes curiosas?

Na minha opinião, para começarmos a responder, é preciso primeiro mudar os objetivos do nosso sistema educacional. Se queremos de verdade estimular o aparecimento de inovadores – como 10 entre 10 políticos, empresários e especialistas dizem – temos que focar em desenvolver o indivíduo e a sua capacidade de pensamento. Embora a nossa legislação declare que o objetivo do nosso sistema educacional é estimular o pensamento crítico e reflexivo, a bem da verdade é que isso, na prática, não está acontecendo. Já que o objetivo pessoal de muita gente ainda é estudar para se formar e arrumar um emprego.

A razão disto, para mim, reside na maneira como a nossa sociedade está estruturada (e o sistema educacional é “retrato” da sociedade). Estamos estruturados de maneira linear, como em uma linha de produção. Para muitos, as coisas só fazem sentido quando vem em passo a passo, há muito pouco estímulo para perceber a conectividade entre elas.

Para não ficar “só reclamando”, pretendo no próximo (e talvez, nos próximos) post(s), abordar pequenas mudanças que penso podem contribuir para mudarmos o enfoque e estimular um pensamento mais “big picture”.

[1] O conceito de nativos digitais foi cunhado pelo educador e pesquisador Marc Prensky (2001) para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis na internet.

[2] Antes que alguém interprete como uma crítica a quem trabalha ou quer trabalhar na administração pública, deixe-me dar algumas explicações. Primeiro, não considero de forma alguma um trabalho fácil, a pessoa tem a sua discricionariedade extremamente limitada por legislações, regulações e normas burocráticas; segundo, precisa enfrentar o imaginário popular que a vê como incompetente e pouco afeita ao trabalho; terceiro, tem seus méritos e esforços muito pouco reconhecidos por superiores – e pela própria sociedade. É um trabalho que, ao meu ver, exige vocação verdadeira. Mas, é fato que o salário médio pago pela administração pública, especialmente a federal, é muito superior à média do mercado, o que estimula muita gente, que nem sempre tem a vocação, a prestar concurso público. Penso apenas que o país só teria a se beneficiar com mais pessoas com o objetivo de criar propriedade intelectual e não de arrumar um emprego e esta é a verdadeira intenção que pretendi dar à frase.

Visão abrangente

setembro 10, 2015 § 4 Comentários

  Um dos termos em inglês que mais acho interessante é “big picture” (ou sua variação “bigger picture”). É um daqueles termos estrangeiros que não tem muitos correspondentes em outras línguas. Como “saudade”, em português, é preciso entender o seu significado para que possamos compreender o seu real impacto quando colocado em uma frase.

“Big picture” não significa simplesmente “foto grande”, significa visão abrangente (ou a necessidade de abranger a sua visão). Significa expandir o seu entendimento e compreender as diversas relações de algo.

Mas, por que enxergar a “foto grande” é importante? Para compreender de verdade o motivo, é preciso perceber o seu alcance. Uma pesquisa bem abrangente coordenada pela Universidade de Stanford, chamada PERTS – Project for Education Research That Scales – algo como “projeto de pesquisa educacional escalável” – mediu o impacto do pensamento “big picture” em cerca de 1.360 graduandos do ensino médio (lá, a famosa high school), de baixa-renda de escolas públicas de regiões urbanas da Califórnia, Texas, Nova York e Arkansas.

Na primeira etapa de testes, os adolescentes sentavam-se a frente do computador e realizavam testes simples envolvendo subtrações matemáticas, vídeos no YouTube e o jogo Tetris. O objetivo era investigar a presença de uma forma de pensar específica, que chamaram de “aprendizagem com objetivo auto-transcedente”, que em português (ou inglês) claro significa uma forma de pensar que envolva a visão abrangente. Uma espécie de aprendizado “big picture”.

Os adolescentes com “objetivo auto-trancendente”, que concordaram, por exemplo, com declarações de cunho social como “quero me tornar um cidadão educado que pode contribuir para a sociedade” pontuaram mais em medidas como “coragem” e “autocontrole” do que colegas que só relataram motivos para aprender de cunho pessoal, como “conseguir um bom emprego” ou “ganhar mais dinheiro”.

Possivelmente você pensou o que eu pensei ao ler a pesquisa, “e daí?”. Daí, que os adolescentes mais “altruístas” eram também os menos propensos a sucumbir às distrações digitais, resolviam mais problemas de matemática e eram os mais interessados em se matricular em uma faculdade no ano seguinte. O motivo? Eles conseguiam enxergar a “big picture”.

Isto ficou mais evidente na segunda etapa de testes feitos com o mesmo grupo, que investigou se o fato de possuir um “senso de propósito” melhorava o rendimento em matemática e ciências. O grupo identificado como mais altruísta escrevia pequenas redações explicando porque não estudavam para simplesmente arrumar um emprego e porque queriam realizar algo relevante no mundo. Estas redações eram lidas pelos participantes mais individualistas em diversos períodos ao longo dos meses seguintes. Ao final do ano letivo, os pesquisadores avaliaram a performance dos adolescentes. Perceberam algo interessante em relação aos participantes mais individualistas, estes tiveram uma melhora nas matérias avaliadas de cerca de 20%. Ao checarem o motivo, descobriram que ao conseguirem “enxergar” além do “próprio umbigo”, os adolescentes desenvolveram uma maior capacidade de planejamento e organização do próprio tempo. O “senso de propósito” os auxiliou a tornarem suas mentes mais curiosas e adaptativas.

A pesquisa ajuda a perceber, no meu entendimento, a importância de pensar em como estruturar um ambiente de aprendizagem que possa estimular o desenvolvimento de mentes mais curiosas. Sem ela, as gerações futuras não terão possibilidade de resolver questões como mudança climática e desigualdade social ou lidar com os impactos da globalização nos locais aonde vivem. Impacta diretamente no tipo de sociedade em que viveremos em 10, 15 ou 20 anos. Instigar um “senso de propósito” para estimular uma visão mais abrangente e uma criticidade maior no pensamento, ao meu ver, é parte desse processo.

Avaliação gerando entendimento

setembro 8, 2015 § Deixe um comentário

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Quando Grant Wiggins e Jay McTighe escreveram o livro “Understanding by Design” sabiam que o que propunham ia ao contrário do convencional em metodologia educacional. Colocavam a avaliação como peça central de ensino e aprendizagem, argumentando que testes não deveriam ser “adendos” aplicados posteriormente e sim o ponto central da instrução. Quase 20 anos após a publicação da primeira edição, Understanding by Design (UbD) se tornou uma ferramenta amplamente utilizada, com mais de 250 mil exemplares vendidos, 30 mil manuais em uso (há uma versão estilo workbook) e trabalhada como livro-texto em cursos de mais de 150 universidades.

O modelo conta com o que Wiggins e McTighe chamam de “backward design” (algo como “projeto para trás”). Ao invés de se começar a planejar uma ação educacional definindo conteúdo, atividades e material de apoio, como feito tradicionalmente, o modelo UbD propõe que primeiro se identifique metas de aprendizagem e depois se direcione o planejamento para esse objetivo. No “projeto para trás”, o professor começa com os resultados que deseja alcançar em sala de aula e, em seguida, planeja o currículo e escolhe as atividades e materiais que o ajudarão a avaliar a capacidade do aluno e estimular o seu aprendizado.

A abordagem é desenvolvida em 3 etapas. A primeira começa com a identificação dos resultados desejados, o estabelecimento do objetivo geral das lições usando padrões de conteúdo, núcleo comum ou normas definidas por legislação. Esta etapa também se concentra em identificar “o que os alunos já sabem” (conhecimentos atuais) e determinar “o que os alunos serão capazes de fazer” (habilidades que se deseja desenvolver). Há aqui a definição de um documento chamado “Os alunos vão entender que …” (no original, “Students will understand that…”) que enumera questões essenciais que irão orientar a compreensão do aluno a respeito do conteúdo. Pode-se observar que este primeiro momento é dedicado a definições “estratégicas”.

Os objetivos determinados nesta etapa devem ser de 3 tipos: transferência de aprendizagem, criação de entendimento e aquisição de habilidades. Como exemplo, a versão workbook da ferramenta demonstra o objetivo de uma série de matérias. Compartilharei a de história:

  • Aplicar lições do passado (padrões históricos) em eventos correntes ou futuros (se for identificada uma tendência).
  • Analisar criticamente eventos e reivindicações históricas.

A segunda etapa foca em determinar as evidências do aprendizado por meio de avaliações. É sugerido que se planeje tarefas de desempenho e “provas” de compreensão. Tarefas de desempenho ajudam a avaliar as habilidades que os alunos devem demonstrar e as “provas” atuam como uma forma de evidência, que revela a compreensão do conteúdo. Como “provas”, pode-se incluir a autorreflexão e formas de auto-avaliação.

Mas é preciso ter alguns pontos em mente na hora de definir uma forma de avaliação. Quando alguém realmente compreende algo, pode:

  • Explicar princípios, conceitos e processos em suas próprias palavras.
  • Interpretar o sentido de dados, textos, imagens, analogias, histórias e modelos.
  • Aplicar o que aprendeu, utilizando o conhecimento de maneira efetiva em outro contexto.
  • Desenvolver um senso de perspectiva, analisando situações de forma abrangente e por outros pontos de vista.
  • Demonstrar empatia e conseguir entender o impacto da situação proposta em outras pessoas ou grupos.
  • Desenvolver capacidade de autoconhecimento, demonstrando habilidades de metacognição e refletindo no significado do aprendizado e da experiência.

Finalmente, a terceira etapa foca em planejar as atividades de aprendizado que estimularão os alunos a atingirem os resultados desejados. As atividades devem estar de acordo com os 3 tipos de objetivos definidos na primeira etapa: transferência de aprendizagem, criação de entendimento e aquisição de habilidades. Percebe-se que os 3 objetivos devem ser trabalhados de forma integrada. As atividades que estimulem a transferência de aprendizagem e a criação de entendimento devem necessariamente envolver a demonstração das habilidades que se quer desenvolver. Desta forma, a etapa 2, da avaliação, se torna fundamental para o próprio repasse do conteúdo. É ela que determina o que conta como evidencia do aprendizado e o que o professor quer que o aluno perceba na lição.

A avaliação deveria, cada vez mais, ser vista como um caminho para que se chegue ao domínio de algo (ou como os autores citam, “road to mastery”) e não apenas como testes ou notas.

IMAGENS E ESQUEMAS: Conexão do Conhecimento

setembro 5, 2015 § Deixe um comentário

Compartilhei as imagens e esquemas constantes no livro Conexão do Conhecimento – Conectar para gerar ideias, inovações e aprendizado em um arquivo pdf. O download do arquivo é gratuito, quem quiser basta acessar a seção PUBLICAÇÕES do site e “baixar” de lá.

O arquivo é o segundo exibido na página, após o próprio livro.

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Inovação e adaptabilidade

setembro 3, 2015 § 7 Comentários

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Bycast, uma empresa com sede em Vancouver, tinha como foco de atuação até meados dos anos 2000, o envio de vídeo e conteúdo de áudio em forma comprimida através da Internet.  Com a popularização do YouTube e dos vídeos steaming, esse mercado desapareceu quase que “da noite para o dia”. A empresa precisava encontrar um novo mercado, “o tempo estava se esgotando e o nosso capital estava sendo queimado no processo de busca”, lembra Alan Chiu, ex-diretor da empresa.

A solução veio de uma fonte improvável, a instituição médica canadense The British Columbia Cancer Agency. Com uma “biblioteca” de CDs com imagens médicas que enchiam salas e mais salas, a instituição tinha cada vez mais dificuldades em mantê-los organizados e disponíveis para os médicos e pessoal autorizado das suas instalações de saúde. Como solução, a Bycast desenvolveu um software que auxiliava a gerenciar uma quantidade massiva de dados em diferentes localidades geográficas. “Isso levou à descoberta de um segmento de mercado em torno de imagem médica e compartilhamento de dados em vários locais”, Chiu lembra. Quando a Bycast foi adquirida pela NetApp em 2010, a sua base de dados incluía alguns dos maiores repositórios de conteúdo digital do mundo.

A inovação surge de maneira inusitada, mas uma das características essenciais do processo é a flexibilidade. É ela que permite que não nos agarremos a soluções costumeiras e nos adaptemos. Alan Chiu virou um dos sócios da Xseed Capital, uma empresa que atua como investidor-anjo[1] em novos negócios. Nesta posição, tem ajudado jovens empreendedores tanto financeiramente, quanto compartilhando seu conhecimento em negócios. Essa experiência o levou a ser convidado pela Universidade de Stanford – é um ex-aluno de lá – a contar um pouco da sua experiência e dar dicas de melhores práticas (para assistir ao vídeo, clique AQUI). Um dos seus conselhos, penso eu, transcende o mundo corporativo e pode ser aplicado em nossa própria vida.

“Seja intelectualmente honesto e adaptável” diz ele. Empreendedores (não só, mas também) tendem a ser pessoas naturalmente otimistas, mas não convém manter um “otimismo cego”. Quem é otimista sem ser honesto consigo mesmo está mais suscetível a ser enganado pelos seus próprios preconceitos. Estar aberto a novas informações, novos dados e novas recomendações é o primeiro passo para exercitar a sua habilidade em se adaptar.

Isto não quer dizer que não possamos ter nossas convicções, pelo contrário, acreditar em algo é de extrema importância para se chegar em algum lugar. Mas é preciso estar aberto à mudança e à correção de rumo.

Tricia Seibold, uma excelente designer e aluna em Stanford nos presenteia com seu talento, compartilhando um infográfico com as principais dicas da palestra do Alan Chiu. Em um post anterior, compartilhei um dos seus infográficos atribuindo-o a alunos de Stanford. Aproveito aqui para retificar a minha informação.

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[1] É o investimento efetuado por pessoas físicas ou jurídicas em empresas nascentes com alto potencial de crescimento (as startups) apresentando as seguintes características: é efetuado por profissionais (empresários, executivos e profissionais liberais) experientes, que agregam valor para o empreendedor com seus conhecimentos, experiência e rede de relacionamentos além dos recursos financeiros, por isto é conhecido como smart-money ; tem normalmente uma participação minoritária no negócio; não tem posição executiva na empresa, mas apoiam o empreendedor atuando como um mentor/conselheiro.

Obrigado por compartilhar

setembro 1, 2015 § Deixe um comentário

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O conhecimento sempre foi uma poderosa fonte de poder para a humanidade. Não é por acaso que o primeiro ato de qualquer tirano é suprimir as fontes de informação e conhecimento. A época atual, que temos o privilégio de viver, é ímpar na geração, difusão e acesso a esse poder de transformação do ser humano. O impacto da internet é daqueles definidores, como foi a descoberta do fogo, a criação da culinária, a criação da prensa, o iluminismo, o domínio da fissão nuclear, dentre outros. É algo que já mudou o modo como vivemos e está mudando a forma como pensamos.

Uma das mudanças na forma de pensar mais fáceis de identificar é o aumento do compartilhamento de informações e conhecimentos entre os seres humanos, muitas vezes estimulados pela boa e simples generosidade das pessoas. Domingo passado, dia 30/08, perdemos uma dessas pessoas generosas, o Dr. Oliver Sacks, que mesmo nos seus últimos meses de vida, em câncer terminal, encontrou tempo para compartilhar seu conhecimento e impressões.

Certamente virarão clássicos seus 4 artigos, publicados ao longo deste ano no The New York Times, sobre o que se passava por sua cabeça nos últimos tempos.

O primeiro, publicado em fevereiro, “My own life”, foi usado para anunciar a sua condição e abordar como decidiu encarar o diagnóstico e o tempo que lhe restava.

O segundo, de junho, com o sugestivo título de “Mishearings” (algo como ouvir mal ou errado), Sacks nos presenteia – com a sua costumeira narrativa – suas impressões a respeito dos mal-entendidos que uma crescente surdez causada pelo câncer o proporcionava e sua correlação com a natureza da percepção humana.

No terceiro, publicado ao final de julho, Oliver Sacks aborda como vinha utilizando seu tempo e compartilha uma prática adquirida nos últimos anos de receber de presente de aniversário o metal ou mineral correspondente ao número da sua idade na tabela periódica. Não por acaso, o título do artigo é “My periodic table”.

No último (e meu favorito), publicado há cerca de 15 dias, nos conta, em tom de despedida, sua relação com o sábado (dia sagrado para a religião judaica). Com o título de “Sabbath”, Sacks celebra a vida e nos brinda com um final arrebatador, que reproduzo a seguir em uma tradução livre: “E agora, fraco, com pouco fôlego, com meus músculos outrora firmes derretidos pelo câncer, me pego a pensar constantemente não no sobrenatural ou no espiritual, mas no que significa viver uma boa e produtiva vida e alcançar a paz interior. Me pego a pensar no Sabbath, o dia do descanso, o sétimo dia da semana e talvez, o sétimo dia da vida de uma pessoa, quando se tem a sensação de que o trabalho está terminado e é possível, em boa consciência, descansar”.

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Obrigado por compartilhar, Dr. Sacks.

Em tempo, mantendo a boa prática, compartilho os links para os artigos nos títulos originais que citei acima.

Aprendizado ao invés de educação

agosto 27, 2015 § 3 Comentários

Joi Ito é o diretor do MIT MediaLab, um dos lugares mais inovadores do mundo, que fica em uma das instituições de educação formal mais respeitadas da atualidade (o MIT) e mesmo assim tem como crença pessoal a certeza de que as pessoas deveriam se preocupar mais em aprender e menos em “receber” educação. Em uma palestra TED no ano passado declarou: “educação é o que os outros fazem para você, aprendizado é o que você faz para si mesmo”.

Na palestra, Ito conta como formou um grupo chamado Safecast, que mede a quantidade de radiação nuclear presente no mundo. Frisa que são todos amadores e que ainda assim conseguiram montar seus próprios contadores Geiger, a um custo mais barato e disponibilizar seus dados via site e aplicativo para quem quiser. Marotamente pergunta: “como é que um bando de amadores que realmente não sabiam o que estavam fazendo, de alguma forma conseguiu se unir e fazer o que as ONGs e o governo eram completamente incapazes de fazer?”. Ito atribui à conectividade permitida pela internet e pela disposição em fazer mais e planejar menos. Cunhou até um termo para representar a atitude, “now-ism” (algo como “agoraismo” – que seria o antônimo de futurismo).

Recomendo assistirem ao vídeo (disponibilizo o link AQUI), mas gostaria de focar e abranger a “bola levantada” pelo Ito em relação à aprendizado X educação. Como compartilhamos essa mesma crença, sinto-me compelido a fazer alguns esclarecimentos. De certa forma, esse sentimento expresso pelo diretor do MediaLab coaduna com o chamado feito por parte das pessoas envolvidas com educação para que a sociedade dê mais atenção ao autoaprendizado e tire proveito das possibilidades proporcionadas pela conectividade. Não é, de forma alguma, uma campanha para acabar com a educação formal. Mas, é preciso ter consciência de que o custo de uma educação formal se tornou tão escandalosamente alto que já não faz sentido depender exclusivamente dos sistemas formais de educação. Quando abordo a questão do custo, não me refiro somente à educação particular, o nosso sistema público universal de educação gasta boa parte dos orçamentos federal, estaduais e municipais.

Como tornar o brasileiro mais preparado para atuar no mundo contemporâneo onde a inovação, a criatividade e a geração de conhecimento fazem a diferença? Para mim, a resposta passa por cada brasileiro tomar em suas mãos as rédeas do seu próprio aprendizado. Não pretendo abordar neste post como estimular o autoaprendizado, já o fiz em uma sequência de posts que publiquei em maio deste ano e em meu livro, Conexão do Conhecimento, lançado este mês (quem quiser disponibilizo o link para a compra na seção PUBLICAÇÕES), mas gostaria de reforçar a importância dessa prática com 3 princípios levantados pelo Joi Ito em seu conceito de “now-ism” e relacioná-los ao aprendizado.

1) Implemente ou Morra (Deploy or Die): pessoalmente considero que essas afirmações excessivamente incisivas geram mais angústia do que reflexão, mas compreendo a estratégia. O que Ito pretende com este mote é instigar a “arregaçar as mangas” e produzir: coisas, conhecimento, inovações. O que importa é colocar à disposição de todos o seu trabalho. Em suas palavras, “deveríamos estar nós mesmos lá fora, construindo,e não dependendo que grandes instituições façam isto por nós” (no original, para não impor meu entendimento, “we should be getting out there ourselves and not depending on large institutions to do it for us”).

Em aprendizagem significa compartilhar suas ideias e conhecimentos. Para aprender bem nunca é demais 3 coisas, planejamento (saber o que você quer aprender), resiliência (se manter no caminho, mesmo na adversidade) e avaliação (um feedback em relação ao que você sabe é fundamental para que se possa checar a eficácia do seu aprendizado). A internet pode ajudar muito nessa história, atuando como uma “ferramenta” de colaboração e amplificando o aprendizado, mesmo porque a melhor maneira de aprender não está mais no isolamento – creio que nem os monges acreditam mais nisto.

2) Puxe ao invés de Empurrar (Pull over Push): a ideia aqui é “puxar” os recursos que você precisa da rede – no sentido amplo, pode ser tanto a internet, quanto a sua rede de contato pessoal – ao invés de concentrar e controlar em algum “centro” – também em um sentido amplo, pode ser tanto um centro acadêmico quanto uma pasta no seu computador.

No contexto da aprendizagem, significa o fim do conceito de “sabichão”, aquelas pessoas extremamente especialistas, que conhecem tudo sobre sua matéria porque se condicionaram a “estocar” informações. Antes da internet havia espaço para esse perfil, agora basta uma pesquisa no Google para levantar a maioria das informações necessárias sobre qualquer assunto. Saber procurar, achar e entender como as informações necessárias para você se relacionam é mais eficiente do que estocá-la.

3) Compasso ao invés de Mapa (Compass over Maps): aqui confesso que há uma divergência entre meu entendimento e do Ito. Vou abordar os dois. Para o Ito, planejamento é superestimado, diz: “o custo de planejar ou mapear algo está se tornando muito caro e muitas vezes não é muito preciso ou útil” (no original, pelo mesmo motivo exposto anteriormente, “the cost of writing a plan or mapping something is getting so expensive, and it’s not very accurate or useful”). Vejo de outro modo, planejar e mapear são importantes para definir objetivos (o que se quer alcança) e traçar parâmetros (por onde começar, como saber se estou fazendo certo, o que preciso para colocar em prática). Concordamos, porém, na necessidade da flexibilidade para as correções necessárias quando estivermos fazendo o que queremos (ou precisamos) fazer. Esse é o real significado do “compass over maps” e por isso, mesmo discordando do argumento, creio que é um princípio válido.

Em aprendizado, similarmente, é preciso colocar a “cara a tapa” e mudar de rumo se o seu método de aprendizagem não estiver dando resultado. Mas para saber isto, é preciso medir (e se planejar).

Acredito no “poder” do aprendizado e acredito que ninguém está “limitado” ao seu expertise atual. Um advogado pode (e deve) saber como programar um site ou um aplicativo se isto for beneficiá-lo de alguma forma e um programador pode (e deve) conhecer legislação se ela interferir (e certamente interfere) de algum modo na sua vida. A verdade é que, advogados e programadores, professores e alunos, adultos e crianças, têm mais em comum do que se pode perceber em um primeiro momento: são todos aprendizes. Por isso “aprender a aprender” é tão importante e praticar o autoaprendizado é fundamental para quem quer realmente fazer a diferença neste louco século XXI.

Consumo autoral

agosto 25, 2015 § Deixe um comentário

Serendipity[1] para mim é perambular pelas estantes de uma livraria. É um habito que tenho desde garoto, quando “descobri” autores como Orígenes Lessa e Hélio do Soveral. Por estes dias exercitei esta “navegação” na livraria Leonardo Da Vinci – que segundo notícias está em seus últimos dias, o que é uma lástima dado o inestimável serviço prestado a gerações de mentes cariocas – e encontrei uma verdadeira preciosidade.

Trata-se do livro “Consumo Autoral”, organizado pelo sociólogo italiano Francesco Morace, que fundou um dos mais respeitados centros de pesquisa e estudos de comportamento e consumo, o Future Concept Lab. No livro, Morace et al[2] aborda os resultados de uma extensa pesquisa promovida pelo seu laboratório em cerca de 40 países (Brasil incluído), que percebeu alguns fenômenos culturais e mudanças de comportamento. A análise sociológica feita captou o impacto das últimas crises econômicas – iniciando-se com a de 2008 – e sinaliza uma tendência de mudança de perfil do consumidor à medida que a(s) crise(s) avança(m).

O sociólogo identificou algumas mudanças de comportamento que agrupou no termo que dá título ao livro por mostrar uma característica homogênea a todas elas: consumidores menos influenciados pelo charme das grandes marcas e pela persuasão da publicidade. O livro aborda 10 núcleos geracionais, que constituem o que Morace chamou de “consumidores autores” em cada faixa etária.

Pretendo descrever rapidamente[3] os núcleos e citar os “países eleitos” para cada um deles. Aqui vale uma explicação adicional, esses países são apresentados como arquétipos, ou seja, modelos em que o núcleo pode ser observado mais facilmente, mas isto não significa que a tendência se restrinja a eles. Pelo contrário, pela abrangência da pesquisa pode-se inferir que os núcleos geracionais coexistam em boa parte dos países do mundo.

Posh Tweens [8-12 anos, meninos e meninas]

País eleito: Itália

São aqueles pré-adolescentes amantes das novidades. Possivelmente são os únicos (e os últimos) a seguirem as lógicas tradicionais da moda (com a exceção do núcleo DeLuxe Man, que veremos a frente), em que as estéticas propostas são homologadas e reconhecíveis e que podem ser encaixadas no cenário das marcas e grifes. Um núcleo geracional que pode ser definido como fashion victim, são usuários precoces de tecnologia e possuem grande influência sobre seus pais em termos de consumo e decisão de compra.

Expo Teens [12-20 anos, meninos e meninas]

País eleito: Japão

São os adolescentes que vivem a própria identidade como “exposição” – que compreende a exibição, mas também a exposição às tecnologias, ao uso dos códigos da “tribo”, à sensibilidade à várias linguagens, como música, por exemplo – e que criam o próprio referencial estético sobre tais referências. No “mundo” desse núcleo geracional a moda se encontra com a arte e com o design. Ao crescer, o Expo Teen se torna um Exper(t) Teen.

Linker People [20-35 anos, homens e mulheres]

País eleito: Finlândia

Os Linker People são multiplayer. Vivem a condição urbana como um infinito reservatório de estímulos a serem propostos e captados. Se revelam trend setters no comportamento e são curiosos e interessados em experimentar coisas novas. É um núcleo geracional aberto a experimentar qualquer combinação inesperada para criar e lançar “códigos comuns”, sem nunca se identificar com apenas uma comunidade. A relação entre subjetividade e potenciais interlocutores constitui o ponto-chave da sua identidade.

Unique Sons [20-35 anos, homens e mulheres]

País eleito: China

É a geração dos filhos únicos: individualistas, egocêntricos, narcisistas, consumistas (termos do Morace – não quero ninguém me xingando por aí). Sentem-se únicos, mas estão continuamente em busca dos irmãos que nunca tiveram. É esse o núcleo geracional que representa o “motor” da nova sociedade de consumo. Se equilibram entre o capitalismo e a volta aos valores familiares e utilizam a internet para demonstrar a própria contemporaneidade no mundo. O Facebook é o “projeto digital” que melhor os representa.

Sense Girls [25-40 anos, mulheres]

País eleito: Tailândia

Refinadas, sensíveis, exóticas, as Sense Girls propõem uma estética a léguas de distância da vulgaridade. Estão no centro de uma revolução ética que marca uma profunda mudança de modelo de sociedade. São caracterizadas por uma forte sofisticação sensorial e manifestam suas escolhas cotidianas de consumo por meio de um direcionamento ético e estético. Demonstram uma forte consciência de si mesmas e sabem exatamente o que querem encontrar.

Mind Builders [35-50 anos, homens]

País eleito: Índia

Os Mind Builders são os novos existencialistas. Apaixonados pelo estudo do pensamento humano e pela leitura, atuam como intelectuais cosmopolitas e experts em tecnologia. São também orgulhosos das próprias raízes – muito ligados ao seu “território” de origem. São cultores das linguagens, em todas as suas versões, e da troca intercultural. A palavra-chave para eles é “personalidade” e se reconhecem em Barack Obama, seja como geração, seja como visão de mundo.

Singular Women [35-50 anos, mulheres]

País eleito: Brasil

A singularidade feminina é expressa por mulheres sempre mais audaciosas, seguras de si e sem conceitos preestabelecidos. A tendência coincide com o enfraquecimento da identidade masculina, do ponto de vista estético. Falou-se muito, de maneira ampla e genérica, da condição “single”, considerada como a nova perspectiva sociodemográfica nas sociedades do futuro. Este núcleo geracional prova essa condição como errada. Mostra uma realidade mais complexa, de convivência e uniões não institucionais, que se afastam do puro e simples individualismo “isolacionista” representado pela condição “single”. O universo gay também é considerado como parte desse núcleo geracional, pois segue a tendência de comportamento.

DeLuxe Men [45-60 anos, homens]

País eleito: Rússia

Esse grupo geracional se identifica com o conceito de prestígio e distinção. Muitos comportamentos de consumo, que no passado aconteciam apenas no topo da pirâmide sociocultural em muitos países (os chamados happy few), se difundiram por uma classe média alta que começou a fazer parte de uma dimensão antes considerada inacessível. Nos países em que o capitalismo – por diferentes razões – se firmou há poucos anos (como por exemplo, Rússia, China, Brasil, Emirados Árabes) com seus produtos de alta referência simbólica, se formou rapidamente uma categoria privilegiada de sujeitos que se reconhecem nos códigos e nas lógicas do luxo mais tradicional.

Normal Breakers [45-60 anos, homens e mulheres]

País eleito: Argentina

São os “novos rebeldes”, com uma visão crítica e criativa da realidade em que vivem. Para eles, normalidade e transgressão convivem e se sobrepõem a sua condição de pessoas de meia-idade. Se mostram continuamente em busca de alternativas concretas de vida e a tecnologia constitui uma companheira de vida insubstituível, nas formas do file sharing, do blogging e de todas as estratégias de compartilhamento tecnológico.

Pleasure Growers [acima de 60 anos, homens e mulheres]

País eleito: Estados Unidos

São os boomers americanos que não aceitam os valores e o comportamento típico da terceira idade. Redescobrem e lançam os valores das suas utopias de juventude, filtradas pela experiência e maturidade alcançada. A afirmação desse grupo implica a definição de uma estética completamente nova para a faixa-etária: informal, juvenil, energética, psicodélica. Constituem um grupo estabilizado economicamente, realizado e em busca de um hedonismo inteligente e de consumo experiencial.

Cada um dos núcleos se subdivide em 3 atitudes características da geração e na abordagem necessária, em termos de marketing, para que se consiga iniciar um diálogo com os grupos. Sai os antigos conceitos de 4Ps e de outras siglas alfanuméricas (que não valem mais muita coisa) e entra o entendimento dos drivers[4] de consumo, produto, comunicação e distribuição.

O livro, em suas conclusões, aponta uma realidade que se tornará cada vez mais aparente: a convivência intergeracional. Com as pessoas vivendo cada vez mais, as diferentes gerações conviverão de maneira mais intensa e de uma forma diferente da que a nossa sociedade estava acostumada. É necessário evitar os conflitos tácitos, aproximar e reforçar as relações, sobretudo dos núcleos geracionais que convivem em um ambiente familiar. O uso das novas tecnologias, dos aparelhos smart e a internet tem a real possibilidade de criar barreira invisíveis difíceis de sanar, a não ser criando ocasiões completamente diferentes e distintas de convívio, utilizando o que todos os núcleos geracionais têm em comum, a sua condição humana, que envolve a adesão emotiva, a surpresa da descoberta e o compartilhamento do percurso de exploração que acontece durante esse “conceito” que chamamos de vida.

[1] Palavra da língua inglesa que significa, a grosso modo, encontrar aquilo que não estava procurando.

[2] A expressão latina et al. significa em uma tradução livre “entre outros”, é usada academicamente para sinalizar a presença de outros colaboradores em uma pesquisa ampla.

[3] Morace, Francesco et al. Consumo Autoral. Estação das Letras e Cores. 2009. P. 24-25.

[4] É um conceito de marketing que significa, a grosso modo, os tópicos que o consumidor leva em consideração para tomar determinada decisão.